quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016



10 de fevereiro de 2016 | N° 18441 
MOISÉS MENDES

A paineira


Contei ao biólogo Flávio Barcelos Oliveira que uma figueira da Avenida Juca Batista, na zona sul de Porto Alegre, é a minha árvore preferida. Flávio é funcionário da Secretaria do Meio Ambiente (Smam) e quem mais conhece as árvores de Porto Alegre.

Quando falei da figueira, ele me disse: eu sei qual é. E sabia mesmo. A figueira está perto da rótula da Serraria e foi mantida sobre a calçada quando alargaram a avenida, há mais de 10 anos. É uma árvore vulnerável.

Se um dia o progresso alargar de novo a Juca Batista, a figueira será ameaçada, mesmo que todos os Flávios da Smam tentem protegê-la. Durante a semana, passo pelo menos duas vezes por dia pela figueira e penso se em algum momento ela não será um estorvo para os carros.

Flávio me ouve e depois me conta a história da sua árvore preferida. É uma das mais belas histórias de árvore que já ouvi. Começa em 1978, quando ele, aos 23 anos, é técnico agrícola da Smam.

Determinam que Flávio examine as copas das árvores da Avenida João Pessoa, para implantação do corredor de ônibus. Sobre a calçada, passando a esquina com a Princesa Isabel, do lado esquerdo de quem vai para o Centro, ele e um colega veem uma muda de paineira de um metro de altura.

A árvore iria crescer e as raízes poderiam estourar a calçada. Decidem cavar e retirar a paineira. No lugar, colocam uma muda de jacarandá. É quando um homem grita da janela do prédio em frente:

– Parem, seus ladrões de mudas. Essa paineira é minha.

O homem desce. Eles argumentam que a Smam cuida do espaço público e que a paineira estaria bem em outro lugar. O homem não aceita. A paineira é dele. Vencidos, os dois retiram o jacarandá, recolocam a paineira no buraco e recomendam que o homem faça uma espécie de proteção com leivas, para que as raízes se acomodem ali.

Seis anos depois, o homem aparece, ao acaso, na sala de Flávio na Smam. Diz que uma paineira está estourando a calçada. O agora biólogo percebe que o dono da paineira não o reconhece e então se apresenta: – Eu era o ladrão de mudas lá de 1978. Mas agora é tarde demais.

O homem vai embora. Mas volta à Smam mais duas vezes para tentar remover a paineira. Os vizinhos viam as raízes como ameaça. A árvore chegara aos oito metros. Flávio resiste e vence. A paineira sobrevive. As raízes se esparramaram e hoje quase tomam conta da calçada.

O biólogo vai se aposentar no dia 18 de agosto, no exato dia em que completará 42 anos de Smam. Essa é a história que mais emociona o protetor das árvores de Porto Alegre. Flávio me disse:

– Depois da tempestade, a primeira coisa que fiz foi ver como ela estava. Está bem. É a paineira mais bonita da cidade. Podem até dizer que não é, mas eu me apaixonei por ela.


10 de fevereiro de 2016 | N° 18441 
PEDRO GONZAGA

PRANTO SUÍÇO

Durante anos, o folclore familiar foi movido pelos apartamentos de Canela.


Minha mãe e minha tia aproveitavam cada showroom em desmanche para comprar coisas para os tais apartamentos, que jamais ficavam prontos. Chegamos a suspeitar, meus irmãos e minha prima, que as duas sofressem de algum distúrbio disparado por lojas de móveis em processo falimentar.

O tempo foi-lhes um desagravo. Os apartamentos se concretizaram e esta crônica é também um pedido de desculpas. Desde então tenho passado os dias de fevereiro em Canela, pois a descobri uma Suíça no tempo das guerras carnavalescas.

Longe de ser contaminado pela febre ziriguidum, sempre me tocou o aspecto melancólico do Carnaval. Quando jovem, eu cantava Um Sonho de Carnaval, do Chico, que terminava com: “Quarta-feira, sempre desce o pranto”. Aquilo combinava comigo. Levou tempo para eu descobrir ser “pano” e não “pranto” ao fim da letra. Cá entre nós, quem não fez dessas? 

Havia um casal que tocava na praça de alimentação do Centro Comercial João Pessoa que era campeão em modificar letras. Na época, fazia sucesso uma canção do Paralamas, Uma Brasileira, com seu refrão One more time (a ser cantado “uã mor tai tai tai”). Pois o casal, talvez insciente da frase em inglês, cantava “um-mum-chá-chá-chá”.

Admito. É feio trazer um exemplo radical para diminuir o próprio erro, mas não era a intenção, até porque preciso confessar: prefiro o meu “pranto” ao figurado “pano” do Chico. Pranto é mais direto. E mais próximo da bipolaridade de uma folia que acaba em cinzas. Bipolaridade que tem no samba seu melhor par. Mesmo no samba-enredo, seguidamente há uma segunda parte de tons líricos, o que deveria ser uma contradição em uma música feita para uma escola desfilar. Pensem em Liberdade, Liberdade, da Imperatriz, em tantos sambas de Vila Isabel ou de Mangueira.

Porque sem essas notas de tristeza, a alegria, como acontece nas aglomerações, tende a se tornar eufórica. E porque eufórica, chata aos que dela não participam, só não mais chata, talvez, do que a crítica feita aos que a ela se lançam.

Uma coisa, contudo, é certa, e trago más notícias de meu asilo diplomático: em Canela ou Salvador, independente do que tenhamos feito, hoje, quarta-feira, sempre desce o pranto.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016



09 de fevereiro de 2016 | N° 18440
ARTIGO - VOLTAIRE SCHILLING*

A PARÁBOLA DOS CEGOS


Contempla-os, ó minha alma; eles são pavorosos!

Iguais aos manequins, grotescos, singulares,

Sonâmbulos, talvez, terríveis se os olhares,

Lançando não sei de onde os globos tenebrosos.

Cruzam assim o eterno escuro que os invade,

Esse irmão do silêncio infinito/Digo: que buscam estes cegos ver no Céu?

(C.Baudelaire – La parabole des aveugles)

Parece ser ainda costume entre artistas, escultores ou pintores deixar a parte final do seu trabalho para um aprendiz ou a um filho que siga a mesma profissão do pai. Assim se deu com a famosa tela do flamengo Bruegel, O Velho, intitulada A Parábola dos Cegos, concluída pelo seu jovem rebento, Jan, em 1568.

A obra não é mais do que uma dolorosa metáfora de uma humanidade trôpega e hesitante que não tem nenhuma ideia do que o destino lhe reserva. Nem onde está nem para onde vai, como tantas vezes assegurou Schopenhauer. São seis figuras miseráveis em roupas remendadas, apoiadas em longos cajados que servem somente para evitar que desabem, mas que de nada servem para orientar-lhes o caminho adiante. Seria a poderosa e patética imagem também uma crítica aos líderes ou profetas que, desatinados, como tantos que existiram nos derradeiros séculos, levaram as multidões ao abismo?

E que perfeita metáfora da situação do Oriente Médio dos dias de hoje, onde os cegos da região, caminhando numa senda histórica começam a desabar um a um, desde que o primeiro resvala e tomba de costas, arrastando os demais levantinos às guerras, à destruição e ao sofrimento como há séculos não se via! Executam, ainda que sem o saber, a bela, mas terrível Sonata Trilha do Demônio, de Giuseppe Tartine.

Mesmo quando procuram amparar-se uns nos outros, seus pavorosos glóbulos sem cor alguma e que de nada servem não miram a terra, mas sim o céu, como se a solução para a tragédia que se empenham em piorar viesse das moradas divinas. Sunitas contra xiitas; seculares contra ortodoxos; militares contra civis; curdos contra todos, rivalizando-se em quem melhor se concentra em matar, explodir ou mutilar com mais intensidade o seu irmão muçulmano, ou de seita inimiga.

