quarta-feira, 27 de janeiro de 2016



27 de janeiro de 2016 | N° 18427 
MOISÉS MENDES

Capilé

Há coisas e pessoas que somem da nossa frente, como sumiu o Capilé. Pablo Capilé desapareceu da nossa vista, mas claro que anda por aí. Pra quem não lembra, ele se afirmou como guru de jovens e de velhos nas passeatas do inverno de 2013.

Mas Capilé só olhava as marchas de fora, refletia e agitava. É o cara do coletivo Rede Fora do Eixo e do jornalismo alternativo da Mídia Ninja. Eu vi Capilé numa entrevista ao grande Antônio Abujamra, em 2014, no programa Provocações, da TV Cultura. Abujamra perguntou se ele acreditava em reencarnação, ou algo assim, e o que ele gostaria de ser se voltasse outra vez ao mundo.

Capilé disse que gostaria de voltar mulher, para poder enfrentar preconceitos. Eu gosto da agilidade mental do Capilé, da reflexão elaborada, da facilidade com que se expressa. Mas ele não aparece mais na TV nem nos jornais.

Lobão chegou a desafiá-lo para um duelo num debate, mas Capilé recusou. Fez bem. Lobão só tem a frase básica, do sujeito que corre atrás de um predicado para desaforar alguém. Faltam instrumentos a Lobão para um debate com Capilé.

Capilé desapareceu da mídia convencional. Surgiu então, mas andando em direção contrária, o Kim Kataguiri. Capilé fazia aquele estilo de guru blasé, com a conversa de que não queria ser líder de ninguém. E o Kataguiri tem essa fleuma bíblica de quem nasceu com a missão de conduzir a juventude a algum lugar que o ultraconservadorismo adulto indicar.

O rapaz tentou, no ano passado, conduzir um grupo a Brasília, na marcha patética pelo impeachment, atossicado por raposas golpistas que o abandonaram no caminho. Saiu com 30 pessoas de São Paulo e chegou a Brasília com nove.

O Brasil retrocede tanto, que trocamos Capilé, que lê Nietzsche, por meninos que leem Reinaldo Azevedo, falam como o Bolsonaro e escrevem como o Caiado. Nada é mais triste do que um jovem conservador.

Capilé deixou de ser midiático, mas dizem que andou em Porto Alegre no Fórum Social Mundial. Por que Capilé não tem mais o charme de 2013?

É fácil responder, depois de se ver os adolescentes que invadiram as escolas de São Paulo contra o projeto de fechamento dos colégios do governo do Estado e que agora voltam às ruas contra o aumento das passagens dos ônibus.

A fila andou para a turma do Capilé. Os guris dos protestos de 2013 têm 20 anos ou mais. E o pessoal que agora estremece São Paulo não deve confiar em ninguém com mais de 20 anos. É provável que eles nem saibam quem é o trintão Capilé.

Transgressores envelhecem cada vez mais rápido. Pena que não tenha surgido ninguém mais com a verve do Pablo Capilé.



27 de janeiro de 2016 | N° 18427 
PEDRO GONZAGA

GUERRA E PAZ


No verão dos meus 18 anos, crente de que meu destino era ser um intelectual, impus-me dominar Guerra e Paz, supertrunfo das discussões literárias. Eu vinha lendo Kundera, Llosa, Kafka, García Marquez, Dostoiévski. Enquanto escrevo, revivo o afeto por esses autores, aqueles que o coração guarda, aqueles que me formaram como leitor. 

Os livros da adolescência – quaisquer que sejam eles – têm como missão primeira prolongar a fantasia da infância, erguer a ponte para esta inesgotável brincadeira de adultos que é a literatura. Um intelectual, no entanto, quer séria a brincadeira, quer discutir-lhe as regras, ser especialista no jogo.

Eu, intelectual, naquele verão em Capão da Canoa. Ali estavam os dois volumes robustos, de letras miúdas, com seus canhões na sobrecapa. Eu tinha um mês. Determinei-me, soberbo, quarenta páginas por dia.

Tudo parecia certo, mas não previ um inimigo oculto: as cartas que eu escrevia, compostas com esmero, em papel almaço, para três improváveis pretendidas – eu tentava escapar ao que os meus alunos hoje chamam de friend zone. Honestamente, não sei por qual das três estava apaixonado. As cartas, contudo, prejudicavam meu ritmo.

Nos 10 últimos dias, a meta precisou ser alterada para 60 páginas. Foi quando me perguntei qual era o sentido daquilo tudo. Suspendi as cartas, imoladas ao altar da intelectualidade, aferrei-me à meta. E venci. Venci, mas quase nada lembro da grande obra do mestre russo. Venci, mas as três moças voltaram a receber apenas boletos em suas caixas de correio.

O que ganhei naquele verão, no entanto, só mais tarde o descobri. Sempre que era chamado de intelectual, ou pensava-me um (o que é bem pior), sentia não alegria, mas desconforto. Por sorte, um dia me dei conta de que a gênese da sensação estava no Tolstoi da praia, naquela pretensão de uma ridícula disputa de prioridades entre vida e literatura, quando ambas devem ser aliadas. Acima de tudo, eu errara nas proporções entre uma e outra. Deixem-me colocar a ideia numa máxima, válida pelo menos até o Carnaval:

Amores únicos, leituras múltiplas. Amores longos, leituras breves.



27 de janeiro de 2016 | N° 18427 
DAVID COIMBRA

Por que cresce Bolsonaro

Bolsonaro não é filhote da ditadura. É filhote do PT.

Bolsonaro é a reação mais acerba e menos lapidada a 14 anos de governo do PT no Brasil. Não chega nem a ser um antipetista clássico. É uma caricatura de antipetista clássico.

Bolsonaro foi recebido com festa de centroavante goleador, no aeroporto de Porto Alegre, nesta semana. Tem sido assim em todo o país. Chamam-no de “mito”.

Ontem, o entrevistamos no Timeline, da Gaúcha. Ele foi ao estúdio, conversamos rapidamente por Skype. Eis um homem encantado com a própria popularidade. Bolsonaro está feliz. As coisas têm dado certo para ele. Tanto, que vai se candidatar à Presidência do Brasil.

Não será eleito. Não devido as suas ideias ou a sua postura, no sentido de “compostura”. Ideias e postura não elegem presidentes, no Brasil. Dutra não tinha ideia alguma, e Jânio e Collor eram o que havia de mais exótico em suas épocas.

Bolsonaro não será eleito pelo mesmo motivo que fez dele um dos políticos mais populares do Brasil: porque não usa nenhum filtro quando emite opiniões.

O brasileiro, na média, nunca vota no mais; vota no menos. Ele não vota no que tem mais chance de dar certo, vota no que tem menos chance de dar errado. Mesmo o voto aparentemente esdrúxulo, como o voto em Collor, é conservador: em campanha, Collor jamais dizia claramente qual era o seu projeto, até porque ele não tinha projeto algum. Posava de valente, de inimigo do Mal, e todos são contra o Mal.

O voto em Lula foi igualmente conservador. Havia já três eleições que Lula concorria e era derrotado. Na quarta, sua barba estava grisalha e seu discurso estava macio. Convencionou-se, entre os eleitores, que, em 2002, chegara “a vez dele”. Era uma espécie de “decorrência natural”, na cabeça do eleitor.

Lula, tanto quanto Collor antes dele, teve a sabedoria de ser dissimulado durante a campanha. Lula, tanto quanto Collor antes dele, foi eleito pelo mérito de não ter projeto algum antes de assumir.

Bolsonaro não é dissimulado. Ele expõe claramente quem é. E ele é um tipo que, nos Estados Unidos, seria chamado de “rude”, adjetivo que se aplica bem, no caso, também em português. Bolsonaro é um sujeito agreste, de opiniões antigas, é um Trump caboclo, com a mesma agressividade, mas sem a competência empresarial a lhe dar respaldo.

