segunda-feira, 25 de julho de 2011


JAIME SPITZCOVSKY

BICHOS

Enquanto acariciava Charlie, refletiu sobre os passos que evitariam a guerra nuclear com a URSS

Saída canina para a crise dos EUA

APÓS MEU primeiro texto nesta seção, recebi mensagens indagando como, com mais de 20 anos na labuta com política internacional, havia achado tempo para me dedicar a animais de estimação. Na verdade, me acompanham há muito tempo. Praticamente desde que nasci.

Em minha memória, só não registro companhia de pets nos sete anos em que trabalhei como correspondente desta Folha em Moscou e em Pequim, na década de 1990. Quando desembarquei na então capital soviética, devastada pela escassez crônica de alimentos, cheguei, logo de início, a fazer um enxoval canino, à espera da vinda de um companheiro. Comprei coleira, escova e potes para água e comida.

Em pouco tempo, recuei da ideia, e os apetrechos se aninharam no fundo do armário. Percebi que a trepidante cobertura jornalística daquela era de desintegração da URSS não permitiria rituais imprescindíveis, mas consumidores de tempo precioso, como o passeio diário ou a escovação periódica.

Tampouco tive cachorro nos meus três anos pequineses. Na Moscou da escassez comunista, cheguei a conviver com o medo da dificuldade para encontrar ração. Na Pequim da gastronomia aterradora, convivi com o pesadelo de que se tivesse cachorro, ele poderia acabar numa panela e virar ração...

De qualquer forma, meu criado-mudo sempre carregou uma mescla de livros e revistas, em sua maioria, de política internacional e de animais. E não apenas especializadas em cães, mas também sobre ferrets, coelhos, tartaruga, peixes e calopsitas. Num flashback até a infância, a lista inclui cavalo, ovelha, porquinho da índia, vaca e periquito.

A mistura de temas, serpenteando entre conjuntura internacional e vida animal, faz com que muitas vezes eu associe esses dois mundos, talvez mais próximos do que pareçam. É notório o caso dos EUA, onde pets na Casa Branca seduzem historiadores e até analistas políticos, que chegaram, na última campanha presidencial, a questionar se John McCain não levaria vantagem, na construção de sua imagem, sobre Barack Obama justamente por ser dono de um cachorro de estimação.

Ficou provado que cachorro não ganha eleição, e Obama chegou à Casa Branca. Três meses depois de tomar posse, argumentando cumprir uma promessa às filhas de abrir espaço familiar para um pet , o novo presidente ganhou Bo, filhote da raça cão d'água português, do senador Edward Kennedy.

A intenção do presente talvez fosse repetir o roteiro do welsh terrier Charlie com John F. Kennedy. Segundo relatos, no momento mais tenso da crise dos mísseis de Cuba, em 1962, o presidente norte-americano pediu que levassem seu cachorro ao Salão Oval. Enquanto acariciava Charlie, refletiu sobre os passos que evitariam a guerra nuclear com a URSS e permitiriam a retirada das armas de solo cubano.

Nos últimos dias, Obama enfrentou momentos delicados na disputa com a oposição republicana, por conta do limite do endividamento norte-americano. Se experiência vale em política, é recomendável repetir John F. Kennedy: trazer o cachorro para o Salão Oval e relaxar, em busca de uma saída para a crise.


25 de julho de 2011 | N° 16772
PAULO SANT’ANA


Vários estágios

Passo todos os dias pelo meu ex-amor. Nem nos cumprimentamos.

Mas ontem fazia frio quando cruzamos um pelo outro, ela fez um jeitinho de quem quer voltar.

Agora é tarde demais.

O diabo de voltar para o ex-amor é que, quando isso acontece, nada dá certo, fica tudo desconjuntado, a reconciliação vira uma tragédia.

Começa-se a comparar com a vez anterior e é um desastre a comparação.

Voltar para um ex-amor é como trabalhar numa empresa durante 30 anos, ser bem-sucedido e, certo dia, pedir demissão ou ser demitido.

Passam-se dois anos e a empresa o chama de volta. Resulta num total fracasso.

Nada será como antes.

Há casos de pessoas que se recusam a reencetar sua relação com o ex-amor, fogem da prisão como o diabo da cruz.

E há outros casos em que a pessoa insiste em reatar a relação com o ex-amor: é o mesmo que o pássaro que passa dois anos preso, o dono abre a janela da gaiola e a ave se recusa a ser solta, preferindo o cativeiro.

Por incrível que possa parecer, há pessoas que desdenham da liberdade e sonham em voltar à prisão, a natureza humana é mesmo inexplicável.

Posso já ter contado aqui o caso de meu amigo que vai todos os anos para Garopaba com a atual mulher. Mas aluga também para sua ex-mulher um apartamento em Imbituba, município vizinho. E fica, sem que uma saiba da outra, convivendo com a atual e a ex, uma viagenzinha rápida aqui, outra lá, fica até delicioso gozar as duas praias.

Caso mais dramático é daquele conhecido meu que no veraneio aluga sempre três casas em bairros diferentes de Florianópolis.

Uma casa para a atual mulher, a segunda para a ex-mulher e a terceira para a futura mulher. Um verdadeiro prestidigitador.


25 de julho de 2011 | N° 16772
L. F. VERISSIMO


Aquele olhar

Antigamente, depois que erravam um chute a gol, os jogadores batiam com a chuteira no chão. Era uma maneira de culpar um desalinhamento passageiro do pé, ou alguma imperfeição da chuteira, pelo chute torto. A batida no chão corrigiria o defeito. Felizmente, a hipocrisia acabou e hoje nenhum jogador faz isto.

O gesto mais repetido depois de um gol perdido é o das mãos na cabeça, significando que nem ele acredita no que aconteceu. De certa maneira, a culpa foi transferida da matéria – o pé descalibrado, a chuteira traiçoeira – para a destino, para o etéreo. Enfim, para longe. O chute errado é do jogo. Pertence aos imponderáveis do futebol. Aquelas coisas que enlouquecem torcedores e derrubam técnicos, mas contra as quais nada se pode fazer.

Os quatro jogadores da seleção brasileira que erraram os chutes na decisão por pênaltis do jogo com o Paraguai fizeram a mesma coisa depois dos chutes (três para fora, sendo um para outro Estado, e um nas mãos do goleiro). Os quatro olharam para a marca de pênalti como se olhassem para alguém em quem confiavam e que acabava de se revelar um calhorda, com incompreensão e ressentimento. O olhar dizia muita coisa.

Culpava a marca de pênalti, e através dela todo o gramado, plantado, era o que parecia, sobre areia movediça, pelo vexame.

Dizia: “O que é que eu estou fazendo aqui, neste pântano, quando podia estar na Europa jogando em grama cultivada, com curso de extensão universitária?” Dizia: “O que vai ser do mundo, se uma reles marca de pênalti, que não tem patrocínio nem da Adidas, nem da Nike, nem sequer do fornecedor da cal, pode sabotar o chute de um pé milionário como o meu, e ainda ficar rindo desse jeito?!” Dizia: “Eu estou ficando louco ou essa marca se mexeu?”.

Mas o que o olhar dos quatro dizia acima de tudo era que a culpa não era deles nem do imponderável, era da marca de pênalti. A mesma marca de pênalti não tinha atrapalhado os paraguaios? Mais uma prova da sua calhordice, concreta e explícita. O mínimo que se quer num jogo de futebol internacional é que as marcações do campo sejam neutras. E aquela marca de pênalti era claramente uma torcedora.

