sexta-feira, 25 de março de 2011


Jaime cimenti

Humor negro, alegria, liberdade, dor, tristeza e injustiça

Winkie, o primeiro romance do novelista norte-americano Clifford Chase, autor de The Hurry-Up Song (memórias da morte de seu irmão), editor do Queer 13: Lesbian and Gay Writers Recall Seventh Grade e autor de ficções que já figuraram em várias revistas e periódicos de literatura, foi inspirado no verdadeiro ursinho de pelúcia Winkie , que lhe foi presenteado pela mãe e que agora está com mais de oitenta anos e bastante surrado.

Bem recebida pelo público e pelos críticos, a ficção de Chase tem sido comparada a O processo, de Kafka, a Moby Dick, de Melville, e é marcada por um humor negro nunca visto antes. Winkie é um velho urso de pelúcia que ganha vida.

Décadas depois da última criança de uma família ficar velha para brincar com ele, o ursinho pula de sua prateleira e sai andando pela floresta perto da casa onde vivia. Numa noite aparentemente calma uma equipe da Swat invade a cabana onde Winkie mora, coloca-o em custódia e o acusa de 9.678 crimes, incluindo terrorismo, traição à pátria e bruxaria.

No julgamento, a promotoria tenta selar o destino do pequeno urso chamando para depor testemunhas dos julgamentos de Galileu, Sócrates, John Scopes, Oscar Wilde e das Bruxas de Salém.

O grande lance do livro é traçar um paralelo entre o sofrimento do urso e a situação vivida por diversas pessoas no mundo, que sofrem preconceito e são acusadas de diversos crimes apenas pela aparência. No decorrer do julgamento, os leitores vão se deparar com situações que ocorrem diariamente ao redor do planeta e que, segundo o autor, para a maioria das pessoas é normal e indiferente.

O romance foi caracterizado como mágico e excêntrico sobre a imaginação subversiva e o poder anárquico das histórias, além de assustadoramente belo, divertido, malicioso e irônico. O sofrimento emocional e moral de um urso de pelúcia conduz esta alegoria surpreendentemente verdadeira de nossa época marcada pelo terrorismo, referiu o Kirkus Reviews sobre Winkie.

Os leitores vão ver como o azarado ursinho ganhou movimento, liberdade e amor e foi parar no lado errado da guerra americana contra o terrorismo.

Personagens como uma servente muçulmana lésbica, um advogado gago e uma filhote de urso que vive citando Lacan, Winkie apresenta uma crítica mordaz da paranoia em que vivemos atualmente. Bertrand Brasil, 280 páginas, mdireto@record.com.br.


25 de março de 2011 | N° 16650
PAULO SANT’ANA | CLAUDIO THOMAS (interino)


Onde estão as placas?

Talvez seja só implicância minha. Retornei a Porto Alegre há pouco mais de um ano e meio, depois de 12 anos residindo em Florianópolis e outros quatro anos em Caxias do Sul. Nesse tempo todo em que fiquei longe do pôr do sol do Guaíba, do Parque da Redenção, do Mercado Público e da Praça da Alfândega, percebo que pouco ou quase nada mudou em relação à sinalização de ruas, de bairros e de pontos de referência na cidade

Piorou. A cidade cresceu, novas avenidas e novos bairros surgiram, mas o sistema de indicações ainda é do tempo da Porto Alegre de 30 anos atrás. A Capital gaúcha figura, na minha opinião, entre as piores em indicações para os motoristas. As placas são fundamentais para orientar quem vive o dia a dia ou vem à cidade eventualmente, a trabalho ou a turismo.

Já ouvi muitas queixas de amigos de cidades do Interior e de outros Estados que passaram alguns dias em Porto Alegre e tiveram dificuldades em circular pela cidade. Precisaram recorrer a mapas para se localizar. Afinal, nem todos podem contar com o auxílio de um GPS, instrumento via satélite capaz de indicar, com precisão, qualquer área da cidade.

Fico imaginando uma pessoa que esteja na Zona Sul e pretenda seguir para a Estação Rodoviária ou para o Aeroporto Internacional Salgado Filho. São raras as placas que indicam os caminhos possíveis.

Poucas sinalizam quais as ruas ou avenidas a serem percorridas para chegar ao Centro. O quadro na Zona Norte também é de precariedade. Enfim, exemplos não faltam.

Até os taxistas, profissionais que conhecem bem todos os cantos da cidade, reclamam da falta de indicações em diversos pontos. Basta percorrer importantes vias para notar a escassez do serviço oferecido pelo município.

Porto Alegre deveria inspirar-se no sistema de sinalização de Curitiba, de São Paulo ou de Joinville, apenas para citar algumas das cidades que dispõem de serviços melhores. Na capital paranaense, o motorista consegue se deslocar pelas ruas e avenidas sem dificuldade.

A quantidade de placas permite que ele possa circular sem se perder, e a localizar os locais onde pretende chegar.

Eu mesmo fiz um teste ao visitar Curitiba há algum tempo. Com base na sinalização, pude visitar, sem problemas, pontos turísticos como a Ópera de Arame e o Parque das Pedreiras Paulo Leminski, o Jardim Botânico, o Teatro Guaíra e o Santa Felicidade, bairro onde estão os restaurantes especializados em gastronomia italiana. São Paulo, então, nem se discute.

Apesar de ser uma das maiores cidades do mundo, a capital paulista dá show em termos de facilidade de circulação, mesmo com os congestionamentos frequentes.

Além da escassez da sinalização, Porto Alegre também sofre com o esconde-esconde das placas pelas árvores. A arborização da cidade deixa de ser um privilégio para virar um problema quando os galhos encobrem a sinalização, complicando ainda mais a vida dos motoristas.

Torço para que a situação mude completamente com a Copa de 2014. O fato de ser uma das sedes pode se transformar numa boa oportunidade para melhorar a sinalização na Capital. Ou será a Copa dos perdidos no trânsito?


25 de março de 2011 | N° 16650
DAVID COIMBRA


Ficha limpa: o projeto da raça superior

O projeto ficha limpa, ora em candente discussão, diz muito sobre o caráter do brasileiro. Décadas atrás, o brasileiro mais famoso de todos os tempos, Pelé, afirmou que seus conterrâneos não sabiam votar. O espírito do projeto ficha limpa é exatamente esse. Um milhão e trezentos mil brasileiros concluíram que Pelé estava certo, reuniram-se em petição e imploraram que parte de seus direitos políticos fosse suprimida.

E aí estão as primeiras informações que o ficha limpa fornece sobre o povo brasileiro: o seu desprendimento e a sua humildade. Porque, com o ficha limpa, o brasileiro reconhece sua incapacidade, o brasileiro admite sua estupidez: eu não sei votar, ele diz. E então ele luta para perder algumas de suas prerrogativas. É como se gritasse: “Eu não quero poder votar nesse candidato! Proíbam-me, por favor!”