Historiador*



09 de fevereiro de 2016 | N° 18440 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

O BEIJO NA PAREDE

Estava devendo a mim mesmo uma leitura que resultou muito boa e muito auspiciosa: o romance O Beijo na Parede, de Jeferson Tenório (editora Sulina). O livro saiu em 2013, eu deixei para ler depois, outros livros furaram a fila. Mas eis que finalmente encontrei as horas necessárias, e fui muito feliz na leitura.

O tom do relato lembra o de Holden Caulfield, do Apanhador no Campo de Centeio, o clássico de J. D. Salinger, em que um adolescente de classe média toma a palavra para contar sua história desviante. O livro virou um clássico em parte pela voz mesmo, pela força com que soube representar o ponto de vista e a linguagem daquele jovem.

Mas o livro do Jeferson tem como protagonista o João, com seus inacreditáveis 11 anos e uma vida de privações inimagináveis para Caulfield. Nascido no Rio, de mãe negra e pai branco (este, gaúcho de origem), ele perde a mãe no Rio e o pai quando já mora em Porto Alegre. 

O que vem pela frente é pura dureza: será mais ou menos adotado por uma prostituta (que apanha do cafetão), convive com um travesti e com dois velhos muito próximos da morte num cortiço imprecisamente localizado entre a Voluntários e a Farrapos, e compartilha a vida na rua com amigos de história parecida com a sua, o Pouca Força e o Breno.

A sucessão dos episódios – entre o cortiço, um terreiro, a rua da Praia, um súper, o boteco do seu Joaquim – obedece à força do acaso, que rege a vida de quem nada tem e depende mesmo da sorte. Por isso mesmo, não há um enredo progressivo, mas uma vida estacionada ou em decadência, embora o clima da narrativa se adense no terço final, alcançando um desfecho significativo, que não cabe comentar aqui para não estragar o gosto do leitor que vier chegando.

Minha única restrição talvez nem tenha muito sentido, ou tem um alcance muito restrito: contado em primeira pessoa pelo próprio João (as cenas em que ele passa fome são particularmente duras), o romance se articula numa linguagem de vez em quando inverossímil para o menino que ali fala o que vive e vê. Mas o próprio gesto de contar tem seu quê de não realista – para quem, afinal, um guri miserável e desamparado vai falar? Quem o ouve?

Estreando muito bem na narrativa longa, Jeferson Tenório dá folgadas mostras de ter tino e tutano para dar voz a personagens significativos, e mais notáveis ainda por serem gente sem voz audível pelas classes confortáveis na vida cá fora da ficção. O que vem por aí?


09 de fevereiro de 2016 | N° 18440 
DAVID COIMBRA

A sabotagem

A esquerda é feminina. A direita, masculina.

Há quem defina a esquerda como “paternalista”. Não. A esquerda é maternal. A esquerda quer consolar, conceder e mimar, como uma mãe. A direita, sim, pretende ser disciplinadora, como um pai.

Claro, tudo isso em tese. Tudo isso levando em conta os estereótipos de pai e mãe, de direita e esquerda.

Seria ótimo, se fosse tão simples. A realidade prática é mais confusa e sofisticada. Ou, para empregar o termo da moda criado pelo filósofo polonês Bauman, a realidade prática é “líquida”.

Em determinadas realidades, governos mais à esquerda ou mais à direita não se tornam problema, ao se sucederem. Essas determinadas realidades ocorrem se a democracia representativa está consolidada. Até porque as crises econômicas são cíclicas. Logo, a democracia tem de sobreviver a elas.

Nos Estados Unidos, quando o mercado lambuzou-se com liberdade demais, causando a depressão de 1929, o país lançou mão da esquerda. Roosevelt assumiu, fez uma administração quase socialista, o Estado regulou o mercado e o país se reergueu.

Mais tarde, nos anos 1980, a direita foi chamada tanto nos Estados Unidos, com Reagan, quanto na Inglaterra, com Thatcher. Ele e ela, aliás, eram amigos, conversavam sempre, partilhavam estratégias. Ambos abriram as economias de suas nações, permitindo o crescimento do mercado e o aumento da riqueza. Externamente, pressionaram tanto os países que estavam “atrás da Cortina de Ferro”, na definição de Churchill, que a cortina rasgou e a União Soviética se desuniu.

Ora governa um mais à direita, ora governa um mais à esquerda, e fica tudo bem. Não é o fim do mundo. Um governo mais para lá ou mais para cá vai corrigir rumos ou distorcê-los, mas jamais mudará o sistema que faz a sociedade funcionar. O pacto social é aceito e compreendido, e esse pacto se expressa através da lei.

No Brasil e na América Latina não existe esse entendimento. São outras realidades. Na América do Sul os governos são sempre de salvação nacional.

Dias atrás, li uma entrevista do frei Leonardo Boff em que fica plasmado o pensamento atrasado que permeia a intelectualidade sul-americana. Boff foi fazer uma crítica ao PT e errou em tudo. Toda a sua análise foi torta, porque seu ponto de partida é torto. Boff já sai errando quando faz uma comparação impossível, do Brasil com a Bolívia – o Brasil é mais parecido com os Estados Unidos do que com a Bolívia. 

Depois, ao concluir que o problema do PT foi o presidencialismo de coalizão, Boff não tenta fazer uma correção da democracia representativa; tenta sabotar a democracia representativa, afirmando que o PT devia ter governado com os “movimentos sociais” e não com o parlamento. No Brasil é assim: ou servem-se do sistema os que estão em cima ou servem-se do sistema os que estão embaixo. Ninguém imagina que o sistema deveria servir a todos.

Esse desapreço à democracia representativa é o que torna a América Latina o que ela é. Não são as formas de governo da direita ou da esquerda. São as tentativas de solapar o sistema por fora ou por dentro. Por fora, a democracia é vitimada por golpes de força, como os de 1964 e de 1930 no Brasil. Por dentro, é vitimada pela metástase de um partido ou de um governo pelo corpo do Estado, como sugere Boff e, aliás, fez o PT.

Mas isso é política. Não é a política que faz do Ocidente cada vez mais uma civilização feminina. No próximo texto, juro que digo o que é.



09 de fevereiro de 2016 | N° 18440 
MÁRIO CORSO

Entrevista com o Diabo


Mário Corso – Obrigado pela oportunidade dessa palavrinha conosco durante seus compromissos de Carnaval.

Diabo – Imagina! Sempre às ordens.

MC – Por que motivo odeia tanto a espécie humana?

Diabo – Nada de especial. Quando é maldade mesmo, das boas – das boas para mim, é claro –, ela é desmotivada. Maldade para valer tem que sair do nada, ser totalmente imprevisível. Essa coisa de ter um inimigo íntimo, perseguir, é muito humana. Meu ódio é profissional. Não me apego às vítimas.

MC – Mas não gosta de nós?

Diabo – Tampouco desgosto. Apenas a maldade é meu negócio. Vamos ver se fica claro: essa questão de castigo merecido, julgamento final, equilíbrio cósmico da justiça, isso é coisa de Deus. Até faço uns frilas para Ele com essa demanda. Às vezes Ele me pede: “Vai lá e ferra com fulano”. Vou e faço, mas isso é business. Não chega a me desagradar, mas não é meu estilo. Aliás, Ele tem uma Paciência com vocês... Admiro o Cara, eu não teria.

MC – Rola um prazer nessas malvadezas todas que nos faz?

Diabo – Às vezes, mas nada planejado, a gente nunca sabe quando vem. Certas coisas dão muito certo e fica um arranjo legal, tipo muito dano com pouca energia. Essa eficácia maléfica me deixa contente. É a satisfação do estrago benfeito.

