terça-feira, 25 de janeiro de 2011



25 de janeiro de 2011 | N° 16591
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Viagem de trem

Boas notícias começam a trafegar sobre os trilhos. Segundo leio em reportagem de Caio Cigana, publicada em Zero Hora, os indícios sugerem um crescimento chinês de 10% ao ano nas cargas transportadas pelo modal no Rio Grande do Sul.

Não é só. Tramita no Senado, depois de passar pela Câmara, a construção de um novo trecho da Norte-Sul, que chegaria de Belém ao porto de Rio Grande. Na Serra, está próxima do fim a análise da viabilidade do transporte de passageiros entre Bento Gonçalves e Caxias do Sul. Como se não bastasse, estariam em exame a ligação Livramento-Cacequi, Santa Rosa a São Luís Gonzaga, Getúlio Vargas a Marcelino Ramos, dentre outras, aí incluída a Cachoeira-Rio Pardo.

Num Estado em que os trens participam com 9% – para 25% no Brasil – no transporte de cargas, são excelentes novas. E não deixam de conduzir a uma das melhores páginas de minha infância e adolescência.

Os Estados Unidos têm 280 mil quilômetros de ferrovias – e nós nem 10% disso. Eis aí um dado estatístico que me conduz à época em que não só transportávamos pessoas e mercadorias, como uma viagem de trem de Cachoeira a Porto Alegre – e vice-versa – era uma suave aventura do espírito e dos sentidos.

Se for mais longe no cofre da memória, não deixarei de buscar uma lembrança de guri: uma viagem numa cabine exclusiva, no melhor estilo dos trens ingleses, franceses ou italianos. Mas me recordo mais das múltiplas incursões pelo Minuano, com suas poltronas estofadas e seu vagão-bar.

Partia-se no fim da tarde de Porto Alegre e chegava-se à gare de Cachoeira em alguma hora ao redor da meia-noite. Para quem ainda ia enfrentar um baile no sábado e duas reuniões dançantes no domingo, não havia cansaço algum.

Havia, sim, algumas pequenas grandes lembranças inesquecíveis. Como a da bela mulher que, na penumbra e no silêncio do vagão, tomou a minha mão nas dela, e assim avançamos, cúmplices e românticos, pela noite, sem ao menos trocar nossos nomes.

Conta agora Zero Hora que, como mencionei antes, ocorrerá a retomada de pequenos trechos de vias férreas de passageiros. Espero que se multipliquem, para que uma viagem de trem seja um episódio de alegria e de encantamento.

Uma folga gostosa para quem está de folga nas terças-feiras. Lindo dia pra você.


25 de janeiro de 2011 | N° 16591
CLÁUDIO MORENO


Do lado de cá

Ninguém sabe, com certeza, o que acontece conosco quando a luz finalmente se apaga e fechamos atrás de nós a estreita porta da vida. Essa eterna questão já recebeu dezenas de respostas – nas mitologias, nas religiões, nas crendices populares, nos sistemas filosóficos –, mas estamos tão longe de resolvê-la quanto estava nosso antepassado das cavernas.

Alguns raros escolhidos, contudo, alegam que já deram uma passada pelo outro lado e voltaram para contar tudo o que viram por lá. Plutarco menciona o caso de um tal de Arideus, habitante da Cilícia, famoso por sua falta de escrúpulos.

Tendo dissipado toda a sua fortuna na juventude, vinha levando uma vida de deboche e vilania, usando de todas as baixezas possíveis para se tornar rico de novo. Ao perguntar ao oráculo se ainda teria alguma chance de melhorar de vida, a resposta enigmática foi que só depois de morto isso poderia ocorrer – e Arideus não esperou muito tempo para entender o sentido dessas palavras, pois caiu do alto de uma ribanceira, bateu a cabeça e morreu.

Três dias depois, no entanto, quando já se cumpriam os ritos para seu sepultamento, voltou à vida, cheio de novidades.

