sábado, 28 de janeiro de 2017



28 de janeiro de 2017 | N° 18754 
ANTONIO PRATA

RG E CPF DO ASSASSINO, POR FAVOR

Quinta-feira, 5 de janeiro, 19h27min, passando ao lado do estádio do Pacaembu, ouço uns gritos: do outro lado da rua, diante de um predinho, um homem e uma mulher se estapeiam. Um menino de uns oito anos, assustado, tenta separá-los. O homem está sem camisa e parece bêbado. Não consigo entender quem bate e quem apanha, pois se engalfinham num clinch e, arrastando o menino junto, somem porta adentro. 

A porta é de ferro, com retângulos compridos de vidro opaco, não dá pra ver lá dentro. Parece o depósito ou uma pequena garagem. Os gritos continuam, juntam-se a eles barulhos de coisas caindo. Ou seriam pessoas? Abre-se um basculante na lateral da porta, surge o rosto do menino, “Socorro! Socorro!”, mas alguém o puxa pra dentro. Fecha-se o basculante.

Penso em tocar a campainha, em arrombar a porta, mas me acovardo. Disco 190. Atendem rápido. Disparo pra atendente: “Oi, tem um casal se batendo e uma criança gritando ‘socorro’ na Rua Capivari, número xxx, bem na frente do portão 23 do estádio do Pacaembu”. Depois de alguns segundos: “Esse endereço é Consolação?”. “Não, é Pacaembu, Capivari, número xxx, bem na frente do portão 23 do estádio.” “O senhor teria uma rua de referência?” “Rua? Eu tô dando um estádio de referência!”

Algo atirado de dentro do prédio faz um buraco no vidro. Não ouço mais os gritos. “Eu preciso de uma rua de referência.” “Tá, Doutor Arnaldo. A Capivari é uma das ruas laterais do Pacaembu! Rua Capivari, número xxx!” Mais uns segundos. Os gritos voltam. Somem. Ouço barulhos. Não ouço a criança. “O senhor poderia me passar o CEP?” “Cara, eu tô vendo um casal se espancar e uma criança gritando por socorro, eu tô te dando a rua e o número e falando que é na frente do portão 23 do Pacaembu e você quer o CEP? A polícia não tem Google? Não tem Waze? Vai morrer alguém aqui! Vocês que têm que achar o CEP!”

A atendente, no entanto, tem tarefas mais importantes do que salvar a vida de uma criança de oito anos, de uma mulher ou de um homem, ela tem que defender o seu orgulho ferido. “Olha, se o senhor estivesse tão aflito assim o senhor descobria esse CEP pra mim.”

Desligo e disco 190 de novo. Falo a mesma coisa. O novo atendente tampouco parece ter ouvido falar nesse tal estádio do Pacaembu. Pergunta se a rua fica na Consolação. Dessa vez, digo que pode ser, que o Pacaembu é perto da Consolação, difícil existirem duas ruas Capivari tão próximas. Ele diz que vão mandar uma viatura. Chego perto da porta. Penso em tocar a campainha, em arrombar, mas me acovardo. Grito lá pra dentro “A polícia tá chegando! A polícia tá vindo!” e sigo pra casa.

Alguns quarteirões adiante, passa uma viatura. Eu aceno. Eles param. Explico a situação, me dizem que a ocorrência já foi atendida. Aliviado, me esqueço de perguntar o que aconteceu, se alguém foi preso, se alguém se machucou.

Em casa, meia hora depois, meu telefone toca. “Boa noite, o senhor ligou pra polícia militar relatando uma ocorrência na Rua Capivari, número xxz?” “Número xxz?! Não! Número xxx! Eu disse várias vezes o número!” Será que eles foram no número errado? Será que ninguém ajudou aquele menino? “Hm”, resmunga o atendente, não muito preocupado. “Certo. Escuta, essa Rua Capivari: por acaso fica em Itaquera?”




28 de janeiro de 2017 | N° 18754 
DAVID COIMBRA

A arte de tirar a sesta

Os espanhóis fazem a sesta. E fazem sem remorso. Das duas às cinco da tarde, boa parte do país simplesmente dorme.

É admirável. Sempre quis cultivar o hábito da sesta, mas como lidar com o sentimento de culpa? Acho que foi o maldito sistema capitalista que inoculou na minha mente a irreprimível sensação de que a hora depois do almoço é para produzir. Produção, produção, produção. Bens de consumo, é isso que vocês querem, não é? A mais valia. O negócio de vocês é a mais valia!

Por causa dessa ardilosa filosofia calvinista, passei a vida reprimindo minha vontade de fazer a sesta. Mesmo assim, o corpo reivindica. O corpo não está nem aí para a ética burguesa.

Houve uma época, lá pelos 16 anos de idade, em que trabalhei no departamento de cobrança da J.H. Santos, uma grande loja de departamentos que havia em Porto Alegre. Eu não cobrava nada de ninguém, meu serviço era interno, de escritório.

A sede ficava ali na Otávio Rocha, em frente à Renner. Começava o trabalho bem cedo, pouco depois das sete da madrugada. Tinha de chegar, bater o ponto no oitavo andar e depois descer para a minha sala. Se não batesse o ponto no horário, descontavam o dia. Quer dizer: trabalhava de graça.

Era terrível, porque morava lá no IAPI. Então, precisava acordar cedo, praticamente ainda noite, uma dor. Resultado: depois do almoço, dava-me um sono, mas um SONO. Era invencível. Não havia nada que resolvesse. Tomava café e dormia com a xícara na mão, ia lavar o rosto e dormia no banheiro.

Eles me davam uns formulários para preencher, uma folha de papel com uns quadradinhos. Eu devia escrever uns números naqueles quadradinhos. Cristo! Os quadradinhos e os números começavam a se embolar na minha visão, as minhas pálpebras pesavam e a cabeça começava a se transformar numa bola de boliche. Estava quase afundando o queixo no peito e vinha o chefe de lá e desferia o maior tapa na mesa, PLÁ!

– Acorda, rapaz!

Eu levava o maior susto, pedia desculpas e seguia preenchendo os quadradinhos.

Lembro que, na época, li uma reportagem sobre a tradição da sesta na Espanha. Contava que muitas empresas mantinham caminhas aconchegantes em uma sala escura para os funcionários descansarem depois do almoço. Suspirei. A velha e boa Espanha.

O general Geisel fazia a sesta. Depois do almoço, ele subia para seus aposentos particulares no Alvorada, tirava o terno e a gravata, entrava em um pijama e dormia por exatos 30 minutos, ao cabo dos quais se levantava, vestia-se de presidente e ia despachar.

Pelé, no intervalo dos jogos, estendia-se no banco duro do vestiário e cochilava por 15 minutos. Em seguida, recomposto, voltava a campo e marcava mais dois gols.

E Churchill, que era de dormir pouco à noite, mesmo durante os ardores da II Guerra Mundial parava tudo após o almoço, repousava por meia hora e retornava à lida de charuto empinado, disposto a dizimar nazistas.

Já o meu avô, o sapateiro Walter, reservava 15 minutos para si mesmo depois da uma da tarde. Ele fechava a sapataria e ia para os fundos. Apagava as luzes, recostava-se em uma espreguiçadeira, ligava o rádio no Sala de Redação e adormecia ouvindo o Foguinho discutir com o Cid.

Pensando em tudo isso, convenci a mim mesmo de que devia vencer meus preconceitos e tentar praticar a sesta. Afinal, tenho repetido meus 16 anos e acordo para trabalhar quando ainda é noite.

Certo.

