Peço desculpas aos meus vizinhos
Toda casa dos sonhos cobra um pedágio antes de ficar habitável

Eu peço desculpas aos meus vizinhos pelo transtorno da minha reforma, que já passa de um ano e não acaba. Posso dizer que sei exatamente o que estão sofrendo, porque moro embaixo do apartamento que comprei.
Escuto a britadeira, a quebra das paredes, a troca do piso, e é um inferno. Não tem como trabalhar de home office, ou receber visitas, ou sequer existir.
Devo ser o raro condômino que é o algoz e a vítima de maneira simultânea. Diferentemente de outras construções que enfrentei na vizinhança e que me atormentaram, que tiraram o meu sossego, não posso interfonar para o porteiro e suplicar para que se pare o barulho. Sou o responsável. Não há como protestar contra as marteladas cedo da manhã ou tarde da noite. Venho vivendo em contagem regressiva.
Vou enlouquecer com a transformação, porque estou no meu próprio subsolo. Atingi a dupla personalidade de reclamar de mim nas reuniões mensais do prédio. Quase redigi um abaixo-assinado para me desalojar dali.
Só lhe dou um conselho: ao adquirir um imóvel, que ele esteja pronto. Não caia na tentação de juntar ambientes e modificar a planta radicalmente. Pague mais para se incomodar menos. Pague mais para pagar menos no futuro.
O prazo da reforma, mesmo a mais prudente, mesmo a mais ajuizada, mesmo a mais planejada, é uma ficção. Se o arquiteto prevê seis meses, triplique a duração. Aplique o raciocínio no orçamento.
A execução não acontece conforme o esperado, pois a residência é um organismo autônomo. É comum encontrar infiltrações, fiações comprometidas ou cupins que não estavam no traçado original. A marcenaria e as pedras, por exemplo, apresentam uma gestação particular, e a entrega frequentemente atrasa por questões de logística, retardando as demais etapas.
Você parte com a intenção de adaptar uma mínima fachada, ajustar um detalhe, e no fim é convencido a derrubar tudo e recomeçar do zero.
Quanto mais gasta, mais aumentam as expectativas para que fique bom, e mais você recusa gambiarras. Diante do esforço empenhado, não vai querer algo de qualquer jeito, sem capricho, pela metade.
É um jogo de compensações um tanto inconsequente. Você não admite que a sua falência familiar não resulte na casa da sua vida.
Não há dia em que eu não faça um Pix para os mais estapafúrdios CNPJs. Minha conta atira para todos os lados. Nem consigo memorizar os destinatários.
Você se vê obrigado a escolher o que jamais pensou ser relevante, o que apenas usava de modo involuntário: a torneira, a dobradiça, o ralo, as tomadas, os spots de iluminação, com tantas possibilidades que você entontece. São cinquenta tons de cinza que anulam a sua libido.
Nunca reparou num puxador. Agora necessita decidir em qual deles irá pegar pelos próximos vinte anos. Suportará o vexame de sentar num mostruário de privada numa loja, para definir aquela que se adequa ao seu traseiro e sua altura.
Reforma não é para amadores. Poucos casamentos resistem. E, para não terminar, você descobrirá que, com as inúmeras alterações no desenho inicial, os móveis de sua antiga habitação não combinam em nada com o novo espaço.
Como ocupá-lo economizando? É uma segunda reforma que virá, uma reforma dentro da reforma.
A Mega-Sena de 324,8 milhões saiu para um apostador de Mato Grosso. Não foi dessa vez.
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