sábado, 10 de outubro de 2026

10 de Outubro de 2026
EM FOCO - Marcelo Gonzatto

Curtidas, comentários e compartilhamentos parecem cada vez mais antecipar o desempenho nas eleições. Levantamento mostra que 81% dos integrantes da elite digital que disputaram cargos conseguiram se eleger ou avançar ao segundo turno - entre eles, quatro do Estado

O elo entre influência digital e sucesso nas urnas

Uma fatia crescente dos políticos brasileiros está concentrando esforços em acumular seguidores em redes sociais como estratégia para vencer eleições. O resultado apurado no domingo comprova que a tática rende frutos: um levantamento revela que, dos cem políticos mais influentes do país no Instagram, 81% dos que disputaram mandatos foram eleitos ou estão no segundo turno. Além disso, 14 deles se consagraram como os mais votados em seus Estados para o cargo de deputado estadual, federal ou senador. Entre os gaúchos, todos os quatro integrantes da elite digital saíram vitoriosos.

Um estudo da plataforma de análise de dados Zeeng demonstra que a maioria dos principais influencers da política nacional se filia a partidos de direita, com 55% dos nomes, seguidos pela centro-direita, com 21% (veja dados completos no infográfico ao lado).

A avaliação feita pela startup toma como critério a média de interações por publicação feita de janeiro a junho deste ano para estabelecer o ranking de influenciadores da política. A empresa usa o Instagram como referência por considerá-lo a rede mais representativa dos brasileiros hoje, e contabiliza a média de interações por post em vez do número de seguidores por entender que é uma medida mais fiel da capacidade daquele perfil de fato influenciar a sociedade ao pautar discussões relevantes.

- Vivemos num país que é heavy user (usuário constante) de redes sociais, cada vez mais conectado. A evidência é de que a performance digital, especialmente no Instagram, está totalmente colada à performance eleitoral - analisa o CEO da Zeeng, Eduardo Prange.

Performances interligadas

Essa evidência, que ganhou força a partir da eleição de 2018, se consolida cada vez mais. Dos 10 candidatos a deputado federal mais votados do país, nove estão na listagem dos top 100. Os dois primeiros nas urnas, Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), somaram mais de 3 milhões de votos cada um e ocupam, respectivamente, o primeiro e o terceiro lugar no ranking de influência virtual - a segunda colocada é Michelle Bolsonaro (PL), senadora eleita pelo Distrito Federal também com a maior votação local.

Outra constatação é de que a direita e a centro-direita vêm obtendo resultados muito melhores nos palanques digitais do que os partidos de centro, esquerda ou centro-esquerda (veja detalhes no infográfico). O PL, sozinho, representa 40% do ranking de popularidade na rede social. Depois vêm Novo (9%), Podemos (8%), PSOL e União Brasil (6% ambos). O PT tem 5%.

- A direita despertou há tempos para isso. Os perfis de direita costumam ser mais jovens do que os de esquerda, e fazem um trabalho mais estruturado. Se destaca mais quem atua como produtor de conteúdo, promove interação. A esquerda ainda usa muito o formato de monólogo, como mais um canal para discursar. Não gera estímulo para a interação - analisa Prange, que também atua como pesquisador na área de economia da atenção. _

Diferenças de abordagem ajudam a explicar desnível

O cientista político Marcos Paulo dos Reis Quadros, autor do livro O que Há de Novo na Nova Direita?, acredita que o tipo de tema abordado pelos diferentes espectros políticos também ajuda a explicar o desnível no desempenho digital:

- Uma parte significativa da esquerda brasileira mergulhou na pauta diversitária, centrando seu discurso na chamada agenda woke. A verdade é que apenas nichos da sociedade realmente se mobilizam a partir dessa pauta. Enquanto isso, o grosso da população está preocupado em pagar boletos, aumentar renda, cuidar da família, ter segurança, escola para os filhos, ir à igreja, pagar menos impostos... A direita percebeu isso, e seus representantes se valeram do meio digital para criar uma conexão com as massas que a esquerda perdeu ao se alienar em suas próprias pautas.

Prange observa ainda que os perfis campeões de interação, como o de Nikolas Ferreira, produzem conteúdo que interessa aos seguidores o tempo inteiro. Candidatos que intensificam o uso das redes sociais apenas em períodos eleitorais ou buscam mudar de estilo de uma hora para outra em busca de engajamento emergencial são percebidos como oportunistas ou pouco autênticos.

Em entrevista concedida na quinta-feira ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha, o candidato que disputou a Presidência pelo partido Missão, Renan Santos, reafirmou a relevância da disputa digital que antecede o confronto eleitoral. Ele sustenta que representantes tradicionais de bancadas como as de pastores, do agro ou mesmo do Centrão vêm perdendo espaço para esse novo tipo de candidato.

- O eleitor está votando em um candidato-espetáculo (...). Todo mundo foi devastado por essa onda do político influencer - afirmou Santos. 

Gaúchos com destaque nas redes garantiram vagas

A lista dos cem políticos mais influentes no Instagram conta com quatro representantes do RS: Rony Gabriel (Podemos), Marcel van Hattem (Novo), Maurício Marcon (PL) e Gustavo Victorino (Republicanos). Não por coincidência, todos saíram vitoriosos das urnas. Van Hattem conquistou uma cadeira no senado ao lado de Ubiratan Sanderson (PL). Os demais venceram como deputados federais.

Marcon chegará ao seu segundo mandato consecutivo na Câmara, respaldado por 379 mil votos e um séquito de 856 mil seguidores no Instagram, que lhe garantem uma média de 34 mil interações em cada post publicado na rede. O melhor colocado do Estado no ranking nacional de políticos influenciadores, porém, é Rony Gabriel. Natural de Vitória, no Espírito Santo, é atualmente vereador em Erechim e fez 223 mil votos. Tem 2,1 milhões de seguidores no Instagram e uma média de 95,7 mil interações por publicação.

- As redes permitiram que os candidatos e mandatários desenvolvam canais diretos de comunicação com o eleitorado. Isso gera a sensação de proximidade e de que há ação contínua e prestação de contas constante. A linguagem coloquial e o formato fluido, com tom de improviso, muitas vezes deliberado, que se nota nas mensagens e vídeos dos candidatos, também constrói identidades com o eleitor - explica o cientista político Marcos Paulo dos Reis Quadros.

Quem consegue incorporar essa linguagem e construir uma comunidade de inscritos tem cada vez mais chance de transformar seguidores em eleitores. 

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