28
de novembro de 2014 | N° 17997
OLHARGLOBAL
| Luiz Antônio Araujo
Inferno
A
descoberta de 11 corpos queimados, alguns decapitados, à beira de uma estrada
do Estado mexicano de Guerrero precedeu em algumas horas o discurso do
presidente Enrique Peña Nieto no qual foram anunciadas medidas contra a violência.
Ainda que se saiba pouco a respeito das circunstâncias do crime, a coincidência
geográfica – Guerrero é o Estado onde 43 estudantes desapareceram há dois
meses, expondo as relações entre autoridades municipais e narcotráfico – é evidente
demais para ser ignorada.
Foi
a repercussão, e não a selvageria, que fez do massacre de Guerrero, em
setembro, um ponto de virada na situação política mexicana. As táticas do crime
organizado no país incluem assassinatos seletivos de autoridades e jornalistas,
sequestros e carros-bomba. Estimativas sugerem que as gangues perpetraram mais
de 60 mil homicídios desde 2006.
A
escalada teria atingido um pico em 2012, último ano de mandato do ex-presidente
Felipe Calderón, que tentou encurralar o narcotráfico e enfrentou feroz resistência.
Um dos efeitos da campanha de Calderón foi dispersar os ataques das
megaquadrilhas, antes concentrados nas cidades situadas nas rotas do tráfico e
ao longo da fronteira com os Estados Unidos. Situado na costa sul do Pacífico,
Guerrero é considerado um foco recente de violência.
Ao
perder a guerra contra o tráfico, Calderón, do Partido da Ação Nacional (PAN),
selou sua sorte política. Na eleição de 2012,
a agremiação foi derrotada pelo rival Partido Revolucionário
Institucional (PRI), de Peña Nieto.
Os
cartéis da droga em atividade no México, que nada mais são do que filiais de
quadrilhas dependentes do mercado consumidor americano, têm pouco a ganhar com
uma guerra total contra o presidente. Mas, se forem encurralados, não hesitarão
em espraiar o terror até recompor o status quo. É por isso que, como concluíram
Calderón e outros ex-presidentes, o combate ao narcotráfico exige novas
abordagens na América Latina.
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