quarta-feira, 16 de abril de 2008


Clóvis Rossi

Os novos escravos

Almoço no Zio Ciro, cantina típica a passos da Piazza Barberini e, portanto, da Fontana del Tritone (de 1643), do indefectível Gian Lorenzo Bernini, arquiteto cujas obras parecem onipresentes na cidade.

Um casal paga a conta diretamente no caixa. Ele usa uniforme da polícia, ela parece policial, mas não usa uniforme. A dona do restaurante pergunta ao garçom o número da mesa que ocupavam. O rapaz não entende. Ela grita: "Que mesa, que mesa? É surdo?".

Até o casal fica constrangido. O rapaz encolhe, atarantado, dá a impressão de que quer ficar invisível. É imigrante, cor negra, mas não d"África. Do subcontinente indiano, talvez de Bangladesh ou do Sri Lanka, que é ilha, mas é considerado como parte do subcontinente.

A mulher trata-o como trapo, o mais próximo de um escravo que uma branca possa ter no século 21 em pleno coração da Europa.

Deve achar que está fazendo um favor ao rapaz ao lhe dar um emprego. Aposto que não tem contrato de trabalho, como 65% dos estrangeiros que trabalham no Lázio, a região em torno de Roma.

Talvez seja mesmo um favor. Se tivesse ficado em sua terra, provavelmente seria vítima da fome que volta a ameaçar regiões inteiras agora que o custo dos alimentos disparou.

Mas é também -e principalmente- desumano tratar alguém como escravo. Na semana anterior, na Piazza Navona, uma das mais belas do mundo, já vira outros imigrantes da mesma cor e região, ambulantes vendendo bugigangas, literalmente em pânico quando passaram duas motos da Guardia di Finanza, uma espécie de polícia fazendária da Itália.

Os policiais nada fizeram, mas o pavor continuou no ar muito depois que eles passaram.

Só pode haver algo de errado em um mundo em que tantos fogem para a esperança, mas encontram apenas o medo.

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