MC – No passado, reinava sozinho, hoje temos vampiro, zumbi, serial killer. Como é aguentar a concorrência?

Diabo – Sim, é duro para o ego. Saudade do tempo em que tudo de ruim era comigo. Mas o que realmente me preocupa são vocês entrando na minha seara. Genocídios, bomba atômica, drones com explosivos, torturas, a destruição sistemática do planeta. Para mim, o ápice do desatino é o homem-bomba. Essa demência nunca tinha me ocorrido, vocês me superaram, parabéns!

MC – Esses novos tempos o deixam com alguma apreensão?

Diabo – Sim, vocês a cada dia precisam menos de mim para serem infelizes. Talvez eu, por desnecessário e superado, possa ficar desempregado. Por exemplo, os odiadores que babam fel na internet são o meu orgulho, por outro lado é uma concorrência.

MC – Algum conselho para os humanos?

Diabo – Claro que não, vão para o raio que os parta! Quer dizer... se quiserem me fazer um obséquio: aproveitem o Carnaval para dirigirem bêbados, me poupa trabalho.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016



08 de fevereiro de 2016 | N° 18439 
MOISÉS MENDES

DELATOR DESONESTO


Uma ideia de quem não tem o que fazer no feriadão: a atividade de delator deveria virar profissão e ser regulamentada. Só poderia ser delator profissional quem já tivesse feito pelo menos cinco delações certeiras. Um delator, para ter carteira com número no Conselho Regional dos Delatores, teria de ralar muito.

Claro que nem todos chegarão ao primeiro time de um Alberto Youssef, o doleiro que há anos vive da delação, mesmo que seja um meio delator. Youssef delata para todo lado, mas quase sempre falha ao apontar seu dedo para os tucanos.

Foi Youssef quem disse que seu compadre, o deputado José Janene, mandava R$ 300 mil por mês a Aécio Neves, num período entre 1996 e 2000. Youssef buscava o dinheiro com Dimas Toledo, diretor de Furnas, que recebia a grana da Bauruense, empresa fornecedora da estatal. O doleiro já contou e recontou que carregava dinheiro vivo em mala.

Levava para o compadre, e esse dizia que iria repassá-lo a Aécio. Dimas seria o infiltrado do PSDB na estatal. É o que todo mundo diz. Mas Youssef não dá provas do que conta. Sem provas, fica difícil investigar qualquer coisa, ainda mais contra gente do PSDB. E Janene está morto desde 2010.

Outro delator, Carlos Alexandre Rocha, o Ceará, disse que Aécio era “o mais chato” na cobrança de propinas da empreiteira UTC. E mais outro delator repetiu a história de Youssef na semana passada, o lobista Fernando Moura. Ele contou em delação que Aécio ficava com um terço da propina gerada em Furnas.

Aécio desqualificou o homem. Disse que o que ele fez “é algo absurdo, é algo criminoso” cometido por “réus confessos, que se limitam a lançar suspeições absurdas, sem qualquer sustentação”. Segundo Aécio, Moura defende “interesses inconfessos”.

Delatores com ficha suja deveriam dedurar apenas as quadrilhas do PT, do PP e do PMDB na Lava-Jato. Contra o PSDB, somente seriam aceitas delações de pessoas ilibadas, de freiras e monges. Então, que se profissionalize a delação, e os delatores amadores não prosperem. Que sejam eliminados os maus delatores do mercado.

Também é preciso estabelecer um Código de Conduta dos Delatores, para que fique escrito que delator sério não delata tucanos. Se delatar, que seja suspenso da atividade até as eleições de 2018, para que não tumultue o pleito.

É hora de dar um basta na onda de delações contra gente que nunca corrompeu ou foi corrompida. Delatores sem ética e escrúpulos devem ser delatados já pelo Sindicato dos Delatores Honestos e Similares.

08 de fevereiro de 2016 | N° 18439 
DAVID COIMBRA

O Ocidente efeminado

Alemães saíram às ruas aos milhares, neste fim de semana, para protestar contra os imigrantes muçulmanos e a “islamização” da Europa. Trata-se de um movimento de raiz xenófoba que, nos últimos anos, só cresce no Velho e bom Mundo. Corresponde, talvez, a essas coisas de Trumps nos Estados Unidos e Bolsonaros no Brasil.

Há quem diga que é o “ressurgimento da direita”. Não é. Tem a ver com a feminilização do Ocidente.

As pessoas se confundem, quando pensam em termos de “esquerda” e “direita”. Econômica e politicamente, esquerda e direita podem ser compreendidas quando você contrapõe outras duas forças que, quase sempre, têm de coexistir: o Estado e o mercado.

A possibilidade de o mercado não existir só se dará se você atingir o comunismo perfeito, que é uma ficção.

A possibilidade de o Estado não existir só se dará se você atingir o anarquismo perfeito, que também é uma ficção.

Salvo essas duas exceções, que, aliás, são bastante implausíveis, o mercado e o Estado precisam conviver, e convivem. É aí que se dá o jogo de pressão e contrapressão entre a direita e a esquerda.

Você pode traçar uma linha, colocando numa ponta o Estado e na outra o mercado. Quanto mais perto do Estado você estiver, mais à esquerda você estará. Quanto mais perto do mercado, mais à direita.

Isso num mundo teoricamente ideal. O problema é que a realidade teima em bagunçar a teoria.

Veja o caso do Brasil. O governo do PT é de esquerda. É a favor do Estado forte e interventor. Mas o governo militar, de direita, também era a favor do Estado forte e interventor. Mais: as características de ambos os governos são idênticas. Os dois são nacionalistas, estatizantes, desenvolvimentistas e administram o bem social por programas. Só que um está na ponta esquerda e outro na ponta direita daquela nossa linha.

Como se explica esse fenômeno?

A resposta poderia ser encontrada no que dizia um velho ídolo da direita, o senador Roberto Campos, que a esquerda apelidou de Bob Fields, por sua admiração pelos Estados Unidos.

Roberto Campos, que foi ministro e embaixador no governo militar, criticava o governo militar. Afirmava que o Brasil nunca havia sido verdadeiramente capitalista, e sim que o capitalismo brasileiro era “patrimonialista”. E é. O capitalismo brasileiro jamais foi realmente capitalista, foi sempre “socialista patrimonial”, devido à proteção estatal dada ao grande capital. É fácil se dizer capitalista quando você não corre os riscos inerentes ao capitalismo.

Agora veja outra aparente contradição: Bernie Sanders, pré-candidato dos Democratas a presidente dos Estados Unidos, se diz socialista, e faz quase que o mesmo raciocínio de Roberto Campos. Sanders é um feroz crítico à proteção que o Estado americano oferece ao sistema financeiro. Isto é: aos bancos. Sobretudo os grandes bancos.

Sanders propõe que novos impostos cobrados dos bancos financiem a universidade da classe média americana. Assim, o sistema de Educação nos Estados Unidos estaria todo garantido pelo Estado, já que, nos antigos primeiro e segundo grau, as crianças recebem até o material escolar de graça (mochila, lápis, caderno, o meu filho ganhou tudo da escola).

Curiosamente, esse é um instrumento tido como socialista. Nos Estados Unidos, o campeão do capitalismo! Como pode? Para aumentar a confusão, do outro lado do mundo aparece a China, furioso comunismo maoísta até 1978, quando Deng Xiaoping decretou que “enriquecer é glorioso”. Então, a China tornou-se um híbrido: politicamente comunista, economicamente capitalista.

Mas será que é assim mesmo? Vou tentar destrinchar isso tudo no próximo texto, e falar, afinal, da feminilização do Ocidente.



