sábado, 27 de setembro de 2025


27 de Setembro de 2025
COM A PALAVRA - Fernanda Oliveira

Professora do programa de pós-graduação em História da UFRGS que assina o enredo da Portela para o Carnaval 2026

"A Portela quer dissipar a névoa que cobre as experiências negras no Sul"

O Rio Grande do Sul vai atravessar a Marquês de Sapucaí. Não com uma delegação de sambistas, mas com sua própria história contada pela Portela, uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro. Parte do que será visto vem dos saberes de uma gaúcha: a historiadora Fernanda Oliveira, que assina o enredo O Mistério do Príncipe Bará: A oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande.

Camila Bengo - Como ocorreu o convite para você assinar o enredo da Portela?

Eles já vinham com um projeto de descentralizar narrativas, fugindo dos eixos Sudeste e Nordeste. Nesse mapeamento, chegaram ao Rio Grande do Sul. A escola entrou em contato com o setor cultural do Estado, e fui convidada a participar do processo. A Portela organizou uma reunião com historiadores que pesquisam os diferentes grupos étnicos do RS para que cada um apresentasse a história e as características desses grupos à equipe do carnavalesco André Rodrigues. Foi uma conversa rápida. Dois dias depois, o André me mandou uma mensagem pedindo para aprofundar o assunto, pois havia gostado do que ouviu. Eu aceitei, mas imaginava que seria uma espécie de consultora histórica. Porém, (o André) me convidou para assinar o enredo com eles, o que foi uma grande e bonita surpresa.

Como tem sido equilibrar a pesquisa histórica com a ludicidade que o Carnaval permite e exige?

Tem sido um desafio. O meu trabalho tem sido esse exercício de negociação: eu apresento o que é próprio da ciência histórica, aquilo que tem compromisso com as fontes documentais e de memória, e vamos negociando o que é possível entre a história e a arte, que é o que comanda a narrativa carnavalesca. Porém, existem elementos que nós, historiadores, consideramos inegociáveis na narrativa. Um desses elementos é a singularidade do batuque gaúcho, muito diferente do candomblé, de onde vem a maior parte das referências da equipe da Portela.

O enredo tem no Príncipe Custódio um eixo importante. Poderia explicar quem ele foi?

Custódio é um africano que chega ao RS por volta de 1870 como um homem negro livre e jovem. Isso é especial, porque a maioria dos africanos que chegava aqui nessa época, além de serem escravizados, já tinham mais idade. Ele entra no Brasil por Salvador e depois chega ao RS, vindo se estabelecer em Porto Alegre. É provável que ele tenha recebido a alcunha de "príncipe" por conta do grande conhecimento que tinha sobre a cura de doenças, apesar de jovem. Outra possibilidade é a sua participação em irmandades religiosas como a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Negros, que tinha cargos de rei, rainha e príncipe.

De que forma as histórias do Príncipe Custódio e de outras figuras do Estado serão abordadas?

A ideia é pensar essas histórias como um ciclo que se reinicia na sociedade gaúcha atual, olhando para as possibilidades de vida da nossa juventude negra, que é potente e está produzindo coisas maravilhosas. A Portela quer dissipar a névoa que cobre as experiências negras no sul do Brasil.

Temos muitos personagens negros históricos que são pouco difundidos. Por que as contribuições negras são negligenciadas pela historiografia oficial do Estado?

A resposta mais direta é o racismo estrutural que atravessa o Brasil. O país nega a construção feita por grupos racializados, como indígenas e negros, e isso se reflete em todas as áreas, incluindo a produção de conhecimento. Historicamente, o poder de escrever a história esteve concentrado em mãos brancas.

Vocês projetam que, a partir do desfile, será construída uma nova versão do Estado?

Não tenho dúvidas. A Marquês de Sapucaí é o maior palco de enunciação que existe, pois o Carnaval é a maior festa do mundo. Nossa segurança vem do fato de que as fantasias e todos os elementos estão sendo construídos a partir de uma narrativa de presença negra no Rio Grande do Sul. O desfile vai comunicar visualmente uma história de protagonismo e resistência que o restante do país desconhece. Nossa expectativa é de que seja forte o suficiente para pluralizar a visão que se tem sobre o RS.

O Carnaval, além de festa, é uma manifestação identitária do povo negro. Como você percebe a relação do RS com essa expressão?

A relação é intensa. O Carnaval não nasce como uma festa negra, mas os negros foram se apropriando dele. A partir dos anos 1930, quando as grandes sociedades da elite branca se afastaram do Carnaval por conta de crises econômicas, os negros ocuparam as ruas com os seus cortejos. Desde então, o Carnaval ganhou essa identidade. Na década de 1940, com o surgimento das escolas de samba, se tornou uma festa negra por excelência. O RS tem uma tradição muito forte nesse sentido. O Carnaval de Pelotas, nos anos 1980, foi considerado o terceiro maior do país. Esse cenário mudou porque não houve investimento no Carnaval, que precisa de dinheiro para existir.

Houve recentemente uma polêmica em torno do apoio financeiro do governo do RS ao Carnaval da Portela. Como você enxerga esse episódio?

Para mim, o aporte seria natural, pois o Carnaval será uma grande vitrine para o Estado, poderia incentivar o turismo e a economia. Além disso, esse aporte possibilitaria que os gaúchos participassem do desfile da Portela, o que faria dele uma manifestação efetiva da presença negra no RS. Esse era o desejo da Portela: levar a população para o desfile, ter lideranças do batuque passando pela Sapucaí, ter os jovens negros gaúchos construindo junto esse Carnaval. 


O atrapalhador

Por vias tortas, o deputado Eduardo Bolsonaro entrou para a história. À frente de seus lugares-tenentes, ele lidera a orquestra que, em sua turnê pelos EUA, desafinou a pauta da direita brasileira. Tudo o que o deputado pretendia - forçar uma anistia a seu pai e parceiros de quartelada - se reverteu em trapalhadas que, com ou sem uma conversa promissora entre Lula e Donald Trump ali adiante, serão lembradas pela posteridade como um tiro de canhão no pé da direita.

Não há dúvida de que Eduardo Bolsonaro e companheiros refugiados nos EUA conseguiram atrapalhar, e muito, a relação de 200 anos entre Brasil e EUA. Ao alugar os ouvidos próximos a Donald Trump, eles tiveram pleno sucesso em atrair sanções à economia brasileira. Só que as tarifas não escolhem cor política: elas atingem tanto o produtor do Centro-Oeste bolsonarista que deixou de exportar para os EUA quanto o empregado demitido da processadora de peixes congelados do Nordeste lulista. Convenhamos: prejudicar o próprio país e seus eleitores e ser tachado de traidor da pátria não é a melhor forma de se conquistar adeptos para uma causa.

Em rompante de sinceridade chula, o pastor Silas Malafaia, conselheiro de Jair Bolsonaro, só faltou soletrar para o ex-presidente o que pensa do filho dele e suas manifestações emanadas dos EUA. "Babaca", definiu Malafaia para um pai que, sabe-se lá por quê, permaneceu calado diante da alcunha desairosa. O desabafo é resultado da bolha da bolha em que Eduardo Bolsonaro e turma passaram a viver. Em sua realidade paralela, o filho 03, que tinha como credencial fritar hambúrgueres nos EUA quando pediu ao pai a nomeação como embaixador em Washington, se declara agora o herdeiro político e, portanto, candidato a presidente pelo clã em 2026.

