
Um contraste entre a Porto Alegre do início do século passado e a arquitetura contemporânea chama a atenção de quem passa pela Avenida Getúlio Vargas, no Menino Deus. Um casarão de 1915, com fachada ornamentada, destaca-se em meio aos prédios altos que hoje o cercam. Inventariado pela prefeitura de Porto Alegre, o imóvel é uma das construções remanescentes mais antigas da avenida.
Ao lado do casarão imponente, um empreendimento residencial de 61 metros de altura está sendo erguido. Os terrenos no entorno também pertenciam aos proprietários, que negociaram essas áreas para viabilizar o novo prédio, mas mantiveram a propriedade da construção centenária. A intenção agora é revitalizar a fachada e colocá-lo para alugar. Segundo Gustavo Hoffmann, 57 anos, um dos donos, já há interessados.
Temos de resgatar a história e preservar, mas também dar um sentido de acordo com uma nova época. Vamos fazer com que a pessoa que ocupe o espaço mantenha esse nosso mesmo interesse de dar uso ao local
GUSTAVO HOFFMANN
Um dos proprietários do imóvel no Menino Deus
Um endereço ligado à história do bairro
Oficialmente chamado de Solar dos Noronha, o casarão de dois pavimentos fica no número 1.526 da Avenida Getúlio Vargas e chama a atenção pelos detalhes decorativos da fachada e pelas esculturas. No topo da construção, está a estátua da Fortuna, atribuída ao escultor espanhol Jesús María Corona, que migrou para o Brasil em 1912.los artísticos.
As características e a história da casa foram analisadas em um estudo encomendado pela família Hoffmann a arquitetos. No documento, os profissionais destacam o contraste da construção com os prédios altos que hoje ocupam a avenida: “Apesar da verticalização do seu entorno, o imóvel mantém-se como uma surpresa agradável para o observador, por sua singularidade arquitetônica.”
A trajetória da residência está ligada à ocupação do antigo Arraial do Menino Deus. A Avenida Getúlio Vargas ocupa parte da área onde ficavam residências de segmentos mais tradicionais da sociedade porto-alegrense. No século 19, a região abrigava a chácara das famílias Mariante e Noronha. Foi nesse terreno que os Noronha mandaram erguer o imóvel, em 1915, com projeto atribuído ao arquiteto Hermann Otto Menschen.
Da ameaça de demolição à preservação
Em 1979, o casarão passou a fazer parte da história da família Hoffmann, quando Hugo Hoffmann, pai de Gustavo, comprou a propriedade, que estava ameaçada de demolição. Antes da aquisição, o local teria funcionado como uma espécie de espaço de acolhimento mantido por freiras para pessoas que vinham de outras cidades estudar em Porto Alegre.
Segundo o atual proprietário, a construção já havia sido adquirida pela Caixa Econômica Federal e tinha licença para ser demolida. Hugo conseguiu negociar a compra, e a instituição financeira passou a funcionar em um endereço na Rua José de Alencar. Depois, restaurou o imóvel e instalou ali a Mercur Publicidade, empresa da qual era dono.
Nas décadas seguintes, a estrutura também abrigou a Editora Centaurus, responsável pela publicação da revista A Granja, uma das mais tradicionais do setor de agronegócio no Brasil. A empresa funcionou no endereço por 36 anos, entre 1987 e 2023.
Os terrenos vizinhos foram negociados com a Cyrela Goldsztein, construtora responsável pelo novo empreendimento residencial ao lado do casarão. A área inclui também um terreno nos fundos do imóvel, que faz divisa com a Praça Cinquentenário da Rádio Gaúcha, na Rua Gonçalves Dias, esquina com a Rua Saldanha Marinho. Segundo Gustavo, a empresa chegou a demonstrar interesse em adquirir também a casa, mas a família preferiu manter a propriedade.
O empreendimento imobiliário prevê 19 andares e 287 apartamentos no formato estúdio, com 25 metros quadrados cada. O investimento informado pela empresa é de R$ 75 milhões. As obras começaram em 2024, com previsão de conclusão no início de 2027.