Ah, é evidente: o brasileiro que pede o ficha limpa não está pensando no seu próprio voto. Ele sabe que é um eleitor superior, que seu voto vale mais. Uma espécie de raça pura da política, em contradição com a sub-raça nacional, a plebe ignara que elege políticos fichas-sujas.

Assim, os eleitores que participaram do abaixo-assinado do ficha limpa estão, na verdade, subtraindo os direitos dos eleitores que eles, fichas-limpas raça superior, julgam inferiores. Com o que temos mais uma informação sobre o caráter do brasileiro: ele acredita no poder depurativo das elites.

Estou sabendo, e você também sabe, que o eleitor raça superior despreza os eleitores inferiores que votaram no Tiririca. Por coincidência, o número de um e de outro é mais ou menos o mesmo: são 1,3 milhão os inferiores que elegeram o Tiririca. Talvez os eleitores superiores devessem pensar em outro projeto para reprimir os inferiores-Tiriricas. Algo contra candidatos que usem nariz falso, por exemplo.

Há mais: o ficha limpa, curiosamente, revela que o brasileiro confia na Justiça e desconfia dela ao mesmo tempo. Porque, pela proposta, o eleitor raça superior transfere a responsabilidade de escolha de seus representantes, que era dele mesmo, para a Justiça: afinal, o candidato que for condenado em segunda instância ou por um colegiado de juízes estará impedido de concorrer.

Mas o eleitor raça superior, que entre nas mãos da Justiça seus direitos políticos, não permite que a Justiça siga seu curso. Ele proíbe a candidatura do suposto ficha-suja antes do julgamento da última instância. Quer dizer: por pressa ou por suspeitar da decisão da instância superior, o eleitor raça superior atropela o andamento da Justiça.

Se for para apressar a coisa, tenho uma sugestão: que tal proibir a candidatura de qualquer pessoa que tenha sido acusada de qualquer coisa? Levou multa de trânsito? Atrasou o aluguel? Não pode concorrer.

Eu mesmo, tempos atrás, fui condenado por um colegiado. Tornar-me-ia inelegível. Minha mãe ficaria chateada, porque acho que minha mãe votaria em mim. O que me faz pensar: será que minha mãe é uma eleitora inferior?

É assim: o projeto ficha limpa, tão bem-intencionado, faz com que eu duvide até da mãe.

quinta-feira, 24 de março de 2011


ELIANE CANTANHÊDE

Gol de Fux

BRASÍLIA - A votação de ontem no Supremo Tribunal Federal é um alívio, ao mostrar que o Fla-Flu na mais alta corte do país acabou e da melhor forma: com a vitória da lei, da experiência e da técnica jurídica sobre o apelo fácil da demagogia.

Ninguém que não tenha rabo preso nem dívidas na polícia e na Justiça pode ser contra a Lei da Ficha Limpa. Eu, tu e nós (nem sempre eles) somos a favor de moralidade na vida pública e exclusão dos piores quadros e dos mais lamentáveis exemplos de homens públicos. A questão, porém, é que juízes não julgam pela impressão ou pela simples vontade, mas friamente com base no que está escrito nas leis vigentes e na Constituição.

Luiz Fux, que veio para desempatar, elogiou o princípio da lei, como todos nós elogiamos, mas votou de acordo com a Constituição: a Lei da Ficha Limpa foi sancionada em junho do ano eleitoral de 2010 e, portanto, só pode valer para as próximas eleições -a de 2012, municipal, e a de 2014, geral.

Dói? Dói, mas doeria mais se Fux jogasse às favas os escrúpulos de consciência e a letra da lei em favor dos aplausos e dos elogios. Para "ficar bem" com a opinião pública.

A Ficha Limpa, para ele, é "a lei do futuro, a aspiração legítima da sociedade brasileira". Mas, igualmente, deve ser aspiração da sociedade brasileira o Estado democrático de Direito regido de fato pelo direito, não ao sabor do clamor popular e do aplauso fácil.

Que, assim como Fux teve a coragem de enfrentar as câmeras e as críticas, a Justiça brasileira a tenha também para perseguir uma sociedade mais justa, em que a lei valha efetivamente para todos. Haverá então um dia em que lei, realidade e aspirações legítimas da sociedade andem, enfim, juntas. Vai demorar? Vai. Mas devagar e sempre.

Comemorem "fichas-sujas" do PT, do PSDB, do PP, do PSB. Sem esquecer de que o Brasil avança e que quem ri por último ri melhor.

elianec@uol.com.br

KENNETH MAXWELL

O bom cidadão

A reitora Drew Gilpin Faust, primeira mulher a dirigir a Universidade Harvard, está em São Paulo hoje.

Ontem à noite, participou de uma reunião com ex-alunos da universidade no Nacional Club, no Pacaembu.

Tinha acabado de visitar o Chile, onde foi recebida pelo presidente Sebastián Piñera no Palácio de La Moneda. Ele fez seu doutorado em Harvard e é um dos quatro "Harvard boys" no governo chileno.

Faust visitou o Liceo Carmela Carvajal, uma escola pública para meninas. Disse às alunas que "adoraria que vocês me contassem que mudanças estão vendo nas vidas das mulheres, e de que maneira elas afetam suas vidas".

A ironia é que a reitora Faust viajou ao Chile e ao Brasil com Jorge Domínguez, vice-diretor de assuntos internacionais da universidade e titular da Cátedra Antonio Madero de Política e Economia Mexicana e Latino-Americana.

O professor Domínguez se envolveu em um caso notório de assédio sexual nos anos 1980. Isso não impediu que Harvard o indicasse para um dos mais importantes postos administrativos da instituição. Porém o caso Domínguez está longe de ser esquecido, quer por suas vítimas quer por muitos dos colegas dele na universidade.

O que aconteceu? A revista "Time" reportou que "pouco após ser contratada como professora por Harvard, em 1981, uma mulher se tornou alvo de avanços amorosos por parte do presidente de seu comitê.

Ela alega ter sido convidada a visitá-lo em casa quando a mulher e os filhos do colega estavam viajando, e que ele a apresentou como "minha escrava" em uma festa para dignatários latino-americanos. A mulher acionou a reitoria a respeito, mas foi repetidamente desencorajada a apresentar uma queixa formal".

Em um acordo extrajudicial, Harvard não suspendeu Domínguez de suas funções letivas. Ele simplesmente perdeu sua posição no comitê (e apenas temporariamente).
A vítima, a professora Terry Karl, trocou Harvard pela Universidade Stanford, onde conquistou grande distinção.

Sylvia Maxfield, então aluna de pós-graduação, também apresentou queixa contra Domínguez. Lembro-me de um caso semelhante, também envolvendo um estudioso de questões latino-americanas, quando lecionei na Universidade Columbia nos anos 1980.

Os dirigentes da universidade não queriam saber desse tipo de problema, e culpavam as queixosas.

Domínguez vem sendo "um bom cidadão" desde então.