08 de fevereiro de 2016 | N° 18439 
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

QUANDO A SÉRIE PISA NA BOLA


Ballers é da HBO, o que costuma significar alguma coisa entre o bom, o muito bom e o daí pra cima. Ballers também é uma série sobre aquela coisa vagamente situada entre um conflito nuclear e a monotonia absoluta, também conhecida com futebol americano.

Pois Ballers, caros amigos, é sobre um esporte no qual todo mundo anda em uniformes blindados, e o jogo dura enquanto o time não estiver estirado sobre o campo com alguma concussão. É uma série sobre algo que talvez seja um tanto estrangeiro demais, e por isso não funcione tão bem, ao menos pra gente. Quando eu morava nos Estados Unidos, via o povo correndo pra lá e pra cá com uma bola ovoide, uma contradição em termos, e usando as mãos pra algo que deveria ser jogado com o foot, se nomes servem pra alguma coisa nesse mundo. O tal football é tão americano que só eles mesmos, e olhe lá.

Pois a HBO resolveu fazer uma comédia sobre o football, e eu acho que o resultado não chega a ser uma série. Série sobre guerra já houve, e boa, alguém lembra de M.A.S.H.? Football é uma guerra sem tiros, apenas pancada, e talvez por isso não renda tanto na tela, sei lá. O que eu acho é que não acertaram no tom. A série me parece muito sexista pra essa época. As maria-chuteiras de lá são parecidas com as de cá, e o problema é que praticamente só o que eles mostram é essa categoria de moças. 

Pensando bem, acho que nunca houve filme ou série sobre algum esporte ou jogo que resultasse em algo mais do que uma tentativa de glorificar jogo e jogadores. Ballers vai por aí, e vocês podem ver se quiserem, porque vivemos em uma democracia e a tevê é território livre. Vão e vejam, e depois a gente se fala.


08 de fevereiro de 2016 | N° 18439 
L. F. VERISSIMO

Históricos 2

Há dias escrevi que as próximas eleições presidenciais americanas seriam históricas por vários motivos, e esqueci de citar alguns motivos. As campanhas já estão sendo históricas. Pela primeira vez, além de uma mulher, candidatos “latinos” concorrem à nomeação pelo seu partido, no caso deles o partido Republicano, que nunca teve os votos do eleitorado latino. E nem Ted Cruz, nem Marco Rubio estão fazendo feio nas pesquisas de intenção de voto. 

Cruz teve mais votos do que Donald Trump e venceu uma recente eleição “primária”, um pré-pleito estadual que não decide nada, mas serve para testar a disposição do eleitorado, no momento. Sua vitória mostrou que o favoritismo disparado de Trump para ser o candidato Republicano não era tão disparado assim.

Fora seus sobrenomes, a latinidade de Cruz e Rubio não significa muita coisa. Nenhum dos dois representa os interesses da comunidade, ambos são pelo controle da imigração e outras posições conservadoras com relação a minorias raciais. Enfim, não concorrem pela raça. É verdade que o conceito de raça, nos Estados Unidos, torna a categorização por cor complicada. 

(Para os americanos, a Gisele Bündchen não é branca, é “hispânica”.) E grande parte dos imigrantes tende a ser tão conservadora quanto a direita nativa, e seus filhos e netos preferem integrar-se a ser uma comunidade.

Bernie Sanders não faria história, se eleito para a presidência do país pelo Partido Democrático, apenas por ser um socialista declarado. Seria, acho eu, o primeiro presidente americano a tomar posse com quase 80 anos de idade. Seu mandato seria previsivelmente curto. E ele faria bem em seguir a receita de Ronald Reagan para a longevidade e um governo tranquilo: longas sestas, longas sestas...

Se havia dúvidas sobre a legitimidade do socialismo e as credenciais de Bernie Sanders para fazer história na Casa Branca, temos agora o depoimento de Lloyd Blankfein, que numa entrevista acaba de declarar que a eleição de Sanders seria um “momento perigoso” para a América. Quem é Lloyd Blankfein, você pergunta? 

É o CEO da Goldman Sachs, também conhecida como “a suspeita de sempre” quando se fala em falcatruas financeiras. Ela ajudou a quebrar a Grécia, e aparece com destaque no filme A Grande Aposta, sobre a fraude bancária que abalou o mundo, não faz muito. E está com medo do Bernie.

sábado, 6 de fevereiro de 2016



07 de fevereiro de 2016 | N° 18438 
MARTHA MEDEIROS

As enjambradas


Sempre destoei em festas, e no Carnaval infantil não era diferente

Ela era uma menina do interior e nunca tinha ido a um baile de carnaval nem sabia direito o que era. Até que chegou o dia. Colocaram nela um vestidinho colorido, um adereço qualquer na cabeça, deixaram que ela se maquiasse um pouquinho e a levaram ao baile, não sem antes passar na casa das primas, que iriam juntas. 

Ao chegar lá, a menina deparou com duas rumbeiras trajadas com vestidos longos, muitos babados, brilhos, turbante, pedrarias. As primas pareciam que iriam a uma festa de gala, enquanto a menina estava apenas enfeitadinha para pular e dançar o que aconteceu com algum muxoxo, visto que todos os foliões também estavam neste nível Clovis Bornay de luxo, ao menos aos olhos dela, a enjambrada.

Sei bem o que ela sentiu. Quando criança, eu também era a enjambrada nas comemorações de São João do colégio. Enfiava um chapeuzinho de palha e bora ser feliz, mas como? As meninas iam todas vestidas de prenda e com tranças que caíam pela cintura (acho que já existia aplique naquela época). Enquanto isso, eu era a própria caipira, de fato.

Sempre destoei em festas, e no Carnaval infantil não era diferente. Quase em todos os bailes fui fantasiada de índia (physique du rôle) e não duvido que achassem que eu era mesmo da tribo dos caingangues, pois enquanto usava um pano cru, fazia umas pinturas no rosto e colocava uma pena na cabeça, as outras índias vestiam trajes 100% camurça e tinha índia até de cetim. Eu era como aquela menininha do interior a quem bastava o espírito da diversão para fazer a festa funcionar, até descobrir que a vida em sociedade não é bem assim. Aliás, comentei? Aquela menina do primeiro parágrafo era minha mãe.

E como cultura familiar é um troço poderoso, aconteceu de eu ter duas filhas que quando crianças também iam a festas à fantasia e adivinhe: por mais que eu tenha tentado romper o ciclo das enjambradas e as ajudasse a se transformar nas odaliscas e fadinhas mais lindas do universo, não adiantava: sempre havia as famigeradas “rumbeiras” soltando purpurina pelos ouvidos e ofuscando o resto da criançada com uma quantidade cavalar de paetês.

Até hoje, não me sinto eu mesma quando me arrumo para uma grande festa (em que toda mulher se “fantasia”, de certa forma). Sempre me acho mais bonita de jeans do que a bordo de um modelito Jessica Rabbit. Antes de sair de casa para uma cerimônia de casamento, uma entrega de prêmio ou qualquer coisa que exija um visual causador, me olho no espelho e penso: valeu a tentativa, garota. Só que a imagem não me reflete. 

Sou boa no quesito adequação, ou seja, sigo corretamente o dress code de cada evento, mas obediência, apenas, não adianta. Está no sangue a alma de menina enjambrada. Só a simplicidade traduz perfeitamente o que me vai por baixo da pele.


07 de fevereiro de 2016 | N° 18438 
MOISÉS MENDES

Os 10 leitores de Tyrteu


O Brás Cubas de Machado de Assis admite, meio blasé, meio resignado, que suas memórias talvez viessem a ter, quando muito, uns cinco leitores. O poeta gaúcho Tyrteu Rocha Vianna também era econômico. Contentava-se com apenas 10 leitores. Fazendeiro e advogado, de família rica de São Francisco de Assis, Tyrteu mudou-se para Alegrete nos anos 1950.