No primeiro dia, interrompi o texto bem na palavra “corajosamente”, tomei de uma colcha macia como uma carícia de mãe e fui para o quarto. Fechei os olhos. Senti o torpor dominar meu corpo. Afrouxei a resistência. Mas, depois de cinco minutos, sentei na cama gritando:

– PRODUÇÃO! PRODUÇÃO!

Aqueles cinco minutos me fizeram mal e passei o resto do dia me sentindo estranho.

Não repeti a experiência durante toda a semana, mas, dias atrás, atravessei a manhã escrevendo e preparando um feijão com linguiça, temperado apenas com alho e sal. Imodestamente, afirmo que produzi um caldo cremoso, com sabor de comida da avó. Em 20 minutos, fiz um arroz soltinho, aliás ótimo arroz, vindo da Tailândia. Cortei um tomate em fatias da espessura de uma moeda de um real e temperei com sal, limão e azeite de oliva. Acompanhei o repasto de uma, uma única taça de tinto da Califórnia. Saí da mesa suspirando, levando no rosto meio sorriso e meio olhar.

Então, sem nada premeditar, sem planejamento e sem solenidade, me estiquei no sofá da sala e, em um minuto, adormeci feito um gato no sol. Depois de um quarto de hora, despertei, sentindo-me muito, muito bem. Sentindo-me um espanhol. Voltei para o computador sabendo-me renovado. Olhei para a tela. Ataquei o texto, murmurando suavemente:

– Produção... Produção...



28 de janeiro de 2017 | N° 18754 
L.F. VERISSIMO

Prioridades

Futebol de praia. Sete para cada lado, perdedores pagam a cerveja. Todos amigos, tudo em paz. Mas o homem não teria chegado aonde chegou, na sua trajetória sobre a Terra, se não fosse um animal orgulhoso. Com a possível exceção do pavão, nenhum outro animal se ama como o homem. E aconteceu o seguinte: o Américo passou a bola pelo meio das pernas do Célio. Não uma, mas duas vezes.

Nenhum amor-próprio resiste a uma bola pelo meio das pernas. Que dirá duas. O homem aprendeu a conviver com as agruras da existência preservando o seu amor-próprio. Insucesso nos negócios, frustrações privadas e públicas – tudo faz parte dos desafios da vida moderna que o homem enfrenta com seu orgulho intacto, confiante em que os superará. 

Ou pelo menos que saberá explicá-los. É exatamente o orgulho que faz o homem vencer os grandes infortúnios e as pequenas indignidades e seguir em frente. Tudo pode ser absorvido ou justificado. Menos duas bolas pelo meio das pernas no mesmo jogo. Ainda mais as pernas de um brasileiro.

O Célio reclamou para o Américo:

– Não faz mais isso. – Qual é, cara?

– Pelo meio das pernas, não. – É brincadeira!

– Faz isso de novo e eu vou na sua pleura.

O Célio não sabia exatamente onde ficava a pleura, mas era onde bateria se o Américo passasse a bola pelo meio das suas pernas outra vez.

É preciso saber que os dois trabalhavam na mesma firma e o Célio era o superior do Américo. Poderia botar o Américo na rua. Pior do que um pontapé na pleura.

– Está bom, está bom – disse o Américo. – Não faço mais.

E foi jogar do outro lado, onde seu marcador seria, de preferência, um hierarquicamente inferior que ele pudesse driblar à vontade.

Mas aconteceu de o Américo ser lançado num contra-ataque pelo meio e ver pela frente, como último defensor do adversário, o Célio. E aqui entra outra característica do homem brasileiro, o seu peculiar senso de prioridades. De certa forma, um corolário ao seu pânico congênito de levar bolas por entre as pernas. E também uma questão de amor-próprio. Pois, se todos os homens se amam, o homem brasileiro ama algumas coisas em si acima de todas as outras.

Não se diga que Américo apenas seguiu seu instinto, sem pensar. Pensou muito, enquanto corria com a bola dominada na direção do Célio. Pensou no seu casamento, que teria de ser adiado se ele perdesse o emprego. Pensou nas vantagens para o seu bem-estar e o seu futuro se ele perdesse a bola para o Célio. 

E o Américo enfiou a bola entre as pernas do Célio e foi buscá-la lá na frente, para fazer um gol espetacular, escapando do pontapé que Célio tentava lhe dar por trás. O que é mais importante? Diga lá, brasileiro: a vida, o emprego, o salário garantido no fim do mês, o casamento, ou um gol perfeito? Um gol perfeito, claro.

Mas o Américo, afinal, não foi despedido. Célio não apareceu na firma na segunda-feira. Não foi mais visto. Levar três bolas pelo meio das pernas num único jogo é, parece, uma espécie de limite extraoficial da humilhação. Dizem que ele emigrou.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017


Jaime Cimenti

Menos Face, 

mais Book Levei um bom tempo para entrar na internet, no Face, em outras redes sociais e em outros lances eletrônicos. Não chego a me arrepender de ter entrado nem me arrependo de não ter ingressado antes na web. Entrei nela porque dizem que senão eu não existiria mais. Será? Ouço este silêncio dessas três e meia dessa tarde de sol que sugerem um daqueles velhos cafés da tarde, com pão quente direto da padaria, manteiga ou patê, bolinhos de chuva, geleia de uva de Bento, queijo, salame, mortadela, presunto e outras gostosuras e fico pensando que não se deve deixar de ouvir o silêncio. Ele ainda tem muito a dizer. 

Diz umas coisas que a gente não sabia que sabia e traz umas vozes e revelações lá de dentro que a gente pensa que não tinha ou tinha esquecido. Pois é, o silêncio anda meio escasso, mas ainda existe. Faça parte da Confraria do Silêncio. Sozinho, fique em silêncio alguns minutos por dia, fazendo nada. Uns minutos, eu disse. Se der umas horas, melhor para você, que poderá atingir um nirvana indo-baiano e se tornar pós-graduado na ciência do nadismo. Mas disse lá em cima: menos Face e mais Books. Não é coisa original, mas é bom de repetir. 

Estou com mais de 2.600 amigos no Face. Nada perto do 1 milhão de amigos que o Rei queria e que hoje devem ser uns 80 milhões, mas fico pensando que talvez seja uma overdose de amizade. Não consigo falar com todos. Para uns, respondo, para outros, não. Curto aqui, não curto ali. Uns dizem que sou esnobe, que não respondo. 

Outros que respondo, comento e curto muito demais. Têm dias que respondo ansioso, apressado, querendo ser inteligente e engraçado. Outros, me comunico mais básico. Outros dias estou fora. Sei lá qual a quantidade ideal de horas diárias. Quem sabe? No fundo, estou meio dependente deste lance de estar sozinho e junto com 2.600 e poucos amigos. Nesta tarde, depois de ouvir o silêncio e escrever estas linhas sem destino, pé e cabeça para meus desavisados leitores, acho que preferia uns contatos presenciais com o planeta e com os terrestres. 

Ou até com extraterrestres, especialmente se os extraterrestres forem parecidos ou iguais a gente. Seria interessante. Menos Face, mais Books, recomenda o colunista de livros do JC, meio suspeito para isso. Mais contato presencial, usar os cinco sentidos e as percepções extrassensoriais, andar pelas ruas, dar de cara com o vento, a chuva, o ar, o calor e o frio. Dar de cara com as caras de verdade concretas das pessoas ao vivo, sem photoshop, montagem e sorrisos Colgate todo tempo. Imaginar, inventar e reinventar em cima de pessoas, cores e objetos de pegar com as mãos e tocar com o corpo. 

O mundo eletrônico-virtual é, às vezes, meio insosso e inodoro. E colorido, barulhento e palavroso demais. Não temos ouvidos, olhos e cérebro suficientes para tanta palavras, imagens, sons, notícias, mentiras e histórias mil. 

a propósito... 