Foi assim que a diretora de uma das escolas de Harvard descreveu o caso. Ainda assim, é lastimável que exatamente Domínguez, entre todas as pessoas, esteja agora conduzindo alguém como Drew Gilpin Faust em sua primeira visita ao Brasil.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

CARLOS HEITOR CONY

Penas da pena

RIO DE JANEIRO - Deve ser ingratidão minha criticar a imprensa que ajudou meu pai a matar minha fome e hoje me ajuda a matar não apenas a minha fome mas a fome dos meus. Acontece que sempre embirrei contra alguns lugares-comuns da mídia e, para ir diretamente à questão, podendo enumerar centenas de casos e exemplos, fico na mania de noticiar a pena dos condenados de maneira global.

Os criminosos que atuam em bando, formadores de quadrilha e chefes do crime organizado, quando entram em merecidíssima cana, recebem, cada um, a pena pessoal prevista no Código Penal.

Não sei qual foi o gênio da comunicação que decidiu somar todas as penas de crimes cometidos por um grupo, dando o espantoso resultado que, no fundo, pretende impressionar a sociedade.

Ficamos sabendo que os corruptos envolvidos em determinado escândalo foram condenados a quase 300 anos de cadeia. E daí? Nem o conde de Monte Cristo pegou pena tão longa.

Trocadas em miúdos, as condenações ficaram na média de 15 anos para cada um, o que pode parecer pouco e torna-se pouquíssimo quando se sabe que a legislação prevê reduções, atenuantes, libertações condicionais etc.

Aliás, o tamanho das penas é coisa que nunca entendi direito. Falo por experiência própria. Em 1964, processado pelo então ministro da Guerra, Costa e Silva, o promotor que atuou no processo pediu uma pena de 30 anos para meus crimes de opinião. Meu advogado, Nelson Hungria, apelou e conseguiu no STF que o processo corresse pela Lei de Imprensa.

Fui então condenado a apenas três meses de prisão. Não deu para entender, embora a redução me beneficiasse. Quanto aos 30 anos pedidos pelo promotor, raramente um preso político fica tanto tempo na cadeia. Tampouco o criminoso comum.

NATUZA NERY - SHEILA D'AMORIM
DE SÃO PAULO


Governo troca comando da Caixa Econômica Federal

A presidente Dilma Rousseff decidiu mudar o comando da Caixa Econômica Federal, como antecipou a Folha em sua edição de 2 de março. A atual presidente do banco, Maria Fernanda Ramos Coelho, entregou seu cargo ao Ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Para seu lugar, o PT indicou ao menos dois nomes, Jorge Hereda, atual vice-presidente de governo, e Clarice Coppetti, vice-presidente de Tecnologia.

Hereda, porém, é hoje o nome mais forte. A expectativa é de que o martelo seja batido nas próximas horas.

Maria Fernanda vai representar o Brasil no BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).

A mudança na cúpula da Caixa ocorre após o escândalo de fraudes no Banco Panamericano, adquirido pelo banco estatal no final de 2009.

Quatro vice-presidências também deverão ser trocadas, entre elas a de Finanças, hoje ocupada por Márcio Percival, cargo que coordenou a compra de metade do banco, que pertencia ao empresário Silvio Santos.

Dilma aproveitará a mexida para acomodar o PMDB. O ex-ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional) vai assumir uma das vice-presidências, provavelmente a de Loterias.

NATUZA NERY - SHEILA D'AMORIM
DE SÃO PAULO


Governo troca comando da Caixa Econômica Federal

A presidente Dilma Rousseff decidiu mudar o comando da Caixa Econômica Federal, como antecipou a Folha em sua edição de 2 de março. A atual presidente do banco, Maria Fernanda Ramos Coelho, entregou seu cargo ao Ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Para seu lugar, o PT indicou ao menos dois nomes, Jorge Hereda, atual vice-presidente de governo, e Clarice Coppetti, vice-presidente de Tecnologia.

Hereda, porém, é hoje o nome mais forte. A expectativa é de que o martelo seja batido nas próximas horas.

Maria Fernanda vai representar o Brasil no BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).

A mudança na cúpula da Caixa ocorre após o escândalo de fraudes no Banco Panamericano, adquirido pelo banco estatal no final de 2009.

Quatro vice-presidências também deverão ser trocadas, entre elas a de Finanças, hoje ocupada por Márcio Percival, cargo que coordenou a compra de metade do banco, que pertencia ao empresário Silvio Santos.

Dilma aproveitará a mexida para acomodar o PMDB. O ex-ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional) vai assumir uma das vice-presidências, provavelmente a de Loterias.

24 de março de 2011 | N° 16649

MORRE UM MITO

Quem tem medo de Liz Taylor? A atriz inglesa foi estrela aos 12 anos, divorciada aos 18, viúva aos 26 e musa a vida inteira

Ao se apagar a luz dos olhos violetas de Elizabeth Taylor, boa parte do brilho da época de ouro de Hollywood também se extinguiu. A última grande diva do cinema americano despede-se deixando uma filmografia que comprova o casamento de beleza e talento da atriz. No escuro da sala de projeção, a aparição cintilante de Liz hipnotizava as plateias de um jeito mágico que o cinema não possui mais.

Até sua última participação no cinema em Os Flintstones (1994), Elizabeth Taylor atuou em 54 longas-metragens. Sua trajetória nas telas, iniciada aos 10 anos com There’s One Born Every Minute (1942), foi tão rumorosa quanto sua vida pessoal.

Os maridos e amantes, a dependência de bebida e drogas, os distúrbios alimentares que a fizeram engordar em excesso, a série de doenças, o apoio a atores amigos problemáticos, as causas humanitárias, a paixão pelos diamantes – o perfume de glamour e escândalo sempre brigou pelos holofotes na carreira de Liz com o sucesso ou o fracasso de seus filmes.

Nascida em Londres em 1932, filha de americanos, Elizabeth Rosemond Taylor mudou-se para os Estados Unidos aos sete anos, fugindo da iminente II Guerra.

Depois de uma discreta estreia no cinema, a jovem atriz despontou em Lassie – A Força do Coração (1943), conquistando o público nos anos seguintes em papéis que destacavam sua beleza excepcional e seu porte gracioso. As interpretações de Liz ganharam relevo em O Pai da Noiva (1950) e O Netinho do Papai (1951), filmes que marcaram a transição de adolescente a adulta. A namoradinha da América revelou-se então mulher de personalidade forte em dramas como Um Lugar ao Sol (1951),

No Caminho dos Elefantes (1954), A Última Vez que Vi Paris (1954) e A Árvore da Vida (1957). A década de 1950, no entanto, também marcou o início da infindável série de polêmicos relacionamentos da artista: Liz se casou pela primeira aos 18 anos, com o playboy Nicky Hilton, matrimônio que durou 203 dias e terminou com agressões físicas e verbais, depois uma lua de mel de três meses na Europa.

No enterro de seu terceiro marido, o produtor Michael Todd, ela foi acompanhada por Eddie Fisher, melhor amigo do falecido – e logo a viúva roubaria o cantor de sua esposa, a atriz Debbie Reynolds.