Andava com dois cachorros pelas ruas. Todos sabiam que era excêntrico, solteirão e alcoólatra, mas raros sabiam que era poeta. Pois apenas 10 pessoas escolhidas teriam seu livro de poemas. Em 1928, aos 30 anos, publicou Sacco de Viagem pela Livraria do Globo, com tiragem de 10 exemplares. Quase ninguém ficou sabendo.

O jornalista carioca Alceu Amoroso Lima, famoso crítico literário com o pseudônimo Tristão de Ataíde, comentou o livro. Em 1930, no terceiro volume de ensaios Estudos, Tristão informa que o poeta é “um satirista, um demolidor, que banca o cínico e irrita muitas vezes, mas que não é banal”. Tyrteu, diz o crítico, “imita o sr. Oswald de Andrade”.

Estava ali um modernista a ser observado. Poucos leram o livro e poucos devem ter lido Tristão sobre o “sarcástico antropóphago” gaúcho. O poeta Itálico Marcon leu a crítica, 30 anos depois da publicação de Estudos.

Mas onde achar um exemplar de Sacco de Viagem? Marcon tinha desistido quando, nos anos 1970, ao mexer na biblioteca do escritor Antônio Carlos Machado, em Passo Fundo, o livrinho de 23 poemas saltou da prateleira.

Tyrteu havia morrido em 1963, aos 65 anos. Marcon conseguiu publicar Saco de Viagem (agora só com um “c”), em 1993, pelo Instituto Estadual do Livro/EdiPUCRS. Tyrteu não queria (será mesmo?), mas seria lido por mais de 10 pessoas.

O modernista escondido, cujo nome, registrado em cartório como Tyrteo, era uma homenagem do pai ao poeta grego Tirteu de Esparta, foi editado mesmo 30 anos depois de morto. Marcon – na edição do IEL – e Luís Augusto Fischer escreveram sobre o livro. Falam de um escritor transgressor, criado no campo, de bota e bombacha, mas ao mesmo tempo um dândi em ternos de linho branco, que morou no Rio.

Descobre-se que o lírico Mario Quintana tinha um meio conterrâneo atrevido, ou “uma figura” – como disse Fischer – “totalmente imprevisível, em forma e fundo”.

Tyrteu Vianna escrevia assim (no poema Alegrete): A Arábia pétrea / Reedificada por cima do fogão / Da coxilha da cozinha purgatorial / Do diabo rengo em pessoa / Suados suando suores / Em trajes meio menores / Ponte do Ybirapuitã / Atravessando o rio e a História do Rio Grande / Café vitrolortofonizado / Londres do futuro / Pecuaríssima / Cabeça / de / comarca.

Marcon é o descobridor do moço debochado que andou na contramão de regionalismos e simbolismos exacerbados e publicou só aquele Sacco de Viagem. Nunca foram encontrados inéditos seus. Tyrteu morreu pobre e não deixou nada além do livro em que junta e inventa palavras e brinca com sons.

Assumi com Fischer: vamos identificar os 10 contemplados com a edição de 1928, que teve cada exemplar marcado com letras de “a” a “j”. O próprio Fischer é dono do exemplar “f”, que ganhou do professor e crítico literário Flávio Loureiro Chaves. Flávio ganhara o livro do jornalista Carlos Reverbel.

Tem o livro que Antônio Carlos Machado doou a Itálico Marcon. O contista Sergio Faraco ganhou o exemplar “i” do tio Aluízio Azevedo, amigo de Tyrteu, e nos anos 1970 deu de presente ao mesmo Marcon, que depois o repassou com seu acervo para a biblioteca da Fiergs.

O fazendeiro Clotário Fouchard, casado com uma prima de Tyrteu, deixou o seu exemplar para o neto, o advogado Luiz Mário Pimenta Filho (fiquei sabendo disso, por acaso, numa troca de e-mails com Luiz Mário, no ano passado). E tem ainda o exemplar de Alceu Amoroso Lima, que Tyrteu deve ter enviado ao Rio. Faltam cinco exemplares. Quem tiver pistas, que nos avise.


07 de fevereiro de 2016 | N° 18438 
DAVID COIMBRA

Velhos Carnavais


Agora, aqui, olhando para a neve que flutua em flocos do tamanho de uma moeda de um quarto de dólar, tornando branca a paisagem da Nova Inglaterra, agora, aqui, a suspirar, lembro de velhos Carnavais.

Nós temos um grupo no Facebook, nós, antigos foliões do célebre Bloco Carnavalesco Ala-la-ô, de Cachoeira do Sul. Éramos cerca de 35 meninos e 55 meninas, a proporção de gêneros exata para que um bloco de Carnaval faça sucesso. E o Ala-la-ô fez sucesso, oh, sim.

Talvez bebêssemos demais, naquele tempo. Lembro do Café (apelido para CArlos FErnando) sempre com um enorme abacaxi na mão. Ele não era vegetariano: o abacaxi estava sempre cheio de vodca. Uma vez, alguém roubou a garrafa de uísque do Meia (apelido para Zé ColMEIA), e ele ficou muitíssimo magoado. Foi ao microfone do sistema de som montado pelo estudante de engenharia Rocha e pediu que devolvessem a garrafa. Não pela bebida, mas “por razões sentimentais”. Ou será que a garrafa não era do Meia, e sim do Iba (apelido para IBAnez)? Pode ser...

O fato é que as concentrações eram tão empolgantes, que abalavam a estrutura organizacional do bloco no momento do nosso “desfile” no salão do Rio Branco. Sempre nos atrasávamos para a entrada no clube. Chegávamos entre duas e três da madrugada, com desfalque de integrantes que haviam ficado pelo caminho para beber mais uma cerveja, para ir atrás daquela moreninha fantasiada de índia ou porque simplesmente tinham decidido continuar na concentração para colocar mais vodca no abacaxi.

Essas questões logísticas nos faziam perder campeonatos para o mais disciplinado Bloco do Sol, nosso maldito arquirrival. Uma noite, ganhamos uma tacinha do tamanho de um celular, tipo “bloco simpatia”. O Gilson, sempre tão quietinho, se enfureceu e sapateou em cima da taça, sendo retirado à força pelos seguranças. Gritava, enquanto era arrastado para fora:

– Roubados! Fomos roubados! Golpe!

Sim, tinha sido um golpe sórdido. Aqueles caras do Bloco do Sol não passavam de uns coxinhas dos anos 1980.

Fui vitimado por uma devastadora e roaz paixão de Carnaval no Ala-la-ô, e todos sabemos que as paixões de Carnaval são as mais devastadoras e roazes. Mas sabe que o maior enigma dos meus Carnavais nem foi o que havia por detrás do verde enigmático dos olhos daquela menina? Não. Foi o que me ocorreu em outro Carnaval, com uma moça de quem nem lembro o nome. Contei essa história faz tempo, mas o mistério ainda não se desfez. Quem sabe alguém, agora, me ajudará a desfazê-lo.

Conheci-a num baile do Zequinha, de Porto Alegre. Ela era morena e tinha a pele macia. Usava uns shorts curtos. Sorria um sorriso de luz. Nos beijamos na primeira noite e, ao nos despedirmos, ela sussurrou com a voz morna das promessas quentes:

– Esta manhã... vem me ver... no meu apartamento...

Uh! Gol do Brasil!

Ela morava no Jardim Lindoia. Cheguei todo faceiro, pronto para o amor. Ela me recebeu vestindo uma calça apertada e um olhar sério. Mal entrei, observou:

– Eu estou com o cabelo molhado.