Volta e meia, sério, é preciso dar uma parada, ouvir o silêncio, olhar as nuvens, esquecer a parafernália eletrônica e fazer de conta que está num antigo veraneio, nos anos 1950, num hotel de madeira de Santa Terezinha. Aí você vai sair caminhando na noite imaginária, pés na areia, olhos nas estrelas e na lua e vai recolher uns mariscos na beira do mar. Com os mariscos, você vai fazer um risoto real, concreto, de pegar com as mãos e comer de joelhos. Coisa básica, simples, receita da nonna lá da Itália. 

No dia seguinte, depois do almoço, alguém do aviãozinho teco-teco vai jogar o fardo com jornais na duna e aí, com calma e preguiça, você vai ler as notícias velhas. Mas ouvindo só a canção das ondas do mar e as conversas monossilábicas das gaivotas.  - Jornal do Comércio.

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/01/colunas/livros/543460-capitulo-inedito-da-historia.html)

Jaime Cimenti

Capítulo inédito da História 



Octavio, O civil dos 18 do Forte de Copacabana (Editora Quatro Projetos, 144 páginas, www.quattroprojetos.com.br), de Afonso Licks, advogado, jornalista de rádio, jornal, TV, agência de notícias, assessoria de imprensa política e empresarial, atual secretário-geral do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, acima de tudo apresenta um capítulo da História do Brasil que nunca foi contado. Um civil estava à frente quando 18 manifestantes enfrentaram oito mil militares. Tudo aconteceu na calçada mais famosa do mudo, no bairro de Copacabana, em 1922. A primeira edição da obra foi em 2016. Poucos meses depois, o livro mereceu uma segunda edição, fato incomum no mercado editorial rio-grandense.

A narrativa que tomou por base a investigação de documentos escassos, escritos de jornais, livros e depoimentos, depois amalgamados pela ficção, mostra, através de uma narrativa ágil e envolvente, como o sangue dos 18 do Forte tingiu a Praia de Copacabana na tarde de 6 de julho de 1922. Mostra como a carga cruel das baionetas contra os corpos caídos na areia não foi o final do massacre. Massacre que continuou com a vitória do presidente Epitácio Pessoa mandando prender jornalistas, impondo censores aos jornais e revistas e decretando o mais longo período de estado de sítio a que nosso País já foi submetido, com o objetivo de encobrir perseguições políticas a qualquer simpatizante com os conspiradores.

O governo tratou de impor sua versão e impedir o sentimento popular pelas vítimas massacradas por uma força de cerca de 8 mil homens. Os 18 do Forte obtiveram grande vitória moral, e a velha República do Café com Leite não teve mais paz e foi varrida pela Revolução de 1930. Esta obra resgata Octávio Corrêa, o personagem real e aventureiro que tinha desaparecido nas sombras. Ele foi muito mais que um simples engenheiro, advogado, capitalista e maluco que desceu a Serra de Petrópolis com um cobertor enfiado no pescoço como se fosse um poncho, para morrer numa briga que não era sua. Deve prevalecer a imagem de homem elegante e sereno, que, entre os líderes da marcha para a morte, deixou para os pósteros um perfil de homem surpreendente.

Meio bárbaro, meio xucro e valente como os gaúchos que lutaram por nossas fronteiras e meio civilizado, refinado e culto, circulando pelos salões do Rio e de Paris, Octávio também frequentava um cabaré do canto da praia e, provocativo conspirador, foi a síntese de um tempo que acabava.

O tempo dos homens que colocavam a honra acima da própria vida, vida que ofereciam no altar das suas convicções. Foram 36 anos de uma vida emocionante. A obra de Afonso Licks deve ser saudada por sua sedução narrativa, por seu embasamento, por nos mostrar um grande personagem real e por nos trazer um importante capítulo da História que ainda estava por ser contado. lançamentos Caminho de Santiago - de Portugal até o fim do mundo - Caminho português, da jornalista, fotógrafa e caminhante Andréa Prestes (Edição da autora, 136 páginas), em bela edição encadernada, apresenta textos e fotos em cores da viagem de Andréa de Santiago de Compostela até Porto e de Muxia a Santiago.

Mais de 200 fotos emocionantes dão vontade de pôr o pé na estrada. Livro de memórias (Imprensa Livre, 96 páginas), de Maria Cristina Cachapuz Berleze, médica geriatra e gestora de serviços de geriatria, com ilustrações de Clarissa Motta Nunes, é uma simpática obra que estimula o leitor a escrever suas próprias memórias. Reconhecendo, reconstruindo e registrando o passado e as várias lembranças, o leitor poderá projetar o futuro com mais alegria e confiança.

O mar não está mais (Editora Penalux, 110 páginas), do médico, diplomata e grande poeta croata Drago Stambuk, apresenta poemas ambientados em várias civilizações e cidades como Nova Delhi, Sacara, Cairo e, segundo Antonio Skarmeta, na apresentação, o encanto de sua linguagem trabalhada com rigor para conseguir a pureza do essencial nunca perde a emoção do espontâneo. - Jornal do Comércio 

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/01/colunas/livros/543460-capitulo-inedito-da-historia.html)


27 de janeiro de 2017 | N° 18753 
NÍLSON SOUZA

A TECNOLOGIA DA ETERNIDADE


A ressurreição digital já é uma realidade em Hollywood. Atores e atrizes mortos durante as gravações de filmes, ou mesmo desaparecidos anos antes, têm sido recriados para concluir o trabalho – com tamanha perfeição, que até seus melhores amigos ficam em dúvida.

O caso mais recente, e que está provocando repercussão, é o do britânico Peter Cushing, que interpreta Moff Tarking em Rogue One: Uma História Star Wars. Cushing já virou pó de estrela há mais de 20 anos, mas foi ressuscitado agora em cima dos movimentos de outro ator, que teve sua aparência modificada digitalmente para ficar igual ao personagem do quarto episódio de Star Wars, de quatro décadas atrás.

O recurso também está gerando controvérsias por parte dos atores e de seus familiares, principalmente devido a questões relacionadas a direito de imagem. Precavido, Robin Willians – que se suicidou em 2014 – proibiu o uso comercial de sua imagem até 2039. Outros, porém, até veem com simpatia a possibilidade de continuarem sendo filmados depois de terem partido para outra dimensão. Não duvido de que brevemente seja criada mais uma categoria na premiação do Oscar, para atuações póstumas.

Saindo do cinema para a vida real, não é absurdo pensar que logo, logo essa tecnologia da eternidade estará ao alcance de todos nós – e que muita gente pagará para ver seus finados interagindo novamente com a vida, ainda que seja de mentirinha. Não é mais ou menos o que já se faz hoje em certas redes sociais? Com a vantagem de que, nas postagens, somos todos bons, belos e perfeitos. A realidade é que às vezes atrapalha.

A ficção com imagens é tão convincente, que os vilões das novelas costumam ser hostilizados na rua. Se a holografia já causa arrepios, a filmagem de pessoas extintas com novos gestos, movimentos e palavras deve mesmo deixar a impressão de que elas ressuscitaram. Quem garante que em breve não poderemos fazer isso com nossos celulares? Que medo!

Melhor pensar que seremos suficientemente sensatos para ressuscitar digitalmente nossos mortos apenas para revê-los quando a saudade apertar. Nada de fazê-los trabalhar novamente.