Se Eduardo puder pisar no Brasil novamente sem ser preso por obstrução de justiça, terá sorte. Ele esquece que governos e mandatos passam, mas o STF e o Judiciário ficam. É, no fundo, constrangedor se ver o deputado, prestes a perder o mandato e a fonte de renda, comemorar o fato de que o ministro Alexandre de Moraes e esposa não poderão usar cartões de crédito de empresas norte-americanas por conta da Lei Magnitsky, uma iniquidade que só serve para indignar a magistratura e fadada a cair no primeiro dia pós-trumpismo.

Por fim, mas não menos relevante: a movimentação atabalhoada de Eduardo Bolsonaro ameaça a PEC que pode soltar os baderneiros do 8 de Janeiro, tornou a vida legal do pai mais delicada, soprou um vento de cauda na esquerda enrolada na bandeira do Brasil e esfriou por ora a candidatura de Tarcísio de Freitas ao Planalto em 2026. Só falta Lula e Trump se entenderem. Será difícil superar o atrapalhador em quantidade e voltagem de mancadas políticas em tão pouco tempo. _

MARCELO RECH 


27 de Setembro de 2025
OPINIÃO DA RBS

O Supremo sob nova direção

O ministro Luiz Edson Fachin, 67 anos, gaúcho de Rondinha, no norte do Estado, assume na segunda-feira a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF). Chega ao posto com o desafio de comandar a Corte ainda em uma fase conturbada do país, em meio ao prosseguimento dos julgamentos sobre a tentativa de golpe de Estado, mas também no início de um período que começa a requerer maior autocontenção do Supremo e de seus membros. É hora de um refluxo nos poderes excepcionais evocados em uma época de grave ameaça à democracia brasileira.

As características pessoais de Fachin e seu perfil de atuação no STF dão espaço à esperança de dias de maior sobriedade no órgão máximo do Poder Judiciário nacional, que desempenha o papel de guardião da Constituição do Brasil. Na Corte desde 2015, o ministro é modelo de discrição e de atuação técnica. Tem caráter mais reservado e tom institucional, distante de comportamentos personalistas. Não é dado a falatórios e pitacos políticos, muitas vezes desastrados, como outros proeminentes pares. Contrasta nesse aspecto, por exemplo, com o ministro Luís Roberto Barroso, a quem sucederá, cobrado por deslizes verbais que reforçaram em parcela da sociedade a percepção de que a Corte é parte da danosa polarização radical vigente.

Fachin, da mesma forma, não é frequentador de convescotes com políticos, empresários e advogados nem de eventos organizados no Exterior por brasileiros para discutir problemas brasileiros. A presença excessiva de ministros em encontros do gênero muitas vezes gera desgaste à Corte por dar margem a questionamentos sobre conflitos de interesse. Também é conhecido por não ser vezeiro em decisões monocráticas, prática alvo de críticas frequentes direcionadas à Corte, embora já restringidas por ação da presidência da ministra Rosa Weber, que se aposentou em 2023. Rosa Weber, aliás, foi prova de que uma condução firme do STF em meio a tempos turbulentos não exige exageros retóricos ou incursões para costuras de bastidores do mundo da política.

Em 2022, por seis meses Fachin exerceu o comando do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), também em um período de agitação social pela aproximação do pleito para a Presidência da República. Soube guiar a Corte eleitoral com a sabedoria e o pulso então necessários.

Fachin foi formalmente eleito para o posto máximo do STF no mês passado, mantendo-se a tradição de ser escolhido o ministro mais antigo que ainda não tenha exercido a presidência. Comprometeu-se a ter dois anos de mandato marcados pelo fortalecimento da colegialidade, da pluralidade e do diálogo. Automaticamente comandará o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Aguarda-se que, neste período, o órgão criado para aperfeiçoar o trabalho do Judiciário brasileiro consiga se desvencilhar da imagem de entidade que atua demasiadamente em busca de benefícios para a categoria.

Fará bem ao STF e ao país se a Corte assimilar a postura demonstrada até aqui por seu novo presidente, valorizando a atuação técnica, a discrição, a institucionalidade e a colegialidade. 


27 de Setembro de 2025
ACERTO DAS TUAS CONTAS - Giane Guerra

Financiamentos de imóveis em reformulação

Foi suspensa a linha de financiamento imobiliário da Caixa Econômica Federal (CEF) com juro vinculado à poupança. A diretora de Assuntos Habitacionais do Sindicato dos Corretores de Imóveis do Rio Grande do Sul (Sindimóveis-RS), Simone Carvalho, informa que ela será reformulada e deve retornar em dezembro. A taxa era de 10,39%.

- Mas acabava sendo pouco usada porque o fato de incidir sobre prestações e saldo devedor elevava o juro a 12%. Quando ela voltar, deverá se chamar Poupança+ e ter um juro já definido entre 12% e 13% - complementou Simone.

A modalidade IPCA, com reajuste pela inflação, também deve ser reformulada. O foco agora tem sido oferecer o financiamento SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo), com juro de 11,29%.

- Outra mudança foi que o valor mínimo de financiamento de R$ 50 mil subiu a R$ 100 mil para compra e R$ 150 mil para construção - acrescentou.

À espera

Simone diz ainda que o retorno das linhas após reformulação deve ser com verba disponível. Ela enfatiza isso pelo fato de que os recursos para empréstimo da casa própria estão escassos, porque os saques estão superando depósitos na poupança e no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

Um novo programa habitacional vem sendo construído, com dificuldades, entre Ministério das Cidades, Banco Central e Caixa. O presidente Lula já cobrou os três publicamente pela demora, pois afirma que será o "maior programa habitacional da história do país" e "infinitamente maior" do que o Minha Casa, Minha Vida, que, aliás, foi ampliado em maio com teto maior de R$ 500 mil para imóveis e uma nova faixa para famílias com renda até R$ 12 mil. _

Gaúcho nunca deveu tanto

Em um recorde batido em agosto, os gaúchos estão devendo, em média, R$ 7.167 cada (em Porto Alegre, é ainda maior: R$ 7.645). Pelo monitoramento da Serasa Experian, em agosto de 2024, a soma era de R$ 5.491. Ou seja, um aumento de 30%, o que é seis vezes a inflação do período.

Isso elevou para R$ 26,38 bilhões a soma total das contas vencidas atualmente. Valores maiores deixam mais difícil o pagamento das dívidas, ainda mais que o juro segue elevado e espera-se uma redução inicial pelo Banco Central somente a partir do começo de 2026.

A taxa de inadimplência subiu para 41,49% da população adulta, perto do recorde, com 3,681 milhões de inadimplentes. 

Cogus por telentrega - Consumidor verde

Outra dica de alimento saudável e de produção local: a Bertotto Cogumelos. O ex-jogador de futebol Matheus Bertotto cultiva os "cogus" com o pai em Glorinha. Os produtos estão à venda em lojas, mas é possível encomendar direto pelo WhatsApp e receber em casa. A coluna sugere o kit degustação, que custa R$ 67. São cinco bandejas com cogumelos paris, portobello, portobello extra, shimeji e shitake. _

Os mais desejados

Na revolução industrial de hoje, profissionais extremamente especializados serão cada vez mais desejados. São qualificados para áreas da nova economia, como energias renováveis e inteligência artificial.

Já funções operacionais e repetitivas tendem a desaparecer, dando lugar ao que exige análise e criatividade. Estudo do Observatório Nacional da Indústria (ONI), da Confederação Nacional da Indústria (CNI), listou os 16 cargos que ganharão cada vez mais relevância na próxima década.