O que dá respaldo a Bolsonaro é o ódio que sente e o ódio que sentem dele. Ontem, o movimento LGBT, que odeia Bolsonaro, fez uma manifestação onde ele se apresentava, em Porto Alegre. Deu briga. Não cresceu o movimento LGBT; cresceu Bolsonaro.

Bolsonaro não é oposição ao PT; ele odeia o PT. Foi cevando esse ódio que ocupou tanto espaço, porque a maioria dos brasileiros não suporta mais o PT.

Esse mesmo ódio, porém, vai acabar com Bolsonaro. Quando não houver mais PT a combater, ele não terá mais o que dizer. Quando o PT perder o protagonismo político, Bolsonaro também perderá seu protagonismo. Não por ser de direita ou por ser preconceituoso, mas porque há políticos de direita e preconceituosos melhores do que ele. Mais lapidados, mais flexíveis, mais dissimulados. Só que, por ora, nenhum tão feroz.

A ferocidade de Bolsonaro irá transformá-lo em subalterno de políticos mais requintados. Em alguns anos, nós todos vamos rir desse momento estranho em que uma pequena jaguatirica da ditadura foi chamada de “mito” nos aeroportos do Brasil.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016


26 de janeiro de 2016 | N° 18426
CAPA

Melhor do que a ficção


DOCUMENTÁRIOS INDICADOS ao Oscar são filmes de qualidade que estão acessíveis ao público brasileiro

Dez anos atrás, críticos costumavam dizer que era preciso ver os documentários nacionais mais do que o cinema de ficção produzido no país para entender o Brasil. Hoje a sentença vale em escala global: com tanta ou mais competência do que a ficção, o documentário tem investigado e aprofundado praticamente todos os grandes temas do mundo contemporâneo.

Primavera árabe, violência policial, imigração europeia, colapso econômico, os gênios e os injustiçados – são as pautas dos melhores filmes recentes do gênero. Com suas idiossincrasias, a Academia de Hollywood tem selecionado algumas dessas preciosidades para o Oscar. O problema é conseguir vê-las: as distribuidoras não raramente ignoram os documentários, que só estreiam nos cinemas quando têm apelo pop – caso de filmes de diretores como Michael Moore ou sobre personalidades como Amy Winehouse.

Uma novidade de 2016 é que quatro dos cinco indicados ao maior prêmio da indústria poderão ser vistos, no Brasil, antes da entrega dos troféus. São eles os excelentes Winter on Fire e What Happened, Miss Simone?, ambos produzidos pela Netflix, e Cartel Land e Amy, duas produções independentes adquiridas para exibição pela gigante do streaming (este último chegou a ganhar sessões nas salas de Porto Alegre). 

O outro concorrente, O Peso do Silêncio, passou no Festival do Rio (por isso tem título em português). E é, também, sobre um universo já conhecido do público, à medida que volta ao tema do impressionante O Ato de Matar (2012), exibido na capital gaúcha na edição de dezembro de 2013 da Sessão Plataforma, na Sala P.F. Gastal.

Por seu naturalismo na abordagem de episódios reais, Spotlight e A Grande Aposta são representantes de um cinema próximo do documental selecionados para o Oscar de melhor filme. Mas não têm o impacto de Winter on Fire, com suas imagens duras e poéticas dos assassinatos cometidos pela polícia à serviço do presidente ucraniano Viktor Yanukovich entre 2013 e 14. 

Se há um favorito em meio à ótima safra dos indicados à estatueta de melhor documentário, talvez seja essa produção da Netflix. Caso vença, será o primeiro Oscar da gigante do streaming, revolucionária na televisão e, pode-se ver desde já, também no cinema.

daniel.feix@zerohora.com.br - DANIEL FEIX

26 de janeiro de 2016 | N° 18426
COMPORTAMENTO

Desafios em uma NOVA ESCOLA



PAIS DE ESTUDANTES que mudaram de escola devem estar atentos aos sinais dos filhos no período de adaptação aonovo ambiente de estudos

O início do ano letivo é tempo de reencontro. Voltar ao convívio dos amigos é uma das principais motivações dos estudantes no período de volta às aulas. Mas e quando os colegas e a escola são uma novidade? Seja por mudança de endereço, situação financeira ou até por pedido do próprio aluno, trocar o ambiente de estudos exige que toda a família se envolva na adaptação. A recomendação dos especialistas é de que a preparação para quem vai frequentar uma nova escola neste ano comece desde já.

Segundo a professora de Pedagogia da Universidade Federal de Santa Maria Doris Pires Vargas Bolzan, quanto menor a criança, mais complexa é a mudança:

– A confiança não é algo fácil de ser adquirido pela criança. Ela precisa conhecer a rotina da escola, quem vai estar na hora do lanche, do intervalo, ou quem vai estar no segundo turno, se é uma escola de dois turnos.

Um erro comum dos adultos é fazer a matrícula na nova escola sem dar muitas informações à criança. Nos dias que antecedem o início do ano letivo, é preciso conversar sobre os aspectos positivos que o novo espaço oferece. É importante deixar claro que a troca de escola não é um castigo.

– A criança tem de participar, e a mudança tem de fazer sentido para ela. A escola é o ambiente em que se constroem laços que, muitas vezes, continuam por toda a vida, por isso a adaptação precisa ser muito trabalhada – explica a professora de Psicologia da Feevale Lisiane Menegotto.

Ainda que o tempo de adaptação seja diferente para cada aluno, a interferência dos pais e dos professores ajuda a encurtar esse período. Planejar uma estratégia de aproximação do aluno com o seu novo ambiente escolar costuma ajudar a criar familiaridade. Atividades simples como um passeio pela nova escola fazem com que o estudante chegue mais seguro ao primeiro dia de aula. Manusear os novos materiais, como agendas e uniformes que serão usados durante o ano, também prepara a criança para o que ela vai vivenciar na escola.

A tranquilidade transmitida pelos adultos condiciona a adaptação. Por isso, é necessário tratar a mudança com naturalidade.

– Precisamos encarar de maneira positiva, como algo que faz parte da vida. Porque, às vezes, o pai está mais aflito com a mudança do que a própria criança – afirma Dóris, salientando que conversas com os profesores e com a orientação pedagógica dão bases para a atuação dos pais, além de deixá-los mais tranquilos.

Como ajudar


Veja algumas dicas para facilitar a adaptação dos estudantes


- Leve a criança ou o adolescente para conhecer a nova escola antes do início do ano letivo.


- Mostre o material da nova escola (agenda, uniformes, material escolar) e ressalte os aspectos positivos do novo ambiente


- Nos primeiros dias, os pais ou algum familiar podem permanecer na escola com a criança.


- Observe os sinais do estudante, como o seu humor antes de ir para a escola.


- Converse com os professores e com a gestão pedagógica sobre a adaptação.


 -Procure se aproximar das famílias dos novos colegas dos estudantes, visando encontros e visitas fora da sala de aula.



26 de janeiro de 2016 | N° 18426
CRISE NA SEGURANÇA

SOLUÇÕES ESTÃO LONGE


NA EDIÇÃO DE ONTEM, ZH ouviu chefes da BM e Polícia Civil. Medidas apontadas por eles como ideais contra a insegurança não aparecem no horizonte

Para quem vê na ampliação de recursos e na contratação de policiais uma das saídas para melhorar o combate à criminalidade, o cenário na segurança pública é desanimador. Além de o governo ter reeditado em janeiro o decreto que congela nomeações e concursos públicos, os valores destinados, por exemplo, ao custeio mensal das corporações têm caído – sem falar na dificuldade de pagar salários em dia.