Quer dizer: o olhar dos quatro foi o equivalente a baterem com a chuteira no chão, como antigamente.

domingo, 24 de julho de 2011


FERREIRA GULLAR

Temos ou não temos presidente?

Algo insistia em dizer que a intuição tinha fundamento, ou seja, o Brasil não tinha mesmo presidente

Como não pretendo enunciar verdades indiscutíveis acerca de questões políticas -nem de quaisquer outras-, dou-me o direito de especular livremente, atendendo apenas a minhas intuições. E intuição -sabe-se como é- nasce não se sabe bem como e chega aonde menos se espera.

Tudo isso é para dizer que, outro dia, não sei por quê, fui surpreendido por este pensamento: "O Brasil não tem presidente".

Espantei-me com a suposta descoberta, que, embora destituída de comprovação objetiva, chegava-me com a certeza de uma verdade.

"Mas como?", indaguei a mim mesmo. "E a Dilma Rousseff, não é a presidente do Brasil?" A resposta objetiva foi que sim, o Brasil tem presidente, que, aliás, é precisamente uma mulher, que se chama Dilma Rousseff.

E donde veio, então, essa ideia estapafúrdia de que o Brasil não tem presidente? Vai ver -pensei- é porque, como não votei nela, estou, inconscientemente, negando a sua presença no governo.

Bem pode ser isso. E por alguns momentos achei que era, mas a intuição de que o país não tinha presidente voltou e descartou a hipótese de que se tratava de mero despeito meu.

Algo, dentro de mim, insistia em dizer que aquela intuição tinha fundamento, ou seja, o Brasil não tinha mesmo presidente.

Passei então a refletir sobre essa hipótese, já que a intuição, se não é verdade consumada, pode ser o começo de uma revelação. Noutras palavras, não é coisa de se jogar fora. Por isso, em vez de descartá-la, decidi examiná-la, descobrir em que, afinal de contas, ela se baseava.

Esse foi o meu propósito, mas, como se sabe, intuição não nos oferece dados objetivos, do contrário não seria intuição, já seria conclusão.

Ainda assim, a alternativa era ou buscar descobrir qual fundamento tinha aquilo ou simplesmente deixá-lo de lado, ignorá-lo.

Só que isso não era tão fácil, pois se tratava de uma intuição surpreendente, que envolvia a questão do poder no país.

Já imaginou quais as consequências de concluir que a Presidência da República, ainda que oficialmente ocupada, de fato está vaga? Essa reflexão, por si só, bastou para me fazer mergulhar de vez na indagação da instigante hipótese.

Decidi fixar-me nos dados objetivos relacionados com o assunto. Ali estava, diante de meus olhos, a figura de Dilma Rousseff com a faixa presidencial cruzando-lhe o busto, logo após receber de Lula o cargo supremo da nação: era de fato presidente do Brasil.

Mas não só isso: os meses se passaram e ela veio exercendo as funções presidenciais, seja assinando decretos, recebendo representantes dos outros poderes, recepcionando chefes de Estado de outras nações e, mais que isso, tomando decisões de caráter internacional, até mesmo contrárias à orientação que imprimira à nossa política externa o presidente anterior.

E, como se não bastasse, escreveu uma carta reconhecendo os méritos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, coisa impensável num líder petista. Como então dizer que não temos presidente?

E aí me detive: pois é, como afirmar tal coisa? Em que se apoia, então, a intuição que me levou a semelhante questionamento? Indaguei e fiquei esperando pela resposta que eu próprio deveria dar.

E foi então que a resposta me veio, por voz outra, que falou pela minha... Antes, porém, me surgiu num espanto esta constatação: "Ninguém tem dúvida de que Obama é presidente dos Estados Unidos, mas e Medvedev, ele é mesmo presidente da Rússia? Restam sérias dúvidas...".

E, logo, a outra minha voz falou: "Sim, administrativamente, temos presidente. Ela assina papéis, toma decisões. Mas, como não foi propriamente por identificar-se com ela que o povo a elegeu -já que não tem uma história construída no corpo a corpo com o eleitor nas ruas-, o seu poder é constitucional, mas meramente formal. O que não quer dizer que fará mau governo.

Mas que parece substituir alguém, parece. É como se ocupasse, provisoriamente, o lugar do verdadeiro presidente, que não se sabe quem é. Ou sabe?".

E fico na mesma: ela não interveio no Ministério dos Transportes? Interveio, sim. Não obstante, continuo a achar, sem explicação lógica, que não temos presidente. Ela administra, mas não preside. É isso. Deve ser... Bom, deixa pra lá.

ELIANE CANTANHÊDE

Vitória pela metade

BRASÍLIA - Segundo a revista "The Economist", o lulismo venceu o chavismo, que está em "declínio terminal". Apesar disso, Lula desertou de ideias, discursos e batalhas que o PT nasceu e cresceu combatendo. E, assim, ele perdeu uma outra guerra -pela ética. Dilma resgatou a responsabilidade.

A posse do esquerdista Ollanta Humala na Presidência do Peru, na próxima quinta, é mais um dado do isolamento do "chavismo", que encantou parte da América do Sul na década passada e entra em declínio justamente quando o venezuelano Hugo Chávez enfrenta uma nova frente, desta vez pela vida.

Humala se lançou candidato como chavista, mas já na campanha deu uma guinada para o lulismo. Quem assume não é o Humala anti-imperialista e anticapitalista. Vem aí o Humala moderado, determinado a aprofundar a inclusão social mas também a garantir a estabilidade econômica e a atrair investimentos privados. A ver.

É assim que a Venezuela vai se tornando uma ilha. A direita recupera espaços e a velha esquerda se acomoda e cede ao pragmatismo na região. Quando olharem em volta, Rafael Correa, do Equador, e Evo Morales, da Bolívia, vão descobrir que estão à deriva.

O projeto político e econômico de Lula venceu, sim, o de Chávez. Mas Lula usou o pretexto da governabilidade para se aproximar perigosamente, até alegremente, de oligarquias agonizantes, de conhecidos corruptos e das elites corruptoras. Empurrou a sujeira, como a dos Transportes, para a sucessora.

Tão diferentes, um democrático, outro autoritário, o lulismo e o chavismo se fundiram na complacência com desvios, comprovando que o discurso é um e, no poder, a prática é outra. Ambos se renderam à cultura de corrupção que se alastrou pelas Américas desde suas origens e não perdoou o Brasil.

Que a economia dê forças a Dilma para fazer o que Lula não teve coragem, ou vontade, de fazer.

elianec@uol.com.br


DANUZA LEÃO

Alguma coisa está errada

Mulheres, quando feridas, podem ser muito más; ela esperou nove anos para se vingar, e chegou a hora

SEGUNDO REPORTAGEM publicada em "O Globo", a revista francesa "L'Express" contou em detalhes como vai a vida mais do que íntima do ex-diretor do FMI Dominique Strauss-Kahn, que está sendo discutida não só nos jornais como também nos tribunais, vê se pode.

A história: a jornalista francesa Tristane Banon, 32, se diz vítima de uma suposta tentativa de estupro, acontecida em 2002; passou nove anos calada e agora resolveu contar. Essas coisas têm de contar logo ou esquecer. Estupro é estupro, e tentativa de estupro é meio vago. Pode ter sido uma forte tentativa de sedução, que a moça confundiu e achou que era tentativa de estupro.

