segunda-feira, 12 de outubro de 2026

12 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Um basta à feira das drogas na Capital

Exige atenção imediata das autoridades o cenário aviltante de venda e consumo de drogas nas imediações da Estação Rodoviária de Porto Alegre apresentado, na semana passada, por uma reportagem do Grupo de Investigação da RBS (GDI). A concentração de dependentes e traficantes de crack no entorno da Rua Voluntários da Pátria, além de configurar um grave problema social e de saúde coletiva, compromete a segurança pública devido à proliferação de arrombamentos e furtos de fios com o propósito de financiar a compra de entorpecentes. 

O risco de não adotar medidas urgentes é ver a região se consolidar em definitivo como um mercado ilegal a céu aberto ou se transformar em uma chaga urbana de proporção similar à cracolândia paulistana, que por mais de três décadas desafiou os governantes locais.

Não é de hoje que aquela região da Capital, distante apenas 300 metros de uma delegacia da Polícia Civil e próxima de um posto da Guarda Municipal, é ocupada por dependentes e traficantes. Por isso mesmo, é preciso dar um basta ao descontrole, tanto para proteger os próprios frequentadores da feira tóxica quanto para dar fim à série de furtos e à sensação generalizada de insegurança em um dos principais pontos de chegada a Porto Alegre. Segundo a reportagem do jornalista Giovani Grizotti, comerciantes relatam arrombamentos frequentes e furtos de fiação por parte de usuários, o que causa medo, transtornos e prejuízos.

A equipe de reportagem monitorou a movimentação no local ao longo de uma semana e registrou negociações de entorpecentes, uso de crack ao ar livre e abordagens eventuais de policiais militares. Segundo relatos, a ação dos traficantes, que se estende até a fila formada diariamente diante de um restaurante popular localizado na Rua Garibaldi, é coordenada por uma facção criminosa.

 Embora a repressão policial seja uma peça importante do aparato estatal necessário para fazer cessar o mercado do vício em via pública, a experiência internacional mostra que o uso da força, de forma isolada, é ineficaz.

Cidades ao redor do mundo que enfrentaram cenários semelhantes de "cenas abertas de consumo de drogas", como é chamado esse fenômeno, alcançaram bons resultados ao mesclar coordenação política, repressão ao tráfico e à desordem, tratamento de saúde acessível e sem burocracia, redução de danos, busca ativa de usuários, oferta de abrigo e moradia e integração com a Justiça.

Cada município adota uma receita calibrada de acordo com a sua realidade, mas sempre por meio de ações multidisciplinares. Lisboa, em Portugal, apostou na descriminalização da posse para consumo pessoal acompanhada de medidas de saúde e prevenção. Zurique, na Suíça, articulou tratamento facilitado com políticas de redução de danos. Viena, na Áustria, investiu em abrigamento, projetos habitacionais e atuação coordenada de policiais e equipes sociais. São Paulo lutou contra o problema da cracolândia ao longo de décadas. Uma combinação entre operações policiais e programas de saúde dispersou a antiga concentração de usuários, embora ainda existam pontos de consumo dispersos.

Já é hora de Porto Alegre dar um ponto final ao ambiente indigno em que se transformou uma de suas áreas urbanas mais importantes. 

OPINIÃO RBS

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