sábado, 19 de junho de 2010



20 de junho de 2010 | N° 16372
PAULO SANT’ANA


Indiferença dominical

Vou fazer um desabafo, que não sei se interessa aos leitores. Mas eu guardo este segredo comigo há muito e agora estou disposto a revelá-lo.

Acontece que não torço pela Seleção Brasileira. Também não seco a Seleção Brasileira, só não torço por ela.

A Seleção Brasileira não me entusiasma como a vejo entusiasmar a tantos brasileiros.

Jamais faria um churrasco em minha casa para receber amigos e torcer pela Seleção Brasileira. Não seria um motivo forte para eu fazer um churrasco um jogo da Seleção Brasileira.

Neste domingo, vejo Brasil x Costa do Marfim com a mesma indiferença com que assisti nesta Copa a Argélia x Eslovênia. Assisto com interesse, como tenho assistido a São Paulo x Palmeiras, Flamengo x Fluminense, mas sem nenhum entusiasmo, sem torcer para nenhum dos times, nem que um deles seja a Seleção Brasileira.

Em suma, sou amante do futebol, gosto desde criança de assistir a esse esporte, mas torcer por time de futebol, aí é outra história, só torço mesmo pelo Grêmio.

Influi sem dúvida nesta minha indiferença pela sorte da Seleção Brasileira o meu gremismo: sofro do mal da paixão única, penso até que a minha mente não tolera que eu torça pelo Brasil porque seria uma espécie de traição ao Grêmio, sei lá...

Que ninguém me acuse de ser impatriótico por isso. Amo o Brasil, conheço todos os seus hinos. Se o Brasil entrasse em guerra e me aceitassem, eu pegaria em armas para defender a pátria que aprendi a amar no grupo escolar da minha infância.

Mas não sinto qualquer afinidade pela definição do grande Nelson Rodrigues para a Seleção Brasileira: a pátria de chuteiras.

Já trabalhei em muitas Copas, mas nunca torci pelo Brasil, pouco me importei que o Brasil as tivesse perdido ou ganho. Nunca derramaria uma lágrima por uma derrota do Brasil em Copa do Mundo, assim como nunca entrei em euforia, sequer alegria, quando ganhamos uma Copa.

Eu tenho certeza de que na origem desta minha indiferença pela Seleção Brasileira está o fato de que, quando eu era jovem, a Seleção Brasileira nunca convocava jogadores gaúchos.

A Seleção Brasileira era, na minha juventude, uma panelinha entre Rio e São Paulo. Desprezava com prepotência o futebol gaúcho e não convocava os nossos jogadores.

Naquele tempo, por isso, eu sentia ódio da Seleção Brasileira. Hoje não sinto mais ódio, os gaúchos seguidamente jogam na Seleção, agora mesmo na seleção do Dunga tem dois gaúchos: Maicom e Michel Bastos. Até o treinador da Seleção Brasileira hoje é gaúcho, o Dunga.

Então, não sinto mais ódio, mas não torço. Não torço. Não consigo torcer.

Vocês podem não acreditar, mas eu assisto a Brasil x Costa do Marfim com a mesma voltagem de emoção com que assistiria a Alemanha x Argentina, um grande jogo, que me atrai intensamente porque sou aficionado pelo futebol.

Mas um jogo que não me toca no coração. Nada tenho com ele, assim como tenho tudo em qualquer jogo do Grêmio, onde, aí, sim, a paixão me faz rir ou chorar. Eu fico doente quando o Grêmio perde, eufórico quando o Grêmio ganha.

Eu sempre achei uma lástima o Grêmio não disputar a Copa do Mundo.

E, para finalizar: muitos gaúchos já me disseram que sentem isso exatamente que eu sinto pela Seleção Brasileira.

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