Ao mesmo tempo, Elizabeth Taylor tornava-se amiga e confidente de jovens astros em ascensão com problemas emocionais e sexuais: James Dean, Rock Hudson – com quem contracenou no clássico melodrama Assim Caminha a Humanidade (1958) – e, principalmente, Montgomery Clift, seu parceiro em filmes como Tarde Demais (1949) e De Repente, no Último Verão (1959).

Se alguns colegas enxergam Liz como uma figura materna, outros como Richard Burton viam uma linda e envolvente mulher: o ator galês conheceu a estrela durante a filmagem da superprodução Cleópatra (1963), casando-se no ano seguinte com a intérprete da sedutora rainha do Egito.

O saldo do tumultuado envolvimento com Burton foram dois matrimônios, duas separações e 11 longas – como Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966) e A Megera Domada (1967), filmes em que ambos vivem relacionamentos violentos e passionais.

O desempenho impressionante de Liz como a neurótica esposa no excelente Quem Tem Medo... – dirigido por Mike Nichols a partir de uma peça de Edward Albee – rendeu o segundo Oscar da carreira da atriz. A primeira estatueta veio com o fraco Disque Butterfield 8 (1960) – a Academia teria premiado Liz por conta de sua saúde frágil, que quase a matou na época e a obrigou a fazer uma traqueostomia às vésperas da cerimônia.

Em 1993, ela ainda receberia um Oscar honorário por sua militância por causas humanitárias, como a luta contra a Aids.

A partir dos anos 1970, Elizabeth Taylor começou a aparecer na imprensa mais como celebridade do que como atriz em atividade. A artista enfrentou uma longa história de mais de 30 anos de abuso de álcool e drogas. Além de ter sido internada diversas vezes em clínicas de desintoxicação, sofreu com distúrbios alimentares e por algumas vezes tentou suicídio.

A atriz ainda tomava aspirinas e analgésicos para livrar-se das dores ocasionadas por uma queda de cavalo aos 12 anos – ela fraturou três vértebras e passou a depender de remédios desde então. Nos últimos anos de vida, Liz foi internada diversas vezes por problemas de saúde, que incluíram um tumor benigno no cérebro e complicações cardíacas.

A imagem de Elizabeth Taylor que vai ficar para a eternidade, porém, é a da jovem de sorriso encantador e olhar faiscante, da morena de corpo curvilíneo e voluptuoso, da musa de temperamento sanguíneo, da diva como não existe mais – na definição do cineasta italiano Franco Zeffirelli, que a dirigiu em A Megera Domada.
ROGER LERINA


24 de março de 2011 | N° 16649
CLAUDIA TAJES


Trocar de lado

Dentro do inesgotável filão dos reality shows, o canal GNT apresenta aos domingos um programa interessante: Magros x Obesos. Uma correção ao título: como o programa trata dos extremos não saudáveis da balança, não são exatamente os magros que entram em cena, mas sim os esquálidos e afins.

A ideia é simples. Com orientação médica, dois voluntários, um obeso e uma raquítica, ou vice-versa, passam uma semana com suas dietas trocadas. Os robustos encaram as porções mínimas das magrelas, que são obrigadas a comer montanhas de frituras e carboidratos a cada refeição. A moral é os dois chegarem juntos à conclusão de que os exageros, para mais ou para menos, sempre acabam com a saúde.

Trocar de lugar com o outro, eis aí uma experiência radical, mesmo que a troca não seja tão dramática a ponto de um dos lados levar a pior, como no caso do rico trocar de lado com o mendigo ou a Gisele Bündchen trocar comigo. Assim como esses dois exemplos, existem várias trocas de lado que nunca virariam um reality show. Mas não custa imaginar.

Motoristas x Pedestres. Para quem só anda de carro entender o lado dos que enfrentam ônibus lotados, ruas sem sinalização, condutores grosseiros e etc. E para o pedestre ver que motorista também merece respeito.

Heteros x Homos. Troca teórica, sem qualquer contato físico. Apenas um esforço para exercitar a tolerância.

Gremistas x Colorados. Programa destinado ao fracasso. Agora que a Terezinha Morango se foi, faltariam voluntários para experimentar a camisa alheia.

Porto-Alegrenses x povos do resto do mundo. Até dá para pensar em uma troca com um londrino ou um romano, mas desde que seja por poucos dias. E que a volta para Porto Alegre esteja garantida no contrato. Ainda mais na semana do aniversário da cidade.


24 de março de 2011 | N° 16649
PAULO SANT’ANA | LETÍCIA DUARTE (interina)


Pinpoo e Alex

Antes que defensores de animais digam que sou insensível, me defendo: juro que também fiquei emocionada com a história do cachorro Pinpoo.

Depois de acompanhar pelo noticiário a comoção nacional causada pelo seu desaparecimento no aeroporto Salgado Filho, passei bons minutos de quinta-feira passada olhando a foto do animal faceiro, recostado no ombro da dona, num genuíno retrato de felicidade, quando ele finalmente retornou aos braços dela, depois de 14 dias, com ajuda de policiais.

Mas, diante da tamanha repercussão provocada pela saga do cão, foi inevitável para mim lembrar de outros temas tão ou mais importantes que nem sempre despertam a mesma atenção.

Lembrei, por exemplo, da história do menino Alex.

Antes de contá-la, queria recordar ainda do falso Pinpoo. Nesse episódio, a sensibilização foi tão grande que até o cachorro que foi confundido com o original acabou adotado, em uma rede de solidariedade que mobilizou milhares de pessoas pela internet e ganhou páginas e páginas de jornais pelo país afora. Bonito.

Pena que tantas crianças que não têm família, nem um lar de verdade pra chamar de seu, não conseguem ser adotadas com a mesma facilidade, nem causam tanta comoção.

E foi aí que lembrei de histórias como a de Alex. Que na verdade não se chama assim, mas ganhou esse nome fictício nas páginas de Zero Hora, pela necessidade de preservar sua identidade.

Conheci Alex em um abrigo em Ipanema, em 2005. Abandonado pela mãe no hospital, cresceu sonhando em ganhar uma nova família. Aos 10 anos, sentia-se um velho. Não gostava de fazer aniversário, porque a cada 3 de fevereiro via seu sonho ficar mais distante.

Sabia que 90% dos inscritos na fila para adoção desejavam bebês. Nem por isso desistia. Toda noite, antes de dormir, rezava baixinho para seu anjo da guarda reverter as estatísticas.

Ciente das dificuldades, fazia questão de dizer que não era bagunceiro. E que também sabia lavar e secar louça – e até limpar banheiro. Não tinha exigências. Para ele tanto faria se ganhasse uma mãe loira, morena, alta, baixa, rica, pobre.

Só gostaria que ela fosse “legal e simpática”. E também queria ter um pai, uma irmã, um primo, um tio, um vô e uma vó. E um cachorro, como aquele que via na casa de uma voluntária que o levava para passear em alguns finais de semana.

Quando sua história foi publicada em ZH, em janeiro de 2005, também choveram ligações. Mas aí o tempo foi passando, os interessados em adotá-lo hesitavam ao perceber que ele precisava de cuidados especiais devido a uma má-formação urinária, a comoção pública foi diminuindo. E Alex acabou esquecido.