Prosseguindo: eis que surge Anne, mãe da jornalista, contando que teve uma relação -consentida- com Strauss-Kahn há 11 anos, relação essa classificada por ela como "sexo brutal". E mais: declarou que o sexo de Strauss-Kahn tinha "a vulgaridade de um soldado", que os dois tiveram "relações sexuais brutais" e que ele se comportou como "um cafajeste obsceno, que a luxúria sexual o faz querer dominar", palavras dela.

Detalhe: tudo aconteceu no escritório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, e volto a lembrar: o sexo foi con-sen-ti-do.

Para começar: como é que Anne pode saber que o sexo com Strauss-Kahn tinha a vulgaridade de um soldado? Se disse, é porque deve ter conhecido alguns (ou muitos) soldados, todos fazendo sexo brutal, só assim ela podia comparar. Eu não acredito nada nessa história, e vou dizer o que penso.

Anne transou com Strauss-Kahn num escritório; dois anos depois, o galã paquerou Tristane, filha dela, que foi aconselhada pela mãe a ficar de bico calado. No meu entender, por uma questão de vaidade, para que os companheiros de escritório, que sabiam da transa, não ficassem sabendo da paquera da filha.

Um problema de vaidade feminina, dá para entender; e em se tratando de uma mulher muito mais jovem, e ainda por cima filha, só faz piorar as coisas. Foi ela, Anne, que se portou como uma cafajeste, contando à imprensa a maneira como ele transava, coisa que não se faz.

Algumas mulheres, quando feridas, podem ser muito más; Anne esperou nove anos para ter a chance de se vingar, e chegou a hora: ela agora incentiva a filha a contar o que aconteceu há tanto tempo para acabar com a reputação do homem com quem ela teve uma transa rápida -segundo eu entendi, uma só- e da qual ela deve ter gostado muito, para depois de tanto tempo ainda querer se vingar (se quer, é porque não se esqueceu).

Não há nada mais absurdo do que a jornalista francesa indo depor perante a Justiça dos EUA, para denunciar algo que não chegou a acontecer, há nove anos, em outro país. Isso não faz nenhum sentido.

Existem homens que procuram ter relações sexuais em qualquer lugar, com todas as mulheres, mesmo num escritório, e como eles são mais fortes fisicamente, é bom que elas sejam cautelosas, e para não correrem certos riscos, não ficarem sozinhas com homens que conhecem pouco; geralmente -mas nem sempre - dá para saber com que tipo de homem se está lidando, para evitar situações perigosas.

Mas quem gosta mesmo de Strauss-Kahn é a atual mulher dele, que bancou US$ 5 milhões de fiança para que ele não ficasse preso, alugou um luxuoso apartamento em NY para ficarem juntos, e o casal não se larga, com toda essa confusão.

Ela deve ter suas razões; suas boas razões.

danuza.leao@uol.com.br

SÉRGIO DÁVILA

Campeão de audiência

Nunca se leu tanto jornal no Brasil. É o que sugere levantamento do Instituto Verificador de Circulação, que tem entre seus afiliados os principais diários do país. Segundo ele, a circulação média foi de 4,4 milhões de exemplares por dia no primeiro semestre de 2011.

O número é recorde dos últimos 50 anos, quando teve início a série do IVC. Incluindo jornais não afiliados, o total salta para 8,4 milhões de exemplares diários, de acordo com estimativa de 2010 da Associação Nacional de Jornais (ANJ). Mas o volume de leitores certamente é maior.

Se entre três e cinco pessoas leem um exemplar de jornal, como calcula o mercado publicitário, estamos falando de 25 milhões a 42 milhões de leitores. A cifra bate com levantamento feito pelo Ibope Media - TGI entre agosto e janeiro últimos, que chegou a um total de 24 milhões de brasileiros lendo jornal diariamente.

Num universo de 157 milhões de alfabetizados, não é pouca coisa. No mínimo, um em seis brasileiros aptos a ler folheia um jornal. De papel, sem contar os milhões mais que frequentam os sites desses mesmos títulos.

Segundo blague atribuída a um professor de economia norte-americano, estatísticas são como biquíni: o que revelam é sugestivo, mas o que escondem é fundamental. O modelo de negócio da mídia dita "tradicional" está em discussão no mundo todo e precisa ser repensado. Ainda assim, façamos um exercício.

Para o Ibope, um ponto de audiência no que chama de Painel Nacional de Televisão -as 14 praças aferidas regularmente pelo instituto no país- equivale a 577 mil indivíduos. Na comparação (minha, não do Ibope), juntos, os leitores de jornal no Brasil equivaleriam à audiência nacional de um programa de TV com, no mínimo, 43 pontos.

Seria o campeão de audiência entre todas as atrações no ar hoje em dia.

Os números contrariam uma visão alarmista, propagada não sem certo prazer masoquista pelos próprios jornalistas, de que o fim (do papel? do jornalismo independente? do mundo?) está próximo. Não está, e os fatos recentes no Reino Unido comprovam isso.

Como sabem os milhões que leem jornal, a News Corp., de Rupert Murdoch, está envolvida num escândalo sobre escutas telefônicas que já levou ao fechamento de um tabloide sensacionalista britânico e custou ao menos US$ 1 bilhão ao empresário de mídia.

Os métodos criminosos usados por jornalistas a soldo dele para obter notícias evidenciam o que a imprensa pode ter de pior, é certo. Mas foram revelados sem impedimento nem censura por dois jornais sérios -"Guardian" e "New York Times"-, que fizeram jornalismo de verdade.

É esse mecanismo de autodepuração, de autorretificação que mantém os jornais vivos e faz da liberdade de imprensa um bem vital.

SÉRGIO DÁVILA é editor-executivo da Folha.

sábado, 23 de julho de 2011


RUTH DE AQUINO

A patrulha do amor

Era uma festa de interior paulista em São João da Boa Vista. O pai, de 42 anos, abraçou o filho, de 18. Eles se veem uma vez por mês. “A gente fica no maior chamego, é a saudade”, disse o pai. Um grupo de seis homens se aproximou e perguntou se eles eram gays. O pai ainda respondeu que não. Foi desacordado por um soco no queixo. Sua orelha direita foi decepada por um dos agressores. Era um serralheiro de 25 anos que odeia homossexuais.

O serralheiro, preso dias depois, foi solto logo. E provavelmente só se arrepende pelo erro de avaliação: se pai e filho fossem um casal, teriam merecido o castigo. Ele é um entusiasta da tese defendida pelo deputado federal Bolsonaro: pais devem dar palmadas em filhos com “desvios” para “curar a doença” que está destruindo a família brasileira.

Essa legião homofóbica é muito maior do que se pensa em nosso país. Ela começa a sair do armário. Os novos direitos iguais dos gays cumprem uma função importante: mostram quem é quem. Preconceitos ficavam escondidos pela legislação discriminatória.

Agora, emergem com fúria viril e religiosa. Agressões como essa e tantas outras terão de ser punidas exemplarmente, até que a sociedade se civilize e se modernize. O racismo é crime? A homofobia também precisa ser crime.

“Estava eu, meu filho, minha namorada e a namorada dele. Elas foram no banheiro. Aí eu peguei e abracei ele”, contou o pai, vendedor autônomo que vive numa chácara em Vargem Grande do Sul, cidade vizinha.

