quinta-feira, 17 de abril de 2008



PROGRESSOS DA TELEVISÃO FRANCESA

Eu saí do Brasil, na última quinta-feira, sob o impacto de uma chamada da Folha Online: 'Britney Spears é a mulher mais influente do mundo'. AntaSpears foi eleita pela revista Time.

A digestão dessa notícia foi tão difícil que passei mal no avião. Acordei de madrugada com ânsia de vômito e ensopado de suor. Achei que ia pagar o maior mico.

Vi que ia soltar uma golfada em cima dos meus vizinhos. Já sentia o avião empestado pelo cheiro de porcaria. Não tive coragem de me levantar para ir ao banheiro nem achei o saco de vômito. Virei de cabeça para baixo, numa poltrona de classe econômica, e, aos poucos, o mal-estar passou. Sei que Britney Spears me fez mal.

Ao chegar ao hotel, no Quartier Latin, em Paris, liguei a televisão para espairecer e me sentir em casa. Caí na TF1 (a Globo francesa). Jean-Pierre Foucault, um Luciano Huck mais velho e menos mauricinho, apresentava algo como 'Quem Quer Ganhar Milhões', um programa de perguntas idiotas para competidores imbecis e telespectadores entediados.

Foi aí que uma competidora disse que não gostava dos sapatos e das calças do apresentador. Sem vacilar, Foucault tirou os sapatos. E as calças. Tocou o programa até o fim, no inocente horário das 18h, só de cueca.

Era uma dessas cuecas tipo sunga e a câmera não parava de focar o instrumental do comunicador. Definitivamente, a televisão francesa progrediu muito. Não me consta que Faustão, Pedro Bial, Luciano Huck, Ratinho ou Datena tenham ousado tanto.

Ficamos para trás em cultura do espetáculo. Depois que Carla Bruni se tornou primeira-dama, suplantando Maria de Médicis, Catarina de Médicis e Maria Antonieta em influência estrangeira no poder francês e inaugurando o reality show mais visto e comentado do planeta, nada mais é como antes na França.

Sempre dizem que televisão é imagem. Agora já tenho um exemplo disso. Quando eu voltar a fazer comentários na televisão, não hesitarei um instante: ficarei só de cueca. Ainda mais se o assunto for moral. Vou aceitar uma proposta que me fizeram só para estrear o meu novo figurino.

Tive tempo de ver um belo documentário sobre Alberto Moravia na Arte (televisão franco-alemã para seis pessoas) e a destruição, às 3h da madrugada, no canal público FR2, de uma escritora espanhola, autora de um livro de auto-ajuda pretensamente irônico sobre como evitar decepções amorosas e ainda ganhar dinheiro.

Nada, contudo, me entusiasmou tanto pedagogicamente como Jean-Pierre Foucault só de cueca. Esqueci Britney Spears. Ataquei um confit de canard gorduroso e um bom vinho.

Foucault ainda pediu emprestado o sapato de salto alto da competidora e radicalizou a sua imagem perfeitamente televisiva: paletó, gravata, cueca e salto alto. Em horário de novela das 6h. Que inveja! Como são conservadoras as nossas emissoras. Eu não perderia o Faustão de cueca samba-canção. Muito menos de sleep.

Pena que ainda estamos na era do terno completo, inclusive com esse anacronismo que são as calças. Discuti essa imagem revolucionária com vários especialistas da comunicação e da estética, entre os quais Lucien Sfez, Anne Cauquelin, Dominique Wolton, Michel Maffesoli e Edgar Morin.

Nem maio de 68, quando se liberou o 69 para casais de papel passado, foi tão longe em metamorfose comportamental. A televisão mundial divide-se em antes e depois da cueca de Jean-Pierre Foucault. A França retomou a vanguarda.

juremir@correiodopovo.com.br

Um comentário:

Anônimo disse...

Hello. This post is likeable, and your blog is very interesting, congratulations :-). I will add in my blogroll =). If possible gives a last there on my blog, it is about the Dieta, I hope you enjoy. The address is http://dieta-brasil.blogspot.com. A hug.