27 de janeiro de 2017 | N° 18753 
DAVID COIMBRA

O homem mais burro do mundo

Os prédios da Coorigha, nos baixos do IAPI, eram vigiados por guardinhas, que, na época, acho que nem eram de empresa de segurança, eram contratados pelo condomínio mesmo. Teve um que enlouqueceu. Um dia, a vizinhança ouviu uma sequência de tiros disparados atrás do salão de festas, no lugar em que ficavam os latões de lixo. Correu todo mundo para lá. O que foi? O que foi? Flagraram o guardinha guardando o revólver no coldre com a maior cara de pistoleiro de faroeste. Ele jogou para os moradores um olhar de quem cumpriu seu duro dever e, depois de um suspiro, explicou:

– Matando elefante...

Outro guardinha nós chamávamos de Zé Bolha. Ele ficava furioso quando ouvia o apelido. O Zé Bolha era gordinho, baixinho e usava um bigode de meio Rivellino. Era também meio chato – não deixava a gente jogar bola entre os edifícios. Ouvi falar que o Zé Bolha se casou com a antiga síndica e se tornou morador da Coorigha. Não sei se é verdade.

Um terceiro guardinha foi uma das pessoas mais burras que conheci. Devia ter uns 40 ou 50 anos de idade, o que era surpreendente – como uma pessoa tão estúpida havia conseguido sobreviver por tanto tempo? A existência daquele guardinha era uma vitória da civilização e, de certa forma, da sociedade brasileira. A comunidade tinha se organizado com tanta competência, que até seus membros mais incapazes seguiam respirando e bem alimentados.

Óbvio que ninguém dava a menor atenção ao que ele falava. Isso, via-se, frustrava-o imensamente. Como todo burro, o guardinha tinha a sua própria opinião em alta conta. Aliás, não precisa fazer teste de QI para saber se uma pessoa é burra; basta saber se ela se leva a sério. O burro sempre se leva a sério.

Não sei se o guardinha continua vivo, mas, se estiver, deve estar realizado. Por causa das redes sociais. Nas redes sociais, todos expõem suas opiniões e, o melhor, elas são levadas em consideração.

Isso é ótimo não apenas para o burro que dá a sua opinião, mas também para o inteligente presuntivo que o critica. Antes, se alguém fosse escrever uma tese sobre a opinião do guardinha da Coorigha, cairia no ridículo. Seria como um desses graves comentaristas econômicos ir para a TV a fim de denunciar:

– Vejam o absurdo que a minha faxineira pensa a respeito da taxa de juro...

Agora, as opiniões da faxineira economista e do guardinha da Coorigha valem tese. Alguém comenta uma bobagem no Facebook e você, de imediato, vai lá e rebate com firmeza, escreve um texto cheio de argumentos ou grava um vídeo furioso. Isso é bom demais. Faz com que você pareça progressista e corajoso. Você está combatendo os preconceitos, está mudando o mundo, está mostrando como se faz e como deve ser.

Então, vamos lá. Vamos para a internet. Abra as redes. Prepare a sua indignação e a sua verve. Deve haver algum preconceito a ser combatido. É bem provável que aquele guardinha ainda esteja vivo, afinal.


27 de janeiro de 2017 | N° 18753 
EDITORIAL

IMPUNIDADE

Quatro anos depois da maior tragédia já registrada no Rio Grande do Sul, com 242 mortes, o dia 27 de janeiro, que deveria ser dedicado exclusivamente para reverenciar a memória das vítimas e consolar a dor de familiares, amigos e sobreviventes, vai se transformando perigosamente numa data associada à impunidade. 

A sociedade gaúcha não pode se conformar com essa possibilidade. A mesma cultura de leniência, omissão e irresponsabilidade que levou o poder público, em diferentes instâncias, a permitir a operação de uma casa noturna de forma claramente irregular e sem a mínima fiscalização, corre o risco de se repetir agora com uma demora além da inevitável na apuração e punição dos responsáveis.

Em outros países nos quais foram registrados episódios semelhantes, as instituições reagiram rápido, buscando providências para evitar sua repetição e fazer valer a lei. No caso da boate Kiss, faltam respostas objetivas. E ainda há perspectivas particularmente cruéis, como a de que pais das vítimas, denunciados à Justiça por calúnia e difamação, venham a figurar entre os primeiros condenados.

Por maior que seja a complexidade do fato e por mais que o Judiciário brasileiro, historicamente, se veja às voltas com uma ampla possibilidade de recursos, o somatório de irresponsabilidades que marcou Santa Maria e o Estado para sempre não pode simplesmente ser ignorado. O caso Kiss é uma ferida aberta na consciência dos gaúchos. Qualquer demora além da previsível nas responsabilizações amplia ainda mais a dor de quem clama por justiça. A sociedade gaúcha não pode se conformar com essa inação do poder público, que tende, inclusive, a estimular um descaso generalizado com a segurança e integridade física da população.

O caso Kiss foi uma tragédia, mas não pode ser considerado acidente. O horror que ainda hoje martiriza os gaúchos só ocorreu em consequência de uma combinação perversa de ganância empresarial com omissão, jeitinho, desrespeito à lei e até conluio com agentes públicos. Uma demora em fazer justiça contribui para reforçar a ideia, comum ainda hoje, de que a falta de cuidados mínimos não dá em nada.

O fato registrado há exatos quatro anos mostra que sim, que ignorar a lei pode inclusive levar seres humanos à morte até mesmo em momentos de diversão, legando a dor da perda a familiares e amigos. Não é admissível que esses cidadãos, para os quais o poder público foi incapaz de garantir um mínimo de prevenção, precisem se sujeitar também à impunidade.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017



26 de janeiro de 2017 | N° 18752
EDITORIAIS

DUELO DE NÚMEROS


Como era previsível, a divulgação de dados sobre a situação financeira da Capital pelo prefeito Nelson Marchezan provocou uma reação dura do ex-prefeito José Fortunati. Independentemente das versões, porém, o que importa para os porto-alegrenses são as consequências práticas da crise, considerada mais grave pelo prefeito recém empossado do que a do governo estadual. Já que não foi possível evitar o descompasso entre receita e despesa, é preciso agora enfrentá-lo o mais rápido possível e com o mínimo de danos para os munícipes.

Um dos efeitos mais preocupantes da crise na prefeitura é o anúncio antecipado de que vai haver atraso no pagamento de salários dos servidores. E essa é uma opção que nenhum gestor faria sem necessidade, pelos riscos que implica. A outra consequência é que muitas obras em andamento, algumas das quais aguardadas há muito tempo, “terão de esperar”. Aos porto- alegrenses, interessam menos as razões que levaram a essa realidade crítica e mais a definição de um horizonte claro sobre quando será possível reverter o quadro desfavorável.

A questão central é que essa situação não pode continuar. É necessário reequilibrar as contas para que o município volte a investir e manter um mínimo de investimentos. E, para reequilibrar as finanças, é preciso fazer diferente do que foi feito até agora, com medidas ousadas e profundas, no interesse do conjunto dos cidadãos e não das corporações que gravitam em torno da prefeitura.


26 de janeiro de 2017 | N° 18752O 
PRAZER DAS PALAVRAS | Cláudio Moreno

Chofer

REVISADO PARA O ESTILO de hoje, poderíamos escolher entre choferes ou motoristas

Neste verão abrasador, dois estreantes vêm bater à nossa porta. Primeiro, um leitor que suponho imberbe (tem apenas treze anos) se enche de coragem e vem apresentar a sua dúvida: “Gosto de ler O Prazer das Palavras e resolvi fazer uma pergunta: por que dizem que um filme tem violência gratuita? Aqui não é sinônimo de grátis, não é?”. Não, meu jovem, não é. Se você acompanha o que escrevo aqui, já me viu várias vezes explicar que as palavras são feitas de matéria elástica, o que permite que elas se expandam para abrigar novos significados. Gratuito vem do Latim gratuitus, “dado ou recebido de graça”, sentido que mantém até hoje (entrada gratuita). 