Só na Polícia Civil, por exemplo, o valor para custeio disponibilizado para este mês é 13,6% inferior ao de janeiro do ano passado. Se comparado com janeiro de 2014, a queda é ainda maior: foram 17% a menos no valor destinado a cobrir gastos com itens como luz, água e gasolina (sem levar em conta investimentos e vencimentos). Neste período, entre 2014 e 2016, só a conta de luz, dependendo da região, teve reajustes que variaram de 27,7% a 55,1%. O custo com a água aumentou em 9,8%. E a gasolina, principal item para que o cidadão veja a polícia motorizada na rua, em policiamento ostensivo e preventivo, prendendo e atendendo ocorrências, teve aumento de 19,8%.

Enquanto as corporações fazem esforço para manter em dia a estrutura existente (e insuficiente), a possibilidade de ampliar efetivos segue distante. Em reportagem publicada na edição de ontem de ZH, o comandante-geral da Brigada Militar (BM), coronel Alfeu Freitas, e o chefe da Polícia Civil, delegado Guilherme Wondracek, falaram da necessidade de contratar mais policiais, entre outras medidas (leia ao lado). As duas corporações têm candidatos aprovados em concurso esperando serem chamados para fazer a formação: são 2 mil na BM (1,6 mil policiais e 400 bombeiros) e 670 na Polícia Civil.

A Casa Civil tem dito que o “Estado tem dificuldades para contratar por ter superado no ano passado o limite prudencial de gasto com pessoal previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal Federal.” Governador em exercício durante as férias de Sartori, o vice José Paulo Cairoli (PSD) disse ontem que a questão não é simplesmente contratar novos policiais:

– O governador Sartori já demonstrou neste ano que as coisas vão ocorrendo dentro de seu tempo democrático, de construção coletiva, e essa ansiedade que todos temos, e ele também tem, de resolver ou dar um encaminhamento melhor para a segurança. O que não é simplesmente contratar novos ou mais policiais. É muito mais do que isso. Está na nossa meta, no nosso projeto, fazer isso também. Teremos ainda alguns avanços nos próximos meses para depois caminharmos para a contratação.

*Colaboraram Caio Cigana e Débora Ely - adriana.irion@zerohora.com.br

26 de janeiro de 2016 | N° 18426 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

A PISCINA


A diretora do ótimo filme Que Horas Ela Volta?, Anna Muylaert, fez uma excelente frase esses dias, num debate durante o Fórum Social Mundial 15, em Porto Alegre. Versava justamente sobre o filme dela, que, como o prezado leitor sabe, coloca em ação um enredo de alta potência crítica: família de classe superior em São Paulo tem uma faz-tudo em casa, uma empregada residente, representada pela Regina Casé; ela cuidou do filho do casal e goza daquela intimidade mesclada com indiferença que o Brasil conhece bem (e é ultraestranha fora daqui); e acontece que sua filha, Jéssica, criada em Pernambuco por dinheiro enviado pela mãe (que no mais foi ausente), agora resolveu vir morar em São Paulo, para estudar Arquitetura na USP, nada menos. 

E vem mesmo, e ao chegar constata, ao vivo, o que é a moderna segregação de classe em convivência estreita com a velhíssima subordinação social.

A casa tem uma piscina, ponto de crise da história toda, porque não é para ser usada pela Jéssica, porque Dona Bárbara não quer, porque não fica bem, porque… por quê, mesmo? A frase da diretora: “O Brasil está no momento em que a Jéssica caiu na piscina e a dona Bárbara esta lá berrando: sai daí! sai daí! Mas acho que não tem mais volta”.

Não por total acaso, uma piscina é também o ponto de desequilíbrio do belíssimo novo romance de Fernando Bonassi, chamado Luxúria (Record). A piscina é a mesma, mas é outra, aliás: casal com filho entrando na adolescência, ele metalúrgico, ela “do lar”, o filho um problemático sofredor de bullying, moram em casa recém-adquirida, em um desses desoladores conjuntos massivos, sem um pé de árvore e espaços acanhados. 

E há um micropátio, onde o homem resolveu, num ímpeto que mistura bravata, vontade de transcender sua antiga pobreza e financiamento barato, mandar construir uma piscina ali. Uma piscina totalmente fora do razoável. Uma piscina que leva tudo para o ralo.

O romance de Bonassi é uma realização superior à de Muylaert, mais madura e completa, mas os dois casos se aliam no desenho da era Lula/Dilma, ou da fase em que tudo andou bem, com crédito barato e estímulo ao consumo aqui, e a China comprando tudo, lá. O futuro dará razão à visão relativamente positiva que a frase da diretora indica? Ou será o horror que o romance oferece?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016



25 de janeiro de 2016 | N° 18425
CRISE NA SEGURANÇA

FUI ASSALTADO...


Os ladrões perderam o medo de agir no Rio Grande do Sul. Não respeitam mais horário, local ou farda. Atacam de manhã, na parada de ônibus. À tarde, roubando carros – nem só dos distraídos, mas de qualquer um. À noite, na saída de estabelecimentos de ensino, no saque a restaurantes, nos sequestro-relâmpagos junto a caixas eletrônicos.

Isso tudo sempre existiu, mas nunca com tanta intensidade como agora. O Rio Grande do Sul atravessa um período crescente de criminalidade. Pior: o crescimento é maior entre os delitos graves. Os assaltos aumentaram 60% nos últimos cinco anos. Os roubos de carro, 68%. Os latrocínios (quando, além de roubar, os ladrões matam a vítima), 88%. Os homicídios, 42%. Já os furtos, que não envolvem violência, diminuíram 12%. A interpretação é clara: os bandidos estão menos habilidosos e mais violentos, inclusive na hora de acertar contas entre si (na maioria dos homicídios, as vítimas são criminosos).

Mais de 5 mil detentos ganharam direito a prisão domiciliar – mas quem fiscaliza se eles ficam no lar? Parte deles não fica: 129 foram presos ano passado assaltando, quando deveriam estar no trabalho ou em casa. Enquanto isso, os efetivos policiais diminuem. A Brigada Militar encolheu 7% em decorrência de aposentadorias e não reposição de quadros em 2015.

A soma de mais bandidos soltos e menos policiais faz com que não exista mais hora nem local para assaltos, como mostra esta reportagem que dá início à série Crise na Segurança – um esforço conjunto das redações de Zero Hora, Diário Gaúcho, Rádio Gaúcha e RBS TV. Duas ou três vezes por semana, matérias especiais irão cobrar e ajudar a buscar soluções para o problema (leia também Editorial na página 24).

...na escolinha

A.K.R.T.*, 34 anos, enfermeira

“No dia 5 de março do ano passado, por volta de 13h30min, estava indo levar o meu nenê na escolinha (no bairro Menino Deus, em Porto Alegre). Ele tinha cinco meses na época. Quando estava descendo do carro, fui abordada por dois homens armados. Eles não queriam me deixar tirá-lo do carro (a ação foi fotografada por uma pessoa que estava em um prédio e as imagens, divulgadas por Zero Hora, ajudaram na identificação dos dois criminosos, segundo o delegado César Carrion). Mais duas pessoas estavam em um carro estacionado do outro lado da rua. Um desses dois que vieram até mim, falou: “Me dá a chave, e o nenê fica”.

Aí comecei a gritar: deixa tirar o nenê, deixa tirar o nenê.Não adianta, mãe é mãe e eu só pensava nele. Tentava entrar no carro, mas eles me seguravam. Até que um atirou para cima. Pensei que iria me matar. Nesse momento, quando ele tirou uma mão de mim para sacar a arma, consegui tirar meu nenê de dentro do carro. Eles entraram no meu carro e fugiram. Sempre fui supercuidadosa, mas, infelizmente, a gente fica à mercê desse bando de gente. Agora, fico ainda mais atenta. Levo a criança em escolinha que tem segurança, não paro mais na rua, mudei de casa. E o pior é ir nas audiências e eles (os suspeitos) estarem cheios de advogados. Só faltam os advogados chamarem eles de coitadinhos.”

