Plantação de fantasias
Você já desencavou uma moeda antiga? Algum dobrão com a efígie da República? 1, 5, 10, 20 ou 50 centavos? Fui eu que enterrei.
Eu acreditava que depois viriam pés de moedas. Numa filosofia de sementes que se multiplicariam no fundo da terra. Não vingou meu investimen to. Não por falta de tentativa.
Não procurava um tesouro no quintal, eu mesmo produzia o segredo. Rabiscava um mapa com as coordenadas para permitir a localização.
Arrecadava os cruzeiros que achava pela casa, que sobravam na bolsa da mãe ou na carteira do pai, ou uma parcela do que recebia de mesada, para largar na horta. Posso garantir que as alfaces e as rúculas ficavam ricas.
Na época, não imaginava que o dinheiro vencia, que a inflação comia os zeros, que os valores em circulação caducavam com os planos financeiros. Seguia fábulas, não a realidade.
Mantive meu orçamento secreto até o momento em que Rodrigo, meu irmão mais velho, criou uma variação da teoria. Aconselhou-me a enterrar meus bonecos. Não sei em que livro leu a respeito da tradição funerária da cultura maia.
A morte não era o final, mas o começo de lutas emocionantes. Inventou de dizer que os playmobils iriam guerrear num submundo conhecido como Xibalbá.
É o que dá viver com mano nerd. Você se torna a cobaia de seus experimentos malucos. Com muito sacrifício, com choro reprimido, com birra, aceitei a aposta quando ele comentou que os cabelos deles cresceriam após três meses. Esse detalhe sobrenatural me conquistou.
Nem questionei o processo de transformação, sequer levei em consideração que eles usavam peruca, encaixada na cabeça. Admiti o absurdo da situação. Fé de criança flerta com o impossível. Cedi os meus brinquedos favoritos, que entraram numa cova paramentados com armadura, lança e escudo.
Contei os dias, guardei a folhinha com o lugar da desova. Suportei a paciência. Perdi o ânimo no contraturno da escola, sem ter com o que me divertir. Restou-me o castelo vazio e a saudade de seus habitantes minúsculos.
O que não esperava é que, transcorrido o tempo, o pai cimentasse de surpresa parte do pátio para jogarmos bola. Veio nos contar a novidade com orgulho, ansiando por nossa algazarra. Pois não mais nos sujaríamos com o barro vermelho.
Colocou concreto sobre meus homenzinhos que dormiam, aguardando meu resgate, agora arremessados de vez ao sono eterno.
Ainda arco com pesadelos, temendo os senhores de Xibalbá, as supostas vozes debaixo de meus pés, as rachaduras no piso. Minha esperança é que os playmobils tenham encontrado, por fim e ao menos, minhas moedas.

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