Como se trata, porém, de algo que se recebe sem qualquer contrapartida, a partir do século 19 o vocábulo passou a ser usado também para designar qualquer coisa feita “sem motivo, sem justificativa” – coisa, aliás, que também ocorreu com a locução de graça (como em “ele a agrediu de graça”). Já se encontram exemplos disso em Machado de Assis, nosso gênio literário (se você não concorda, um dia vai concordar): “fatos que sou obrigado a enfileirar aqui para não deixar este homem sob a suspeita de caluniador gratuito” ou “Deram ao pobre velho um suplício, além de coletivo, gratuito”. José do Patrocínio, uma das figuras mais destacadas do Abolicionismo, escreve, também no fim do século, “a Guarda Negra... é gratuitamente responsabilizada pela agressão ao sr. Quintino Bocaiúva”.

De outra parte, a leitora Ivonette, de Palotina, no Paraná, tem dúvidas completamente diversas: “É verdade, professor, que chofer (de automóvel) vem do Inglês? Não é melhor usar motorista?”. A resposta vai ser não para a primeira, sim para a segunda.

Nosso chofer é o aportuguesamento do Francês chauffeur – literalmente, o trabalhador da ferrovia que cuidava da caldeira (chauffage) das antigas locomotivas. Seria algo assim como o nosso foguista ou maquinista. Com o advento do automóvel, os franceses aproveitaram o termo para designar aquele que conduzia o novo veículo – até porque os primeiros modelos eram movidos a vapor e, portanto, dotados de caldeira.

Os primeiros automóveis do Brasil vieram da França, trazidos pelo irmão de Santos Dumont e – ora, que coincidência! – pelo mesmo José do Patrocínio acima mencionado (tinha importado um Serpollet a vapor, que seu amigo Olavo Bilac destruiu, ao se chocar com uma dessas rijas árvores do trópico). Esta preferência inicial por modelos daquele país explica o fato de usarmos até hoje a nomenclatura de origem francesa e não de origem anglo-saxônica. Daí capô, marcha à ré, embreagem, derrapar, giclê, chassi, entre tantos outros.

Em 1921, a forma francesa ainda estava bem viva, como podemos ver neste exemplo de Lima Barreto: “Se o progresso traz miséria, em compensação faz nascer outras profissões. Veja você só os manicures, os pedicures, os engraxates, os motorneiros, os chauffeurs, os massagistas, etc.”. Revisado para o estilo de hoje, poderíamos escolher entre choferes (forma aportuguesada) ou motoristas, mas a maioria dos brasileiros, incluindo eu e você, optaria pela segunda.




26 de janeiro de 2017 | N° 18752 
DAVID COIMBRA


A comida típica de Porto Alegre

Lá em São Marcos, os vereadores querem instituir o Dia do Tortéi. Simpático. O mundo está cheio de problemas, por que não se dedicar, vez em quando, às coisas boas e amenas da vida? Educação, saúde e segurança podem esperar um pouco mais. Já esperaram tanto...

Eu mesmo sou um entusiasta de tortéis, mas ninguém é mais do que o meu filho. Isso que ele nunca provou o de São Marcos, que deve ser especialíssimo. Aí está um projeto para quando formos ao Brasil: vamos comer o melhor tortéi que pode ser feito em São Marcos, que, obviamente, será o melhor do mundo, visto que São Marcos é a capital torteliana do universo.

Fiquei pensando. Por que não homenagear outras tantas comidas sem galardão? Por exemplo: suponho que com R$ 10 se possa adquirir um alentado cacho de bananas, uma dúzia de ovos caipiras e um pão semolina de meio quilo. Bem. Ocorre que, com esses ingredientes, já me alimentei por uma fieira de 25 dias: pão com banana nos dias ímpares e pão com ovo nos pares. Para acompanhar, punha uma colherada de Nescafé e três de açúcar numa caneca, acrescentava oito pingos d’água e batia. Batia, batia, batia, até transformar a mistura em uma pasta da cor da pele da Juliana Paes em fevereiro. Então, derramava água fervente por cima. Ah, fica um café cremoso que você bebe de olhos fechados.

Poderia haver, portanto, o Dia do Pão com Ovo, num preito aos assalariados de baixa renda.

Por alguma razão, os líquidos são tratados com muito maior deferência pelos humanos. O vinho, o uísque e o champanhe têm devotos exigentes. A cerveja tinha até uma deusa, na velha Suméria. Chamava-se Ninkasi. O deus cervejeiro é Gambrinus. Se você for ao Restaurante Gambrinus, de Porto Alegre, verá, na parede, uma pintura que representa o deus. Contou-me o Antônio, antigo proprietário do restaurante, que essa pintura está ali desde que o Mercado Público que o abriga foi erguido, no século 19. Estava coberta por pinturas e repinturas, e ele a descobriu quando foi fazer uma reforma no local.

Se a cerveja tem deus e deusa, por que não a batata, por exemplo? No século 19, a Irlanda enfrentou a Grande Fome da Batata. Não era a batata que passava fome, mas os irlandeses, que ficaram sem ela por causa de uma praga que se abateu sobre o país. Desprovidos da batata, os irlandeses morreram aos milhares. Outros tantos emigraram para cá, para os Estados Unidos, onde fundaram alegres pubs nos quais se bebe Guiness e se come... batata.

Talvez por causa deles, irlandeses, a batata seja amada intensamente nos Estados Unidos. Todos os pratos vêm com batata, em geral frita. Curiosamente, os americanos chamam a batata frita de french fries, ou seja, fritas francesas. Deveriam ser irlandesas. Ou americanas mesmo.

A batata, pois, merecia seu dia. E a cidade da batata certamente é Nova York, que, por contradição, é chamada de Maçã.

Agora, o que me intriga é: qual é a comida típica de Porto Alegre? Não é o xis, sei que Santa Maria já reivindicou esse título. Qual é, então, o prato da capital de todos os gaúchos?

Eu, como porto-alegrense, me inquieto com isso. Será que os vereadores e o prefeito concordariam em nos transformar na sede do maior prato de resistência dos que passam por dificuldades financeiras? É coerente com o momento da cidade. Ajude-me, leitor conterrâneo. Vamos imitar São Marcos e fazer de Porto Alegre a capital mundial do Pão com Banana. Com essa crise, é o que nos sobra.

26 de janeiro de 2017 | N° 18752 

L.F. VERISSIMO

Caras


A nobreza obriga, e o protocolo também. Quatro ex-presidentes dos Estados Unidos foram obrigados a manter uma pose digna, ou uma cara de “não é comigo”, enquanto Trump discursava na sua posse e atribuía a decadência da América, implicitamente, aos quatro: Jimmy Carter, George Bush, Bill Clinton e Barack Obama. A única cara apropriadamente fechada no palanque era a de Michelle Obama. Barack sorriu mais de uma vez, e Hillary Clinton, insultada e derrotada por Trump apesar de ter mais votos, sorriu quase o tempo todo. 

O lugar dela – se a hipocrisia não obrigasse – era na marcha das mulheres contra Trump, no dia seguinte. Trump condenou toda a classe política americana na sua oratória neoisolacionista e prometeu devolver todo o poder ao povo, ele e seu gabinete de multimilionários. Está em guerra aberta contra a imprensa, contra mulheres mobilizadas, contra ambientalistas e, literalmente, contra meio mundo. Enfim, apertem os cintos. Estamos entrando numa zona de turbulência.