Hoje, tem 17 anos e continua no abrigo.

Claro, não se pode comparar as duas histórias, nem pessoas com cachorros. Mas não deixa de ser sintomático que, em nossa sociedade, em geral, as pessoas se comovem mais com dramas de animais do que com crianças abandonadas, maltratadas, negligenciadas. Não deve ser por acaso, aliás, que anos atrás uma grande empresa de ração decidiu fazer uma doação de seu produto para crianças famintas na Etiópia, sob o argumento de que o alimento era muito nutritivo.

Por mais que eu goste da fauna, não consigo deixar de sonhar com o dia em que as crianças abandonadas causem tanta comoção quanto um bichinho sem dono.

O problema é que criança dá um pouco mais de trabalho. Bem mais fácil colocar uma coleira, dar comida e chamar de filho, não é?


24 de março de 2011 | N° 16649
L. F. VERISSIMO


O porrete

“Fale suavemente, mas carregue um porrete” era a receita do presidente (1901 a 1909) americano Theodore Roosevelt para o sucesso na política externa. Barack Obama fala suavemente, como se viu na sua visita recente ao Brasil, mas não descartou o porrete como arma política que herdou dos seus antecessores, apesar de tê-lo criticado para se eleger.

Tudo se repete na Líbia, a começar pela hipocrisia da indignação seletiva: alguns tiranos antes tolerados, quando não abertamente apoiados como o Saddam, passam a ser inaceitáveis e atacáveis enquanto o porrete poupa outros, que ainda servem.

Depois virão as baixas civis denunciadas por um lado e negadas pelo outro, as fotos de crianças mutiladas, as discussões sobre a eficiência ou não dos ataques aéreos “cirúrgicos” etc. E teremos mais um exemplo dessa contribuição moderna às táticas de guerra, a estranha doutrina do bombardeio humanitário.

Teses chocantes

Cristopher Hitchens e Alexander Cockburn se alternavam numa página da revista americana “The Nation”, uma semana um, uma semana outro. Até que Hitchens surpreendeu leitores e editores da “Nation” com sua posição a favor da intervenção americana no Iraque, uma posição que até hoje ele é obrigado a defender da perplexidade geral quando se apresenta em público. A revista não o demitiu, mas Hitchens acabou pedindo para sair. Ficou Cockburn, que continua, apesar de também destoar da linha da revista, no seu caso sendo às vezes até mais radicalmente esquerdista do que ela.

Mas Cockburn também teve seu momento Hitchens, expondo uma opinião inesperada que chocou todo o mundo. Sua tese é que toda a questão ambiental, do aquecimento global e dos males do combustível fóssil é na verdade uma campanha da indústria nuclear, que quer nos assustar para monopolizar o fornecimento de energia no planeta.

Segundo Cockburn, o mundo não está esquentando, os polos não estão derretendo, os rios não estão morrendo, há petróleo de sobra para mais alguns milhares de anos e, quando o petróleo acabar, teremos o etanol e outras fontes naturais renováveis. E o vento. E a energia solar.

Cockburn é um jornalista respeitado. Suas posições progressistas o credenciam para os leitores da “Nation” que, no entanto, na sua provável totalidade, não têm dúvida sobre os estragos da poluição ambiental negados por Cockburn. É previsível que as cartas de leitores incrédulos atacando Cockburn diminuam depois das notícias do desastre ecológico na usina nuclear de Fukushima, mas ele não vai conseguir convencer muita gente.

E será interessante ver o que Cockburn escreverá sobre Ann Coulter, a boneca loira do reacionarismo americano, que há dias propôs na TV outra tese chocante, a de que a radioatividade faz bem às pessoas.

quarta-feira, 23 de março de 2011


ANTONIO PRATA

Um muro agradabilíssimo

Ao fazer uma declaração de amor, é difícil escapar do lugar comum, encontrar um elogio que não esteja puído

"JULIA FUSCO é uma moça agradabilíssima". Quem o afirma não sou eu, que nem conheço Julia Fusco, mas o grafite no muro de um terreno baldio, na Vila Madalena. A frase sai do bico de uma ave simpática e desengonçada, uma mistura de pinguim com tucano, que bem poderia ser um personagem do "Yellow Submarine".

Uma vez por semana, pelo menos, passo diante do muro e fico pensando: quem será o autor desta peculiar declaração de amor? O que terá a tal Julia Fusco achado da homenagem? Será que, assim que bateu os olhos no grafite, ligou para o artista, disse que estava comovida e saíram pra tomar uns chopes?

Estarão os dois juntos, agora, numa relação "agradabilíssima"?

"Agradabilíssima": gosto muito do adjetivo escolhido. Ao fazer uma declaração de amor, é difícil escapar do lugar comum, encontrar um elogio que não esteja puído e esgarçado pelo uso constante dos amantes que vieram antes de nós: "maravilhosa", "incrível", "deslumbrante", "linda", "belíssima", "esfuziante"...

Aí, o tucano-pinguim da Vila Madalena me vem com essa palavra fresca, limpa e cheirosa, como a mulher amada saindo do banho, pela manhã: "agradabilíssima".

Tão bom quanto o adjetivo é o porta-voz criado para a declaração, essa ave desajeitada. Veja, o autor do grafite poderia ter pintado uma imponente arara, um tucano de garbosa plumagem, ou mesmo sair do terreno avícola e desenhar um senhor de fraque e cartola, o Superman,

Deus, até, apontando seu dedo para a Terra e revelando à humanidade que "Julia Fusco é uma moça agradabilíssima". O grafiteiro apaixonado, contudo, apelou para o humor, e terá por isso minha eterna admiração.

É preciso coragem. As mulheres sempre dizem que gostam de homens que as façam rir: tá certo, mas se ficarmos muito engraçados, acabamos perdendo a graça e elas vão embora da festa nos braços de outro homem, não sob a asa de um pinguim desengonçado -mesmo sendo essa a imagem mais perfeita de um ser apaixonado.

Pensando bem, talvez haja algo além de coragem na escolha do adjetivo e na ousadia da ave. Intimidade? Não sei, mas sinto que essa não é uma declaração de primeira viagem. Imagino o grafiteiro saindo da casa de Julia Fusco, de madrugada, após a primeira noite dos dois e, a caminho do metrô, sacando os sprays de sua mochila -grafiteiros previdentes sempre levam as tintas consigo, afinal, nunca sabem se vão topar com o grande amor ou, pelo menos, com um muro de bom tamanho.

Vejo-o ali, no lusco-fusco, entre os últimos a voltar da balada e os primeiros a irem ao trabalho, deixando seu recado, tímido e espalhafatoso, sobre os tijolos de concreto. Isso tudo, claro, são conjecturas: como disse, não conheço Julia Fusco.

Talvez a encontre em breve, caso ela resolva me processar pelo transtorno causado por esta crônica. Peço desculpas desde já, minha cara, mas não se incomode: algumas tias irão telefonar, o pessoal comentará no trabalho, mas depois passa, amanhã mesmo esta página já estará embrulhando peixe ou forrando gaiola de passarinho.