Olhei para o cabelo dela. Realmente. Estava molhado. Achei que devia comentar alguma coisa, mas não soube o quê. Peguei em sua delicada mãozinha, pretextando romance. Mas ela se esquivou e perguntou:

– Sabe por que estou com o cabelo molhado?

Pisquei: – Ahn... Não... Tentei beijá-la para mudar de assunto, mas ela se afastou e repetiu:

– Sabe por que estou com o cabelo molhado?

Calculei que fosse alguma sugestão maliciosa. Falei, meio de viés:

– Hmmmm... posso imaginar mil coisas para fazer com seu cabelo molhado...

E já fui me chegando, mas ela de novo me driblou e tascou:

– O que você faria com o meu cabelo molhado?

Hesitei. Fiquei fazendo aaaahn para tentar ganhar tempo. Ela tornou, inflexível:

– Sabe por que estou com o cabelo molhado? Sabe por que estou com o cabelo molhado?

Eu não sabia. Fui embora sem saber. Não sei ainda. E, a cada Carnaval, me questiono, à procura de uma resposta: por que aquela desgranida estava com o cabelo molhado?



07 de fevereiro de 2016 | N° 18438 
ANTONIO PRATA

De SP pro RJ pra SP pro RJ pra...


Quando li a enésima notícia de taxistas espancando motoristas do Uber, em SP, chamei imediatamente um Uber e falei: “Toca pra Ipanema!”. Em Ipanema, o recepcionista do hotel disse que não conseguia encontrar minha reserva online, mas que se eu o ajudasse a ajudar-me ele poderia estar me ajudando a ajudá-lo, o que compreendi que significava lhe dar duzentão ali mesmo, de modo que entrei num táxi e falei: “Toca pro Santos Dumont!”.

O taxista fez Ipanema – Santos Dumont passando por Belford Roxo, Niterói, Quixeramobim, Lima e Bogotá. Chegando ao aeroporto, 11 meses depois, vendi pela internet meu carro, minha alma e um poncho de alpaca comprado no Peru, paguei a corrida de R$ 189 mil e embarquei para São Paulo.

Chovia em SP, Congonhas estava fechado, pousamos em Cumbica, seis e meia da tarde, aluguei um carro e depois de nove semanas e meia parado na Marginal Tietê entre um ônibus da Mancha Verde e uma SUV com adesivo do Russomano, tive um ataque de pânico, larguei o carro no acostamento, cruzei o Tietê escalando uma adutora da Sabesp e peguei uma carona pro Rio, do outro lado.

Sentei no Bar Lagoa, chamei o garçom, ele não veio. Chamei de novo. Ele não veio. Depois de sete horas chamando, ele veio: disse que eu não podia ficar ali sem consumir e me botou pra fora. A sede era tanta que fui andando até um bar na Oscar Freire, em São Paulo. 

Os vallets ficaram desorientados ao ver um cliente chegando a pé, o segurança consultou o gerente para saber se era permitida a entrada de pedestres, mas como sou branco e tenho cabelo liso, acabaram me sentando. Sete garçons me atenderam. Vestiam camisa de seda, gravata, sapato italiano, mas não eram registrados, não recebiam horas-extras nem os 10%, que ficavam pro dono. Eu ia pagar a conta e fugir pro Rio numa bicicleta do Itaú, mas um chope mais couvert deu R$ 489 e para não acabar no Serasa precisei arrumar um emprego.

Consegui um trabalho na Berrini. Minha patroa anoréxica não via o filho há dois anos por causa de um job top que estava managing alinhada com uns coworkers numa joint-venture de um fund com uma kickstarter de apps para incubadoras, o estagiário de 19 anos já tinha rugas e cabelo branco, almoçavam shake de proteína e injetavam Redbull na jugular. Fiz uma asa-delta com clipes e post-its e saltei do alto do prédio.

Ia pousar em Copacabana, mas fiquei apavorado com 200 paparazzi fotografando a vice-miss bumbum 2011 de bruços na areia (“Bunda na nuca!”, seria a legenda do Extra), fiz meia volta pra SP, ia pousar na Paulista, mas fiquei apavorado com 200 PMs espancando praticantes de Tai chi chuan (“adeptos da técnica ninja black bloc”, seriam as aspas do capitão), peguei um vento leste, subi acima das nuvens e tô pensando se tento um pouso em BH ou se sigo o rumo do padre dos balões -- um homem que, à época, todos julgamos lunático, mas que agora me parece apenas um visionário à frente do seu tempo.

* Texto descaradamente chupado de N.Y.C. to L.A. to N.Y.C. to L.A., ad infinitum, de Cirocco Dunlap, publicado na revista New Yorker, 1/2/16. Pela sugestão do texto e do plágio, agradeço ao amigo cariolista (ou paulistoca?) Charly Braun.

07 de fevereiro de 2016 | N° 18438 
L. F. VERISSIMO

Fofo

No dia em que completaram 35 anos de casados, Valdir perguntou a Eunice:

– Posso lhe pedir uma coisa?

– Claro, fofo. – Não me chama mais de fofo. – Ai, fofo! Por quê?

– Porque eu não quero mais. – Mas fofo... – É ridículo.

– É um apelido carinhoso. Por que você nunca reclamou antes?

Era verdade. Todos aqueles anos sendo chamado de fofo, desde o tempo de namorados, e Valdir nunca se queixara. E agora aquela rebelião.

– É o efeito cumulativo, entende? – disse Valdir, sem certeza se ”cumulativo” estava certo. – Não quero mais.

– Mas todo mundo chama você de fofo.

– Chamam porque você chama. É gozação. Devem rir muito de nós, nas nossas costas. Devem pensar que eu também chamo você de fofa, na intimidade. Para eles, somos “os fofos”.

– Você nunca me chamou de fofa.

– Porque nós não somos fofos, Eunice. Somos de uma raça cheia de defeitos, condenada ao desespero e à morte, sem nada que nos salve. Nosso caráter é inconfiável, nosso destino é trágico, somos tudo menos fofos.

– Valdir, eu nunca vi você amargo assim!

– Pois agora está vendo como eu não sou fofo. Ninguém é fofo.

– Mas você não acha que a gente deveria... deveria...

– Deveria o que, Eunice?

– Deveria viver como se fôssemos fofos? Pelo menos um para o outro?

– Você quer dizer viver uma mentira?

– Não, mas também não desistir. Se fingir de fofos para não acabar desse jeito, amargos como você, depois de trinta e cinco anos.

– A vida é um absurdo, e nada faz sentido.

– Viu só como você ficou, fofo? – Fofo, não.

– Como é que eu posso chamar você, então?

– Dico. – Dico?! – Era como a minha mãe me chamava...

– Dico. E olha aí, você ficou comovido! Que fofura.



RUTH DE AQUINO
04/02/2016 - 21h26 - Atualizado 04/02/2016 21h26

O Carnaval do trá-trá-trá

Nesse triplex tem elevador/Dona Marisa foi quem decorou/Se Lula não quer morar, eu vou

Pode ser nossa última chance de brincar para valer ou de comer frango, que aumentou 36% em um ano e forçou o brasileiro a comprar só coxinha (sem trocadilho) e asinha. Por que, então, essa gente mal-humorada critica o Carnaval como se fosse o ópio do povo? E se for? Deixa o pessoal rir da maior queda na produção industrial em 13 anos. Puxa vida. Esta semana a gente esquece os “pobremas” e lava a jato para baixo da consciência todas as preocupações.

