sábado, 3 de outubro de 2026

03 de Outubro de 2026
PAULO GERMANO

O candidato ruim

Aceito ser governado por um idiota. A democracia me obriga a suportar esse risco - e, analisando a nossa história, convém reconhecer que ele existe. Aceito perder para quem considero pior. Aceito engolir quatro anos de decisões que me revoltam e aceito assistir a milhões de brasileiros comemorando exatamente o que eu lamento. Faz parte.

O que eu não aceito é entregar, junto com a derrota, o direito de tentar vencer da próxima vez. Disso eu não abro mão.

E esse é o motivo que me fará votar, no domingo, num candidato que considero ruim. Não vou fingir que os defeitos dele ficaram menores porque o adversário me parece pior. Mas existem defeitos que fazem parte da má política - demagogia, incompetência, irresponsabilidade, corrupção. E existem defeitos que destroem as condições que tornam a própria política possível. Essa diferença, para mim, é determinante.

Não saber perder é o pior dos defeitos. Porque quem aceita governar uma democracia aceita também ser demitido por ela. Não importa se você pensa que é ungido por Deus, se milhões de bajuladores o aplaudem, se o outro grupo que disputa o poder é um desastre. Você recebe a chave sabendo que a casa não é sua. E, se não for reeleito, entrega a chave para o próximo, enfia o rabinho entre as pernas e tchau.

Outra coisa: a maioria tem o direito de governar; não tem o direito de decidir quem merece direitos. Nenhum presidente escolhe qual família é família de verdade, que tipo de amor merece respeito, qual pronome você deveria usar, que religião é a mais correta. Aliás, um presidente pode entregar a própria vida a Nosso Senhor Jesus Cristo, claro, é uma escolha dele, mas não pode entregar o Brasil - porque talvez não seja a escolha de 200 milhões. Maioria manda nos rumos do país, não nos rumos da vida dos outros.

E não quero governante forte demais, pelo contrário: quero alguém fraco o bastante para não conseguir fazer tudo o que gostaria. É justamente para isso, para torná-lo mais fraco, que existem Congresso, Justiça, imprensa, oposição, órgãos de controle - todos podem ser imperfeitos, alguns até repugnantes, mas são a garantia de que o presidente não pode tudo. O mandatário é livre para discordar, recorrer, enfrentar, mas não para arrancar desses contrapesos o poder de contrariá-lo.

Quanto ao meu candidato, seus defeitos seguirão lá se ele vencer - e não esperem que eu me cale sobre eles. Não admito esse contrato maluco de lealdade total a quem recebe meu voto. Sinto pena de quem atravessa quatro anos violentando a própria consciência para defender cada desatino do sujeito que elegeu. É o contrário: se o ajudei a chegar lá, a dívida é dele comigo. A minha é com a próxima eleição. 

PAULO GERMANO

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