Não interessa a descrição daquilo que viu do outro lado, pois segue o padrão de experiências semelhantes, numa linguagem mais adequada para folhetos turísticos que promovam viagens de ida e volta ao Além: luz, muita luz, feixes de galáxias luminosas, miríades de estrelas cintilantes, sinfonia feérica de planetas, mais luz, cores e brilhos indescritíveis, ondas de luz, cataratas de luz, etc. (já que, estranhamente, ninguém volta falando nas labaredas e no forte cheiro de enxofre...).

Interessa, isso sim, que Arideus mudou radicalmente depois disso, tornando-se o homem mais virtuoso da Cilícia, bom pai e amigo leal.

Há quem diga que foi a visão daquele mundo luminoso – e o medo de perdê-lo – o principal responsável por esta mudança. Eu, porém, que só conheço este mundo em que vivo, prefiro acreditar que ele se corrigiu simplesmente porque entendeu o valor de estar vivo. Miguel Esteves Cardoso, autor português de primeira, que também passou por uma dessas experiências de quase-morte, diz isso melhor que ninguém: “Ver o azul do céu, essas merdas.

E os dias. Começas a apreciar a vida, a respiração, acordar bem disposto, a água do banho”. Antes se comprava tudo; depois do susto da morte, os prazeres são diferentes: “Traz uma humildade absoluta”, diz ele, “que é a gratidão, no sentido de olha lá a sorte que eu tive! Saber apreciar isso de estar vivo! Os objetos pequenos, o cheiro das coisas. A riqueza do mundo, sem precisares comprar seja o que for”. O estarmos aqui. O estar vivo. Isso basta.


25 de janeiro de 2011 | N° 16591
PAULO SANT’ANA


Pobre Grêmio!

Com a deserção do jogador Jonas, o Grêmio virou uma triste e arrasadora gandaia.

O Grêmio virou uma ladainha: só há jogadores que vão e jogadores que não vêm.

Ronaldinho não veio, Jonas se foi.

Pobre torcida do Grêmio!

Parece mentira que o Grêmio não aproveitou o janelão de fim de ano e até agora não contratou nenhum reforço para a Libertadores que se inicia amanhã.

Além disso, numa prova eloquente da incompetência dos dirigentes recentemente passados, Jonas foi embora, deixou o Grêmio sem centroavante para a estreia e, do jeito que vai, para todo o ano.

Tragédia sobre tragédia, deslizamentos se sucedem no Grêmio como na serra fluminense, vitimando uma torcida que não tem culpa de nada e se vê, a cada semana transcorrida, apunhalada pelas costas, ora por despreparo dos dirigentes, ora pela voracidade carreirista de seus jogadores e irmãos de sangue, que se comprazem em ludibriar o Grêmio e cada vez mais enfraquecê-lo perante sua história.

Exatamente como fez o irmão de Ronaldinho, os irmãos de Jonas planejaram meticulosamente sua fuga do Grêmio, restando todos nós, gremistas, com caras de palhaço.

Não dá para entender como o Grêmio se deixa assim enganar por esses trânsfugas.

A facilidade com que esses jogadores usam o Grêmio para seus propósitos de traição espanta a todos.

Como até agora o Grêmio não contratou nenhum reforço para a Libertadores, sente-se que o clube se emasculou, satisfazendo-se em apenas disputar a Libertadores, sem qualquer ambição, a mínima que seja, para conquistá-la.

Foi um clube grande este Grêmio, agora apequenou-se assustadoramente.

Pobre Grêmio, pobre grande torcida do Grêmio, à mercê da incompetência de alguns e da cobiça dinheirista de outros.

Amanhã o Grêmio estreia na Libertadores. E o que era para ser motivo de júbilo virou tragédia, fracasso, chacota, tristeza, abatimento, desolação.

Mais um ano perdido para o Grêmio. E a torcida vê aparvalhada não surgir no horizonte nenhum grande líder que conduza esta massa de potencial gigantesco.