Vamos cantar a marchinha de um bloco de Olinda: Nesse triplex tem elevador/Dona Marisa foi quem decorou/A OAS também reformou/Se Lula não quer morar, eu vou (ô revisão, por favor não coloque acento em “triplex”, me dá um descanso, porque ninguém fala nem canta com acento no “i”, isso é palavra oxítona em prosa e verso). Vamos rir com o carro alegórico de uma escola de samba de Vitória, que mostrou Lula, Dilma e Cunha presos. O troféu mais cobiçado deste Carnaval serão as algemas de ouro. As tornozeleiras esgotaram.

Não deixe o samba morrer./Não deixe o samba acabar. Só nostálgicos têm saudade de quando a voz de Alcione nesse sambão era o “hit” do verão momesco, em vez dessa porcaria de estribilho trá-trá-trá, do “Paredão metralhadora”, com a Banda Vingadora, que saiu de Itabuna, na Bahia, para o mundo. Um fenômeno parecido com o da zika, produto de exportação que leva ao Primeiro Mundo a marca do Brasil e de sua absurda negligência com a vida.

O sucesso do trá-trá-trá tem tudo a ver com os novos tempos. “Tudo haver” – como se escreve nas redes sociais. Além de cair a produção industrial, cai de forma alarmante o nível do idioma e da música. Cai tudo, menos a inflação e o desemprego. Mas, gente, vamos esquecer tudo isso, caramba. Ô colunista, que tal sair nos blocos e cair na folia? Com pouca fantasia, claro, para entrar no clima de 2016. Este é o Carnaval dos acessórios. Ninguém tem dinheiro para comprar fantasia inteira. Igual ao frango, vamos nos contentar com partes.

Mas tem um Estado que se rebelou contra as festas: Sergipe! O presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Clóvis Barbosa, em pleno recesso, acatou a solicitação do procurador Eduardo Côrtes, do Ministério Público de Contas, e proibiu 53 municípios de festejar o Carnaval enquanto não pagarem aos professores, com salários atrasados desde outubro do ano passado.

Por que essa preocupação com os professores num país que desmoralizou a honestidade e o lema Pátria Educadora? Num país onde o mau exemplo vem de cima e cria máfias da merenda escolar. Num país em que a presidente Dilma Rousseff, em seu mais importante pronunciamento para o Congresso, não menciona a palavra Educação em nenhum momento.

Dilma pede “pacto” fazendo um coraçãozinho com as mãos. Pacto implica sacrifícios de ambos os lados. Implica confessar que mentiu tanto que poderia ser enquadrada em crime de “falsidade ideológica”, pior que o do branco que se passou por negro para entrar na universidade por sistema de cotas. Pior porque levou a população à beira do abismo.

“Apesar da alegada crise”, disse o procurador Côrtes, de Sergipe, “diversos municípios continuam a realizar festividades e despesas com publicidade desnecessárias, gastos não essenciais se comparados às obrigações com a educação”. E o município que desobedecer e programar festejos e propagandas terá de pagar multa de R$ 60 mil “por ocorrência”. Que desplante falar em educação em férias de 40 graus. Ou será que Sergipe é uma inspiração para o país anestesiado pela crise? Menos festa e mais trabalho.

O Tribunal de Contas sergipano deve ter lido a reportagem da revista britânica The Economist, intitulada “Festejando à beira do precipício”, dizendo que, depois do Carnaval, ninguém vai conseguir relaxar no Brasil – nem Dilma nem os congressistas. Isso é muito sério, seria inédito, porque a presidente parece sempre calma e otimista, vivendo do dinheiro público e alheio. “Quando os políticos retornarem aos trabalhos”, diz a revista, “podem se arrepender do tempo que passaram sem tentar resolver os problemas”. Zika, Saúde em frangalhos, desemprego, alta desabalada dos alimentos, crise econômica e política.

Assim me disse um apavorado dono de marcenaria, prestes a demitir e a falir: “Está pior que nos tempos do Collor. Porque a crise, desta vez, pegou todo mundo muito endividado. Mandaram o povão consumir, consumir, consumir, abriram o crédito, prometeram mundos e fundos, criaram um país de fantasia, um paraíso, e agora os altos juros pegaram as famílias de classe média, que não têm como saldar as dívidas. É uma reação em cadeia na economia. Um derruba o outro. Não sei para onde a gente vai”.

Ora, a gente vai para a avenida.


06 de fevereiro de 2016 | N° 18437
PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

O PIOR DA INVEJA


Acusar alguém de cínico é classificá-lo automaticamente como inteligente, porque cinismo, tanto quanto senso de humor, não convive com atrofia cerebral. Por isso, é tão deprimente ver o obtuso tentando ironizar ou fazer graça e não parecer mais do que bobo.

Oscar Wilde, um modelo irretocável de cinismo e genialidade, não fazia concessões: “A cada boa impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular, é indispensável ser medíocre”, porque reconhecia nessa intolerância a raiz do mais abjeto dos sentimentos humanos: a inveja.

A expressão extra rudimentar dessa pobreza espiritual é tentar desmerecer o feito de alguém simplesmente por não ser capaz de imitá-lo, quando o salutar seria que a conquista alheia representasse um estímulo a fazer mais e melhor. O detrator não parece perceber que a crítica preconceituosa e vazia serve apenas para sacramentar a sua inferioridade, dolorosa e definitiva. Alguém já advertiu que não devemos anunciar a nossa felicidade alto demais, porque a inveja tem sono leve. Se é assim, cochichemos, mesmo que isso seja injusto com quem fez por merecer.

Perguntei ao Luis Felipe Pondé, o polêmico cronista da Folha de S.Paulo, como lidava com as críticas tantas vezes ferozes dos leitores, e ele foi sucinto: “Esse pessoal não tolera quem tenha opinião, qualquer opinião. Eu não cedo jamais e só escrevo o que acredito. Os discordantes esbravejam e ajudam a vender o jornal. Simples assim.”

Se alguém tiver paciência de acompanhar na mídia, escrita ou virtual, as manifestações dos leitores depois de cada crônica de alguém que cometa a insensatez de opinar, ficará pasmo com a intolerância de quem não suporta conviver com o contraditório sem que isso seja identificado como uma ofensa pessoal. Claro que o protesto fica ainda mais grotesco quando recheado de erros de português, mas a incapacidade de celebrar as diferenças e crescer com elas é certamente um atestado lastimável de nanismo espiritual.

Felizmente, sempre aparece quem defenda o direito à liberdade de expressão, mas esses poucos são soterrados pela legião de indignados furiosos que, se pudessem, construiriam novos fornos para carbonizar seus desafetos.

Escrevendo sobre isso percebi que a impressionante facilidade de opinar oferece às pessoas, antes desprovidas de voz, a possibilidade sem precedentes de expressarem seus sentimentos a ponto de consagrar ainda mais o Facebook, transformado tanto em altar de virtudes exageradas, quanto em incinerador de defeitos camuflados.

A suspeita desconfortável fica por conta da hipótese de que a liberdade de opinião tenha servido apenas para dar vazão a um sentimento ainda pior que o anunciado no início desta crônica: o da inveja reprimida. Esta dói até para digitar.


06 de fevereiro de 2016 | N° 18437 
NÍLSON SOUZA

O BRASIL DE MÁSCARA


A história moderna do Brasil poderia ser contada pelas máscaras usadas no Carnaval por foliões de rua que se travestem de personagens da política com o propósito de homenagear ou ironizar a vida real. Neste ano, ao que tudo indica, o campeão de audiência será o Japonês da Federal, como ficou conhecido o policial Newton Ishii, que ganhou notoriedade por escoltar vários presos da Operação Lava-Jato. 

Em anos recentes, vale lembrar, destacaram-se, entre outros, o ex-ministro José Dirceu, o ex-presidente do Supremo Joaquim Barbosa, a ex-presidente da Petrobras Graça Foster, além dos últimos ocupantes do poder – Lula, em todas as suas versões, e Dilma, com todos os seus penteados. Figuras do momento, o juiz Sergio Moro e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, também estarão bem representados neste Carnaval.

