Reta final desanimadora
Para um país com tantos desafios como o Brasil, é desanimador constatar o quanto foi desperdiçada a oportunidade de a campanha para a Presidência da República proporcionar um debate produtivo sobre ideias e propostas para o futuro. Às vésperas do primeiro turno, a principal pauta é um tema religioso, assunto que nem sequer deveria estar misturado à eleição.
Para piorar, nasceu pela via da desinformação, após a disseminação de um boato que associava o candidato Flávio Bolsonaro (PL) a um projeto para tirar o título de Nossa Senhora Aparecida de Padroeira do Brasil. O episódio voltou a escancarar a politização da cúpula do Judiciário, com uma guerra de decisões individuais de ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF).
Enquanto as candidaturas de Flávio e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se digladiam na disputa para ver quem consegue fustigar mais o adversário, questões verdadeiramente prioritárias e com repercussão na vida real da população, como a situação das finanças públicas, da saúde, da educação e da segurança, praticamente desapareceram da discussão ou são tratadas de forma rasa.
Em vez de ser uma concorrência por inspirar mais esperança, a eleição se transformou outra vez em uma batalha de rejeições e de esforços para desgastar o oponente. A discussão programática foi esvaziada em meio às trocas de acusações. A eleição não será decidida pelo mérito das propostas.
Até aqui, grande parte das energias foi empregada para demonstrar que o adversário, familiares dele ou o grupo político rival estariam mais vinculados a escândalos como o do INSS e do Banco Master. O agravante é que a batalha por atingir o rival teve a colaboração dos gabinetes de alguns ministros do STF, com o repasse seletivo de informações de inquéritos, postura que degrada a instituição e mina a confiança em uma Justiça imparcial.
As práticas abusivas e as dúvidas que cercam os candidatos apontados como favoritos pelas pesquisas também depõem contra uma disputa virtuosa. Flávio é formalmente investigado por crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no inquérito que apura repasses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao filme Dark Horse.
Na busca desesperada pela reeleição, Lula não hesita em lançar mão, até a undécima hora, de todas as medidas eleitoreiras possíveis. Usa o poder do cargo de forma temerária tanto do ponto de vista legal quanto da responsabilidade que deveria ter com as contas públicas.
As demais candidaturas, esmagadas pela polarização entre PT e PL, não encontraram espaço para crescer. Fez falta também um nome viável de centro que ao menos ajudasse a qualificar o debate. A eleição para o Congresso, que deveria receber maior atenção pelo poder excessivo acumulado pelo Legislativo, foi negligenciada. O foco se resumiu ao Senado e foi limitado demais no impacto do resultado para o impeachment de ministros do STF.
Ainda há a chance, em um eventual segundo turno para a Presidência, de um confronto de ideias mais elevado e que aponte mais para o futuro do que para o passado. Mantido o nível atual, haverá mais certeza na continuidade da radicalização social e política do que no endereçamento de reformas e transformações que o país precisa para fazer jus ao seu potencial de desenvolvimento.

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