O filho mora com a mãe em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. “Passou um grupo, perguntou se nós éramos gays, eu falei ‘lógico que não, ele é meu filho’. Ainda falaram: ‘Agora que liberou, vocês têm que dar beijinho’. Houve um empurra-empurra, eles foram embora, mas voltaram. Não sei se eu tomei um soco, apaguei. Quando levantei, senti.

A minha orelha já estava no chão, um pedaço.” Uma mulher pegou o pedaço da orelha e colocou em um copo com gelo. No hospital, os médicos disseram que a orelha foi decepada por algum objeto cortante e muito bem afiado. “Não se pode nem mais abraçar um filho”, disse o autônomo.

Esse episódio dantesco numa festa agropecuária não choca apenas pelo ódio aos gays. Parece cada vez mais difícil ser pai amoroso quando, por todo lado, espreita a malícia alheia.

Há dois anos, em setembro de 2009, um turista italiano foi preso por acariciar e beijar com “selinhos” a filha de 8 anos numa piscina pública em Fortaleza. Um casal de Brasília chamou a polícia. Estavam indignados com o “gringo pedófilo”. Ele branco, ela mais escura. A menina era filha do italiano com uma brasileira. A mulher também estava na piscina e protestou quando levaram o marido.

O ataque dos homófobos ao pai que abraçava o filho revela o cerco àqueles que exibem afeto em público

Pode-se entender o engano inicial numa região como o Nordeste, onde a prostituição infantil e o turismo sexual são uma tragédia quase oficial. Mas, mesmo depois de esclarecer que o italiano era pai da menina e estava com a mulher, como explicar sua detenção por dez dias de férias?

Foi liberado sem pedido de desculpas. Daqui a pouco, um pai não poderá mais ajeitar o biquinizinho da filha, levar a menina ao banheiro, colocar no colo, abraçar e beijar.

Essa polícia do comportamento afetivo é dura, humilhante e cultural. Persegue sobretudo os homens. Em vários países, beijos entre heterossexuais não põem em dúvida sua masculinidade. São expressões de carinho. No Brasil, é mais complicado. Escrevi uma vez sobre o simbolismo de homens fantasiados de mulher no Carnaval.

“O homem se veste de mulher porque quer ser mais afetivo de maneira escancarada, sair beijando todos, de qualquer sexo. Homem afetivo, nos outros dias do ano, é coisa de gay”, diz o psicoterapeuta Sócrates Nolasco.

“É um momento do ano em que ele não precisa afirmar sua masculinidade. Mulher pode ser afetiva, carinhosa, extrovertida, e nem por isso será tachada de piranha.”

Deve ser cansativo e frustrante tentar se enquadrar o tempo todo no que a sociedade espera do macho. As novas gerações de homens deveriam fazer uma revolução.


23 de julho de 2011 | N° 16770
NILSON SOUZA


O anjo do sono

O pedaço da minha alma que habita o joelho esquerdo ficou especialmente alegre com esta notícia da reabertura do Hospital Independência, na zona leste da Capital.

Só estive hospitalizado uma vez na vida – e foi naquele prédio abandonado e sucateado, que em breve voltará a receber pacientes e profissionais da saúde. Nem mesmo quando bebê fui hóspede de instituição hospitalar: nasci pelas mãos de uma parteira de bairro, na casa de madeira onde meus pais moravam, na zona norte de Porto Alegre.

Era uma época de muitos riscos, ainda assim cresci gordo e saudável. Mas ninguém é bruxo para escapar. Um dia, já adulto, dei o passo maior do que a perna – como se dizia antigamente – e rompi o ligamento cruzado anterior durante um jogo de futebol.

Com um joelho de elefante, de tão inchado, entrei no hospital a bordo de uma cadeira de rodas e passei pelo bisturi do doutor César Ávila. Levei um talho enorme, pois naqueles tempos pretéritos ainda não era tão usual a técnica da artroscopia, mas a regeneração foi perfeita. Voltei, inclusive, a jogar futebol.

Mal como antes, é verdade, mas só o fato de poder correr de novo já é suficiente para que eu fique eternamente grato pelo atendimento que recebi naquele hospital, tudo pelo mal-afamado SUS.

E ainda passei por uma experiência um tanto estranha na hora da cirurgia. A anestesia raquidiana me manteve acordado no início do procedimento, mas, como estava conversando demais, provavelmente devido ao estado nervoso, o anestesiologista completou o trabalho e me mandou para o mundo da inconsciência.

Antes de apagar, porém, pedi para segurar a mão de uma enfermeira de olhos verdes que estava ao meu lado. Ou foi depois de apagar? Nunca saberei. O fato é que aquela mão macia e aquele olhar de mar profundo me garantiram uma passagem suave pelo momento mais temido.

Acordei na porta do inferno, é verdade. A sala de recuperação, naquele período em que o corpo retorna às dores da vida e o tempo não passa, é um suplício. Mas aos poucos o cérebro desembaralha o mundo, os rostos familiares começam a fazer sentido e a gente retoma a rotina da existência. Claro que a moça não estava mais lá – se é que realmente esteve.

Ficou, entretanto, uma lembrança boa. Toda vez que passo pela frente do prédio do hospital que fechou em 2009, penso que o anjo do sono aguarda pacientemente que as luzes se acendam para que ela volte a tranquilizar almas inquietas com o toque mágico de sua mão macia e o encantamento do seu olhar de mar.


23 de julho de 2011 | N° 16770
EDITORIAIS ZH


Mudanças na educação

Ao defender a avaliação por mérito no magistério, o governador Tarso Genro confronta a entidade representativa dos professores e seu próprio secretário da Educação, que se opõem às intenções do governo estadual de aperfeiçoar os sistemas de avaliação com o objetivo de premiar bons resultados.

Por maiores que sejam as restrições, o aspecto incontestável é que o ensino público no Estado precisa recuperar a qualidade perdida e não pode continuar como está. O primeiro passo para alcançar esse objetivo é aprofundar o diálogo sobre o novo plano de carreira do magistério, privilegiando pontos em comum nas diferentes visões sobre a questão.

Ao se manifestar nesta semana sobre o assunto, o governador Tarso Genro deixou claro o seu posicionamento de que “tem que ter avaliação por mérito”, pois o professor “que trabalha melhor tem uma qualificação melhor, tem de ser reconhecido”.

Uma das justificativas alegadas pelo governador é a meta número 14 do Compromisso Todos pela Educação, lançado em 2007, que valoriza o mérito do trabalhador da educação, “representado pelo desempenho eficiente no trabalho, dedicação, assiduidade, pontualidade, responsabilidade, realização de projetos e trabalhos especializados, cursos de atualização e desenvolvimento profissional”.

Obviamente, qualquer avaliação sobre o desempenho dos professores tem que ser embasada em critérios bem definidos. A preocupação precisa estar presente já na fase de admissão, que deve avaliar com rigor quem tem condições de transmitir conhecimento, e prosseguir ao longo da carreira, para apurar o quanto o educador se envolve de fato com seu trabalho e procura estar atualizado com as exigências atuais.

O aspecto polêmico do tema reforça a importância de as mudanças serem antecedidas de um debate amplo, com envolvimento de toda a sociedade. É o conjunto dos gaúchos, e não simplesmente uma categoria, que precisa ter claro qual ensino o Estado precisa ofertar.


23 de julho de 2011 | N° 16770
PAULO SANT’ANA


O paladar

Segundo o otologista Sady Selaimen da Costa, o mais importante dos cinco sentidos é o paladar.