Ninguém para transpor o Rubicão e para abrir as águas do mar, nenhum César, nenhum Moisés.

Essa imensa mole humana que se constitui na torcida tricolor vaga imprecisa e tonta com as procelas que se abatem sobre sua embarcação.

No Grêmio, só há jogadores que vão e jogadores que não vêm.

Pobre Grêmio, pobre e maior e grande torcida tricolor.


25 de janeiro de 2011 | N° 16591
J. A. PINHEIRO MACHADO (Interino)


O iPad na banheira

Nos anos 1970, os ratos de biblioteca ficaram em pânico com a grande repercussão das profecias de Marshall McLuhan, então autor da moda, que anunciava a morte do livro diante das novas tecnolo­gias eletrônicas.

Esse debate perdura até hoje.

Mas a primeira constatação é de que o “objeto livro” sobreviveu ao próprio McLuhan (falecido em 1980) e, no século 21, o livro na sua forma tradicional revela uma saúde inesperada.

Na virada do século, levantamento da Folha de S. Paulo indicava que, desde a invenção da TV, por exemplo, enquanto a população mundial aumentava 1,8% ao ano, a pro­dução livresca avançava na veloci­dade de 2,8%.

No período quatrocentista de Gutenberg, lançavam-se cem obras por ano. Em 1952, já com o advento da TV, a soma girava em torno de 250 mil lançamentos. Em 2000, o total foi de l milhão de títulos: a média impressionante de um livro publicado a cada 30 segundos.

Por causa desses fatos, Umberto Eco, escritor que vendeu milhões de exemplares do seu super-best-seller O Nome da Rosa, demonstra estranhamento e desconforto com o debate: “A opinião pública (ou pelo menos os jornalistas) tem sem­pre essa ideia fixa de que o livro vai desaparecer (ou en­tão são esses jornalistas que acham que seus leitores têm essa ideia fixa) e cada um formula incansavelmente a mesma indagação”.

A propósito, junto com o cineasta Jean-Claude Carrière, Eco é autor de um sucesso editorial recente, de título desafiador: Não Contem com o Fim do Livro”, texto de um diálogo que atravessa 5 mil anos de história do livro, do papiro ao arquivo eletrônico.

Nesse livro, Eco chega ao extremo de garantir que, ao contrário de tudo que se diz há décadas, os meios eletrônicos nunca ameaçaram, mas, isto sim, salvaram o livro: “Com a internet, voltamos à era alfabética. Se um dia acreditamos ter entrado na civilização das imagens, eis que o computador nos reintroduz na galáxia de Gutenberg, e doravante todo mundo vê-se obrigado a ler.

Para ler, é preciso um suporte. Esse suporte não pode ser apenas o computador. Passe duas horas lendo um ro­mance em seu computador, e seus olhos viram bolas de tênis”.

Eco entusiasma-se, dizendo que as variações não alteraram o “objeto livro” em mais de 500 anos: “O livro venceu seus desafios e não vemos como, para o mesmo uso, poderíamos fazer algo melhor que o próprio livro. O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorados. Você não pode fazer uma colher melhor do que uma colher”.

E, se alguém sugere que o iPad tem toda a praticidade de um livro – a começar pela forma semelhante, podendo ser utilizado comodamente para leitura numa poltrona, ou deitado na cama –, Eco permanecerá irredutível: por certo vai considerar um pouco arriscado ler um iPad na banheira.

Moacyr Scliar, dono deste espaço nas terças-feiras, encontra-se hospitalizado

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011


RICARDO MELO

Nota zero

SÃO PAULO - As trapalhadas e a sucessão de falhas que cercam a seleção para as universidades de forma alguma representam um raio em céu azul. Como tantos outros órgãos da administração brasileira, o Inep é mais uma vítima da transformação de repartições públicas em objeto de negociatas políticas e conveniências partidárias.