O muro, contudo, continuará lá, para nossa sorte: um muro que era cinza e sem graça, mas que você e o grafiteiro apaixonado deixaram -se me permitem o uso do termo- agradabilíssimo.

antonioprata.folha@uol.com.br

FERNANDO RODRIGUES

O tempo voa

BRASÍLIA - Dilma Rousseff igualou o recorde de popularidade de Lula em um terceiro mês de mandato. É um momento muito especial, mas tem prazo de validade.

O ciclo político no Brasil tem algumas idiossincrasias. Embora o mandato seja de quatro anos, só em parte do primeiro ano (até agosto) o presidente desfruta de uma força quase total. Pode adotar medidas arrojadas e polêmicas.

É fácil entender a razão. Quando setembro chegar, começam todas as articulações políticas visando a eleição dos quase 5.600 prefeitos em 2012. O prazo legal para estar em um partido é de 12 meses antes da disputa. Deputados e senadores sabem que o prefeito eleito em 2012 será o cabo eleitoral de 2014. Todos então se engajam no processo.

Em 2012, há a eleição propriamente. Em 2013, o primeiro semestre servirá para curar as feridas abertas no ano anterior. Bastará a poeira abaixar e só vai se falar da sucessão presidencial de 2014.

Dilma e seus assessores conhecem esse ciclo. Se quiser aprovar alguma reforma relevante para o país, a presidente terá de aproveitar o atual embalo. Nada a impede de esperar pelo segundo semestre -exceto o risco de ficar sem tempo suficiente dentro do Congresso.

Há sinais no Planalto de que o plano de erradicação da miséria sai até maio. De outras ações, não se sabe. Numa entrevista a Claudia Safatle, do "Valor", Dilma foi indagada sobre algo essencial para o Brasil, a regulamentação dos fundos de previdência para servidores públicos. Sua resposta: "Não estamos ainda discutindo isso".

Dezenas de milhares de funcionários públicos são admitidos todos os anos. Colocam o pé na função e já são donos do "direito adquirido": aposentadoria com o salário integral.

Dilma pode consertar essa e outras iniquidades na organização do Estado. Agora, sua popularidade serve de lastro. Mas o tempo está passando. Voando. Quando agosto chegar, tudo ficará mais difícil.

fernando.rodrigues@grupofolha.com.br


23 de março de 2011 | N° 16648
MARTHA MEDEIROS


A vitória da discrição

Dilma Rousseff, mesmo com apenas três meses de governo, já fez um bem enorme ao país: resgatou o valor da sobriedade. Lógico que os seus 47% de aprovação junto aos brasileiros, segundo pesquisa Datafolha, não se devem à etiqueta. É resíduo da popularidade do seu antecessor, combinado ao fato de ela não ter feito nenhuma grande besteira até aqui. Mas o acerto em se comportar com classe já merece ser saudado.

Não se está discutindo os méritos ou deméritos políticos de quem quer que seja, apenas saliento algo que vem me chamando a atenção. Tenho viajado por diversos lugares do país e só ouço comentários positivos sobre o estilo discreto da presidente. Parece que finalmente cansamos de tanto exibicionismo – em Brasília ou em qualquer lugar.

Lula fazia o estilo showman e não escondia sua atração pelos holofotes. Era mais bonachão, mais espalhafatoso, assim como o Brasil também é. Nenhum problema nisso, desde que se faça o dever de casa, porém muita gente não consegue distinguir a diferença entre ser popular e ser inconveniente, e é por isso que um governante deve cuidar dos exemplos que dá.

Não somos nórdicos, não somos gélidos, não somos contidos. Ótimo. Mas, em contrapartida, também não somos muito educados. Temos o péssimo hábito de forçar intimidade com quem mal conhecemos e acreditamos que simpatia substitui elegância. Não substitui.

Há momentos (raros) em que se pode ser um pouco folgado, dependendo do ambiente em que se está, e outros (vários) que requerem uma postura sem excessos. Vale o bom uso do humor, mas nunca a extravagância.

O Brasil sempre foi um país alegre, irreverente, alto-astral, e só temos a nos orgulhar disso. Mas, de uns tempos para cá, a vulgaridade se expandiu e a superexposição tornou-se obrigatória. A privacidade deixou de ser um bem valioso: passamos a viver aos gritos, fazendo poses, citando frases bombásticas.

Excedemos no tom, e barulho demais cansa. Dilma Rousseff é uma presidente que só fala o necessário, só aparece se for fundamental e, quando está invisível e inaudível, trabalha. Uma novidade mais que bem-vinda numa época em que o silêncio produtivo anda perdendo posições para um inútil blá-blá-blá.


23 de março de 2011 | N° 16648
DAVID COIMBRA


Quando chega a malícia

Às vezes olho para o meu filhinho brincando com seu livro do castelo mal-assombrado e tento imaginar quando ele se tornará malicioso. Pois essa é a diferença fundamental entre a criança e o adulto: a malícia, a segunda intenção.

A malícia é o que está escondido, é o subterfúgio, é o não dito por trás do dito. Agora, aos três anos de idade, tudo que meu filhinho faz é direto. Ele diz o que pensa e pensa o que diz.

Não é à toa que fala o tempo todo – ele está falando o que está pensando. Mas sei que vai chegar um momento em que começará a premeditar suas ações, a esconder seus desejos e a jogar com os desejos dos outros. Quando isso vai acontecer? O que motivará essa mudança? Estou observando, curioso.

O mundo adulto é repleto dessas ações arrevesadas. É por isso que o adulto inventa atividades que imitam brincadeira de criança. Certos jogos são jogados só para se aplacar a nostalgia da infância. O futebol é um caso clássico de homens se esforçando para voltar aos tempos de menino. O futebol é para ser uma brincadeira, é para ser direto. É um jogo: você ganha se fizer mais gols do que o adversário. Pronto. Simples como simples é qualquer guri.

Mas chega um momento em que o mundo adulto se apropria da brincadeira. É quando ela rende lucros. Quando o jogo faz dinheiro. Os senhores da FIFA e da CBF, os organizadores do futebol, eles são os adultos. Eles se apropriaram da brincadeira. O Inter já sentiu o peso da mão de ferro desses senhores em 2005, quando tentou protestar contra o campeonato que lhe foi tirado pela justiça.

Agora, de certa forma, está sentindo de novo. Os senhores da FIFA impõem uma série de condições para que o Inter sedie jogos da Copa do Mundo. Cumpri-las pode fazer mal ao clube, mas não existe saída. É preciso obedecer. Porque eles são adultos e perigosos. Eles têm segundas intenções e malícia. E, muitas vezes, eles estragam a brincadeira.

A bola ficou menor

A bola de futebol diminuiu de tamanho. Você sabia disso? Eu não sabia. Quem contou foi o Gaciba, dias atrás. É que aí pelos anos 90 caiu a média de gols nas partidas do mundo inteiro. Os senhores da FIFA ficaram preocupados.