...no lotação

Daniel Fernandes, 34 anos, diretor-executivo

“Tudo aconteceu em um dia normal de semana (25 de novembro de 2015), lá pelas 13h30min. Tinha ido em casa ao meio-dia pegar um documento e cortar o cabelo perto do Shopping Praia de Belas. Saí do cabeleireiro e peguei um lotação. Tive de contar as moedinhas no bolso, não tinha praticamente dinheiro nenhum. Estava totalmente desligado, com fone de ouvido escutando um programa de rádio, quando um homem sentado ao meu lado, só que do outro lado do corredor, agitou uma sacola e tirou uma arma de dentro. Ele pulou para o meu banco, me empurrou para o assento junto à janela e colou o revólver na minha barriga.

Ele pediu meu celular e falou: “Desbloqueia”. Disse que meu celular não era bloqueado. Então, mandou sair do iCloud (dispositivo que ajuda a rastrear o aparelho). Nem sabia como fazer. Então, entrou nas configurações, era bem entendido, mexeu e mandou colocar a minha senha do iCloud. Estava tremendo tanto que nem consegui. A gente já estava indo para o fim da linha quando ele me devolveu o celular e pediu a carteira. Abri e mostrei que não tinha nenhum real. Pediu a aliança. Era de noivado, não tinha casado ainda. Então, ele se levantou e desceu sem que ninguém no lotação percebesse. Quando ele saiu, gritei: aquele cara me roubou. Fui em uma delegacia e uma policial riu da minha cara e ainda disse que nem em lotação as pessoas estão seguras.”

...no apartamento

F.O.*, 29 anos, psicólogo

“Em setembro do ano passado, por volta das 20h, minha irmã e o namorado deixaram o nosso apartamento, no bairro Bom Fim, para irem a uma festa. Quando estavam na portaria, foram rendidos por dois homens armados com um revólver que os obrigaram a subir de volta ao apartamento. Eu estava na sala, assistindo à televisão, quando fui surpreendido com a minha irmã entrando e dizendo: “Fica calmo, está tudo bem.” Logo atrás dela, o namorado com a arma na cabeça seguido pelos assaltantes. Perguntaram quantas pessoas havia na casa – um amigo nosso estava em um dos quartos. Nos renderam por 10 minutos, levaram celulares, iPads, TV, relógios, até cueca de marca secando no varal. Pediram todas as chaves e também a do carro.

Falei que o meu carro estava sem bateria na garagem, o que é verdade, pois raramente utilizo. Pegaram a chave do carro do nosso amigo, mais algumas joias e saíram. Foi rápido e extremamente traumático.

Nunca tinha sido assaltado, e jamais poderia imaginar que seria logo em um sábado à noite, em casa, o local que deveria ser o mais seguro para ficar. A sensação de insegurança é muito grande. Iremos morar em um prédio com segurança 24 horas.”

...oito vezes

Sarah Araujo Cabral da Silva, 16 anos, estudante do Ensino Médio

“Fui assaltada oito vezes. Na primeira, quando tinha 10 anos, estava chegando em casa. Um jovem me abordou pedindo informações sobre uma rua. Logo depois, anunciou o assalto: “Passa tudo porque sei que tem celular”. O pai de uma amiga parou de carro perto para ver quem estava comigo. Ele (o assaltante) pegou a bolsa que eu usava e saiu correndo. O último foi em outubro do ano passado. 

Eu e meu irmão, de 12 anos, estávamos próximos à parada de ônibus, indo para a escola, às 7h, quando percebi dois rapazes vindo no sentido contrário. Atravessamos a rua duas vezes e eles também atravessaram. Segurei na mão do meu irmão e disse que seríamos assaltados, para ele ficar calmo. Tinham uma faca. Tirei o dinheiro da mochila e entreguei, afirmei que era tudo o que a gente tinha. Eles pegaram e mandaram a gente sentar na calçada, fechar os olhos e contar até 60, para dar tempo de fugirem.

Depois disso, não podemos mais ir sozinhos para a escola. Houve uma adaptação da nossa rotina para evitar ao máximo que a gente fique sozinho. E, se vejo um grupo de jovens na rua, já tenho medo, porque em todos os assaltos eles eram jovens, adolescentes ou, no máximo, com uns 20 e poucos anos.”

...em frente ao shopping

Carla Tentardini Alonso, 37 anos

“Era 22 de dezembro e eu e minha filha de 15 anos estávamos fazendo compras de Natal no shopping (BarraShoppingSul, zona sul de Porto Alegre).

Saímos de lá e fomos até a parada ali na frente esperar o ônibus. Eram 21h. Havia outras pessoas esperando ônibus também. De repente, um Gol vinho, ou bordô, não sei direito, quatro portas, parou e duas pessoas desceram armadas. Outras duas ficaram dentro. Os que desceram já chegaram anunciando o assalto. Pegaram as sacolas que estavam nas nossas mãos, e mandaram que a gente entregasse as bolsas. Prontamente, minha filha e eu entregamos. Um deles ainda disse para ela: “Passa o celular! Passa o celular!”.

Ela entregou e eles voltaram para o carro com os objetos. Foi tudo muito rápido. Mas, não contente com o assalto, antes de entrar no carro, um deles olhou para mim, apontou a arma e atirou. Só vi que fui baleada quando comecei a correr. A bala entrou no meu abdômen, perto do umbigo, e saiu nas costas. Não atingiu nenhum órgão, graças a Deus.

Como saio do serviço às 18h30min, e meu marido trabalha à noite, ia com frequência a shoppings e hipermercados fazer compras, pois são estabelecimentos que ficam abertos até mais tarde. Não vou mais. Agora vou do trabalho direto para casa. Tenho medo de andar na rua à noite depois do que aconteceu. Tenho medo de ficar em parada. 

Ouço qualquer barulho e fico com medo porque estamos supervulneráveis. O policiamento é zero. Não dá para pegar um ônibus, porque eles (os criminosos) estão soltos dentro dos ônibus. Não dá para esperar na parada, que te assaltam. Tive de mudar a minha rotina. Só saio para o Centro de carro com o meu marido.”

humberto.trezzi@zerohora.com.br 



25 de janeiro de 2016 | N° 18425 
DAVID COIMBRA

O que diria Castro?


Odeio os caras da classe executiva. Quando passo por eles, em direção ao fundo sórdido do avião, passo rosnando entre dentes: – Coxinhas... Coxinhas!

Você já olhou bem na cara deles? Blasés. É o que são. Ficam disfarçando distração com aqueles fones de ouvidos ou fazendo de conta que leem a Veja. Na verdade, no recôndito de suas entranhas onde fermentam suflés, riem-se à grande, enquanto nós, o povo, a gente oprimida que há 500 anos carrega sobre os ombros toda essa elite branca, nós vamos para a humilhação da cachorreira, para o navio negreiro.

Ah, eis a imagem perfeita! A classe econômica nada mais é do que a reprodução do navio negreiro, que trazia o povo pardo e pobre para ser explorado pela pérfida aristocracia de ascendência europeia. O que Castro Alves, nosso condoreiro maior, nosso poeta dos escravos, o que ele escreveria, se atravessasse o oceano na classe econômica?

“Estamos em pleno ar...Doido no espaço brinca o luar...”

Imagino o infeliz Castro Alves sentindo os joelhos apertados contra a poltrona da frente, ouvindo, conformado e triste, a aeromoça ordenar que ele coloque o encosto na posição vertical, quando seu encosto JÁ ESTÁ na posição vertical. Castro suspirando de resignação ao ver a mesma aeromoça ocupar todo o corredor com aquele carrinho de “pasta ou chicken”. Castro gemendo de inferioridade ao perceber o olhar de desprezo que ela faz ao fechar a cortininha da classe executiva.