Os fatos vêm de longe. No final de 2005, o governo Lula ainda não completara três anos, mas o instituto emplacava seu quarto presidente sob a nova administração (hoje já se perdeu a conta de quantos ocuparam a cadeira até agora). Naquela época, um diretor demissionário reclamava nesta mesma Folha do fatiamento da instituição.

"O coordenador do centro de informação e biblioteca do Inep [...] está lá porque é irmão de um político de Brasília. [....] Na minha diretoria, fui obrigado a engolir uma professora de educação física [num cargo que] exige conhecimento de estatística e psicometria." E assinalava que até a sogra de Lindberg Farias, então prefeito de Nova Iguaçu, tinha assento na diretoria.

Pelo andar da carruagem, de lá para cá, quase nada mudou em termos de gestão. Apenas a obsessão pelo amadorismo explica a natureza e a profusão de erros no Enem e no Sisu. Sem saber direito o que falar, o MEC busca refúgio nos grandes números. Em sua defesa, argumenta que, estatisticamente, a quantidade de ocorrências é pequena face ao gigantismo dos exames.

Socialmente falando, o prejuízo não se mede desta forma. Cada estudante atingido pela incúria oficial tem todo o direito de apontar 100% de incompetência. É ele que terá perdido um ano ou mais de sua vida por causa de problemas perfeitamente evitáveis.

Em vez de recorrer ao STJ para impedir contestação nos tribunais, o MEC faria melhor se garantisse a todo e qualquer prejudicado o direito a um exame imparcial. E agisse, por exemplo, com a eficiência da Receita Federal quando avança sobre o bolso dos contribuintes.


24 de janeiro de 2011 | N° 16590
KLEDIR RAMIL


Gancho pra rede

Minha mulher resolveu pendurar uma rede na varanda. A rede já havia sido comprada há tempos, numa viagem a Fortaleza, se não me engano. Era uma dessas redes de cor natural, cheia de rendas, bem bonita. O problema era como pendurar, já que a varanda não estava preparada para isso.

É nessas horas que as mulheres lembram que têm marido. Olhou pra mim com aquela cara de gatinha manhosa e, como costuma acontecer, me sensibilizei e assumi a tarefa.

Liguei pra loja e perguntei pra moça que me atendeu se tinha “gancho pra rede”. Ela respondeu “um momento”. Depois de um tempo, voltou ao telefone e me perguntou “a sua rede é a cabo ou wireless?”.

Respirei fundo... “Minha querida, estou falando de rede nordestina, de deitar na varanda, botar os pés pra cima...”. “Um momento”. Depois de mais um tempo, voltou: “Senhor, obrigado por aguardar. O sistema disponibiliza vários modelos de rede, mas não aparece nenhuma nordestina”.

Respirei ainda mais fundo e fiz uma pausa para bufar... “Minha filha, nordestina é a maneira de dizer. Tô tentando te explicar que o que eu quero é só um gancho, um gancho para pendurar minha rede na varanda...”. “Um momento”. 20 minutos depois: “Senhor, obrigado por aguardar.

O sistema está informando que sim, sua rede pode funcionar pendurada sem nenhum tipo de inconveniente, até mesmo na varanda, desde que o senhor adquira um acessório adequado para o seu modelo. Eu vou estar lhe transferindo para o meu colega do setor, que vai poder estar lhe ajudando. Não desligue, fique na linha enquanto faço a transferência”.

Depois de alguns minutos, escutando uma musiquinha eletrônica chata, em loop mal editado: “Boa tarde, meu nome é Paulo Sergio. Com quem estou falando?”. “Boa tarde, Paulo Sergio.

Você está falando com um sujeito que quer pendurar uma rede na varanda”. “Sim, em que posso lhe ajudar?”. Resolvi fazer uma piada. “Já que você quer me ajudar, você tem uma furadeira por aí?”. “Um momento... sim, o sistema disponibiliza vários tipos de furadeiras. Você quer furadeira de impacto ou comum?”.