Vindo de um homem que opera ouvidos, se especializou em ouvidos, então é porque o paladar é mesmo o primacial dos sentidos, embora pareça incrível que ele possa ser mais importante que a visão e a audição.

Talvez seja o mais importante porque se pode continuar vivendo como cego e como surdo, enquanto que sem paladar é impossível sobreviver.

Eu que o diga, que perdi, pelos paraefeitos da radioterapia a que me submeti, o paladar há 60 dias.

Sem paladar – e sem saliva – fiquei sendo um sub-humano. Porque não consigo engolir nenhum alimento sólido, só ingiro sopas e complementos alimentares líquidos.

Quando tomo uma Coca-Cola, ela tem o gosto de água oxigenada. Quando tento beber uma cerveja, o gosto é de querosene.

Empurrei com o dedo goela abaixo um pedacinho de pão e parecia que eu estava comendo um papel.

E não sei se já escrevi que, como patifamente continuo fumando, fumo Charm e o gosto é de Minister.

A radioterapia me trouxe efeitos incríveis. Por exemplo, me arrancou 90% da barba. Para sempre, até morrer, só terei barba num pedaço do queixo e um pouco abaixo dos meus ouvidos. E o mais ingrato é que meu barbeiro, o Martins, continua me cobrando os mesmos R$ 20 que me cobrava antes.

O bigode, a radioterapia me extinguiu por completo.

Quando não faço a barba (os raros pelos que me restaram), fico ridículo, só existem pelos grandes em três pontos do meu rosto, tem gente que pensa que virei punk.

Aos amigos que me convidam para jantar em suas casas, respondo que só vou se me servirem uma sopa.

Nesses 60 dias já engoli todo o tipo de sopas instantâneas, sopas em pacote. Não aguento mais beber sopas, meus caros oncologistas Cláudio Sá Brito e Carlos Barrios, quando é que vocês vão me retirar deste calvário?

É que a radioterapia queimou por completo, com raios de iodo, as minhas papilas gustativas, estas escamas que nos cobrem a língua.

Foi por isso que perdi o gosto, a gustação, o paladar.

Dizem-me os amigos e os médicos, para me consolar, que o paladar vai voltar.

“Não te preocupa, Sant’Ana, o paladar vai voltar”.

E eu respondo a eles: “Vai voltar? Mas se a minha mulher me trair e fugir com meu melhor amigo, na certa vocês me dirão o mesmo: que eu não me preocupe, que minha mulher vai voltar. O problema é de como voltará, depois de ter sido profanada? E meu paladar não vai voltar profanado, senhores oncologistas?”.


23 de julho de 2011 | N° 16770
CLÁUDIA LAITANO


Cinza e abóbora

Três motivos para escutar o novo disco do Chico Buarque (segundo uma fã incondicional):

1 - Para ouvir três lindas canções de amor

Chico Buarque está apaixonado. Sorte dela, dirá a leitora. E eu vou concordar, acrescentando: sorte nossa que esse amor deu samba – e blues e baião também. Essa Pequena, Tipo um Baião e Se Eu Soubesse (em que canta em dueto com Thaís Gulin – não por acaso, a suposta musa das novas canções) falam de um amor tardio, docemente melancólico, em que a alegria do encantamento convive com as angústias da diferença de idade:

“Meu tempo é curto, o tempo dela sobra/ Meu cabelo é cinza/ O dela é cor de abóbora/ Temo que não dure muito a nossa novela,/ Mas sou tão feliz com ela” (Essa Pequena), “Não sei para que/ Outra história de amor a essa hora/ Porém você/ Diz que está tipo a fim” (Tipo um Baião).

Outra estrofe bonita, esta sobre como o tempo passa de forma diferente conforme a idade que temos: “Feito avarento, conto os meus minutos/ Cada segundo que se esvai/ Cuidando dela/ Que anda noutro mundo/ Ela que esbanja suas horas ao vento, ai” .

2 - Para ouvir duas canções que dariam um livro

Não é mais possível ouvir um disco de Chico Buarque sem levar em conta o escritor – compre um, leve dois. Depois de um livro como Budapeste, que colocou Chico, sem favor nenhum ao compositor bem-sucedido, entre os grandes autores brasileiros contemporâneos, não dá mais para ignorar a voz literária que se impôs nos últimos anos.

Ela aparece, por exemplo, em Barafunda, quase uma trilha sonora do livro Leite Derramado, em que o narrador lida com a progressiva perda de memória: “Foi na Penha/ Não, foi na Glória/ Gravei na memória/ Mas perdi a senha/ Misturam-se os fatos/ As fotos são velhas”.

É quase um conto também a música que fecha o disco, Sinhá, parceria com João Bosco que narra a história de um negro escravo castigado por espiar a sinhá tomando banho. Chico em sua melhor forma, com João Bosco no violão.

3 - Para ouvir o verso mais malhado do ano

Nem tudo está perdido no mundo quando o verso de uma canção vira tema de debates apaixonados. A expressão “amar uma mulher sem orifício”, da música Querido Diário, a primeira do novo disco a ser divulgada na internet, no início de junho, gerou instantaneamente um turbilhão de comentários negativos.

A revista Veja chegou a qualificar o verso como “o pior da MPB do século 21” (o que, involuntariamente, deve mais ter mais ajudado do que atrapalhado a carreira do disco...). A estrofe completa segue assim: “Hoje pensei em ter religião/ De alguma ovelha, talvez, fazer sacrifício/ Por uma estátua ter adoração/ Amar uma mulher sem orifício”.

A mulher imaculada nada mais é do que a imagem de uma santa, símbolo da fé que o personagem lamenta nunca ter tido. Nada grave. Pensando bem, um versinho quase castiço comparado ao já clássico: “Joga pedra na Geni/ Joga bosta na Geni/ Ela é feita pra apanhar/ Ela é boa de cuspir/ Ela dá pra qualquer um!/ Maldita Geni”. É ou não é?

sexta-feira, 22 de julho de 2011


Macaco Simao

A Fazenda 4'! Todos fazendo de 4!

Devido aos quadrúpedes, devia ser "Fazenda de 4"! E com a Bruna Surfistinha é "Fazendo de 4"!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Confirmado! A final da Copa América vai ser em Minas: UrugUAI x ParagUAI! Rarará!

E "A Fazenda 4"? Devido ao número de quadrúpedes, devia ser "Fazenda de 4"! E com a Bruna Surfistinha no elenco é "Fazendo de 4"! Bruna Surfistinha em "Fazendo de 4"! Rarará!

Adorei o elenco trash da "Fazenda": Bruna Surfistinha, Cumpadre Washington, João Kléber, Renata Banhara, Valesca Popozuda e Dinei do Corinthians! Isso é fazenda ou prisão agrícola? Rarará! A nata da bagaça! Fazenda, um programa CULTURRAL!

E eu sei o que eles criam naquela fazenda: PELANCA! Só tem pelanca e tatuagem despencada! E eu vi uma cena bizarra: o Cumpadre Washington mexendo o molho do macarrão com a mão. AAAARGH!

Voce comeria um macarronada feita pelo Cumprade Washington? E o João Kléber? Mas ele não estava em Portugal? Fazendo programa de pegadinha? Imagine fazer pegadinha com português? Tem que explicar. Pegadinha com bula! Rarará!

E diz que o João Kléber vai servir de repelente. Nem pernilongo e muriçoca suportam. Deixa ele em pé no quarto a noite inteira! Rarará!