Em entrevista ao podcast Nossa Economia, de GZH, Marcello Jose Pio, especialista em Políticas e Indústria da CNI, ponderou que as instituições de ensino não estão preparadas para formar estes profissionais e ressaltou o quanto a indústria precisa se comunicar melhor com os jovens. Abaixo, as funções mais citadas pelas empresas entrevistadas na pesquisa. _

Nível técnico

Técnico em Microrredes e Energias Renováveis: 30% das empresas

Técnico em Cibersegurança Industrial: 25%

Técnico em Manufatura Aditiva (Impressão 3D): 25%

Nível superior

Gerente de Inovação Aberta e Colaborativa: 27% das empresas

Gestor de Sustentabilidade e Economia Circular: 20%

Especialista em Gêmeos Digitais e Modelagem Virtual: 15%

ACERTO DAS TUAS CONTAS


27 de Setembro de 2025
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Sem Tarcísio, PSD deve lançar Ratinho ou Leite ao Planalto

O recuo do governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos), garantindo a aliados que será candidato à reeleição, movimentou o cenário político na sexta-feira. O presidente do PSD, Gilberto Kassab, adicionou lenha na fogueira ao dizer que, neste caso, o partido apoiará a reeleição de Tarcísio e lançará candidato à Presidência.

Embora seja voz corrente que aposta no governador do Paraná, Ratinho Júnior, Kassab manteve o discurso de que o PSD tem duas opções, e que o governador Eduardo Leite é uma delas. Em São Paulo desde quinta-feira, para participar de um evento da Comunitas, Leite conversou com líderes de diferentes partidos e manteve a cautela que vem adotando nos últimos meses, mas sem jogar a toalha.

- O cenário ainda é muito movediço. Há 15 dias, a candidatura de Tarcísio era dada como certa. Hoje, ele está dizendo que disputará a reeleição, mas daqui a pouco pode mudar de novo. Eu seguirei sustentando que precisamos escapar da polarização entre o petismo e o bolsonarismo - disse Leite à coluna.

Ratinho teria a simpatia de Jair Bolsonaro, mas nada garante que não seja torpedeado por Eduardo Bolsonaro, que, dos Estados Unidos, vem detonando Tarcísio e todos os que tentam ocupar o lugar do pai. Outra possibilidade é Michelle Bolsonaro ser candidata, o que deixaria Ratinho em situação complicada.

Prioridade à sucessão estadual

Leite se apresenta como o único pré-candidato que não é ligado nem a Lula nem a Bolsonaro, mas está jogando parado. Oficialmente, diz que não vai ficar "cavando esse espaço" de candidato e que poderá concorrer ao Senado:

- Minha prioridade é a sucessão no Rio Grande do Sul. Tenho dito aos líderes dos partidos que é legítimo cada um ter seu candidato, mas que essa construção tem de ser feita entre os que estão no nosso governo e não com a oposição que combate tudo o que fizemos.

Apesar de seu candidato natural ser o vice-governador Gabriel Souza (MDB), Leite considera possível uma outra composição, liderada pelo PP ou pelo PDT. _

Danielle, a "prefeita" do CAFF, comemora façanha de Mineirinho

Quando o skatista Sandro Dias, o Mineirinho, realizou a manobra imaginada por milhares de gaúchos desde a construção do Centro Administrativo Fernando Ferrari, a secretária de Planejamento, Governança e Gestão, Danielle Calazans, chorou de emoção em meio aos funcionários que assistiam à cena.

A descida dos 70 metros da rampa do CAFF foram o desfecho de uma negociação que durou mais de dois anos com a Red Bull e sobre a qual Danielle precisou manter segredo.

- Me emocionei porque há pouco mais de um ano tudo isso aqui estava debaixo d?água. O CAFF ficou três meses totalmente interditado. Agora, o mesmo Guaíba apareceu nas imagens de drone com o Mineirinho descendo a rampa. Essas imagens correram o mundo e o mundo viu o Rio Grande do Sul de outra forma. Não deixa de ser um símbolo da nossa reconstrução - diz a secretária, espécie de prefeita do CAFF e que tem a imagem do prédio tatuada no braço. _

Semana do Cérebro reunirá especialistas em Porto Alegre

Um congresso de médicos que deve lotar a rede hoteleira de Porto Alegre na semana do feriado de Corpus Christi de 2026 foi apresentado ao prefeito Sebastião Melo na sexta-feira pelos organizadores Eduardo Corrêa e Alessandro Irigoyen da Costa.

Trata-se da tradicional Brain Week, de 1º a 7 de junho. O diretor científico do Brain, neurologista André Palmini, acompanhou a audiência e falou da importância do evento.

A intenção dos organizadores é realizar eventos abertos à comunidade, aproveitando a presença em Porto Alegre dos maiores especialistas do mundo sobre temas ligados ao cérebro, sejam doenças ou comportamentos. _

Leite faz bloqueio na coluna em SP

Em São Paulo, Eduardo Leite precisou ser submetido a um procedimento de bloqueio em duas vértebras da coluna (lombar e cervical), para enfrentar as dores insuportáveis provocadas por hérnias de disco que o incomodam há vários anos. O procedimento durou três horas e foi realizado no Hospital Vila Nova Star, na sexta-feira.

No final da tarde, já com a dor sob controle, Leite embarcou para Buenos Aires, onde passará o final de semana na Feira Internacional de Turismo da América Latina.

De Buenos Aires, o governador seguirá para Brasília, a fim de assistir à posse do ministro Edson Fachin na presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) na segunda-feira. _

Esposa de Covatti Filho confirma filiação ao PP

A vereadora Nicole Weber Covatti, de Santa Cruz do Sul, anunciou oficialmente a intenção de filiar-se ao Progressistas (PP) - partido presidido no RS por seu marido, deputado Covatti Filho.

A confirmação da filiação da esposa de Covatti agitou a cidade de Santa Cruz, porque são conhecidas as divergências entre ela e a ex-prefeita Helena Hermany (PP). _

mirante

Será em Soledade o encontro nacional das mulheres do Partido Liberal com a presença da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. O evento está marcado para o dia 25 de outubro, às 8h.

O prefeito Volmir Rodrigues, de Sapucaia do Sul, foi convidado pela federação União Progressista a concorrer a deputado estadual.

O governador de Minas, Romeu Zema, confirmou presença no encontro do Novo, dia 4 de outubro, em Porto Alegre.

POLÍTICA E PODER

27 de Setembro de 2025
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

Expectativa pela nova análise do Porto Meridional

A administração do Porto Meridional, investimento privado de R$ 6 bilhões em Arroio do Sal, espera que o resultado da nova análise do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) saia ainda em outubro.

A aprovação é necessária para o lançamento de editais, e a realização de audiências públicas é a última fase do licenciamento, que culminará com a emissão da Licença Prévia, depois da Licença de Instalação, que permitirá o início das obras.

Em sua primeira análise, o Ibama considerou que o estudo de impacto ambiental não atendeu a todas as exigências e solicitou reformulações. Dois pontos criticados pelo órgão foram a falta de medidas para evitar a contaminação da Lagoa Itapeva durante a construção da ponte que ligará o porto à BR-101 e a capacidade da Rota do Sol, que necessitaria de melhorias.

O diretor jurídico do Porto Meridional, André Busnello, explicou que a questão da Rota do Sol não integra o escopo do licenciamento do porto, uma vez que o projeto não prevê intervenções na rodovia. Quanto à Lagoa Itapeva, novas amostras de qualidade da água e de níveis de ruído foram coletadas e encaminhadas ao Ibama.