Ao contrário das máscaras carnavalescas originais, que serviam para ocultar o rosto dos foliões e permitir que eles cometessem transgressões sem serem identificados, as fantasias de políticos e autoridades são usadas com o propósito de expô-los ao julgamento público, quando não à execração. A máscara tem também um efeito psicológico sobre quem a veste. 

O homem primitivo se disfarçava de tigre ou crocodilo imaginando que assim assumiria a força e a ferocidade do animal escolhido, ou que pelo menos passaria essa impressão ao inimigo. Já o folião que bota a máscara do político ou do governante espertalhão está querendo dizer que aquele é o inimigo a ser ridicularizado. Porém, quando assume a identidade de um justiceiro, sente-se o próprio. Sempre há uma máscara por detrás da máscara.

Na verdade, todos usamos máscaras cotidianas, ainda que não sejam visíveis como as fantasias. Fazemos isso intuitivamente, para nos proteger, para sermos bem-vistos pelos outros, para não criarmos atritos desnecessários. Nem sempre é hipocrisia. Muitas vezes é uma exigência do teatro da vida.

Mas há também os que se excedem na representação, com o propósito de enganar os outros e obter vantagem pessoal. Esses, invariavelmente, viram máscara de verdade. E às vezes até correm o risco de ter que desfilar ao lado do Japonês da Federal.

06 de fevereiro de 2016 | N° 18437 
DAVID COIMBRA

O dia em que tudo mudou


Lembro-me do dia exato em que deixei de ser jovem. Estava sozinho em um quarto de hotel. Fitei o teto. Depois, fiz rolar vagarosamente o olhar, até encontrar minha imagem no espelho da penteadeira. Então, não é que tivesse avistado uma ruga mais profunda ou um novo cabelo branco. Não. Foram os olhos que me informaram. Os olhos, Jesus dizia, são as candeias do corpo. Os olhos, Poe dizia, são as janelas da alma. Os olhos me disseram, naquele dia, que não era mais jovem.

Foi assim de repente, de um minuto para outro.

Sempre conto da moça que vi ficar gorda bem na minha frente, no bar da Redação da Zero Hora. Até aquele momento, ela era considerada magra. Aí mordeu um quindim. O bar da Redação vendia quindins grandes como tampas de chaleira, amarelos como a camisa da Seleção, de uma luminosidade cremosa que os tornava irresistíveis.

Ela não resistiu. Deu uma dentada voraz no quindim. E ali, naquele instante mágico, parecia que podia ver os lipídios borbulhando-lhe pelo corpo e explodindo em bolotas em seus culotes. Quando ela voltou para sua mesa na Redação, já era uma gorda.

Foi lindo. Era a História se fazendo diante de mim, ainda que fosse uma história pessoal.

Na manhã de 11 de setembro de 2001, vi a História do mundo todo se fazendo diante de mim, e, ainda que tenha sido pela TV, vi ao vivo. Estava acontecendo, e eu estava assistindo. Também vi o Brasil mudar, e não foi só uma vez.

Um ano que transformou o Brasil foi 1979. Naquele ano, exatamente naquele ano, o Brasil deixou de ser jovem. Até então, o Brasil era um menino, como eu e meus amigos éramos, nos confins da zona norte de Porto Alegre. Aí nos tornamos outros.

Em 1979, os muros de Porto Alegre eram pichados com uma frase que se situava entre o alvissareiro e o aliviado: “Deu pra ti, anos 70”. Um ou dois anos depois, o Giba Assis Brasil lançaria um filme com esse título.

De fato, os anos 1970 haviam acabado e, com eles, um tipo de brasileiro. O brasileiro, agora, era mais contestador, mas também mais reclamão; menos ingênuo, mas também mais cínico. O brasileiro, que antes aceitava viver sob o governo, como um inferior de nascença, passou a ver o governo não mais como seu superior, e sim como seu inimigo. E o governo era realmente inimigo, já que era um governo imposto. Só que, na cabeça do brasileiro, governo e Estado são a mesma coisa. Assim, o Estado virou inimigo, e isso é um problema, porque o Estado, afinal, somos todos nós.

Talvez esse último parágrafo tenha ficado um pouco confuso, só que foi exatamente isso que aconteceu, e isso tudo é muito confuso. Ainda vivemos nessa brumosa imprecisão que estourou precisamente naquele ano, 1979. Por que tudo mudou exatamente naquele naco de tempo entre janeiro e dezembro? Não sei. Diga-me você, que sabe mais do que eu.



06 de fevereiro de 2016 | N° 18437 
CLÁUDIA LAITANO

Educação pela pedra

O que a bonança incha, a pindaíba enxuga. A escassez nos obriga à reflexão, à criatividade, ao reexame de prioridades, ao estoicismo. Com seu minimalismo compulsório e horror ao desperdício, a crise nos torna até mais elegantes. A ostentação, esta recente e barulhenta paixão nacional, míngua a olhos vistos – e qualquer impulso vulgar de consumismo é contido, se não por gosto ou opção moral, pelos humores bem menos filosóficos de um cartão de crédito estourado. Mais refinado do que começar o ano com resoluções de frugalidade e consumo consciente só mesmo se o hit do Carnaval fosse uma sonata de Bach.

Infelizmente, toda essa contrição circunstancial talvez contrarie nossa natureza pródiga e imprevidente. O mais provável é que ali, em um horizonte ainda remoto de fim ou alívio da crise, voltemos todos ao ritmo errático de sempre.

Mas e se fosse diferente?

Serviria de consolo imaginar que é possível extrair algum tipo de lição deste encolhimento geral da nação – uma “educação pela pedra”, como no poema de João Cabral. Se o consumismo finalmente saísse de moda, se água e luz fossem tratadas como bens preciosos, se não esperássemos que os governos resolvessem todos os problemas, se com um limão fizéssemos não uma, mas duas limonadas (a segunda para doar, vender, guardar, trocar, compartilhar...), nossa peregrinação rumo ao próximo oásis de otimismo talvez fosse um pouco menos árdua.

Nesta semana, o aperto do torniquete na área cultural precipitado pela crise nos obrigou, por exemplo, a encarar o que nos tempos de bonança vínhamos empurrando com a barriga. Em Brasília, o Tribunal de Contas da União finalmente entrou em cena para acabar com uma das principais distorções da Lei Rouanet: o uso de dinheiro público para bancar o marketing barato de empresas privadas e o financiamento de projetos culturais autossustentáveis (Rock in Rio e Cirque du Soleil são os exemplos mais extremos). 

Talvez a pindaíba tenha inspirado o TCU a expressar o que é apenas senso comum: se o governo federal vai abrir mão de impostos para fortalecer o setor cultural, que seja para investir em projetos relevantes que precisam de apoio e não para aumentar o lucro de quem, com ou sem qualidade artística, atrai seu próprio público.

Por aqui, o fechamento do Margs e da Casa de Cultura Mario Quintana por alguns dias serviu para escancarar a penúria de dois dos principais equipamentos culturais do Estado (imaginem o resto...). A culpa é da crise, sim, em grande medida, mas o problema que não vai desaparecer depois da crise é a histórica precariedade de orçamento e gestão desses e de outros equipamentos culturais públicos. 

Enquanto outros Estados têm buscado alternativas, como diferentes modelos de parcerias com a iniciativa privada, os gaúchos continuam sonhando com o milagre da multiplicação infinita de recursos – com diferentes partidos se alternando no poder sem que a política cultural consiga ultrapassar o horizonte estreito dos quatro anos de um governo.

A pedra ensina, sim, mas é preciso querer aprender.