sábado, 20 de setembro de 2008


Roseli Loturco

O risco do subprime brasileiro

O crédito para a compra de carros tem sistema similar ao que originou a crise nos EUA

HORA DE FREAR?

Pátio da fábrica da Renault, em Curitiba. Longos financiamentos têm ajudado a manter as vendas em altaEm novembro de 2006, a nutricionista Laís Leiros Barone, com 23 anos, comprou seu primeiro automóvel.

Fez e refez as contas e concluiu que conseguiria pagar os R$ 560 por mês do financiamento, durante 48 meses, para ter seu Corsa Wind 1.0. Era mais de um terço de seu salário, mas Laís, casada e mãe de uma criança de 3 anos, se dispôs ao esforço.

Um ano e meio depois, o marido perdeu o emprego. “Não teve jeito. Vendi o carro por R$ 500 e passei a dívida para a frente. Perdi tudo o que já havia pago.” Há dois meses, Laís pegou outro financiamento. “Hoje estou pagando por mês R$ 502 por um Gol 1.0, ano 2001.”

Luciana Maria Dualibi tem uma situação parecida. Comprou um Corsa 1.0 em maio, financiado em 48 meses. Em suas contas, o que importava não era o valor total do carro, e sim se as mensalidades cabiam em seu bolso.

Cabiam. Mas o carro foi roubado três dias depois da compra. “Hoje ando com um Furgão velho para quebrar um galho até conseguir comprar outro carro”, diz.

Laís e Luciana não estão sozinhas. Só neste ano, até julho, foram financiados R$ 133 bilhões para a compra de carros. Esse tipo de crédito ajudou o setor automobilístico a faturar R$ 71,4 bilhões em 2007 – um quinto da receita de toda a indústria e 5,4% de toda a riqueza produzida no país no ano passado.

Só há um pequeno problema: esses créditos estão sendo vistos por especialistas como um modelo simplificado de subprime, o crédito de alto risco que levou ao colapso o sistema de hipotecas nos Estados Unidos e detonou a atual crise financeira mundial.

A primeira a dar o alerta foi a consultoria americana A.T. Kearney, há pouco mais de dois meses. Ela afirmou que a expansão do crédito passou a incluir consumidores com menos condições de honrar seus compromissos. Na maioria das vezes, isso não é um problema.

O próprio bem comprado a crédito funciona como garantia. Se o comprador não consegue pagar, o vendedor retoma o bem e o revende.

Mas essa lógica deixou de funcionar com os carros brasileiros pelo mesmo motivo que nas hipotecas americanas: com prazos de financiamentos muito longos, o bem perde seu valor de mercado e já não serve de garantia.

A expansão do crédito inclui consumidores com menos condições de honrar seus compromissos

No caso dos carros, um ano após a compra ele vale, em média, 78% do preço original. “Em cinco anos, o valor cai a menos da metade”, afirma Silvana Machado, vice-presidente de Prática de Serviços Financeiros da A.T. Kearney no Brasil.

A expansão do mercado tem ocorrido justamente com o aumento do prazo. Só assim as prestações mensais baixam para dar possibilidade de compra a quem antes não conseguia.

Em 2003, os prazos de financiamento oscilavam entre 24 e 36 meses. Hoje, o padrão são 60 meses. Financeiras mais ousadas fazem contratos de 72 até 99 meses. Com o alongamento das dívidas, o volume de financiamentos quase quadruplicou.

Esse modelo de aumentar as vendas com apoio de financiamentos faz sentido num ambiente de crescimento, como o que o país tem vivido nos últimos anos.

Uma economia que cresce a taxas próximas de 5% ao ano oferece mais oportunidades de emprego e aumento de salário para seus cidadãos. Isso garante que casos como o de Laís e Luciana, que tiveram problemas com sua dívida, sejam exceções, não uma tendência.

A armadilha é que, tal como aconteceu no subprime americano, a sanidade do mercado passa a depender de um único cenário econômico. Lá, a valorização imobiliária constante; aqui, o crescimento econômico constante.

Nos Estados Unidos, a bolha imobiliária estourou. Aqui, o crescimento econômico ainda garante os negócios. Mas a previsão dos economistas, agora, é que dificilmente o Brasil manterá seu crescimento no mesmo patamar. Fala-se em 3,5% do PIB, em vez de 5%.

Mesmo sem esse impacto negativo, a inadimplência no mercado automobilístico já tem crescido. Passou de 3,22% para 3,68% nos últimos 12 meses, até julho. Se o nível do calote crescer muito, poderá afetar a capacidade das financeiras de emprestar.

O resultado seria menos vendas e crescimento menor na indústria automotiva e no setor de autopeças, que afetam a economia como um todo.

Não é o mesmo efeito da crise das hipotecas nos Estados Unidos, porque lá os créditos imobiliários estavam espalhados por todo o sistema financeiro. No Brasil, o problema é mais localizado. Mas nem por isso deixa de ser preocupante.

De certa forma, as correções já começaram a ser feitas. As ações do Banco Central contra a inflação têm um efeito no mercado de carros.

A elevação das taxas de juro e a criação de novos impostos sobre operações financeiras ajudam a conter a alta acelerada do crédito. Também as financiadoras começam a se precaver: os prazos de pagamento caíram um pouco. O teto tem sido 72 meses para financiar o carro – ainda considerado alto pelos analistas de risco.

Os bancos começaram a limitar a concessão de crédito para quem prova que ganha de quatro a cinco vezes mais que o valor da prestação. Até pouco tempo atrás, aceitava-se que o candidato comprometesse 30% de sua renda com a prestação.

“Os bancos devem se preparar e fazer a lição de casa para evitar riscos. Alguns já estão fazendo”, diz Rafael Guedes, diretor-executivo da Fitch Ratings, uma agência de classificação de riscos, no Brasil. O mesmo aviso faz o diretor-executivo para mercados emergentes do banco WetLB, Ricardo Amorim.

“Cuidado com os prazos muito longos, pois a garantia oferecida (o carro) é inexistente”, afirma. “É bom corrigir possíveis vícios agora, enquanto essa carteira ainda não representa risco sistêmico.”

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