- A partir do momento em que formos autorizados a publicar os editais para convocar as audiências públicas, temos um prazo de antecedência de 45 dias. Considerando a organização e a viabilidade de agenda, estimamos, com otimismo, a realização das audiências até a primeira quinzena de dezembro e, de forma mais realista, para a primeira semana de fevereiro. Já temos os compromissos assumidos e o modelo de negócio desenhado. O que precisamos agora é concluir o processo de licenciamento - afirmou Busnello.

Calado mais profundo

Quando pronto, o Porto Meridional será um dos terminais de calado mais profundo do país. Com 17 metros de profundidade, estará à frente do Porto de Santos, em São Paulo, um dos principais do Brasil, cujo calado atual varia entre 13 e 15 metros. A administração do empreendimento avalia que essa profundidade permitirá receber embarcações de grande porte, capazes de transportar volumes maiores de carga em uma única viagem. _

Apresentando a culinária do RS em Buenos Aires

O governo do RS participa, entre este sábado e terça-feira, da Feira Internacional de Turismo da América Latina (FIT), em Buenos Aires. Um dos diferenciais será a participação do chef Rodrigo Bellora, que promoverá a gastronomia gaúcha no evento.

Porém, o maior diferencial é que Bellora promete fugir do tradicional e apresentar a culinária de outra forma: unindo produtos tradicionais a inovações gastronômicas.

Os dois pratos criados pelo chef e sua equipe utilizam ingredientes de diferentes regiões e biomas do Estado. O primeiro, por exemplo, terá, representando a Serra, o pinhão; o Litoral, pelo siri da Lagoa dos Patos; o Pampa, pelos queijos; as Missões, pelo butiá; e os Vales, pela erva-mate.

Já o segundo prato conta com abordagem contemporânea que conecta o tradicional a técnicas atuais. Entre os ingredientes, está o urtigão - uma planta alimentícia não convencional (Panc) -, uma carne bovina do Pampa e a batata-crem, um tubérculo nativo e raro que resgata a agrobiodiversidade local.

Segundo o chef, a ideia é "fugir" da culinária tradicional, como o churrasco e o carreteiro, e apresentar outras abordagens, utilizando ingredientes locais:

- É mostrar que o Rio Grande do Sul tem todo esse potencial gastronômico. Acho que isso representa todos esses chefs criativos que hoje vêm fazendo um trabalho diferente no Estado, apresentando ingredientes que costumamos consumir sempre da mesma forma. Na feira, conseguimos mostrar outras facetas desses ingredientes e apresentar o RS de forma diferente.

Sobre a feira

A delegação gaúcha na FIT será liderada pelo governador Eduardo Leite e pelo titular da Setur, Ronaldo Santini, numa ação estratégica para estreitar os laços com o principal mercado emissor de turistas para o Estado.

Durante o evento, o Estado lançará a campanha de verão, que destaca as atrações das diferentes regiões. 

TJRS participa de homenagem ao presidente do Supremo

O presidente do Tribunal de Justiça do RS, desembargador Alberto Delgado Neto, participou na quinta-feira, em Brasília, da homenagem promovida pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) e o Conselho de Presidentes de Tribunais de Justiça do Brasil ao presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça, ministro Luís Roberto Barroso, em razão do término do seu mandato.

- O ministro Barroso, que considero um dos maiores constitucionalistas mundiais, fez uma grande administração, comandando o Judiciário brasileiro em momentos muito difíceis no nosso país, atuando com muito equilíbrio e defesa firme do Estado democrático de direito - afirmou o desembargador. 

Pela primeira vez, Porto Alegre alcançou a marca de 30.195 crianças matriculadas na educação infantil do município. Segundo a pasta, o número de alunos matriculados em 2015 era de 23.956. Dez anos depois, o aumento representa crescimento de 26%.

Curso promove independência financeira de mulheres

O Centro Renascer da Esperança, que atua com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade na Restinga, em Porto Alegre, ampliou sua atuação para promover a autonomia financeira de mulheres.

A instituição iniciou turmas de corte e costura para alunas com idade entre 18 e 60 anos.

Segundo a fundadora do Centro Renascer da Esperança, a ex-gari Rozeli da Silva, o objetivo é fazer com que as mulheres da comunidade tenham autonomia para gerar a própria renda. À frente das turmas, está Cátia Fernanda Pinto, filha de costureira, que desempenha o ofício desde os 10 anos. _

INFORME ESPECIAL

sexta-feira, 26 de setembro de 2025


26 de Setembro de 2025
CARPINEJAR

A influência da química

Você já odiou alguém sem conhecer? Até que a encontrou presencialmente, e o mal-estar se desfez quase por um feitiço. O preconceito não condizia com a realidade. No trato, o inimigo imaginário se revelou cordial, atento, carismático.

Quando o tarifaço americano contra as exportações brasileiras e as punições já estavam em curso, quando se especulava sobre novas retaliações da Casa Branca após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e dos golpistas de 8 de janeiro, quando a aplicação da Lei Magnitsky havia se estendido a pessoas próximas do ministro do STF Alexandre de Moraes, um esbarrão na Assembleia Geral da ONU mudou o rumo da história.

Lula e Trump foram além do aperto de mão: abraçaram-se nos bastidores dos líderes em Nova York, na terça-feira.

A situação sugere um conto de fadas: o olho no olho, a informalidade física derrubaram as barreiras ideológicas. Embora o temperamento ciclópico do republicano não garanta normalidade - ele troca de lado na guerra da Ucrânia a toda hora, mostrando-se imprevisível e litigioso, capaz de impor uma armadilha a qualquer instante -, nada desabona, por enquanto, o estado de graça, a súbita empatia.

Pode ser que menos de um minuto tenha alterado a escrita dos anos seguintes.

Não acredito que repensem suas posições em questões centrais. O mandatário dos EUA continuará enxergando o julgamento de Bolsonaro como "caça às bruxas", um dos motivos para as sobretaxas. Mas existe chance de ele flexibilizar os pontos mais evidentes de choque e atrito, em favor de eventuais acordos econômicos.

CARPINEJAR

26 de Setembro de 2025
OPINIÃO RBS

dramas pessoais

A história se repetiu e o desempenho da economia do Rio Grande do Sul foi mais uma vez derrubado por uma estiagem. Passa da hora de começar a dar fim a essa recorrência. No segundo trimestre, período que concentra a colheita da soja, o PIB gaúcho encolheu 2,7% ante o mesmo período de 2024, mostrou na quarta-feira o Departamento de Economia e Estatística (DEE) do Estado. O tombo foi puxado pela agropecuária, que teve queda de 21,4%, anulando os desempenhos da indústria, de 4%, e dos serviços, que avançaram 2,4%. No acumulado do ano o PIB ainda sobrevive no azul, com uma alta tímida de 0,5%.

O clima tem sido um fator frequente a frear a economia do RS, em especial nesta década, com vários episódios de falta de chuva no verão que levaram à quebra de safras de culturas de sequeiro, como a soja e o milho. É na oleaginosa, pelo alto valor da produção, o maior impacto. Impõe-se reiterar o alerta de que o problema será continuado se não existir uma ampliação significativa na área irrigada no RS. Hoje, conforme o governo gaúcho, a irrigação alcança apenas 4% das áreas de sequeiro.