E a Valesca Popozuda? O Popozão da Valesca só cabe em TV 56 polegadas. Aquilo não é uma bunda, é um abuso de autoridade. Bunda tipo marquise: é tão grande que, quando chove, só molha a parte de cima! Rarará!

E eu já disse que aumenta o periquitério da Dilma. Mais uma periquita pro ministério. Convidou a dona do Magazine Luiza pra pasta da Micro e Pequena Empresa. Micro não pode ser, porque ela pesa uns 200 kg. Rarará! Finalmente uma ministra de peso! E ela é a imagem do bum econômico da Já Era Lula.Ou seja, ela é o Abílio do Lula.

Por falar em Abílio, o Piauí Herald diz que o Pão de Açúcar agora quer fazer fusão com o Corcovado. Rarará! E a única fusão que deu certo foi aquele supermercado em Campos do Jordão: CARREFULVIO!

E mais dois pra minha série Os Predestinados! Dono de pedreira em Guarulhos: Fausto MARTELLO. E sabe como se chama o gerente da Caixa em Curitiba? Diego TARIFA! Quando ele nasceu, a mãe gritou: vem pra Caixa você também! Rarará! Nóis sofre mas nóis goza. Que eu vou pingar o meu colirio alucinógeno!

simao@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

Guerra de dossiês

BRASÍLIA - Quantos ministérios o PTB tem no governo? Nenhum.

E algum cacique ou parlamentar do partido anda triste pelos cantos, ameaçando romper? Não.

Tenham ou não ministérios, os petebistas são governo -e não pelos belos olhos de Dilma. Foram governo com Fernando Henrique, continuaram com Lula e não largaram o osso nem mesmo quando o chefão Roberto Jefferson detonou o mensalão e explodiu a aura do PT.

Transporte-se (a alusão ao ministério em crise não foi por acaso...) a premissa para o PR e conclui-se que as ameaças dos "republicanos" depois da perda dos Transportes não passam de "chororô de derrotados", como Lula classificou a inglória resistência dos iranianos ao regime Ahmadinejad.

O PR, como o PTB, não sabe fazer política sem as benesses do poder. Ninguém imagina Valdemar Costa Neto e Lincoln Portela, por exemplo, engrossando o coro da oposição no primeiro ano de mandato, com um horizonte sorridente de verbas, favores e empregos, no mínimo pelos próximos três anos e meio. E as verbas, favores e empregos não são exclusivos dos Transportes e de Brasília. Ali só eram mais concentrados e mais fáceis.

Costa Neto é acusado de participar de reuniões nos Transportes. Além de não negar, ele provavelmente vai dizer que também participa na Saúde, na Educação, nas Cidades... Conhece bem os caminhos. E não vai perdê-los totalmente pelos percalços nos Transportes. Vão-se os Transportes, fica toda uma Esplanada dos Ministérios.

Há, porém, um outro tipo de risco para Dilma ao confrontar cobras criadas: em vez de agirem às claras na oposição, elas podem agir sorrateiramente numa guerra de dossiês.

Se capotaram por denúncias nos Transportes, bem podem engarrafar o trânsito do PT. Além de, como Valdemar, conhecerem bem os caminhos, os "republicanos" sabem direitinho, como o petebista Jefferson, onde ficam os buracos.

elianec@uol.com.br


22 de julho de 2011 | N° 16769
QUALIDADE DO ENSINO


Piratini quer movimento para debater a educação

Pela primeira vez, Tarso deu detalhes sobre sua visão a respeito da avaliação por mérito do professor

Para fortalecer as alterações que pretende fazer na carreira do magistério, Tarso Genro tem como estratégia incluir o tema em um movimento maior: uma campanha pelo bem da educação. O governador quer reunir a sociedade, intelectuais e autoridades do ramo para discutir como o Estado pode sair da rabeira do ensino nacional.

Mas a prioridade é incluir medidas de avaliação por mérito no plano de carreira dos professores. Ontem, pela primeira vez, Tarso revelou esta intenção no programa Frente a Frente, da TVE:

– Tem que ter avaliação por mérito. O professor que trabalha melhor, tem uma qualificação melhor, tem de ser reconhecido.

Para enfrentar eventuais resistências, a ideia é montar uma rede de apoio, promovendo debates e seminários. De quebra, o movimento alimentará o Piratini com novas ideias para a qualidade do ensino.

– É uma grande sacada, pois é preciso ganhar a opinião pública, educadores, formadores de opinião. Assim, o plano de carreira deixa de ser algo burocrático: se torna parte de algo maior, o bem da educação – diz um interlocutor de Tarso.

Sucessor de Tarso no Ministério da Educação, o atual ministro Fernando Haddad deve vir ao Estado para tentar reaproximar os gaúchos da linha desenvolvida pelo Planalto para o setor. A presença de Haddad seria simbólica. Afinal, o Piratini entende que o RS pouco se integrou às políticas nacionais de educação nos últimos anos. O que inclui, por exemplo, a introdução de indicadores de qualidade nas escolas.

A ideia é convencer a sociedade de que, para a educação melhorar, é necessário avaliar os professores e também oferecer-lhes capacitação. Tarso é fã da meta número 14 do Compromisso Todos Pela Educação, lançado em 2007.

Ela ordena que todos irão “valorizar o mérito do trabalhador da educação, representado pelo desempenho eficiente no trabalho, dedicação, assiduidade, pontualidade, responsabilidade, realização de projetos e trabalhos especializados, cursos de atualização e desenvolvimento profissional”.

PAULO GERMANO


Deixem os gays em paz

22 de julho de 2011 | N° 16769
DAVID COIMBRA


Agora você vai me dizer uma coisa: qual é o problema de um cara fazer sexo oral em outro cara no meio do Parcão às duas da madrugada? Que mal eles estão praticando? Ah, a senhora sua mãe ou seu filho pequeno ou a sua esposa não gostariam de ver dois homens transando na rua. Certo.

Em geral, o sexo há de ser mesmo um exercício privado, as pessoas não apreciam o espetáculo da intimidade das outras pessoas, salvo quando assistem ao Big Brother. Mas a senhora sua mãe, o seu filho pequeno e a sua esposa andam passeando pelo Parcão às duas da madrugada???

Que eu saiba, não há muita gente fazendo sexo nas calçadas de Porto Alegre às quatro da tarde. Não. Os gays esperam a tal calada da madrugada, embrenham-se nas entranhas do Parcão ou da Redenção, metem-se sob as moitas e debaixo das árvores, e lá se repoltreiam e se refocilam e espadanam.

Qual é o dolo disso? Quem está sendo lesado? Eles não estão se agredindo, eles não estão se batendo, eles estão fazendo sexo, ou, como preferem alguns, amor. Não é algo bom fazer amor?

Na Europa, há parques que são cercados à noite? A resposta é sim. E na Europa há parques em que as pessoas tomam banho de sol nus, e na Europa há parques em que as pessoas fazem sexo nos recônditos, sem serem incomodadas. Se alguém procura um policial para se queixar, o policial perguntará:

– Por que o senhor foi lá?

Os intestinos dos parques de Porto Alegre são usados para estupros e assassinatos? Nesse caso, a polícia tem mesmo de intervir. Estupros e assassinatos são crimes dentro e fora de parques. Mas não me parece que seja esse, de fato, o motivo do escândalo. Li a reportagem a respeito, na Zero Hora de segunda-feira.