Menos gols, igual a menos emoção; menos emoção, igual a menor interesse do público; menor interesse do público, igual a menos dinheiro. Opa, quando a coisa chega ao dinheiro, é preciso agir. Aí acabou a brincadeira.

Algo precisava ser feito.

Alguns propuseram modificar a regra do impedimento. Outros acharam melhor aumentar o tamanho do gol. Até que alguém enfim deu a ideia de diminuir a bola. Uma mudança sutil, que passasse despercebida. Feito: foi suprimido um centímetro da circunferência. Quase nada, ninguém notou, mas a média de gols subiu de novo.

De vez em quando, os velhinhos promovem outras alterações mínimas: deslocam o centro de gravidade da bola mais para um canto, por exemplo. Aí o jogador chuta e a bola sai toda de revesgueio, alucinando os pobres goleiros, aumentando ainda mais a média de gols, intumescendo a conta bancária da FIFA.

Tinha mesmo a impressão de que a a bola estava menor. Lembro de quando jogava no Alim Pedro. A bola era do tamanho de um caixote de supermercado. Era de couro, quando molhava ficava ainda mais pesada e tinha um ventil. (Alguém aí sabe o que é um ventil?)

Para cobrar um escanteio você tinha de fazer a maior força. No jogo dos infantos o escanteio era da linha da área. Agora, qualquer pirralho de 10 anos de idade vai lá, cobra o escanteio e bota a bola na marca do pênalti. Bola leve, torta por dentro e sem ventil por fora. Eu seria um Nelinho, hoje em dia.


23 de março de 2011 | N° 16648
JOSÉ PEDRO GOULART


O outono e a lua

1. Diante da Lua cheia, como essa que aconteceu no sábado, com a luz do sol ecoando naquele imenso rebatedor, ceticismos não têm muito sentido. A Terra mantém-se em equilíbrio, imantada pelo campo gravitacional do seu único satélite: devemos muito à Lua – não só inspiração poética.

Não houvesse a Lua e o nosso planeta não conseguiria se manter na órbita elíptica que faz em torno do Sol. Pode-se dizer dos doidos que eles vivem no mundo da Lua, mas, na verdade, viver no mundo da Lua é se manter em equilíbrio.

2. Um novo relacionamento é como atualizar o carro. Você sai da concessionária com seguro renovado, cheirinho de zero. Alguns nem tiram os plásticos dos bancos no início, cuidam com carinho e dedicação.

Exibem o carro aos outros como se fosse um troféu – e acham que é (e talvez seja). Depois é que vêm os arranhões. Uma batida, um choque. Cabe uma cerinha? Uma polidinha? A conservação exige cuidados, ou logo será a hora de uma nova troca; mas cuidado, não se encontra corações em vitrines.

3. Em dias quase outonais, nada como uma volta de bicicleta (mesmo estando em Porto Alegre). Mas e se você deparar, numa das raras ciclovias da cidade, com um casal andando lado a lado, impedindo sua passagem? Se espera de ciclistas uma certa compreensão.

Afinal, é um clube da felicidade e da sorte, esse dos ciclistas de dias outonais, sol brando, brisa ecumênica. Foi meu caso no domingo, de modo que pedi passagem e lembrei: “Vocês estão ocupando duas pistas”. A resposta vem em forma de desaforo. Um choque de realidade. Um ponto de tinta no papel de cera branco.

4. Um terremoto como esse do Japão é uma traição da natureza, contraditória com uma visão mística do cosmos. Ok, somos fabricantes da garrafa pet e outras porcarias que espalhamos por tudo. Mas um terremoto? Sorrateiro, expansivo, autoritário, apocalíptico. Um terremoto que ainda produz ondas gigantes, em frente a elas as cidades viram maquetes de isopor habitadas por formigas.

5. Ao sujeito que me destratou enquanto eu passeava de bicicleta, quero dar um conselho: faça sexo com sua mulher, ou logo você vai precisar trocar de carro. Já a Lua Cheia é uma surpresa redundante, tanto quanto o terremoto: sabemos de ambos, mas sempre nos portamos como se fosse a primeira vez. Há beleza e desaforo em nós e na natureza, como lidar com isso – e o quanto podemos – é a questão.

A folha que cai dourada, banhada de luz, é bonita e morta. O abrandamento que o outono trás tem muitas reticências. Do mesmo modo quando há um escurecimento da imagem na tela do cinema, as reticências completam o sentido onde já não existe mais o que dizer. Antes, a brasa, o verão escaldante. Em breve o inverno gelado a iminência de mais uma prova de vida: “tem que morrer para germinar”.


23 de março de 2011 | N° 16648
PAULO SANT’ANA | HUMBERTO TREZZI - INTERINO


Onde tudo é relativo... ou não

Os misteriosos desígnios de Deus (ou Alá, ou Jeová...) parecem ainda mais indecifráveis quando se está no Oriente Médio. Pensei nisso ao pisar naquela região desértica, bela e um tanto surreal – para os padrões ocidentais – quando designado por Zero Hora para cobrir a guerra civil na Líbia.

Meu debut no mundo árabe confirmou aquilo que já tinha ouvido falar e que já intuía desde o primeiro instante. É uma parte do planeta em que pode se chegar a uma linha reta por meios tortos, onde o certo pode ser duvidoso, onde o compromisso tem muitas faces e onde a negociação, mais do que uma prática, é parte da alma popular.

Taxímetro, por exemplo: não encontrei. Combina-se o preço de qualquer trajeto, de um a 800 quilômetros, na hora de embarcar. E tudo depende do motorista. O mesmo percurso de 300 quilômetros pode custar US$ 100 ou US$ 200, varia de acordo como o cliente está vestido, o quanto ele sabe de árabe (inglês não vale), se é brasileiro (aí o preço é reduzido), enfim... Tudo é relativo (ou não).

No Cairo, aproveitei para visitar as pirâmides. O hotel me disse que conseguiria um guia. No dia seguinte, apareceram dois Ahmed, um motorista e o outro guia. O hotel ficou com uma parte do dinheiro, eles com a outra. Na chegada aos imponentes e milenares túmulos dos faraós, o Ahmed-mor me deu umas explicações básicas, saiu de perto e retornou com um terceiro sujeito, que puxava um camelo pela mão. “Este é o seu guia, Ali”, explicou.

– Mas eu já te contratei como guia... – ponderei.

– Não, não... eu sou o guia histórico. Ele é o guia turístico, que vai te conduzir em meio às pirâmides.

OK, paciência. Ali disse estar no Egito para servir-me etc etc.Quando fui subir no camelo, Ali me apresentou um menino, Tarik. Era o quarto guia do dia, esse, sim, encarregado de puxar o animal pela rédea, enquanto Ali nos seguia num cavalo.

O guri, claro, ia a pé pelas dunas, já que era o último no ranking de status social e experiência entre os cicerones selecionados para me introduzir nos mistérios do Egito antigo. Meu dinheiro foi partilhado de acordo, uns ficando com a parte do leão, o menino com verba apenas para a comida.