Perder altos volumes de produção não significa apenas queda no PIB, um indicador que parece abstrato. O número exprime o prejuízo de milhares de agricultores. A sequência de vários anos praticamente consecutivos de frustração criou um quadro de dificuldades financeiras poucas vezes visto no campo, situação que levou à mobilização dos agricultores por uma ampla renegociação das dívidas. Trata-se de uma dificuldade que contamina negativamente as demais atividades - indústria, comércio e serviços -, em especial nas regiões mais vocacionadas à agropecuária.

Iniciativas pontuais para ampliar a reservação de água e a implantação de sistemas de irrigação não têm sido suficientes. Entre elas está a possibilidade de intervenção em áreas de preservação permanente (APPs) para armazenamento hídrico. O governo gaúcho também tem uma iniciativa para subsidiar projetos de irrigação, mas a procura mostra-se abaixo do que seria razoável. Em junho, a Assembleia Legislativa aprovou projeto de lei que dispensa a outorga de uso da água a produtores familiares. Há outros gargalos a resolver, como a disponibilidade de energia. É ainda comum o tema cair no esquecimento logo após um verão generoso.

É ilusório imaginar o uso massificado da irrigação pelas inúmeras dificuldades existentes, como as estruturais, de legislação e de realidade em cada propriedade. Ainda assim, diferentes estimativas apontam espaço para um avanço significativo. O ex-secretário da Agricultura e coordenador da Comissão de Meio Ambiente da Farsul, Domingos Velho Lopes, diz existir potencial para chegar a 75% da área. Um estudo com participação da UFRGS indicou capacidade para construir até 5,4 mil barragens no noroeste gaúcho.

É preciso persistir para mudar essa realidade ao longo do tempo e se adaptar a um cenário de estiagens mais recorrentes. No momento, há o entrave adicional do endividamento e do alto juro no país, o que desencoraja investimentos pesados e que signifiquem um compromisso financeiro por longo tempo. Mas se deve lembrar que a irrigação é um seguro e não se limita a evitar perdas: é garantia de alta produtividade. 


26 de Setembro de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Como se prepara uma reunião com Trump

A indefinição que ainda cerca uma eventual reunião entre os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não é inusitada. Embora este deva ser ainda mais delicado do que a média, encontros entre chefes de Estado têm liturgia preparada com muita antecedência.

Costuma ser definido antes até o resultado da conversa. Sim, um acordo costuma ser alinhavado antes que os presidentes sentem frente à frente. No Brasil, uma famosa frase do presidente que nunca assumiu o cargo, Tancredo Neves, resume a mãe de todas as regras:

- Primeiro, a gente decide. Depois, faz a reunião.

Esse é um dos motivos pelos quais Lula evitou confirmar, na primeira vez em que abordou o assunto, que será realizado na próxima semana.

Regras estritas valem para encontros usuais. Quando envolvem o mandatário mais imprevisível do planeta, os cuidados precisam ser redobrados. As cenas de humilhação transmitidas para todo o planeta dos presidentes da Ucrânia, Volodimir Zelensky, e da África do Sul, Cyril Ramaphosa, acentuam o cuidado.

Telefonema ou teleconferência também têm riscos

Evitar o risco de repetição de cenas semelhantes está na lista de prioridades da diplomacia brasileira, o que explica a preferência do Itamaraty por telefonema ou teleconferência. No entanto, caso haja intenção de expor o presidente brasileiro, uma edição de som ou imagens pode ter o mesmo efeito depreciativo.

Por isso, Lula passou a admitir reunião presencial, que só será confirmada se houver compromisso da Casa Branca com clima respeitoso. Há uma dificuldade adicional: preparar um encontro como esse é tarefa do Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio, apontado como um dos auxiliares de Trump mais avessos à aproximação. Na entrevista em que se esforçou para manter o canal aberto, Lula já mandou o recado:

- Não há por que ter brincadeira numa relação entre dois homens de 80 anos de idade. Eu vou tratá-lo com o respeito que merece o presidente dos EUA e ele certamente vai me tratar com o respeito que merece o presidente da República Federativa do Brasil. _

O dólar subiu ontem 0,69%, para R$ 5,363 e a bolsa caiu 0,8%, para 145,3 mil pontos. No radar do mercado, a revisão no PIB dos EUA do segundo trimestre de alta de 3,3% para 3,8%, e avanço da popularidade de Lula em pesquisa.

Gaúcho luta para "limpar" transporte

O gaúcho Helio Matias, vice- presidente de Logística da Ambipar, está empenhado em dar sustentabilidade ao transporte rodoviário, que domina 60% da movimentação de cargas no Brasil. O grupo em que atua é líder em soluções ambientais no país, opera em 41 países e tem 20 mil funcionários. E é missão de Matias promover a descarbonização em sua área, o que reconhece ser um enorme desafio.

No Estado para participar da Transposul, o executivo disse à coluna que tem plano de abrir um escritório no RS em 2026. Outra conexão de Matias com o Estado é sua determinação em viabilizar o uso do BeVant, biocombustível alternativo desenvolvido pela gaúcha B8.

- Temos a audácia de, até 2040, fazer com que toda a nossa frota seja movida a combustíveis não fósseis, seja biodiesel, BeVant ou outros. Somos a primeira empresa de transporte no Brasil a ter caminhões movidos 100% a biodiesel, que reduzem em até 77% a emissão de CO2. O problema é que o vetor da economia vai para um lado, e o da sustentabilidade, para outro - constata.

Segundo Matias, embora o custo das alternativas sustentáveis ainda seja alto, é possível limitar o repasse do excedente a cerca de 10%. Relata a evolução do segmento, que teve quatro fases de prioridades: prazo, gestão de qualidade, segurança e, agora, sustentabilidade.

Matias desenvolveu uma "carreta sustentável", com células fotovoltaicas (para gerar energia solar), sistema de baterias, bomba e mangote (espécie de mangueira curta), para transporte por tanque. Permite economizar com geração de energia limpa, promete:

- Projeto inédito que levamos ao mercado, inclusive do RS. _

Luz amarela do TCU na meta fiscal

O Tribunal de Contas da União (TCU) pode obrigar o governo Lula a fazer mais cortes no orçamento deste ano. Os ministros decidiram que a sistemática inclusão da margem de tolerância da meta de resultado primário para definir cortes é "incompatível com o regime jurídico-fiscal vigente". O relator, Benjamin Zymler, avalia que a prática contraria os "objetivos de prevenir riscos fiscais e garantir a transparência e a previsibilidade da gestão fiscal".

Cabe recurso, mas se o governo não conseguir mudar o entendimento, precisará congelar mais R$ 30,2 bilhões em despesas. _

Reforma in poa

A Semana Fazendária RS vai reunir em Porto Alegre, de 29 de setembro a 10 de outubro, cerca de 1,3 mil pessoas. Um dos objetivos é preparar a adesão à reforma tributária, com participação do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) e do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz). É a primeira vez que a capital gaúcha recebe o evento.

Novo Embarcadero e praça suspensa em esquina icônica

Foi lançado ontem o Square Garden, projeto da Melnick na área do antigo Ginásio da Brigada, na esquina da Avenida Ipiranga com a Rua Silva Só, em Porto Alegre. O projeto prevê três torres residenciais e área de quase 5 mil m² com cerca de 30 operações gastronômicas e de lazer, ainda não definidas.

Terá praça suspensa no quarto andar e parceria com o Cais Embarcadero, que dará nome ao food mall (Square Garden Embarcadero).

- O food mall irá fomentar operações comerciais, gerar circulação de pessoas, proporcionar entretenimento e oferecer bons restaurantes. Pensamos em gerar transformação para a cidade - diz o CEO do grupo, Leandro Melnick.