Das 10 fotos que denunciavam “abusos” cometidos nos parques, nenhuma registrava um crime e oito eram de, digamos, conteúdo sexual. Uma dessas flagrava camisinhas rojadas ao chão. O que, por um lado, preocupa: estão sujando as ruas da cidade. Por outro, tranquiliza: estão fazendo sexo seguro.

Mais preocupantes são outras duas fotos, que mostram prostitutas e michês oferecendo seus serviços a céu aberto. Temo por esses profissionais. Estão expostos à violência urbana, tendo de trabalhar assim, ao léu, sem proteção do Estado. Fosse essa cidade menos hipócrita, prostitutas, michês e travestis teriam ruas seguras para trabalhar. Eles e seus ávidos clientes não precisariam arriscar-se nos desvãos dos parques ou em ruas ermas.

Tempos atrás, ouvi o grande Antônio Carlos Macedo entrevistar um delegado em seu programa na Gaúcha. Esse delegado recomendava aos porto-alegrenses que não parassem sob o sinal vermelho dos semáforos à noite.

Que olhassem para os lados e cruzassem a rua com cautela. Quer dizer: um delegado, um agente da lei, recomendava que se cometesse uma infração.

Por quê? Porque deter-se em um sinal vermelho à noite, em Porto Alegre, acarreta risco grave. A pessoa pode ser assaltada, pode ser sequestrada, podem meter-lhe um revólver no nariz e arrancá-la do volante de seu próprio carro e prendê-la no porta-malas e levá-la para um morro e lá executá-la com um tiro na nuca.

É o que acontece à noite, nas ruas de Porto Alegre. E, enquanto isso, a polícia está ocupada em encher o saco dos gays do Parcão.

quinta-feira, 21 de julho de 2011


JOSÉ SIMÃO

Buemba! O Peru caiu em pé!

"O Peru caiu em pé", disse o técnico. Na realidade, o Peru foi crescendo, crescendo e aí murchou

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Placa de quitanda em Pouso Alegre: "Temos frango de granja, caipira, sertanejo e sertanejo universitário".

E a manchete do Piauí Herald: "Ministro dos Transportes superfaturou autorama do filho". Rarará! Babado nos Transportes!

E o Dnit vira Dmit! E tô adorando os nomes do suspeitos demitidos: Varejão! Luiz Claudio Varejão. E Sérgio Almeida Fatureto! Dupla sertaneja, os DILMITIDOS:

Varejão e Fatureto! Rarará! E ainda tem aquele Pagot. Aí vira um trio: Pagot, Varejão e Fatureto. Viola, violão e violoncelo. Rarará!

As dilmissões da Dilma! "Servidores dos Transportes comparam demissões ao 'BBB'". O Paredão da Dilma. Isso. Com ela tá assim: escreveu não leu, o pau comeu. Rarará!

E aumenta o piriquitério da Dilma. Mais uma periquita pra ministra: a dona do Magazine Luiza. Pra Secretaria da Micro e Pequena Empresa. Micro não pode ser porque ela pesa uns 200 quilos. Rarará! Uma ministra de peso!

E a Copa Amérdica! O Peru caiu! Mas adorei a declaração do técnico: "O Peru caiu em pé". Rarará! Na realidade, o Peru foi crescendo, crescendo e aí murchou. Diz que o Peru jogou encolhido. Rarará!

O Brasil perdeu com medo de enfrentar o Peru. Se perdeu para um paraguaio chamado Marecos, imagine encarar um peru. E, nessa idade, eu fazendo trocadilho com Peru.

O Peru não é um país, é um trocadilho. Sugiro mudar o nome do país de Peru pra Perereca. Pra gente variar de trocadilho. E uma leitora me disse que se juntar a mãe dela, de 76 anos, com a avó dela de 98 anos e as tias, variando de 75 a 94, iam bater pênalti melhor que a selecinha. É mole? É mole, mas sobe!

E adorei a charge do Cícero sobre uma coisa que está ocorrendo no Brasil: A INTOLERÂNCIA: "Não tenho religião, não sou nordestino, não sou negro, não sou gay, por que eu tô apanhando?". "Não gostei do seu sapato." É isso aí! Não tolero intolerantes!

E mais dois para a minha série os predestinados! Dono de pedreira em Guarulhos: Fausto MARTELLO! Gerente da Caixa Econômica de Curitiba: Diego TARIFA! Quando ele nasceu, a mãe gritou: "Vem pra Caixa você também". Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

À luz do dia

BRASÍLIA - Antigamente, muito antigamente, os funcionários corruptos de vários degraus da hierarquia embolsavam propinas na fase das licitações e depois nos aditamentos, quando os preços acertados só para ganhar a obra se multiplicam num passe de mágica.

A corrupção foi se aperfeiçoando e está também escancarada, pelo menos no Ministério dos Transportes. Em vez de se contentarem com meras propinas, malas de dinheiro e essas coisas que acabam parando em fotos e filmes de celulares e em investigações policiais, a turma optou por ir direto à fonte.

Explico: eles resolveram criar e alimentar suas próprias empresas, em nome de mulheres, filhos, irmãos e afilhados. O dinheiro é liberado pelo ministério, dá uma voltinha num governo estadual ou numa outra empresa e vai cair na dos diretores, assessores e apaniguados. É como dar uma tacada com efeito para encaçapar a bola preta na sinuca dos recursos públicos.

Assim, o filho do ex-ministro Alfredo Nascimento está nadando em dinheiro aos 27 anos, a empreiteira da mulher de um diretor do Dnit embolsou uma bolada dos Transportes via governo de Roraima, a empresa do irmão de um outro diretor abocanhou R$ 26 milhões em obras autorizadas pelo Dnit.

E há os que dispensaram os parentes e essas formalidades e são, eles próprios, sócios em empresas que têm polpudos contratos com o Dnit (rodovias) e a Valec (ferrovias).

Isso só pôde ocorrer em tal dimensão, à luz do dia, durante tantos anos e favorecendo tanta gente por causa de duas palavras malditas: facilidade e impunidade.

Há sujeira acumulada por todo canto, e Dilma está tendo um trabalhão e resistindo à chantagem para fazer a faxina. Os demitidos aumentam dia a dia e já são 15.

Mas há perguntas que não querem calar. Os esquemas serão, de fato, desmontados? Alguém vai ser preso? O dinheiro vai ser devolvido aos cofres públicos? Sei não...

elianec@uol.com.br

KENNETH MAXWELL

O mal que não se vê

A expressão "see no evil, hear no evil, speak no evil", ao que se sabe, tem origem em uma história sobre três macacos. Isso resume o depoimento de Rupert Murdoch, 80, e de seu filho James Murdoch, 38, diante de um comitê da Câmara dos Comuns, em Londres.

Eles se mostraram muito contritos. Pediram profusas desculpas. Alegaram que o escândalo das escutas telefônicas, que os levou a fechar o tabloide "News of the World", seu maior sucesso de vendas no Reino Unido, foi uma completa surpresa para eles.

A crise explodiu há duas semanas. Após a condenação do assassino de Milly Dowler, foi revelado que Glenn Mulcaire, investigador que trabalhava para o "NoW", instalou escuta que lhe dava acesso aos recados enviados ao celular da menina de 13 anos desaparecida.

Ele apagou algumas das mensagens, o que deu aos pais de Milly a falsa esperança de que ela ainda estivesse viva.