Surpreendente, a presença do Jimmy Carter entre os ex-presidentes na cerimônia. Pelo menos para mim, que o julgava morto. Carter foi o único presidente americano a receber o Nobel da Paz depois de deixar a presidência, pela sua atividade em defesa dos direitos humanos. E foi o último a ter um caráter inatacável, embora entrasse na História como um presidente fraco, apenas o precursor do Ronald Reagan. Na posse do Trump, Carter parecia estar longe, provavelmente pensando na sua plantação de amendoim.

DAS COINCIDÊNCIAS

No filme La La Land, tem uma cena em que a mocinha, Mia, faz um teste para entrar numa produção e conta (ou canta) o que aconteceu com uma tia, que caiu no Rio Sena. Aquilo me lembrou alguma coisa, que logo descobri o que era. Em 2009, por aí, publiquei uma história nos jornais Zero Hora e Estado de S. Paulo em que uma tia caía no Sena. 

Na minha história, a sobrinha procurava a tia num asilo para saber detalhes do acontecido, anos antes – e a tia não se lembrava da queda no Sena. Mal se lembrava de ter estado em Paris. A sobrinha então inventava uma história para contar para as amigas. A tia estava dançando ao luar num parapeito da Pont Neuf com um nobre húngaro, os dois tomando champanhe e... acontecera. Os dois tinham caído no Sena.

Duas tias caindo no mesmo rio é coincidência. Se mais uma tia cair no Sena, já é síndrome.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017



25 de janeiro de 2017 | N° 18751 
MARTHA MEDEIROS

Arte de rua

O que é arte? Difícil responder com precisão. Arte é expressão de beleza, inteligência, harmonia, subjetividade, inquietação, espiritualidade, transcendência. Arte é uma manifestação sensorial a serviço do lúdico sem desprezar o engajamento político e social que porventura tenha. Arte é tudo o que encanta, extasia, comove. 

Arte é o que nos transporta para longe do racionalismo limitado e das trivialidades, é a droga autorizada que acelera nossa pulsação e nossos batimentos cardíacos, é o colírio mágico que nos permite desenvolver um olhar mais abrangente para o que nos cerca, é o amplificador da nossa sensibilidade, é a autorização para fugirmos de enquadramentos restritos e expandir nossa existência.

Não significa que toda arte seja ótima e linda. As reações divergem, nunca haverá consenso, mas é preferível discuti-la a ignorá-la.

Grafite também é arte. Não são pichações aleatórias com intuito de vandalizar, e sim desenhos que transmitem um sentimento ou uma ideia que se deseja compartilhar com os habitantes da cidade. É uma forma de personalizar o concreto, de provocar alguma surpresa, despertar a atenção de quem não enxerga mais aquilo que todo dia vê – paredes nuas.

Aconteceu em São Paulo. O prefeito João Doria comandou uma operação limpeza na capital, tentando colocar “ordem na casa”: grafites apenas em locais predeterminados a partir de agora. Tudo bem regularizar, mas há que se ter bom senso e jogo de cintura: os grafismos paulistanos davam colorido à urbe, enchiam de vida o que antes era um espaço de fastio monocromático. 

Doria poderia ter discutido com a população as novas regras para a execução de arte de rua sem ter recorrido a uma atitude truculenta: destruir arte já realizada é sempre um crime. As cenas que estão circulando pelas redes sociais, mostrando funcionários da prefeitura pintando de cinza as paredes grafitadas da cidade, são dolorosas. É a volta do opaco em detrimento do vibrante. Antiexcitação. A eliminação do gozo.

As cidades crescem e se tornam opressivas. É preciso resistir com menos carros, mais verde, mais artistas de rua, menos buracos, menos fios enroscados nos postes, mais mesas nas calçadas, mais flores, mais segurança, mais facilitações para a caminhada e o encontro, menos angústia, mais feiras, mais graça de viver. Colocar ordem na casa é, antes de tudo, aceitar que a cidade é mesmo uma casa, e não um jazigo, uma jaula, uma cela. O Brasil anda precisando urgentemente fazer as pazes com a alegria.


25 de janeiro de 2017 | N° 18751
FILMES | por Marcelo Perrone 

JANELA INDISCRETA (Rear Window) – De Alfred Hitchcock. Com James Stewart e Grace Kelly. Este clássico é ilustrativo do fetiche voyeur. Fotógrafo com a perna quebrada observa a rotina dos moradores do prédio em frente. Certo de que flagrou um homem assassinando a esposa, o curioso sujeito e sua namorada viverão momentos de tensão para tentar comprovar a suspeita. Suspense, EUA, 1954, 103min. Telecine Cult, 19h50min

CREPÚSCULO DOS DEUSES (Sunset Blvd.) – De Billy Wilder. Com William Holden e Gloria Swanson. Da cena inicial que apresenta o “morto” que será o narrador da história ao antológico desfecho, com a atriz decadente e insana implorando por um último close, esta obra-prima é o réquiem da velha Hollywood silenciosa e dos astros e estrelas que se apagaram quando o cinema começou a falar. Enclausurada em sua fantasmagórica mansão, uma velha diva das telas vê em um aspirante a roteirista sua derradeira chance de voltar aos estúdios. Drama, EUA, 1950, 110min. Telecine Cult, 22h

GANGA BRUTA – De Humberto Mauro. Com Durval Bellini e Déa Selva. Este marco do cinema brasileiro foi um fracasso de público e crítica à época de seu lançamento, nos anos 1930, por abordar temas por demais polêmicos. Conta a história de um engenheiro que mata a mulher na noite de núpcias por ela não ser virgem. Absolvido do crime, ele vai viver em outra cidade e se envolve em um triângulo amoroso que terá consequências trágicas. Ganga Bruta foi dado como perdido até ser recuperado, nos anos 1950, e ganhar entusiasmados admiradores, como Glauber Rocha. Drama, Brasil, 1933, 82min. Curta!, 22h

ALVIN E OS ESQUILOS (Alvin and the Chipmunks) – De Tim Hill. Com Jason Lee. Compositor fracassado encontra a sorte grande quando três esquilos cantores vão parar em sua casa. Comédia musical, EUA, 2007, 92min. RBS TV, 15h15min

O ATO DE MATAR (The Act of Killing) – De Joshua Oppenheimer. Indicado ao Oscar de melhor documentário, este filme relembra um episódio terrível: a matança de mais de 1 milhão de pessoas pelo governo militar que assumiu o poder na Indonésia após um golpe, em 1965. O diretor embaralha registro factual, encenação e performance para apresentar um ensaio sobre a bestialidade humana. Documentário, Dinamarca/Reino Unido/Noruega, 2012, 117min. Disponível na Netflix



25 de janeiro de 2017 | N° 18751 
DAVID COIMBRA

Nunca desi

Sei o que o prefeito de São Paulo queria, neste caso polêmico dos grafites apagados.

Você sabe do que estou falando? Explico.

O prefeito de São Paulo declarou guerra aos pichadores. Mas, em meio ao calor da refrega, mandou apagar, além das malditas pichações, alguns grafites que tinham sido feitos a pedido da gestão anterior, e que custaram um milhão inteiro.

Diante dos inevitáveis protestos que se seguiram, um assessor da prefeitura jurou que só os grafites danificados pelo tempo haviam sido cobertos.

Que nada. Na verdade, o prefeito fez o que eu gostaria de fazer em Porto Alegre: mandou tirar o que ele não gosta.

Há várias obras de arte espalhadas pelas ruas de Porto Alegre que, quando passo por elas, penso: se fosse prefeito, atirava esse troço no Guaíba. Inclusive é o que farei, se me eleger. Você, que vota, esteja advertido.