O empreendimento será dividido em três fases, com entrega final no segundo semestre de 2029. A Melnick lançou ainda outros dois prédios, um de alto padrão e outro no segmento econômico.

Os três somam valor geral de vendas de R$ 1,38 bilhão. 

GPS DA ECONOMIA

26 de Setembro de 2025
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Anuário da Educação explica a tragédia brasileira

Os dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025 divulgados ontem explicam em parte a tragédia brasileira na educação - mesmo que alguns indicadores tenham melhorado. Não é aceitável que em pleno século 21 o Brasil ainda tenha escolas sem água potável, sem banheiro e sem coleta de lixo (20%).

A falta de esgoto tratado em mais da metade das escolas não chega a ser novidade porque essa é a realidade da população em geral, mas atesta o quão distantes estamos do cumprimento da promessa de candidatos de norte a sul do país de transformar a educação em prioridade.

Produção do Todos pela Educação, em parceria com a Editora Moderna e a Fundação Santillana, o relatório está na 12ª edição e ajuda a entender por que há tantas crianças no Brasil que não aprendem ou abandonam a escola.

As desigualdades regionais ficam evidentes quando se compara a situação das escolas públicas de diferentes Estados. A falta de água potável, por exemplo, afeta três em cada 10 escolas públicas no Acre e em Roraima. A falta de energia elétrica atinge um terço das instituições públicas no Amazonas. E a falta de banheiro é realidade em mais de 25% das escolas públicas em Roraima.

Para além dos problemas de infraestrutura, são estarrecedores os dados sobre remuneração dos professores. Por mais que o piso nacional do magistério seja lei desde 2008, quase um terço dos municípios não pagava o mínimo em 2023 (os dados de 2024 ainda não estão disponíveis). Não por acaso, os que mais pagam são os que têm melhores resultados nas avaliações dos alunos, caso do Ceará, com 98,1%, e do Piauí, com 93,8%.

A Região Sudeste, a mais rica do Brasil, não remunera seus professores de acordo com a receita, o que é duplamente inexplicável. Na média, só 55,8% dos municípios da região pagam o piso. Em São Paulo, maior PIB do país, só 70% dos municípios respeitam a lei.

A situação não é muito diferente na Região Sul, com média de 65,4%, sendo Santa Catarina com 70%, Paraná com 65,9% e Rio Grande do Sul com 62%. _

A secretária do Meio Ambiente, Marjorie Kauffmann, voltou da Semana do Clima, em Nova York, confiante de que foram abertos caminhos para novos financiamentos destinados aos produtores gaúchos e à resiliência climática.

Gabriel na vitrine

Uma cena chamou atenção de quem esteve no lançamento do SUS Gaúcho, programa que vai ampliar em R$ 1 bilhão as verbas para a saúde.

Foi o protagonismo do vice-governador Gabriel Souza, que pouco antes participara de um painel na 24ª TranspoSul - feira de transporte e logística - no Centro de Eventos da Fiergs.

Como tinha viagem marcada, o governador Eduardo Leite discursou e saiu no meio da cerimônia, deixando para o vice e para a secretária da Saúde, Arita Bergmann, a assinatura do documento que formaliza o programa.

Hoje, Gabriel estará na Bolsa de Valores B3, em São Paulo, para acompanhar o leilão da parceria público-privada (PPP) dos aeroportos de Passo Fundo e Santo Ângelo.

A cada vez maior exposição do vice, que nunca foi decorativo, faz parte da estratégia de Leite de torná-lo mais conhecido, já que será o candidato da situação em 2026. O argumento principal da campanha será de que nenhum dos pretendentes conhece melhor os problemas do Estado e a engrenagem da máquina pública.

Gabriel também se envolveu diretamente na elaboração da proposta do orçamento de 2026, já que deverá ser ele o governador por nove dos 12 meses do ano, com a provável renúncia de Leite para concorrer. 

Na TranspoSul, Gabriel ficou ao lado do secretário Ernani Polo, o vice dos sonhos do MDB. A chapa tem apoio de segmentos importantes do empresariado. Mas Polo é do PP, que está dividido em três fatias: um grupo quer a aliança com Gabriel, outro defende a coligação com Luciano Zucco e o terceiro deseja a candidatura própria.

Pedágio sim, mas com tarifa menor

Em entrevista ao Gaúcha Atualidade ontem, o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas (Setcergs), Delmar Albarello, fez duras críticas à falta de investimentos em rodovias. Disse que o setor que representa prefere pagar pedágio a ter estradas sucateadas ou de pista simples.

Em relação ao Bloco 2 das rodovias estaduais, concorda com a concessão privada, mas defende tarifa menor, mesmo que isso seja feito com recursos do Fundo Rio Grande, o Funrigs. _

POLÍTICA E PODER

Entidades querem transformar Dopinho em centro de memória

Um movimento de mais de 30 entidades ligadas aos direitos humanos do RS mobiliza-se para transformar o Dopinho - um casarão que serviu como local de repressão durante a ditadura militar em Porto Alegre - em um centro de memória.

A proposta partiu de uma iniciativa do Instituto Sig - Psicanálise & Política. Ao tomar conhecimento de que o imóvel, de propriedade privada, estava à venda, o instituto articulou uma rede com o objetivo de converter o local em um centro de memória.

De acordo com a psicóloga Maria Luiza Castilhos Flores Cruz, integrante do Instituto Sig, o objetivo é apresentar a proposta ao poder público federal.

- Estamos interessados em trabalhar por uma política pública de memória em Porto Alegre, para ressignificar um local que foi tão importante para quem viveu a ditadura e para a cidade - explicou.

A iniciativa ganhou força nas últimas semanas, após ser apresentada na Conferência Livre de Direitos Humanos "Ditadura Nunca Mais", realizada neste mês como evento preparatório para a Conferência Estadual de Direitos Humanos do RS.

Segundo Júlio Alt, presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos do RS, órgão responsável pela conferência, a ação busca evitar o apagamento da memória sobre a ditadura militar. - Queremos transformá-lo em um centro de memória, já que o local é um imperativo moral daquele período - declarou.

Próximos passos

Maria Luiza afirma que o objetivo é solicitar ao governo federal que avalie a possibilidade de permuta ou compra do imóvel. A psicóloga menciona que a deputada estadual Sofia Cavedon (PT) também articula a causa junto ao poder público.

Uma audiência pública na Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia, marcada para 6 de outubro, deve definir encaminhamentos.

Paralelamente, segundo Alt, a proposta será formalmente apresentada na conferência estadual, agendada para os dias 24 e 25 de outubro.

- Todas as propostas aprovadas na conferência serão tratadas como prioridade do RS na pauta de direitos humanos - completou.

O Dopinho, localizado na Rua Santo Antônio, no bairro Floresta, abrigou, entre 1964 e 1966, um centro de tortura e detenção clandestina de prisioneiros ilegais da ditadura militar, sendo palco de graves violações de direitos humanos. _

Estátua de Trump de mãos dadas com Epstein é retirada

O Serviço de Parques Nacionais dos EUA removeu na quarta-feira uma estátua intitulada Melhores Amigos para Sempre, que representava o presidente Donald Trump e o falecido empresário Jeffrey Epstein.

A instalação havia sido colocada na terça-feira em um parque próximo ao Capitólio, em Washington. A obra exibia os dizeres: "Celebramos o vínculo duradouro entre o presidente Donald J. Trump e seu ?amigo mais próximo?, Jeffrey Epstein." .