Sabia-se que escutas telefônicas eram práticas comuns de certos setores da imprensa britânica. Mas o caso Milly Dowler foi tão escandaloso que resultou em revelações diárias sobre uma mistura tóxica de conluios e esforços de acobertamento, envolvendo policiais, políticos e jornalistas.

O chefe da Scotland Yard, sir Paul Stevenson, já renunciou. Ele aceitara uma dispendiosa estadia em um spa de saúde oferecida por Neill Wallis, ex-editor no "NoW" e depois consultor pago da polícia metropolitana londrina.

John Yates, comissário assistente da polícia londrina, também renunciou. Ele recusara, em 2009, reabrir a investigação sobre as escutas.

Há também Rebekah Brooks, editora do "NoW" quando do uso de escutas no celular de Milly. Ela renunciou à presidência-executiva da News International, e foi detida e libertada sob fiança.

Andy Coulson, ex-editor-executivo do "NoW", é mais um jornalista detido e libertado sob fiança. Ele foi secretário de imprensa do premiê britânico, David Cameron.

Entre os números de telefone apreendidos nos registros de Mulcaire, o investigador que instalou as escutas no celular de Milly, estava o do primo de Jean Charles de Menezes, brasileiro inocente morto a tiros pela polícia britânica após os atentados de 2005.

O policial que comandou a investigação sobre a morte de Jean Charles foi Andy Hayman, que também conduziu a investigação inicial da polícia sobre as escutas, quando Coulson editava o "NoW", e não encontrou provas. Hayman demitiu-se da polícia e se tornou colunista na News International, de Murdoch. O comitê parlamentar definiu as ações dele como "nada profissionais" e "deploráveis".

James Murdoch revelou que as despesas judiciais de Mulcaire continuavam a ser pagas pelo "NoW". Mas isso acabou.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.


21 de julho de 2011 | N° 16768
ARTIGOS - Flavio José Kanter*

Velhice é doença?

Outro dia fui surpreendido por menção à “medicina antienvelhecimento”. Conheço tratamentos antiproblemas que precisamos combater: anti-inflamatórios, anti-hipertensivos, antipsicóticos, antidiabéticos... A lista dos anticoisas que queremos combater é grande. Mas queremos combater o envelhecimento?

Lembro do meu pai dizendo que envelhecer é bom, ruim é não envelhecer: morrer antes de chegar à velhice...

Em meu trabalho assistindo pessoas, sua saúde e doenças, encontro formas diferentes de envelhecer. Muitos chegam a esta fase preparados, tendo estabelecido condições e hábitos que lhes permitem obter satisfação e ser felizes nesta fase da vida. Outras não. Ouso dizer que a primeira condição para envelhecer bem é aceitar a velhice como algo normal, uma nova fase na vida, que pode ser bem vivida.

Ser velho não é pejorativo. Pode ser vantagem. Evita-se o termo e chamam velho de “melhor idade”, “idade de ouro”, “sênior”, e outros eufemismos. Aí já se diz que velhice é ofensivo. Será?

Como é então envelhecer bem? É preciso chegar a esta fase com boa saúde física. Isto se prepara ao longo da vida, com hábitos saudáveis, atividades física e intelectual permanentes, identificação de fatores de risco e sua remoção ou redução sempre que possível. Envolvimento familiar e social com laços afetivos é relevante.

A relação com o trabalho importa; o que fazer quando parar ou diminuir? Os que pior vivem, em geral, depois de se aposentarem são aqueles que não tinham outros interesses em paralelo, ficaram sem objetivos ao interromper a rotina.

Acompanho pessoas com mais de 80, até 90 anos, que mantêm uma vida que as satisfaz através do equilíbrio de ocupações físicas, mentais e sociais. Absorver as progressivas perdas que caracterizam esta fase é um dos segredos: perdem-se pessoas, diminuem sentidos, força, trabalho, dinheiro... Vejo que vão melhor os que aceitam, absorvem e se adaptam às características da fase do que os que lutam contra ela.

Sêneca escreveu sobre o assunto mostrando vantagens da velhice. Mas há quem diga que a calma e a tranquilidade que se obtém devem-se à queda das energias que lhes permitiam excessos quando jovens...

Um cirurgião cardíaco paulista, perguntado sobre parar de trabalhar quando chegou aos 70 anos, respondeu que seus clientes é que decidiriam a sua aposentadoria: quando deixarem de procurá-lo, esta será a hora de parar. A boa relação com o trabalho, a sintonia com o que se faz e o reconhecimento obtido também somam para um bom envelhecimento.

Começamos a envelhecer ao nascer. É inevitável e inexorável. Aceitar e estar preparado é o que vai fazer com que seja mais ou menos fácil. A gente envelhece como vive. Quem vive bem envelhecerá bem. Quem não aceitar, lutar contra, poderá sofrer decepções.

Ruim mesmo é não envelhecer.
*Médico


21 de julho de 2011 | N° 16768
LETICIA WIERZCHOWSKI


Um grande livro

Esse texto é o depoimento de uma leitora feliz. Uma leitora que gastou boas horas das últimas duas semanas debruçada sobre as 605 páginas de Liberdade, incensado último romance de Jonathan Franzen, cujo penúltimo livro, As Correções, publicado por aqui há um punhado de anos, também passou pelo meu criado-mudo e pela minha alma.

Toda a crítica adorou Liberdade, o romance foi apontado como “o Guerra e Paz dos tempos modernos”, e na capa da edição da Cia das Letras está escrito “O romance do século”, afirmação publicada no The Guardian. Não quero que Liberdade venha a ser conhecido como o romance do século – estamos em 2011, e faltam mais de 80 anos de prosa pela frente, e algumas décadas para o próprio Franzen se superar várias vezes –, mas eu simplesmente adorei o romance.

Passei boas horas desfiando a vida de Patty e de Walter Berglund (o cara politicamente correto mais chato da história da literatura), do músico sedutor, o melhor amigo do chato, Richard Katz, dos filhos de Patty e Walter, Joey e Jéssica, e de toda uma cornucópia coloridíssima de personagens – os amores, desafetos, casos passageiros, os colegas, vizinhos e patrões dos Berglund.

Um grande livro, sim, senhores. No tamanho e na façanha que abarcou: seguir uma família desde o momento em que ela começa a se formar, quando dois jovens por acaso se encontram, sem saber ainda que ficarão juntos, até muito depois da dissolução dessa família modelo (os Berglund), através dos anos, da falta de tesão, dos altos e baixos da política americana, da faina de salvar o planeta do caos final, da ferrugem da modernidade, impregando-se por tudo com suas garras virtuais.

Um livro de minúcias, com um comecinho um pouco chato – e fica aqui o meu conselho: vença, caro leitor, as trinta páginas iniciais do capítulo “Bons Vizinhos”; vença-as em prol das mais de 500 páginas que virão a seguir.

Acontece tanta coisa, e de maneira tão intensa, que terminei o livro com lágrimas nos olhos, chorando pelo chato do Walter Berglund que, afinal de contas, era a melhor pessoa de todas as que já pisaram no mundo erguido por Franzen. (E não tinha uma canção que falava assim? Ah, todo chato é bonzinho, nunca nos fez nenhum mal...)

Assim, deixe a preguiça de lado e atravesse as 600 páginas de Liberdade. Não é qualquer romancista que consegue erguer uma história de amor que dure tanto e dê tantas voltas. E, mais tarde, ou ainda antes, agarre-se ao igualmente saboroso As Correções. Depois de Phillip Roth, Jonathan Franzen é meu escritor americano em ação favorito.