Já sem paciência, perdi a educação. “De impacto, Paulo Sergio, de muito impacto, pra ligar na tomada e abrir um buraco na cabeça de alguém...”. “Desculpe, senhor, eu não estou entendendo”. “Ô Paulo Sergio, faz o seguinte, esquece a rede. Me diz uma coisa: vocês vendem aí cadeira de balanço, dessas de botar na varanda?”.


24 de janeiro de 2011 | N° 16590
PAULO SANT’ANA


Erro seletivo

A médica Beatriz Bohrer do Amaral, em artigo de ontem em ZH, botou um camundongo no forro do governador Tarso Genro: denunciou que a constituição do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, com 80 integrantes, tem somente seis mulheres.

Seis mulheres contra 74 homens.

E eu perguntaria: quantos negros há no Conselhão? Talvez um só, talvez dois.

Bem, depois que se descobriu que no Conselho do S.C. Internacional, que tem mais de 300 conselheiros, só existiam dois negros, no clube do Saci é um absurdo!

É muito delicada esta questão de escolher um Conselho entre a comunidade, tem de ter muito cuidado na seleção dos seus membros.

Entre as minorias sociais, por exemplo, quantos homossexuais há neste Conselho?

Não me digam que nenhum, nessa categoria existem muitos enrustidos, fica difícil a pontuação.

Mas um Conselho tem de ser representativo, ainda mais este que pretende açambarcar os terrenos econômico e social da coletividade.

Num tempo em que há a ascensão das mulheres na sociedade e se prega o antirracismo, não é aconselhável discriminar o público feminino e os negros no Conselhão.

Foi uma mancada.

Mas ainda há tempo de corrigi-la. Basta aumentar em 20 o número de conselheiros e fazer ingressar no órgão negros e mulheres a mancheias.

Eu não acredito no que me mandou dizer por escrito o Dr. Ricardo Meyer, Cremers 16572: que uma sentença judicial ordenou que fossem demitidos 295 funcionários da Fundação de Gastroenterologia que exercem suas funções no Hospital Materno-Infantil Presidente Vargas.

Eles são 30% do quadro funcional do HMIPV, essas demissões implicarão o fechamento do setor de neonatologia, com 20 leitos.

Cem por cento da enfermagem noturna pertence também aos quadros da Fugast, o mesmo acontecendo com o setor de cirurgia pediátrica.

Pode uma sentença judicial mandar demitir centenas de funcionários de um hospital que presta relevantes serviços ao SUS? Será que houve tal insensibilidade por parte da Justiça? Eu repito que não acredito.

Ou será que por questões corporativas a sentença tratou somente de afastar esses 295 funcionários e fazê-los retornar à Fugast? Não foi o que meu informante, nomeado acima, me informou. Disse que estão sendo demitidos.

Entre os que serão demitidos, há funcionários que servem ao Hospital Presidente Vargas há 15 anos.

Há funcionários com idade avançada que não têm mais condições de concorrer a novos empregos no mercado de trabalho.

É uma judiaria com gente que suou a camiseta para manter bem acesa a chama do Presidente Vargas.

Alguma alta autoridade vai ter de dar outra solução para esse problema.


24 de janeiro de 2011 | N° 16590
L. F. VERISSIMO


A doutrina do choque

A canadense Naomi Klein ficou conhecida com o livro No Logo, em que ela criticava a globalização e a rapinagem, pelo consumismo, do capitalismo sem fronteiras.

No seu livro novo The Shock Doctrine, a doutrina do choque, ela sustenta que o capital internacional aproveita, quando não promove, o caos e a catástrofe para avançar políticas de mercado e o fundamentalismo neoliberal. Seus exemplos mais recentes, entre outros, são a invasão do Iraque – cujas primeiras ações foram batizadas pelo Pentágono de “Operação Choque e Espanto” –, que abriu caminho para empresas americanas dominarem setores como o da segurança privada no país e as grandes petroleiras garantirem seus suprimentos;

a “guerra” das Malvinas, que deu força e prestígio interno para a Margaret Thatcher completar sua revolução liberal na Inglaterra; o ataque ao World Trade Center, que justificou todos os excessos nas políticas interna e externa do Bush, inclusive a invasão do Iraque, e teve como benefício colateral o enriquecimento de empresas como a Halliburton, notoriamente ligada ao governo;

as inundações causadas pelo furacão Katrina em Nova Orleans e pelos tsunamis na Ásia, nos dois casos, segundo Naomi, propiciando “novos começos” que favorecem mais interesses empresariais do que as populações atingidas.