Epstein foi acusado de tráfico e crimes sexuais contra menores. Sua associação com Trump se tornou um tema polêmico especialmente após a divulgação de documentos judiciais que listavam supostos clientes e associados do empresário.

Nos registros, constavam voos de Trump e de familiares seus no avião particular de Epstein. Apesar da amizade pública entre os dois, não há evidências de que o presidente tenha participado diretamente dos crimes. 

Casa Branca coloca caneta automática no lugar de Biden

O governo de Donald Trump fez uma publicação nas redes sociais onde ironizou a nova galeria de ex-presidentes da Casa Branca. No lugar da foto de Joe Biden, a nova administração colocou a imagem de uma caneta automática.

Também conhecida como autopen, o aparelho é utilizado para reproduzir assinaturas automáticas. Presidentes norte-americanos usam o equipamento há décadas para agilizar a rotina.

Em março, o republicano já havia criticado o uso do dispositivo pelo antecessor e alegou que perdões concedidos pelo democrata seriam inválidos, pois teriam sido assinados por auxiliares sem o conhecimento de Biden.

Também sustentam a teoria de que o democrata não participava das decisões devido a um suposto declínio cognitivo. Biden reconheceu o uso da autopen, mas afirmou que todas as assinaturas foram realizadas com o seu consentimento. _

Brasília pode se mudar para Belém

A Câmara dos Deputados aprovou ontem um projeto que transfere simbolicamente a capital do Brasil para Belém durante a COP30.

A proposta, de autoria da deputada Duda Salabert (PDT-MG), estabelece que, por 10 dias, atos oficiais assinados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e por ministros farão referência à capital do Pará, e não a Brasília.

Aprovado por 304 votos a 64, o texto autoriza os três Poderes da República - Executivo, Legislativo e Judiciário - a se instalarem em Belém para conduzir suas "atividades institucionais e governamentais" diretamente de lá. Para ter validade, o projeto ainda depende da aprovação do Senado e da sanção de Lula. _

Homenagem a Miriam Leitão

Referência nacional no jornalismo, Miriam Leitão receberá o título de Doutora Honoris Causa da Universidade La Salle, em Canoas. A honraria será concedida no dia 9 de outubro.

A outorga do título ocorrerá durante a Semana Acadêmica de Pesquisa, Inovação e Extensão, com o tema Inovação Social e Urbana: construindo soluções sustentáveis para desafios coletivos, entre 6 e 10 de outubro.

No mesmo dia, haverá uma sessão de autógrafos com as obras de Míriam e de seu marido, Sérgio Abranches. Após a cerimônia, ela proferirá a palestra Entre o poder da destruição e o tempo das possibilidades: construindo soluções sustentáveis no Brasil.

Miriam Leitão atua em veículos como O Globo, GloboNews e CBN. É autora de 16 livros e ocupa a cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras (ABL). _

INFORME ESPECIAL 

quinta-feira, 25 de setembro de 2025



10 de janeiro de 2016 | N° 18410 
CARPINEJAR

Não faça o outro sofrer o que você sofreu

Você queria que o outro sofresse o mesmo que sofreu, que ele entendesse o que renunciou, o erro que cometeu, o que deixou de viver ao seu lado, a escolha enganada. Queria que ele engolisse de volta tudo o que ficou engasgado em sua garganta: toda a distância, toda a indiferença, todo o desprezo. Parou de atender o telefone, bloqueou as redes sociais, não garantiu o direito a uma conversa redentora, virou as costas como mais uma porta fechada de casa, recusou as apelações por cartas e a esperança da retratação rápida.

Você pode comemorar, atingiu o seu objetivo, ele hoje é um caco, um restolho, um trapo do homem que foi. Pode espalhar para as suas amigas de que se vingou perfeitamente, envaidecer-se das estratégias de guerra, pode mostrar com orgulho o quanto ele resta perdido, desorientado, solitário, que o rosto dele não esboça um riso há tempo, que as olheiras fundas são desenho a carvão, que a sua barba é de um náufrago dos ansiolíticos. 

Pode se vangloriar do fim da fé do sujeito, de sua exaustão mental, de quem acorda como quem dorme, de quem dorme como quem desmaia. Pode exibir que você conseguiu o que desejava: ele sofreu tanto como você.

Estão quites. Mas infelizmente a sua falha é devolver o que houve de ruim na relação, e não recuperar o que havia de bom. Vingança não é justiça. Vingança é pisar mais o que estava machucado. Retribuiu as feridas, as chagas, a inclemência. São duas vítimas, não mais uma: você antes, ele agora. Executou a retaliação com astúcia de xadrez. A razão é um jogo para vencer, já o amor é a arte de ceder. Não há como ganhar na razão sem sacrificar o coração.

Não previu que sofrer é perigoso. As pessoas desamam na dor. As pessoas não voltam mais a ser o que eram. Exagerou na dose, pois a raiva não segue nenhuma posologia. Ele não tem nem mais uma ponta de orgulho para voltar a lhe admirar.

O sofrimento não produz saudade, e sim mata a saudade. A saudade é cria da alegria. O sofrimento apenas traz ressentimento. Você trocou o eu te amo dele por um pedido de desculpa. Ele irá pedir perdão um dia, porém nunca será capaz de uma reconciliação. Não foi um grande negócio.

Dar o troco é perder a fortuna do amor.



10 de janeiro de 2016 | N° 18410 
ANTONIO PRATA

Refogar cebolas

A Mari entra na cozinha com umas cinco sacolas em cada mão: “Cês podem ajudar a descarregar?”. Estou refogando umas cebolas, ela passa os olhos por mim, “O Antonio não, claro” e sinto uma paz de espírito meio exagerada pra quem foi simplesmente liberado de tirar as compras do carro. Enquanto meus amigos vêm com caixas e caixas, neste primeiro dia na praia, sigo ali no fogão, mexendo a colher pra cá, mexendo a colher pra lá e pensando por que diabos tanto alívio por tão minúsculo habeas corpus. 

À medida que o refogado vai ficando translúcido, também se clarificaram as ideias: percebo que o alívio não vem daquela tarefa específica, mas de todas as possíveis e imagináveis incumbências que podem surgir enquanto eu refogar cebolas e das quais estarei liberado. Entendo, em parte, por que gosto de cozinhar.

Escrever dá trabalho. “Lutar com palavras/ é a luta mais vã”, já sabia o Drummond, “Entanto lutamos/ mal rompe a manhã”. Escrever quase sempre dá errado: “Luto corpo a corpo,/ luto todo o tempo,/ sem maior proveito/ que o da caça ao vento.” “Todo o tempo”, pois a caça é ininterrupta: no escritório, no chuveiro, na fila do caixa do Frango Assado da Carvalho Pinto – e “Cerradas as portas,/ a luta prossegue/ nas ruas do sono.” (Mundo mundo vasto mundo/ se eu tivesse prestado engenharia medicina arquitetura/ não seria uma rima e a métrica ia pro espaço, mas talvez fosse uma solução).

Ter filhos dá trabalho. Antes de eles nascerem você acha que vai botá-los num pedestal, vai contemplar o milagre da existência e depois vai continuar a ler Guerra e Paz com sua caneca na mão. (Gargalhada histérica). (Retomada de fôlego). (Mais um pouco de riso). (Travo melancólico). 