Olhe bem para essa cortininha, meu bom Castro. Olhe. Um tecido leve, de qualidade inferior, mal preso à parede do avião por um botãozinho de metal que seria arrancado pelo safanão de uma criança de seis anos de idade. Olhe, Castro. Esse pano tênue é a separação de dois mundos. 

Aqui, nas profundezas, a gente simples do povo, das escolas públicas em eterna greve, do SUS que marca a consulta para o ano que vem, do subúrbio aonde só se chega fazendo baldeação, do funk lascivo, do sertanejo choroso, do pão com mortadela, do vira-lata de olhar compassivo, do Faustão aos domingos, da sidra no Réveillon, do Diário Gaúcho, de Tramandaí, do Inter e do Corinthians.

Lá, atrás da cortininha, no convés espaçoso, a elite cheirosa do Anchieta, dos condomínios com segurança de quartel, da bossa nova sussurrada, dos intermináveis solos de jazz, do Netflix, das hamburguerias com sanduíche a R$ 40, das amenidades do Saia Justa, da borbulhância da Chandon Crystal, dos articulistas da Zero Hora, de Punta del Este, do Grêmio e do São Paulo.

Olhe, Castro! Lá está a Gabriela Pugliesi com seu abdômen de aço! Deve estar viajando ao lado de seu personal de crossfit. Olhe. O que eles querem, além de camarões flambados e lençóis egípcios de 2 mil fios comprados na Rio Nilo com Aristides Espínola? O que eles querem?

O golpe! Malditos!

E nós, aqui atrás, Castro, o que somos nós?

Somos os filhos do deserto,

Onde a terra esposa a luz.

Onde vive em campo aberto

A tribo dos homens nus...

Somos os guerreiros ousados

Que com os tigres mosqueados

Combatemos na solidão.

Ontem simples, fortes, bravos.

Hoje míseros escravos,

Sem luz, sem ar, sem razão...

Sim, Castro, sim, eu odeio a classe executiva.



25 de janeiro de 2016 | N° 18425 
MOISÉS MENDES

Argentinos e amigos


Neste verão, eu queria muito ser argentino. Mas não queria, de jeito nenhum, ser amigo do Lula. Queria ser argentino com dólares em casa. Como esses que invadem nossas praias de novo em seus carros voadores. São os dolarizados, que ficaram 40% mais ricos de um dia pro outro, no começo do governo de Mauricio Macri.

O presidente liberal assumiu, liberou o dólar, e o peso se derreteu. A alta do dólar aqui é fichinha perto do que aconteceu na Argentina.

Macri deixou os ricos mais ricos e os pobres mais miseráveis. A classe média com dólares vive a sensação de que também é rica. Argentino adora dólar. Por isso eu queria, só neste veraneio, ser um argentino dolarizado.

E agora explico por que não gostaria de ser amigo do Lula. Amigos do Lula não terão paz. Serão chamados, um a um, a depor na Polícia Federal. O próprio Lula, até o fim do ano, terá dado 93 depoimentos à PF.

Vão chamar os amigos do Lula, os parentes, os filhos, os vizinhos. Mas não chega nunca a hora em que, faltando amigos do Lula, chamarão também os inimigos do Lula. É ruim pensar que isso tudo pode virar a Operação Lava-Só-Alguns.

O melhor é ser amigo de um amigo do Aécio. Serve até ser amigo do Zé Agripino. Nunca uma amizade foi tão importante.

Já li cinco vezes a entrevista do procurador Roberson Pozzobon na Zero de domingo. Releio para me certificar de que meu espanto tem fundamento. A repórter Juliana Bublitz quis saber, com perguntas certeiras, se a Lava-Jato irá fundo no período de Fernando Henrique na Petrobras. As respostas cambaleantes do procurador conduzem a esta síntese: não tenham muita esperança no desvendamento da corrupção tucana.

São estas as explicações que ele dá. Roubaram há muito tempo no governo FH e muita coisa pode prescrever. O Ministério Público escolhe casos de maior valor e mais recentes. Hoje, a corrupção teria “uma dimensão maior”; e a corrupção tucana, com dimensão menor, fica pra depois. E mais esta frase de estragar um domingo e um verão inteiro: “Atuamos no que tem mais chance de ser esclarecido”.

Por esse critério, o que seria do jornalismo, da medicina, da polícia, do futebol e da nossa vida? E se você que me lê decidisse fazer apenas o que tem mais chance de dar certo? Imagine se Deus, no terceiro dia, desistisse e desse depois essa desculpa (não se sabe a quem). Apesar de que o MP, dizem, está cada vez mais parecido com Deus.



25 de janeiro de 2016 | N° 18425 
L. F. VERISSIMO

Scola aqui


Minha mulher consegue conversar com qualquer um. Até comigo. Língua não é problema. Ela teve italiano suficiente para contar ao Ettore Scola, em Porto Alegre, que tínhamos sido vítimas de um dos “feios, sujos e malvados” do seu filme com este nome, em Roma. Andávamos pelo Trastevere, enlevados, pré-saboreando o almoço que comeríamos dali a pouco, quando passou um “scippatore” de Lambretta saído do filme do Scola e levou a bolsa da Lucia com tudo dentro.

“Tudo” mesmo. Nossa viagem estava naquela bolsa: passagens, passaportes, dinheiro, cheques. Com as últimas liras que eu ainda tinha num bolso pagamos um táxi até a embaixada brasileira na Piazza Navona. O setor de socorro a brasileiros “scippatados” da embaixada só abriria depois do almoço. Sentamos num banco da praça, desolados. Nunca a beleza de um lugar foi tão desperdiçada como a beleza da Piazza Navona em nós, naquela manhã. Na embaixada, fomos tratados simpaticamente, e ninguém perguntou o óbvio: de quem tinha sido a brilhante ideia de carregar “tudo” numa bolsa, ainda mais no Trastevere?

Estávamos em 1977. Tempos de ditadura no Brasil. Passaportes brasileiros eram valorizados por refugiados políticos, substituí-los levaria tempo. Mandarem dinheiro do Brasil para nos salvar também era complicado. O que fazer? Esta história tem um final feliz que compensa todo o resto. Da embaixada telefonam para o Araújo Netto, correspondente do Jornal do Brasil em Roma e contam o que nos aconteceu. 

Marcamos um encontro com o Araújo e a Maria Eunice numa pizzaria perto do Pantheon, naquela noite. Nunca tínhamos nos visto antes e tornamo-nos amigos de infância instantaneamente. O Araújo e a Maria Eunice nos levaram para seu apartamento e, literalmente, nos adotaram. Até hoje me emociono quando lembro aquele mês que ficamos com eles e suas meninas. Há “scippatadas” que vêm para o bem.

Claro que a Lucia não contou tudo isto ao Scola. Eu só contei aqui porque queria lembrar o Araújo e a Maria Eunice, nós que nos amávamos tanto. O Scola estava no Brasil, a convite da Casa de Cinema de Porto Alegre, e comeu um churrasco conosco. Não me lembro se pediu desculpas à Lucia pela ação do seu personagem de Lambretta.

sábado, 23 de janeiro de 2016


24 de janeiro de 2016 | N° 18424 
MARTHA MEDEIROS

O dia em que sonhei ser vilã


Recebi o e-mail de uma moça (que não conheço) avisando que um jornalista (que também não conheço) andou me citando num texto. A moça, além de me transcrever o texto dele, mandou junto o e-mail do sujeito para que eu o agradecesse.

Li o texto. Ele elogia o bairro em que moramos e, no final, celebra a possibilidade de me ver caminhando pelas ruas. Sujeito simpático.