A autora também inclui o golpe contra Allende, no Chile, a queda da União Soviética e o massacre da Praça Tiananmen como exemplos de choques bem aproveitados pela doutrina, e não deixa de citar o Brasil – menos o golpe de 64 e mais a influência da escola de Chicago na sua economia, outro tipo de desastre.

O livro da moça foi chamado de exagerado e simplista, e não apenas pela direita. Mas mesmo críticos concordaram que a sua tese, se não é vera, é bem bolada. Como ela se aplicaria ao Brasil do caos no Rio e da catástrofe na serra?

A intervenção militar e a “pacificação” dos morros do Rio só recebe elogios, merecidos, mas eles adiam um pensamento mais consequente sobre o que aconteceu. E o que aconteceu de historicamente mais importante foi a mobilização das forças armadas brasileiras para uma missão inédita, com a concordância e sob aplausos de todos, sem que se ouvisse um “peraí um pouquinho”.

Ontem o inimigo foi o tráfico sublevado, amanhã de onde virá a ameaça de caos, e a quem aproveitará sua supressão? O precedente está estabelecido. Quanto à tragédia nas cidades serranas, o “novo começo” pressupõe novo rigor nas licenças para construção e uma ocupação mais racional da terra. Quer dizer: nada que diga respeito ao pobre obrigado a erguer seu barraco num barranco deslizante por absoluta falta de alternativas.

domingo, 23 de janeiro de 2011


FERREIRA GULLAR

Cantando pela serra do luar

E me pergunto, quando escrevo esta crônica, de que afinal somos feitos, se de matéria ou de memória

NA ABERTURA da exposição comemorativa de meus 80 anos, no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, fui surpreendido por um coral de jovens estudantes que, postado na escadaria, à entrada do museu, começou a cantar "O Trenzinho do Caipira".

Após o primeiro momento de espanto, passei a cantar com eles, baixinho, claro, pois não desejava ser ouvido; é que não resisti ao impulso de participar daquele momento.

Não havia ali, a meu ver, um homenageado e, sim, uma encantada confraternização.

Mas, por incrível que pareça, enquanto cantava e me confundia com as demais pessoas ali presentes, veio-me uma constatação: a do contraste entre aquele momento e o outro, distante 40 anos, quando pus letra na tocata da "Bachiana nº 2", de Villa-Lobos.

Muita gente conhece a história do "Poema Sujo", escrito por mim em Buenos Aires, em 1975, mas o que constatei, de súbito, nesse momento de confraternização, foi o contraste entre a alegria de agora e o desamparo em que me encontrava naquele apartamento da avenida Honorio Pueyrredón, certo de que o mundo desabava sobre minha cabeça.

Não pretendo me valer desse pretexto para falar de mim mesmo ou do "Poema Sujo", de que a letra do "Trenzinho" é parte. Não é isso. A surpresa me arrebatou, ali, à entrada do museu, diante daqueles meninos e meninas que o cantavam, reacendendo, inesperadamente, em mim, a manhã de maio de 1975, quando, como quem faz a última coisa possível, escrevia aquele poema que, mal sabia eu, iria tornar-se o mais conhecido e traduzido dentre os tantos que escrevi na vida.

Assim foi que, subitamente, estou de volta àquele momento. Estou desgastado e ferido pelos anos de exílio, pelas perdas, pelas decepções e derrotas. A família, os amigos, o Rio de Janeiro, com suas praias e montanhas lilases, estão fora de meu alcance, e não me conformo com isso. É que, então, ali, era apenas um poeta às voltas com um poema que inventava -a única alegria possível.