O negócio é que é meio difícil contemplar o milagre da existência – e definitivamente impossível ler Guerra e Paz – quando se está ocupado contando medidas de leite em pó, negociando colheradas de verduras por minutos de Peppa Pig ou tentando evitar que uma mãozinha recém saída da fralda cheia de cocô chegue à boca ou à barriga ou à parede, no escuro, às 3:47 da madrugada.

Não bastasse o fluxo contínuo de palavras, Aptamil, Peppa Pig e cacas mil, há ainda esses pequenos exus eletrônicos assoviando pra gente de dentro do WhatsApp, do Facebook, do Twitter, do email, do Instagram e de outros tantos anéis do inferno digital, ordenando, como uma assombração num filme B: “Venhaaa! Venhaaa! Venhaaa!” – e o pior é que a gente vai.

Então você começa a refogar cebolas: de uma hora pra outra, desaparece o burburinho ensurdecedor das demandas e só se ouve o crepitar dos cubinhos translúcidos no azeite. 

É preciso descarregar as compras, arrumar a casa, trocar as fraldas, responder emails, terminar o romance, dar share em notícias, colaborar em crowdfundings, fazer as pazes com o pai, perdoar a si próprio, ler Tolstói, arrumar as estantes, ganhar dinheiro, tomar vergonha na cara, perder a vergonha na cara, comer mais fruta, beber menos, cuidar melhor do seu amor, entender se, afinal, você faz da vida o que realmente deseja ou simplesmente boia num rio formado por sortes, azares, covardias, conveniências: mas agora não. Agora você só precisa refogar cebolas.


25 de Setembro de 2025
CARPINEJAR

Letra por letra na cartolina

Na minha escola, durante os anos 1980, uma das atividades principais era apresentar trabalhos na frente da turma. Experimentávamos, na prática, uma prévia da vida difícil do professor, um ensaio do domínio da persuasão e da oratória.

Enfrentávamos a gagueira, o medo de falar em público, o silêncio constrangedor, o cochicho e a vergonha das risadas, as perguntas atravessadas. Tudo conosco, sozinhos na arte da argumentação do magistério, sem poder pedir ajuda ou socorro.

Formavam-se grupos de quatro, cinco alunos. Sempre havia um que não fazia nada e levava a nota de presente, e outro que se matava para decorar o conteúdo, carregando toda a equipe nas costas.

A preparação virava uma missão secreta. Por votação, escolhíamos a casa de algum colega como quartel-general, de preferência com lanche, para pesquisar o tema. Juntávamos enciclopédias, recortes de jornal e de revista, livros emprestados da biblioteca. Não existia Google. Existia paciência.

Para que os cartazes parecessem profissionais, usávamos moldes metálicos do alfabeto. Um gabarito comprado na tabacaria, com 37 peças. Colocávamos letra por letra, contornávamos, pintávamos por dentro, numa tipografia lenta e complexa. Nenhum risco deveria escapar. Não perdoávamos nenhum borrão.

Consumíamos horas reunidos na mesa da sala, atrapalhando a rotina da família, numa canseira insana de montagem que avançava até o jantar. A caligrafia ficava só para as legendas. Muitas vezes, rascunhávamos a lápis e depois passávamos hidrocor por cima, buscando não tremer.

E vinha a etapa da execução: realizávamos a exposição com os cartazes de cartolina colados na lousa. Uma série alinhada como uma novela em quadrinhos. A régua servia de batuta da nossa regência para destacar ponto a ponto dos nossos resumos. Geografia e história se mostravam as campeãs recorrentes das apresentações. Matemática e português raramente lançavam mão das interações.

Eu confesso que invejava os colegas ricos. Eles não precisavam sofrer com o gabarito. Tinham o luxo da Letraset, cartela de adesivo importada. Enquanto nós suávamos para elaborar um título, eles raspavam a folha e a letra surgia perfeita, limpa, brilhando no cartaz. Perto deles, éramos amadores.

No fundo, a precariedade forjou minha criatividade. A exibição valia mais do que nota - fornecia lições de teatro, de coragem, de orgulho pelo capricho, de satisfação ao me ver aplaudido ao final.

E talvez por isso, quando subo no palco para uma palestra diante de milhares de pessoas, nunca deixo de ser aquele estudante encarando a classe inteira com o coração disparado e a voz tentando não falhar.

Transformei as borboletas no estômago em jardim; o receio de me expor, em valentia para partilhar o conhecimento. Se não venci a timidez, aprendi a conviver socialmente com ela. Enrubescer também é um charme da autenticidade, um traço do carisma. 

CARPINEJAR

25 de Setembro de 2025
OPINIÃO RBS

A força da opinião pública

Diante da avassaladora contrariedade dos brasileiros com a PEC da Blindagem, aprovada na semana passada pela Câmara dos Deputados, não restava alternativa aos membros da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado a não ser jogar na lata do lixo a infame investida para criar uma casta de intocáveis no Congresso. A votação, ontem, no colegiado, com uma derrota da ideia por 26 a 0, foi uma demonstração cabal de que os senadores se deram conta do disparate da proposição e sentiram o bafo na nuca da pressão popular.

O relator do texto na CCJ, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), apresentou parecer pela rejeição da proposta de emendar a Constituição para assegurar aos parlamentares a prerrogativa obscena de só serem processados criminalmente e presos em flagrante por delito inafiançável com a autorização dos pares, por meio de votação secreta. A busca pelo anonimato, para evitar mostrar o rosto aos eleitores na hora de proteger colegas envolvidos em crimes, apenas demonstrou a pusilanimidade dos defensores da PEC. Os nomes dos deputados que aprovaram o texto na Câmara, no entanto, são públicos e devem ser lembrados em 2026.

A PEC da Blindagem foi um dos focos das numerosas manifestações de rua realizadas no domingo em várias cidades brasileiras. É verdade que parte significativa dos participantes era de simpatizantes de partidos de esquerda, mas é equivocado reduzir o que aconteceu no fim de semana a uma postura ideológica. Não foi apenas o consórcio entre o PL de Jair Bolsonaro e o centrão que aprovou a PEC na Câmara por ampla maioria. Na votação em primeiro turno, 12 dos 65 deputados do PT aderiram à blindagem. Do PSB, 9 de 16. Do PDT, 10 de 16.

Desde o dia da votação na Câmara, articulada às pressas para evitar que o tema reverberasse no país, a esmagadora maioria da população cerrou fileiras contra a PEC que, por exemplo, tentava livrar parlamentares enrolados com desvios de emendas e se convertia em um convite para o crime organizado se infiltrar no Congresso e nas Assembleias Legislativas estaduais. Um levantamento da empresa de pesquisas Quaest mostrou que, entre os dias 16 e 19 de setembro, 83% das menções à PEC da Blindagem nas redes sociais eram negativas. 

Depreende-se, portanto, que cidadãos de diferentes linhas de pensamento se somaram na reprovação da iniciativa, e é plausível que parte dessas pessoas tenha engrossado os protestos do último domingo. A repulsa à busca pela impunidade se fortaleceu não por ser vinculada a uma agremiação ou por defender um líder político específico, mas por ser uma reação orgânica da sociedade civil a um atrevimento da Câmara.

A indignação dos brasileiros, há poucos meses, teve outra vitória, com o Congresso desistindo de derrubar o veto presidencial ao aumento do número de deputados federais. O caso de agora deve ser um recado claro ao parlamento de que foi bastante reduzida a margem para que deputados e senadores legislem em causa própria ou em socorro a outros políticos. A pressão popular ainda causa efeito e espera-se que, ato contínuo, o Congresso se dedique mais a temas de interesse verdadeiramente nacional.