O que uma vilã faria? Nada muito maquiavélico. Simplesmente tocaria a vida. Anda atarefada, não conhece nem a moça nem o jornalista e há outros assuntos pendentes. Mas não sou vilã. Sinto obrigação de dar retorno, então mando um e-mail pra moça agradecendo o contato e outro e-mail para o cara agradecendo a citação. Feito. Levou cinco minutos para ser educada.

Passa uma hora e a moça volta a escrever dizendo que avisou o jornalista de que eu havia respondido pra ela, porém ele disse que não havia recebido nada. Ué. Respondo pra ela que vou reenviar o e-mail pra ele, e reenvio.

Daqui a pouco entra um e-mail dele agradecendo meu agradecimento. Ótimo. Acho que agora posso continuar a trabalhar.

Em 15 minutos, ele escreve de novo pedindo meu endereço pra mandar um livro de sua autoria. Recebo cerca de cinco livros por semana e o dele entrará para o depósito onde guardo tudo que levarei para minha cela quando pegar uma prisão perpétua, mas mando o endereço.

Mais um pouquinho, ele escreve de novo dizendo que soube que a editora dele já havia me mandado o livro, não recebi?

Seria a hora de dar minha paciência por encerrada e me transformar, finalmente, numa vilã bem pérfida, mas não consigo e esconjuro meus pais pela maldita criação que me deram. Levanto, vou dar uma olhada nos milhares de livros empilhados pela casa, levo um século fazendo a busca e encontro o exemplar. “Sim, de fato, seu livro está comigo. Obrigada, um abraço”.

Já é noite, nem tinha reparado. Na manhã seguinte, abro minha caixa de e-mails e há uma mensagem do rapaz pedindo opinião sobre um conto dele. Devo ler? Sou cria de Madre Tereza. Leio. E não gosto.

Aí faço um teatrinho, que é o mais perto que consigo chegar da vilania. “Olha, ando sobrecarregada, tenho vários textos para entregar, minha filha foi expulsa do colégio, minha mãe foi hospitalizada, meu cão está deprimido, a empregada fugiu com o porteiro, você entende, não é?”. Significa que não me manifestarei nem nesta, nem na próxima encarnação.

Ele responde dizendo que entende e que aguardará ansioso pela minha opinião, ou seja, em breve receberei outro e-mail dele, cobrando a leitura.

E assim a gente constrói uma carreira de boazinha, mesmo sabendo que as vilãs é que são espertas. Toda essa trabalheira porque um cara que não conheço me vê caminhando de vez em quando pelas ruas. Acabo de voltar do mercado da esquina. Adivinha.



24 de janeiro de 2016 | N° 18424 
CARPINEJAR

Quando a alegria chora

Faz tempo que não choro de alegria. Aquele choro que é melhor do que uma risada, que é uma gargalhada com lágrimas, que mistura o passado com o presente.

Não o choro da tristeza, não o choro envergonhado, não o choro sozinho trancado no quarto, não o choro disfarçado do chuveiro, não o choro de um filme ou de um livro, não o choro induzido por uma cena ou uma frase, não o choro da saudade ou da promessa, não o choro emprestado, não o choro agudo e vertical do luto, não o choro do sofrimento da separação ou da doença – estes choros são comuns.

Mas o choro da surpresa, da gratidão, do reconhecimento. O choro que não escondemos o rosto com as mãos. O choro em que os braços ficam descansados, só o peito geme. O choro em que a água não escorre pelas faces, e sim jorra das pálpebras – a lágrima começa a voar. O choro em que inchamos as bochechas tal criança que roubou brigadeiro antes do parabéns e colocou inteiro na boca.

O choro em que somos elogiados. O choro em que somos vingados de ternura. O choro em que somos finalmente vistos e destacados. O choro acompanhado, público, com direito a abraço e desconcerto da companhia, que não saberá o que falar diante da comoção.

Faz tempo que não choro assim: com soluços inacreditáveis e os olhos avermelhados de crepúsculo. Choro da Nona Sinfonia de Beethoven, da cegueira enxergando.

Choro absurdo de felicidade, quando alguém arma uma homenagem imprevisível, quando recebe uma gentileza após suportar um longo tempo de indiferença, quando ganha um presente que não acreditava, quando vem uma notícia que muda a sua vida para o bem, quando diz sim para o casamento, quando sela as pazes com um amigo brigado, quando seu filho passa no vestibular ou lança o canudo para cima, quando abre uma carta e reconhece a letra, quando supera um desafio difícil, quando escuta uma declaração que esperava ardentemente em segredo.

Como desejava chorar de alegria outra vez, quando descubro que eu me amo e vejo também que sou amado.



24 de janeiro de 2016 | N° 18424 
L. F. VERISSIMO

A oposição


Segundo o crítico George Steiner, os filósofos ocidentais poderiam ser divididos em dois times: os que, como Platão, Descartes, Spinoza, Pascal e Wittgenstein, entre outros, usaram a matemática como referência para entender o mundo e deram mais valor a códigos e padrões do que ao discurso e à especulação, e os que, como Aquinas, Hegel, Nietzsche, Heidegger e Sartre, foram fundo nas motivações humanas e preferiram a História e suas surpresas às equações e suas certezas. No fim, o que os diferenciava era o modo de encarar o tempo.

Havia o tempo mensurável do matemático, sem o qual a ciência e a tecnologia seriam impossíveis, e o tempo como “durée”, ou duração, experimentada por seres em constante devir. O passado e o futuro articulados pela memória e pela imaginação, de maneiras que a ciência não explicava. A literatura contra o cronômetro, o mistério contra a lógica. Os filósofos “matemáticos” não representavam a razão sem alma, assim como os outros não partiam, necessariamente, de premissas metafísicas (não se imagina Sartre começando por Deus), mas a oposição ciência/religião era parecida com a oposição cronômetro/literatura.

Todas as grandes religiões são construções literárias, narrativas episódicas e histórias de homens santos ou a caminho da santidade, e seu devir no mundo. Já a ciência lida com reincidências, com fenômenos sem história e sem desenlaces, com o que é e não com o que acontece. Mas isto mudou com o surgimento da teoria e das subsequentes experiências com a mecânica quântica, quando a ciência subitamente, fascinantemente, adquiriu características literárias.

Descobriu-se que há partículas subatômicas imprevisíveis como heróis picarescos e temperamentais como divas. O mundo natural, ai de nós, também tem sua retórica e suas ironias e também pode ser uma narrativa rumo a uma epifania ou mais. Na guerra ciência x religião, a ciência – quem diria – dá armas e argumentos para a religião, com a revelação do comportamento nada matemático, ou lógico, de partículas em constante devir. Impossíveis de serem cronometradas.

Uma das revelações mais intrigantes da mecânica quântica é a de que quando uma partícula subatômica é dividida e vai cada metade para um lado, o que acontece com uma metade afeta a outra, mesmo que estejam a grande distância uma da outra. Neste caso, a ciência apenas chegou aonde a literatura já tinha estado, com histórias de gêmeos com a mesma sincronia à distância. Ponto para o mistério.


24 de janeiro de 2016 | N° 18424 
ANTONIO PRATA

O Feio

Era uma vez um coelhinho criado por uma família de cangurus. Os cangurus cresciam, o coelhinho não, e por isso o apelidaram de Canguruzinho Feio e passaram a chamá-lo de pulga, pula-migalha, salta-formiga e todas essas coisas ofensivas que os cangurus altos reservam para os cangurus baixinhos. Um dia, porém, toda a família de cangurus foi passear em Adelaide. 

E era páscoa. E o Canguruzinho Feio descobriu, maravilhado, que não era um Canguruzinho Feio, mas um belo coelho, animal fantástico, capaz de pôr ovos coloridos de chocolate e, por esta razão, merecer dos humanos um tratamento de semideus. De início, os cangurus o olharam com toda a admiração, até que um deles – não muito alto, por sinal – provocou: “Ah, é, bonitão? Bota um ovo de chocolate aí, então, pra gente ver!”.