Também removeria as pichações e mandaria os pichadores para o presídio do Rio Grande do Norte. Mas nem todas as pichações seriam apagadas. Algumas, admito, são até artísticas. Não pela forma; pelo conteúdo.

Durante a eleição de 1989, li em um muro de Florianópolis:

“As três melhores coisas do mundo: cerveja gelada, mulher pelada e Brizola no Palácio do Alvorada.

As três piores coisas do mundo: cerveja quente, a sogra da gente e Collor presidente”.

Uma pichação política.

Já vi gastronômicas:

“Odeio azeitona”.

Imaginei que o pichador fosse um marido irritado com a mulher que vivia colocando azeitona na comida e me solidarizei com ele.

Outra, na linha da autoajuda seguida de autofracasso:

“Nunca desi”. E uma familiar: “Amo minha vó”.

Há milhares de anos, antes de Jesus nascer em um estábulo do Oriente Próximo, as pirâmides do Egito eram pichadas. Na Roma dos césares, as pichações serviam como propaganda política e para espalhar difamações e notícias falsas, função do Facebook de hoje. As ruínas de Pompeia foram encontradas cheias de pichações ainda intactas, preservadas pela lava do Vesúvio. Havia de tudo, desde fofocas de cunho sexual, como:

“Phileros é um eunuco”. A denúncias: “Atimetus me engravidou”.

E ainda reflexões profundas, que poderiam ter sido feitas hoje em dia:

“Uma loira me ensinou a odiar as morenas. Eu as odiarei, se puder, mas não me importaria de amá-las”. Pichação é cultura!

Nos anos 1980, o Criciúma tinha um técnico, o Rui Guimarães, que, em dado momento, passou a ser odiado pela torcida, como sói acontecer com os técnicos. Os torcedores o vaiavam nos jogos, mas a direção o mantinha, teimosamente.

Um dia, o muro do estádio amanheceu com a seguinte inscrição: “O Rui Guimarães usa peruca”.

Não o chamava de nada, não o acusava de incompetente, não se referia à mãe dele, apenas informava que usava peruca. O que era verdade, a franja redonda o denunciava.

O Rui Guimarães ficou furioso debaixo da peruca, ordenou que os funcionários do clube limpassem o muro na mesma manhã. No dia seguinte, lá estava, de novo: “O Rui Guimarães usa peruca”.

Só. Nenhum insulto. Nenhum palavrão. Mas o Rui Guimarães se descontrolou. Dizem que ele em pessoa foi lá e repintou o muro.

Vinte e quatro horas depois, adivinhe: “O Rui Guimarães usa peruca”.

Foi o fim da carreira do Rui Guimarães no Criciúma. Não suportou a pressão.

Há, sim, pichações inteligentes, ainda que malvadas. Eu as preservaria, se fosse o prefeito. Mas aquela escultura das cuias ia para o fundo do rio.



25 de janeiro de 2017 | N° 18751
REPORTAGEM ESPECIAL

ESTADO TEME CORRIDA POR APOSENTADORIAS


DIANTE DA EXPECTATIVA de mudanças na Previdência Social, há risco de ampliação da saída de servidores, em especial por parte de professores da rede pública estadual

Após registrar o afastamento de 6,3 mil professores em 2016, a Secretaria Estadual da Educação teme enfrentar uma corrida por aposentadorias neste ano. O principal motivo da possível debandada – que também deverá atingir outras áreas do Estado, com risco de afetar a qualidade dos serviços prestados à população – é o avanço da reforma da Previdência, em debate no Congresso.

Entre as medidas previstas para fazer frente aos desfalques está o provável fechamento de 600 turmas no início de 2017, além de nomeações e contratações temporárias de educadores. Os detalhes só serão definidos após o encerramento das matrículas, previsto para 17 de fevereiro – o início do ano letivo está marcado para 6 de março.

O principal motivo de preocupação entre os servidores é a tentativa do governo federal de impor idade mínima de 65 anos para a aposentadoria. A União garante que quem cumprir os requisitos para o benefício na data da promulgação da reforma não será atingido. Mesmo assim, o receio de perder direitos já ecoa nas escolas e em outros setores do Estado. 

No caso dos educadores, a resistência é ainda maior, porque hoje eles têm direito à aposentadoria especial. Por lei, as mulheres podem fazer o pedido com 25 anos de contribuição e idade mínima de 50 anos. Os homens, com 30 de contribuição e 55 de idade.

SITUAÇÃO PREOCUPA, ADMITE SECRETÁRIO

Além disso, o governo de José Ivo Sartori suspendeu a concessão de novas gratificações de permanência – valor pago para quem pode se retirar, mas opta por seguir em sala de aula. Sem o estímulo, as chances de saída tendem a se potencializar.

Em 2016, segundo a Secretaria da Educação, dos 6,3 mil afastamentos, 2,9 mil decorreram de aposentadorias, 86 de mortes e 3,3 mil de exonerações. Para este ano, a pedido de ZH, a Secretaria de Modernização Administrativa e Recursos Humanos projetou a quantidade de mestres aptos a sair de cena: serão 4.140. Caso isso se confirme e o número de óbitos e de exonerações se mantiver constante, os afastamentos podem chegar a 8 mil.

– A corrida por aposentadorias vai começar entre fevereiro e março, assim que terminar o período de férias. A categoria está em pânico. Diariamente, somos procurados para prestar algum tipo de esclarecimento e estamos alertando sobre os riscos – afirma Solange Carvalho, vice-presidente do Centro dos Professores do Estado (Cpers-Sindicato).

O secretário estadual da Educação, Luís Antônio Alcoba de Freitas, admite que a situação preocupa, mas diz que conseguirá suprir a ausência. Isso se dará, segundo ele, por meio da extinção de turmas com menos de seis alunos, do recrutamento de novos professores e da convocação de educadores do quadro atual para que assumam novos contratos – a situação vale, por exemplo, para os que cumprem 20 horas semanais.

Freitas ainda não sabe dizer quais escolas serão afetadas e quantos profissionais terão de ser chamados, porque isso dependerá do número de matriculados e da evolução das aposentadorias mês a mês.

– Historicamente, em todas as reformas feitas no país, houve corrida por aposentadorias. É possível que isso ocorra, sim, e é claro que nos preocupa. Se acontecer, vamos ter de pedir autorização ao governador para ampliar as nomeações e contratações emergenciais, e sabemos que o Estado vive uma crise. Por outro lado, o número de matrículas caiu de 1,4 milhão, em 2004, para cerca de 960 mil em 2016. Temos a média de um professor para cada 13 alunos, o que nos dá certa folga – pondera Freitas.

O secretário também pretende implementar metas de aprendizagem para reverter maus resultados – e evitar que piorem ainda mais. Na última semana, o Movimento Todos Pela Educação mostrou que só 8,9% dos estudantes do 3º ano do Ensino Médio no Estado tinham nível adequado de aprendizagem em matemática em 2015.

Na avaliação do professor Fernando Becker, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o cenário é “dramático”, e a possível debandada de mestres pode agravar a situação, prejudicando alunos e causando transtornos para os pais.

– A situação é assustadora. Não se faz educação de qualidade sem professores, e eles precisam estar motivados – afirma Becker.

juliana.bublitz@zerohora.com.br

terça-feira, 24 de janeiro de 2017



24 de janeiro de 2017 | N° 18750 
CARPINEJAR


Apagava os livros para o meu irmão mais novo

Quando terminava o ano letivo, eu tinha a missão de reunir os livros usados em aula e apagar o que escrevi para oferecê-los ao caçula. Era uma obrigação limpar as respostas. Levava dias e duas borrachas brancas para desaparecer com aquilo que aprendi durante uma série inteira.