Agora, em 2010, diante do coral, no hall de entrada do MNBA, o tempo se abre como um abismo e me suga e me atira, outra vez, para 40 anos atrás, naquele instante esvaído no curso da vida, mas que a cantiga do coral me traz de volta, sem que ninguém ali o perceba, cantando que estão ou encantados com o canto, senão eu que, não obstante, continuo a cantar com eles.

O presente é canto vibrante mas, dentro dele, estou eu-outrora, diante da máquina de escrever Lettera 22, inventando o "Poema Sujo". E é nesse momento do poema, quando lembro das viagens de trem que fazia com meu pai, que a "Bachiana nº 2" invade o quarto (a "Bachiana" que, quando ouvi pela primeira vez, me fez lembrar daquelas viagens e que agora, ao contrário, vem trazida pela lembrança delas). E a letra que, durante 20 anos, tentara escrever, sem o conseguir, escrevo-a então em menos de 20 minutos:

"Lá vai o trem com o menino Lá vai a vida a rodar Lá vai ciranda e destino Cidade e noite a girar."

A mesma letra que ouço agora na voz dos garotos, nesse começo de noite em dezembro de 2010. Sim, a mesma, mas outra, pois a que ouvia, escrevendo-a, era quase silêncio, murmúrio que se juntava à melodia de Villa-Lobos tocando na vitrola.

E me pergunto, agora, quando escrevo esta crônica, de que afinal somos feitos, se de matéria ou de memória. Mas, veja bem, memória não é passado? Ou não é? Tendo a pensar, fora da lógica aparente, que tudo é presente, todo o vivido, só que, em geral, estamos ocupados demais com o agora para nos darmos conta disso.

De qualquer modo, não poderia nunca imaginar, naquela manhã distante, que aquele murmúrio se tornaria canção, que aqueles versos um dia seriam um canto público na voz de meninos e meninas do meu país, décadas depois, numa noite de alegria e comemoração, quando o que foi sofrimento e desespero se apagou para sempre, pois a própria vida, na sua alquimia, os mudou em festa.

"Lá vai o trem sem destino Pro dia novo encontrar Cantando vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar."

CLÓVIS ROSSI

O resgate da elite

ESTRASBURGO- O leitor Heli Roberto da Silva escreve para descrever a reação de sua filha de 18 anos quando Fátima Bernardes anunciou, no "Jornal Nacional" do dia 14, que "os alunos que moram nas cidades do Estado do Rio afetadas pela enchentes poderão se inscrever no Sisu acessando em lan house, de graça".

A reação da filha: "pai, esse povo [o do governo] tá brincando. Acessar internet em lan house como, se em algumas cidades a energia elétrica nem foi totalmente restabelecida, os telefones funcionam precariamente e a pessoas de lá têm, no momento, outras prioridades?".

Comentário do pai, técnico em contabilidade de 46, morador de Formiga (MG): "Noto com preocupação o descrédito das autoridades políticas. A sociedade não acredita mais na mediação política entre ela e os meios de solução dos problemas que a afligem. Há uma tendência crescente e, quem sabe, até majoritária de que sozinhos resolveremos nossas mazelas e carências".

Heli lembra "o protagonismo assumido pelos voluntários nos trabalhos de socorro, resgate e assistências às vítimas da catástrofe da região serrana do Rio", o que, acha ele, "é o exemplo acabado e eloquente de que o Estado brasileiro, se é que um dia existiu, está falido, despreparado, mal gerido, incapaz de reagir rapidamente a uma situação extrema".

O leitor passa a resgatar o sentido de "elite" e lamenta que "a esquerda tenha amaldiçoado e deturpado o vocábulo, a ponto de transformá-lo em anátema. Pergunta Heli: "Se elite é o melhor que uma sociedade ou um grupo é capaz de produzir, onde está nossa elite?