O coelho se agachou, fechou os olhos, mentalizou um ovo de 500 g da Lindt, fez toda a força de que seu pequeno esfíncter era capaz, mas o resultado foi apenas uma bolinha de cocô. Os cangurus explodiram numa gargalhada. O coelho ainda apertou o cocozinho com a ponta da unha e uma ponta de esperança: vai que era um MM marrom? Não era.

Morto de vergonha, o Canguruzinho Feio abandonou a família e passou a viver mendigão pelas ruas de Adelaide.

Era uma vez uma lesma criada por uma família de minhocas. As minhocas pararam de crescer, mas a lesma seguia inchando, por isso a apelidaram de Minhocona Feia e passaram a chamá-la de bisnaga, linguiça, isca de baleia e todas essas coisa ofensivas que as minhocas magras reservam para as minhocas gordas. A Minhocona Feia vivia fazendo regime, jejuava por dias inteiros, tentou cortar carboidratos, glúten, frituras, mas nada adiantava. O que mais a envergonhava, porém, não era o peso: era produzir, em vez do húmus – orgulho e alegria de toda minhoca –, uma baba humilhante que a seguia por onde fosse.

Um dia choveu muito, o gramado alagou e as minhocas tiveram que se abrigar na varanda. Neste dia, a Minhocona Feia olhou para a vidraça da casa e viu duas Minhoconas Feias iguais a ela, na ponta de dois rastros iguais ao seu. Neste dia, ela descobriu que não era uma Minhocona Feia, mas uma bela jovem lesma.

Por umas semanas, a bela jovem lesma viveu feliz com seus pares, babando na vidraça e comendo como uma condenada. E uma condenada, de fato, ela se tornou: de tanto comer para compensar os tempos de penúria, passou a ter problema de colesterol, diabetes, pressão alta e acabou enfartando não muito depois da sua redenção.

Era uma vez um ouriço que nasceu próximo a uma família de polvos. Por uns dez segundos, ele acreditou que pudesse ser um polvo esquisitíssimo, mas pensou melhor e percebeu que não.

Era uma vez um filhote de tigre criado por uma família de gatos. Os gatinhos pararam de crescer, mas o tigre não, por isso o apelidaram de... De nada, pois assim que percebeu as risadinhas, o filhote de tigre almoçou os quatro irmãos, a mãe, uma lesma moribunda que encontrou na varanda, um coelho bebum que trombou na esquina e só não comeu o ouriço e a família de polvos porque não nasceu no fundo do mar, não se achava um peixe tigre e sequer sabia nadar.

24 de janeiro de 2016 | N° 18424 
MOISÉS MENDES

Segredos e silêncios


Jornalistas cometem, por insegurança, o engano de pensar que o debate de seus afazeres deve ficar só entre eles, na redoma morna do corporativismo. É como se fossem curandeiros detentores de sabedorias que ninguém mais pode dominar.

A internet ajudou a abalar essa ilusão. O jornalismo é assunto de interesse geral, como toda atividade com alguma exposição pública – a política, a engenharia, a arquitetura, a gastronomia, a funilaria e as religiões e suas promessas de transcendência e suas aberrações.

Spotlight – Segredos Revelados é o filme definitivo para provar que o jornalismo sempre foi tema de interesse de todos, também por seus dilemas, suas imperfeições e remissões. Pois Spotlight é um filme sobre a grande chance da remissão, antes de ser mais uma história sobre atos heróicos da imprensa.

A história contada é o desvendamento dos casos de pedofilia na Igreja Católica pela equipe de repórteres investigativos, a Spotlight, do jornal The Boston Globe. É um belo exemplo de como o jornalismo pode se redimir de erros que não são pontuais nem casuais.

Alerto a quem ainda não viu o filme que vou abordar alguns detalhes, mas nada que tire surpresas. O primeiro: a valente equipe de jornalistas ignorava, havia pelo menos três anos, uma sucessão de alertas e indícios de que a pedofilia era mal disseminado entre os padres de Boston.

O que os repórteres descobrem, sob o impulso do novo diretor de Redação, é a mais aterradora realidade envolvendo religiosos desde a Inquisição. A Igreja apodrecia com os padres que abusavam de crianças, e ninguém fazia nada. Nem a imprensa.

O acobertamento se disfarçava em distanciamento. O jornalismo refletia o comportamento de uma comunidade conservadora, fechada em si mesma e aparentemente perfeita, com subúrbios em que as crianças andam de bicicleta no meio da rua. Os cardeais, os padres, as famílias, os advogados, a Justiça, os políticos, a moral, tudo e todos recomendavam o silêncio. Até que o novo diretor do Boston Globe determina: não foquem apenas nos padres, mas no poder institucional que camufla o horror.

Trazido para o Brasil, o roteiro poderia ser adaptado ao que se passou com a corrupção graúda das empreiteiras. Durante décadas, o jornalismo dedicou-se, repetitivo, a criminalizar os políticos (foi assim que Maluf folclorizou a corrupção) e a tratar com displicência os chefões corruptores.

O senador Pedro Simon chegou à exaustão no Congresso tentando instalar a CPI das Empreiteiras. O promotor Sílvio Marques procurava enquadrar Maluf como quadrilheiro, para pegar também as empresas que o usavam para superfaturar obras. E a imprensa batia nos políticos, quase só nos políticos.

Como fazia a igreja bostoniana, os gângsteres das empreiteiras nos mantiveram entretidos com malufs e similares, enquanto prosperavam impunes como modelos exemplares do nosso liberalismo econômico. A sensação de que só nos últimos anos os empreiteiros “ficaram” corruptores sobreviveu até aqui por conta do esforço de negação da realidade.

A falha do Boston Globe e de todos os outros jornais não era pontual. Assim como não foi pontual, no caso brasileiro, a omissão com os corruptores. Era da lógica do silêncio de todo o sistema.

O jornalismo brasileiro terá a grandeza da equipe Spotlight se admitir, com a transparência que cobramos de outras áreas, que foi pelo menos obsequioso, por décadas, com os cardeais das empreiteiras – apesar dos alertas, dos indícios e das provas de que eles manipulavam a política, dominavam governos, repartiam obras, superfaturavam e corrompiam.



RUTH DE AQUINO
22/01/2016 - 20h42 - Atualizado 22/01/2016 20h42

Lula e Dilma na bacia das almas

Quando foi mesmo que Lula e Dilma passaram a ser um constrangimento para a imagem do PT?

Não tem, neste país, uma viva alma mais honesta do que eu”, disse Lula. Não tem. “Nem dentro da Polícia Federal, do Ministério Público, nem da igreja evangélica e do sindicato.” Nem você, leitor, nem a Dilma, muito menos o José Dirceu, agora acusado de gastar em um mês, como “consultor”, até R$ 1 milhão, provenientes de propina de contratos da Petrobras.

Ninguém é mais honesto que Lula. Você acredita nisso? “Pode ter igual, mas eu duvido”, afirmou o ex-presidente. Isso é motivo de orgulho para Lula. Natural. O ex-tesoureiro do PT Vaccari Neto não é mais honesto que Lula. O ex-líder do governo no Senado Delcídio do Amaral também não. Estão presos. Lula pede nossa solidariedade a Dirceu e Vaccari. “Não é porque um companheiro da gente cometeu um erro que temos de execrar ele.” Lula ignora o ainda senador petista Delcídio, que promete vingança nos próximos capítulos.

O problema é que as frases de efeito de Lula, antes espirituosas e aplaudidas, perderam valor. O valor da credibilidade. O valor da simpatia. Uma declaração presunçosa como essa não consegue repercussão positiva nem em seu PT nem nas bases sindicais. Lula e Dilma sofreram um tombo maior que o das ações da Petrobras, ao ficar clara para a sociedade a teia de mentiras – éticas, morais, econômicas, financeiras, sociais – usada para enredar o eleitor e jogar o país numa crise que o povo não merecia.