Da lista escolar, apenas comprávamos os cadernos. Estudávamos na mesma escola e reutilizávamos os livros de exercícios. O meu irmão mais velho reproduzia o gesto comigo. História, geografia, matemática, língua portuguesa e ciências, as obras migravam de um nome para outro na aba de rosto sem trocar o sobrenome. Folheava os fascículos e em cada pergunta constava o relevo da letra emendada do Rodrigo, como um adubo do meu conhecimento, papel vegetal de minha alma. Ele nunca deixava nada sem preencher – a sua inteligência e presteza me apuravam. Queria ser como ele, desta forma seria melhor do que eu.

Suas marcas me inspiravam a não desistir, a cavar a solução dos problemas e equações. Pois, se ele respondeu, é que existia a resposta, isso me confortava a continuar buscando o resultado no fundo da memória. Às vezes, quando não sabia a questão, tentava trapacear e passar a minha letra por cima da dele. Nunca estive sozinho na dúvida. Ele me apoiava secretamente, tal tutor da caligrafia.

Predominava na época uma grave consciência de herança, de que deveria seguir os seus caminhos curvos da palavra e retos de conduta.

Jamais recebia um livro inédito. As linhas sempre estavam pressionadas pela mão direita do Rodrigo. Quando realizava os temas, eu também mantinha o capricho de não afundar demais o lápis, para não atrapalhar Miguel no ano seguinte. Escrevia leve, acariciando a folha. Não podia estragar o conjunto, rasgar algo, prejudicar a capa, desenhar nas bordas, colar adesivos. A responsabilidade já aparecia na ponta de meus dedos.

Havia a noção de que o livro era coletivo, não pessoal. Representava um patrimônio de todos os filhos. Não seria posto numa caixa de pertences para nunca mais, nem jogado fora. Estudar significava cuidar. Assim eu fui educado a não ser egoísta e possessivo, a não me sentir dono da verdade, a ceder o espaço para quem vinha depois de mim.

Livro importante era livro passado adiante.


24 de janeiro de 2017 | N° 18750
PREVIDÊNCIA


Onde trabalhar depois dos 65 anos é desafio da reforma

ESPECIALISTAS DEBATEM MUDANÇAS no mercado em caso de aprovação
Caso a proposta de reforma previdenciária seja aprovada na íntegra no Congresso, a maioria dos trabalhadores será obrigada a esticar a vida profissional. A idade mínima para a aposentadoria será 65 anos, sendo necessário se manter no mercado além dessa faixa etária para obter o valor integral do benefício.

O cenário atual dá uma ideia do desafio para o mercado de trabalho. Segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2015, do Ministério do Trabalho, pessoas com mais de 65 ocupam somente 1% das 48 milhões de vagas com carteira assinada no Brasil, entre celetistas, servidores públicos e temporários.

Para a pesquisadora do Ipea Ana Amélia Camarano, a reforma precisa estar integrada com outros ministérios, como Trabalho e Saúde. Na rota em que está, aposentados não terão lugar no mercado.

– Para algumas atividades, a idade conta a favor, como professores, advogados. Mas para outras, como mineiros e metalúrgicos, ela trabalha contra. Será preciso requalificar esses trabalhadores, ao mesmo tempo em que se promovam melhores condições de saúde – afirma a pesquisadora, uma das organizadoras do livro Política Nacional do Idoso: Velhas e Novas Questões.

Ela entende que o governo precisará oferecer um pacote completo de medidas, incentivando setores com maior potencial de empregar trabalhadores mais velhos.

CAPACIDADE PRODUTIVA É PONTO DE DISCÓRDIA

Coordenadora de pesquisas do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Patrícia Pelatieri prevê idosos sem condições de trabalhar e passando dificuldades. E aqueles que estiverem aptos terão de disputar, em desvantagem, lugar com os jovens:

– Mais vagas de trabalho e idosos aptos para elas não são duas coisas possíveis. Teremos milhões de idosos miseráveis no futuro.

Ela explica que a maioria dos trabalhadores não consegue chegar aos 65 anos aptos para continuar ou tentar um emprego porque as atuais condições não permitem.

Já o vice-presidente e coordenador do Conselho de Relações do Trabalho e Previdência da Fiergs, Paulo Garcia, entende que o futuro será em sintonia com a reforma.

– Os 65 anos anos de hoje equivalem aos 55 anos da década de 70. E, naquela época, o trabalho era muito mais pesado. Há uma evolução natural, hoje se tem uma técnica mais evoluída.

Para ele, o desafio de criar vagas suficientes para jovens e idosos vai depender de crescimento econômico. E uma das variáveis para que isso ocorra seria, justamente, a reforma da Previdência:

– Porque há distorções que têm de ser corrigidas, como gente se aposentando com menos de 50.

Para o economista Thiago Andreis, da Fundação de Economia e Estatística (FEE), o cenário obrigará o trabalhador a criar alternativas para complementar a renda além da aposentadoria. Ele acredita que poucos terão condição de trabalhar e contribuir por muito tempo, devendo se aposentar ganhando menos já aos 65 anos:

– A opção seria formar uma poupança ao longo da vida. Mas o brasileiro já ganha muito pouco.

Em busca de respostas para identificar onde vão estar as oportunidades de trabalho formal para essas pessoas, a reportagem procurou o Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário, que responde pela Previdência Social e recomendou o Ministério do Trabalho para falar sobre o assunto. Somente o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, estaria apto para comentar, segundo a assessoria de comunicação da pasta. Até a noite de ontem, ele não havia se manifestado sobre o assunto.

leandro.rodrigues@diariogaucho.com.br

REFORMA


Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) aposta que a reforma será aprovada no primeiro semestre deste ano. Veja os pontos mais polêmicos:
-Idade mínima: 65 anos para homens e mulheres do setor privado e funcionários públicos.
-Tempo de contribuição: o prazo mínimo seria elevado dos atuais 15 anos para 25 anos.
- Fim da fórmula 85/95: a fórmula atual, que tem previsão para durar até 2026 e reúne idade com tempo de contribuição (são 30 anos para mulheres e 35 para homens), acabará caso a reforma seja aprovada.
- Professores e policiais civis: acaba a aposentadoria especial de professores dos ensinos Fundamental e Médio e policiais civis.
- Aposentadoria integral: a forma de cálculo para se chegar ao valor integral ainda será definida.


24 de janeiro de 2017 | N° 18750
CAPA | NILSON SOUZA

Fazendão aconchegante

Pessoas de olhos claros não gostam muito de claridade. Por isso, acho, minha mulher nunca apreciou as nossas praias de areias brancas. Para fugir do calor sufocante de Porto Alegre no forte do verão, costumávamos fugir para a Serra. 

Foi assim que descobrimos o Veraneio Hampel, lá pelo final da década de 1970, quando éramos suficientemente jovens para sair sem destino certo nem acomodações reservadas. Pegamos a RS-020, passamos por Taquara e, de repente, nos vimos naquele caminho encantado para São Chico, com hortênsias por todos os lados.

O Hampel era um casarão de madeira, localizado num imenso parque florido e arborizado, com trilhas, riachos e cascatas. Parecia mais uma fazenda do que um hotel. Lembro, inclusive, que num passeio pelo gramado encontramos dois forcados, aqueles garfões utilizados para amontoar feno. 

Naquele cenário lindo, fiz uma foto de minha companheira simulando um diabinho de desenho animado. Outras lembranças claras, mais de quatro décadas depois: a comida era ótima e a cama do quarto que ocupamos tinha um colchão convenientemente côncavo para a nossa juventude e para o friozinho que fazia à noite.