RUTH DE AQUINO
07/11/2014 21h08
Juiz não é Deus
O juiz dirigia sem habilitação.
Foi multado, estrilou e quis prender a fiscal. Quem ele pensa que é?
Todo juiz que se sente ofendido
ao ouvir que “não é Deus” deveria buscar uma terapia para curar a onipotência.
Juízes têm a função de julgar, mas estão muito longe de ter a prerrogativa do
juízo divino. Não estão acima do bem e do mal.
Por conhecer a fundo as leis,
juízes não têm desculpa para violar ou desrespeitar o Código Civil. Espera-se
dos juízes, mais que dos leigos, um comportamento ajuizado – é só observar a
raiz do adjetivo. Juízes podem, todavia, errar. São humanos, não são deuses.
O juiz João Carlos de Souza
Correa abusa do direito de errar. Em fevereiro de 2011, no Leblon, bairro nobre
da Zona Sul do Rio de Janeiro, ele foi parado numa blitz da Operação Lei Seca.
A fiscal de trânsito Luciana Tamburini, de 34 anos, verificou que ele não estava
com sua carteira de habilitação e que seu carro, um Land Rover, não tinha
placas nem documentos. Mandou rebocar o carro – cumprir a lei.
Em vez de se resignar por ter
sido flagrado em delito, João Carlos não gostou. Identificou-se como juiz de
Direito. “Ele queria que um tenente me desse voz de prisão”, disse Luciana. “O
tenente se recusou, e o juiz ligou para uma viatura. Os PMs tentaram me algemar
e disseram que o juiz queria que eu fosse para a delegacia. Respondi que ele
queria, mas não era Deus.”
Informado pelos PMs do que
Luciana dissera, João Carlos começou a gritar e lhe deu voz de prisão. Chamou-a
de “abusada”. Luciana confirma que são comuns as “carteiradas” de poderosos, do
tipo “você sabe com quem está falando?”, mas é raro o infrator se descontrolar
a esse ponto.
Ela abriu uma ação contra João
Carlos por danos morais depois de sofrer, no Detran, uma sindicância interna,
sob pressão dele e de sua mulher, para apurar seu procedimento na blitz. O
desfecho na Justiça é uma ode ao corporativismo. O desembargador José Carlos
Paes inverteu a ação e condenou Luciana a pagar R$ 5 mil de danos morais a João
Carlos, por ter ofendido o réu e “a função que ele representa para a
sociedade”. A sentença, datada do último 22 de outubro, é surreal. Vale ler um
trecho:
“A autora, ao abordar o réu e
verificar que o mesmo (sic) conduzia veículo desprovido de placas
identificadoras e sem portar sua carteira de habilitação, agiu com abuso de
poder, ofendendo este, mesmo ciente da relevância da função pública por ele desempenhada.
Ao apregoar que o demandado era ‘juiz, mas não Deus’, a agente de trânsito
zombou do cargo por ele ocupado. (...) Pretendia afrontar e enfrentar o
magistrado que retornava de um plantão judiciário noturno”.
Você ficou com pena de João
Carlos? O que esperamos nós ao encarar uma blitz sem carteira de motorista, sem
placa e sem documento? O embate com João Carlos assustou a mãe de Luciana, que
nem queria mais deixá-la sozinha em casa. “Quando a gente faz o que é certo,
não tem por que ter medo”, disse Luciana. O caso deverá ir agora para o
Superior Tribunal de Justiça. “Vou até o final, não me arrependo de nada.”
O juiz João Carlos não é
estreante em confusões. Em 2007, como titular em Búzios, no litoral norte do
Rio, tentou forçar um transatlântico com turistas a abrir para ele as lojas do
free shop. Deu voz de prisão a uma jornalista, Elisabeth Prata, por calúnia e
difamação. Ela passou 12 horas detida, foi condenada a cinco anos de cadeia e
teve de provar sua inocência. Em 2010, João Carlos foi investigado pelo
Conselho Nacional de Justiça por decisões duvidosas que envolviam disputas
fundiárias e imobiliárias na Região dos Lagos. Parece que ele pensa mesmo ser
Deus.
Nas redes sociais, a história de
Luciana deslanchou uma onda de solidariedade. Uma advogada paulista, Flavia
Penido, leu os autos do processo, ficou indignada com “o show de horrores” e,
mesmo sem conhecer Luciana, abriu uma vaquinha virtual para arrecadar o valor
da multa e dar a ela apoio emocional.
“A gente deveria brigar menos nas
redes sociais por besteira e canalizar essa energia para atazanar quem
realmente merece ser atazanado”, disse Flavia. Até a sexta-feira, já haviam
sido coletados mais de R$ 20 mil. Luciana ficou surpresa e feliz. Disse que
doará o excedente. Contou que seu maior desejo é ganhar a ação, sem precisar
tocar no dinheiro arrecadado. Hoje licenciada da função, Luciana aguarda
nomeação na Polícia Federal. Quer ser delegada.
Será que João Carlos sabe com
quem está lidando? Com a opinião pública.
O Brasil convive com muitas
arbitrariedades cotidianas. Cansa. É uma vida às avessas, que embaralha os
conceitos, beneficia os espertos e prejudica os honestos. Para ser
excelentíssimo, é preciso impor respeito pela integridade. Para mudar o país,
não basta rezar. Um bom começo é saber que ninguém aqui é Deus. Nem o senhor
doutor João Carlos de Souza Correa. Amém.
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