Lula afirmou que passará a processar jornalistas “para ver se retomamos a dignidade profissional da categoria”. Bobagem, Lula, concentre-se no essencial. Retome a dignidade do Planalto. Ajude Dilma a retomar a popularidade perdida. Retome a confiança da população, que perdeu no ano passado 1,5 milhão de empregos formais e que hoje pena nas filas do seguro-desemprego com a greve do INSS. Retome a admiração do PT, que decidiu não incluir o senhor e Dilma nos comerciais do partido para evitar panelaços.

A desculpa oficial é que o PT quer priorizar a defesa da imagem da sigla. Quando foi mesmo que Lula e Dilma passaram a ser um incômodo ou um constrangimento para a imagem do Partido dos Trabalhadores? Isso só pode ser fofoca de jornalistas. A cúpula do PT manterá ou não essa posição? Certamente, no fim, a dupla Lula e Dilma aparecerá nas “inserções comerciais” do PT nos dias 2, 4, 6, 9 e 11 de fevereiro. Ou não?

É fácil explicar o conflito. O que o PT quer, o Planalto não pretende dar. O PT quer correção da tabela do Imposto de Renda neste ano. Pelos cálculos do sindicato de auditores, chegam a 72,2% as perdas na tabela do IR entre 1996 e 2015. A correção ajudaria a minimizar os efeitos da inflação (prevista neste ano para mais de 10%) sobre a renda dos brasileiros. A intenção do governo é não corrigir.

“Nosso objetivo é o de não permitir que ninguém neste país destrua o projeto de inclusão social que começamos a fazer em 1º de janeiro de 2003, é isso que incomoda”, afirmou Lula na mesma entrevista em que posou de vítima na terceira pessoa: “Nas delações, o grande prêmio é falar o nome do Lula”.

Ora, quem tem destruído as chances reais de inclusão social nos últimos anos é o governo Dilma, que aumentou e muito os gastos públicos, inchou o Estado e hoje é cobrado pela irresponsabilidade fiscal. Por mais que Lula e Dilma busquem bodes expiatórios fora e dentro do país, a dupla sabe muito bem que as bolsas e os subsídios tinham um efeito a curto prazo.

A “mágica” da inclusão por meio do consumo virou abóbora de fim de feira, sem os investimentos necessários e a longo prazo em Educação e Saúde. Quebrado, o governo apela para a fórmula mais velha e injusta do mundo: aumento de impostos, num país que já se esfalfa para pagar tributos vários.

Ouvir o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, chamar a CPMF de “poupança necessária” explica panelaços. Ouvir Dilma dizer que a CPMF é um imposto do bem “porque ele é dissolvido” explica vaias. Ouvir Lula dizer que, “com 8% (de inflação) ao ano, dá até para guardar dinheiro embaixo do colchão” explica seu descolamento do drama dos descamisados. O único argumento de Lula para defender o PT das acusações de roubo é que não foi o único a roubar: “Tentar passar a ideia de que propina só (ocorreu com) o PT? É como se o PT fosse imbecil”.

Ninguém gosta mesmo de passar por imbecil. Talvez por isso Lula e Dilma estejam “na bacia das almas”. A expressão foi criada em tempos medievais. Era o recurso final dos que não tinham mais recursos. Numa definição anônima que consta no Dicionário Informal, a bacia das almas é o “último momento, última oportunidade oferecida como piedade, quando outras oportunidades foram esquecidas anteriormente”.

Que se aproveite a última chance com seriedade e trabalho, e não com empáfia e propaganda.

23 de janeiro de 2016 | N° 18423

PALAVRA DE MÉDICO | J.J. Camargo

O QUE NÃO CABE NO CURRÍCULO



A reserva técnica que nos permite emergir da tragédia como criaturas melhores


Muito já se escreveu sobre a capacidade de sofrimento do ser humano e da insuspeitada resiliência que guardamos em nós, esta reserva técnica que nos permite emergir da tragédia como criaturas melhores do que éramos quando mergulhamos nela.


No entanto, pouco se tem pesquisado sobre os limites da tolerância com o sofrimento alheio, ou seja, como se comportam as pessoas que, por trabalho ou benemerência, se propõem ao exercício da solidariedade com os sofredores. Os psicólogos de botequim costumam dizer que os médicos, por necessidade ou descaso, tornam-se rígidos como uma estratégia de autopreservação, não permitindo que a desgraça alheia “contamine” a sua felicidade. 


Nunca acreditei nessa pretensa blindagem, porque sempre me pareceu explicação de conveniência para uma rigidez inata. Os modelos que tentei copiar me ensinaram exatamente o contrário: os melhores consoladores são os que se envolvem com o drama alheio e que, por isso, são compensadoramente banhados pela doçura do afeto repartido no limite da generosidade.


Há, sim, os que não suportam compartilhar o penar dos outros, não porque não sintam pena, mas porque não conseguem superar a aspereza da impotência e as perdas inevitáveis, e acusam os golpes como mortais à sua própria sobrevivência profissional e pessoal.


O Marcelo se graduou com enorme brilhantismo, compatível com sua inteligência privilegiada e seu aguçado senso de observação. Dono de um currículo invejável e reconhecido pelas melhores universidades como um pesquisador de elite, procedia o ritual de visitas que é imposto a quem pretende ingressar na Academia Nacional de Medicina. No meio de um almoço disfarçado de entrevista, uma curiosidade minha: “O que te levou a abrir mão da atividade clínica e enveredar pela pesquisa básica?”.


E, então, uma confissão comovente: “Eu era residente de clínica médica e gostava muito dos meus velhinhos e, dentre esses, especialmente da dona Ana, uma vózinha muito fofa e solitária, abandonada lá no hospital. Com uma síndrome clínica complexa, vinha perdendo a capacidade cognitiva rapidamente. Eu me esmerava em acalmá-la quando tinha crises de agitação e, do nada, começava a gritar, e depois chorava copiosamente. Sempre conseguia acalmá-la depois de massagear-lhe as costas e alisar-lhe os cabelos. Um domingo, depois de um plantão de 24 horas, fui pra casa descansar, completamente exausto. 


Lá pela meia-noite, fui despertado por um telefonema da enfermeira de plantão, muito ansiosa porque a dona Ana estava transtornada e ninguém conseguia dormir na unidade com o barulho infernal. O apelo era desesperado: ‘Será que o senhor não podia dar um pulinho aqui pra acalmá-la? O senhor é a única pessoa que consegue isso!’. Atravessei a cidade e encontrei a dona Ana furiosa, contida por dois enfermeiros. Coloquei uma cadeira na beira da cama, tomei a mão dela e disse: ‘Dona Ana, se acalme, eu não vou mais deixá-la sozinha, vou ficar segurando a sua mão até a senhora dormir!’ Cinco minutos depois, ela ressonava tranquilamente e eu, apoiado na cama e tresnoitado, também adormeci. 


Quando acordei, estava amanhecendo. Ela ainda segurava minha mão com uma firmeza estática e percebi, então, que ela tinha morrido. Tratei de sacudi-la num esforço tão desesperado quanto inútil. Acho que só queria me desculpar por ter dormido. Como se a minha vigília pudesse tê-la impedido de morrer. Perambulei pela cidade para chorar e, naquele dia, decidi trabalhar só com pesquisa porque me dei conta de que não teria condições de sobreviver à perda de cada um dos velhinhos por quem me afeiçoasse no futuro que ia começar”.


Tentamos desengasgar com uma última taça de Malbec e dissemos adeus. Com essa amostra de humanidade, perdi completamente o interesse pelo volumoso currículo que ele me entregou ao se despedir.


J. J. Camargo é cirurgião torácico e diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre