sábado, 10 de outubro de 2026

07/10/2026 - 09h00min
J. J. Camargo

Quando o silêncio é um idioma

O contraste entre a agitação dos vivos e a serenidade de quem parte é um tema desafiador para o médico. "As palavras podem mentir, mas o silêncio guarda a verdade." (Sêneca)

Fui chamado para ver um paciente antigo. Quase não o reconheci, tão emagrecido estava. Ao lado dele, a filha descrevia a irritação do pai com as visitas: parentes bem-intencionados que chegavam munidos de anedotas e barulho, tentando desesperadamente "distraí-lo" da própria finitude. Mal sabiam eles que, para quem encara o fim, a distração é uma ofensa.

Quando lhe perguntei como poderia ser útil, ele não pediu uma nova terapia ou uma renovação de esperança. Pediu para compartilhar a proximidade física como um parceiro que no passado o ajudara num momento de medo e dor. Repartir a presença já lhe bastava: "Tome um chimarrão comigo e não se importe se eu decidir ficar quieto".

Sentamo-nos. O amargo da erva e o calor da cuia serviram de âncora para um tempo que já não tinha pressa. Ali, o silêncio não era ausência de assunto; era a densidade de uma presença. Naquela quietude, ele não estava sozinho; ele estava, talvez pela primeira vez no dia, acompanhado de si mesmo.

Após um longo tempo emudecido, ele revelou a origem de sua maior tristeza: a perda recente de um velho amigo. Não o descreveu pelas conversas que tiveram, mas pela qualidade do vazio que dividiam. 

"Foi a pessoa com quem mais dividi silêncios na vida", disse ele. "Ele ter morrido antes de mim foi meu maior azar, porque fiquei entregue aos barulhentos. São pessoas boas, que querem me animar, mas não entendem que é difícil rir no presente, quando não há do que rir no futuro".

Para quem encara o fim, a distração é uma ofensa.

Essa frase me derrubou, porque em geral acreditamos numa falácia: o diálogo pressupõe o uso de palavras, ignorando que o silêncio pode ser mais eloquente.

Muitas vezes, em condições de avassaladora tristeza seremos lembrados não pelo que dissemos, mas pelo que ouvimos em constrito silêncio. No leito da terminalidade, o silêncio é o oxigênio da alma. É o espaço onde a vida decanta o que valeu a pena e os sentidos encontram lugar e relembram o que foram ou deveriam ter sido.

Nesta situação, aqueles que amam e não suportam o silêncio do outro, na verdade, estão fugindo do próprio vazio. Tentam preencher o quarto com palavras inúteis para não ouvir o que o silêncio do doente grita: a aceitação da iminência da morte.

Aquele paciente me ensinou que a verdadeira amizade — e talvez a medicina mais profunda — se mede pela capacidade de estar junto sem a obrigação de impressionar. O amigo que se fora levara consigo a compreensão de que o silêncio é um idioma.

Terminamos o chimarrão. Saí daquele quarto convencido de que a alma, às vezes, só precisa de alguém que aceite o convite para, simplesmente, não dizer nada. O contraste entre a agitação dos vivos e a serenidade de quem parte é um tema desafiador para o médico que tenha a noção do seu papel na antessala da morte, e precisa ter assimilado esse papel, se quiser ser útil.

Afinal, todos nós precisamos aprender, mais cedo ou mais tarde, que tomar um chimarrão em silêncio pode ser a forma mais eloquente de dizer: "Estou aqui, me alcance a cuia!".

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