Na terra da barganha, as negociações se estenderam na compra de um Kafieh (manto árabe usado para proteger a cabeça), que começaram em 120 libras egípcias e culminaram num preço de 20; no aluguel de carros (um sorriso podendo reduzir em US$ 50 o preço); na contratação do motorista poliglota, que ao final se mostrou monoglota, o que acabou reduzindo o custo.Em nenhum momento tive medo de ser roubado ou sequer furtado. Não é essa a questão. O que chama a atenção é a delonga, o ardil no negócio.

A essas alturas já tinha percebido que os contratos podem ser alterados sem nenhum sinal de hesitação, sem o mínimo sentimento vexatório. Fiquei com a nítida impressão de que tudo nessa parte do planeta enseja espaço para o linguajar oblíquo, sinuoso, com margem para novas e variadas interpretações, de tal forma que ao final se fica com a impressão de que tudo não passou de um mal-entendido. Mesmo quando estava tudo bem acertado no início.

Não me surpreendi, portanto, quando Kadafi anunciou a tomada de Tobruk das mãos dos rebeldes e no mesmo dia passei por esta cidade, em mãos de rebeldes. Ou quando a Liga Árabe criticou os bombardeios da coalizão internacional contra Kadafi, um dia após autorizar os tais bombardeios. Agora entendo. É tudo uma questão de interpretação.

Pena que essa sinuosidade possa levar a efeitos colaterais, como uma bomba a mais, centenas de vidas a menos e negociações de paz infindáveis. Talvez eu precise de alguns milhares de anos de história, daquela História tão presente no Oriente Médio, para me acostumar. Talvez..

terça-feira, 22 de março de 2011



22 de março de 2011 | N° 16647e
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Da arte de viajar

Solidamente ancorado em Porto Alegre por mais tempo do que julgo merecer, repasso na memória viagens que fiz em melhores épocas. A melhor de todas foi como um trecho de céu azul inaugurado sem aviso em meio a uma tormenta de inverno.

Em um telefonema, o adido de Imprensa da Embaixada da Alemanha perguntava se eu estava disposto a estudar Jornalismo Avançado por alguns meses em Berlim. Eu estava. Só lhe indaguei: quando embarco? Ao que ele esclareceu: ontem, se possível. Acabei chegando menos de uma semana depois, praticamente em cima do início das aulas e de um dos mais belos e fascinantes períodos de minha vida.

Não foi a única intimação do gênero. Voltei várias vezes a uma cidade então dividida contra si mesma, tornei a reencontrá-la depois da queda do Muro, percorri os Estados Unidos de Costa a Costa e de Norte a Sul, com direito a uma esticada no Canadá, andei pela França, a Inglaterra, a Espanha, a Bélgica, o Báltico, o Pacífico de norte a sul, a Áustria, a Suíça, a Itália, as ilhas gregas e a Turquia, a bordo de gentis convites que pousavam em minha sorte praticamente às vésperas da partida.

Não foi diverso nas incursões acima e abaixo da linha do Equador bancadas por minha própria conta e risco: sempre me decidi por impulso, o combustível perfeito para vencer largas milhagens.

Conheço pessoas que planejam demoradamente suas decolagens para terras distantes. Ouso supor no entanto que minhas experiências são mais intensas. Segundo uma receita que observo há bem mais de 30 anos, no primeiro dia de uma viagem interpreto o papel do turista clássico: empreendo um city tour. É o momento em que elejo cinco ou seis lugares que me falaram direto ao coração ou à fantasia.

Todo o mais é acidental. É o andar ao acaso, sem compromisso nem hora, como se fosse um homem perdido na multidão. Foi assim que descobri em Paris um quiosque dotado de sucessivas camadas que imergiam até uma adega do século 13; a verdadeira gruta em que São João escreveu o Apocalipse, em Patmos; o pub londrino em que um tal de William Shakespeare empurrava umas que outras.

Nada contra os que armam uma viagem como quem desvenda um teorema. Já eu acho que a verdadeira sedução, em longínquas latitudes, é o encontro com o inesperado.


22 de março de 2011 | N° 16647
CELSO GUTFREIND | CELSO GUTFREIND (Interino)


Entre a flauta e a faca

Ao Moacyr Scliar, gente boa para todos os tempos.

Cada época tem seus jeitos de pensar. Isto inclui sentimentos e um modo de ver o mundo que, tempos depois, já é outro. Há quem diga “era melhor no meu tempo”. Também há quem acredite na ambivalência e afirme que era melhor e pior. A estes me agrego com a ideia de que, no passado, era pior para encurtar distâncias, mas era melhor para agregar-se.

Há poucos dias, o jogador Leandro Damião zoou o Grêmio. Foi em Caxias do Sul, com gestos que evocavam a possível injustiça na recente vitória tricolor diante do mesmo Caxias. Pouco depois, o jogador gremista Carlos Alberto deu o troco ao mencionar a derrota colorada no Mundial de Clubes. Também com gestos, na hora de comemorar o gol, momento máximo desta brincadeira chamada futebol.

Brincadeira? Antigamente, sim. A rivalidade no esporte era vivida como lúdica, molecagem infantil no melhor sentido da vivência. Aliás, vinha da música, arte mais aberta em sua linguagem, a expressão tocar flauta. Antigamente, tocava-se flauta.

Embora as atitudes dos atletas não tenham passado de gestos sem violência, a repercussão foi a pior possível. Criou-se um clima de afronta, que a internet e outras redes só fizeram ecoar. A flauta deu lugar à faca.

No passado, morria-se mais de parto e apendicite, o câncer era quase sempre fatal, clamava-se menos por democracia, e tudo isto era pior. Mas brincava-se mais, e isto era melhor. As brincadeiras, hoje e sempre, começam com a presença do outro. A gente brinca para expressar-se sobre os encontros, e o que se expressa pode ser a alegria ou o medo diante de uma rivalidade, como fizeram os jogadores.

Para fazê-lo, o outro precisa estar ali durante um tempo – sim, havia mais tempo – até que possamos brincar sozinhos como se estivéssemos acompanhados. Os bebês usam e abusam da presença alheia antes de seguir com as próprias forças. Depois, vão buscar novos apegos para continuar a viver.

Ao esvaziar encontros verdadeiros, o nosso tempo vai arranhando esta riqueza principal: brincar com o vazio, com a vida e a morte, mesmo sabendo que com ela não se brinca.

Poder manter-se conectado ou acelerar a troca de informações é uma conquista que, sem brincadeira, trouxe um upgrade à nossa época. Mas abusar disso, em detrimento de simplesmente estar junto, deleta boa parte da melhora.

Por ter sido hoje, a brincadeira entre Leandro Damião e Carlos Alberto ganhou um sentido bélico, evocando mais a ameaça do que a música. Fosse antes, eles se encontrariam realmente para trocar risos, simbolizar discórdias, transformá-las. Como quem brinca. Como quem toca flauta. Talvez ninguém ficasse sabendo, o que também era melhor. E pior.