Por que os melhores não se sentem atraídos para o serviço público? É ela quem deve nos representar, nos conduzir, apontar caminhos e discutir soluções, liderar o debate, os grandes temas. Está faltando política".

Tem razão, Heli. Está faltando política e está sobrando politicalha. O mundo político, quintessência da elite, está a serviço dele próprio.

ELIANE CANTANHÊDE

Obedece quem tem juízo

BRASÍLIA - Apesar de Dilma Rousseff e Nelson Jobim terem acertado os ponteiros e estarem dialogando fluidamente, a posição de Jobim no governo já foi bem mais confortável -quando o presidente era Lula.
Jobim encontrou a Defesa em polvorosa, numa bagunça indescritível. Trocou uns chefes, enquadrou outros, arrumou a casa.

É considerado o primeiro ministro da Defesa de fato na história deste país.

Para tanto, Jobim pediu e obteve carta branca de Lula, que gosta de empurrar decisões e abacaxis com a barriga e adorou jogar os militares para no colo do ministro.

Assim, Jobim tratou as Forças Armadas como um feudo seu. Criou a Estratégia Nacional de Defesa, definiu programas bilionários para Marinha, Aeronáutica e Exército -nesta ordem- e reformulou toda a organização militar para reforçar a posição do... próprio ministro.

Ocorre que Lula é Lula, e Dilma é Dilma. Ela tem uma lealdade canina -ou seria feminina?- ao ex-chefe e mentor, mas tem lá seu estilo, seu gosto pela gestão e pelo poder. Se Lula permitia e até agradecia a existência de feudos, especialmente o da Defesa, com a nova presidente não funciona assim. Ela quer saber tudo, acompanhar tudo, cobrar tudo, ter certeza do que está decidindo e assinando.

Trocando a metáfora: Jobim cantava de galo na área militar; agora não canta mais. Ele queria comprar os caças da FAB no governo Lula, mas Dilma vetou. Disse que seria em janeiro, mas Dilma adiou. Fez seu próprio parecer, mas Dilma quis ver o da FAB. Tentou continuar sendo o único interlocutor do presidente na sua área, mas Dilma abriu as portas para conversas a sós com os comandantes.

A comunicação da presidente com seu ministro vai bem, até porque ela, apesar de nascida em Minas, fala gauchês tão bem quanto Jobim. Mas ficou claro que ele não decide mais sozinho. Agora, quem manda é ela. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

CARLOS HEITOR CONY

"Morram os vivos"

RIO DE JANEIRO - "Venhamos ao presente. O presente é a chuva que cai, menos que em Petrópolis, onde parece que o dilúvio arrasou tudo ou quase tudo, se devo crer nas notícias; mas eu creio em poucas coisas, leitor amigo.

Creio em ti, e ainda assim é por um dever de cortesia, não sabendo quem sejas nem se mereces algum crédito. Suponhamos que sim. Creio em teu avô, uma vez que és seu neto, e se já é morto; creio ainda mais nele que em ti. Vivam os mortos!

Os mortos não nos levam os relógios. Ao contrário, deixam os relógios, e são os vivos que os levam, se não há cuidado com eles. Morram os vivos!"

O trecho acima, não preciso dizer, não é meu, é de Machado de Assis, publicado no dia 6 de janeiro de 1895. Vivam os mortos, morram os vivos! Naquele tempo não havia o péssimo hábito do "politicamente correto". Um cronista podia dizer com sinceridade o que pensava e como via a realidade de cada dia. Aparentemente, Machado de Assis seria um monstro de cinismo. Era cínico, mas não era monstro. Foi um bruxo, isso sim. Voltemos a ele:

"Podeis concluir daí a disposição em que estou. Francamente, se esta chuva que vai refrescando o verão, fosse, não digo um dilúvio universal, mas uma calamidade semelhante à de Petrópolis, eu aplaudiria d'alma, contanto que me ficasse o gosto do poeta, e pudesse ver da minha janela o naufrágio dos outros."

Como se sabe, Jonathan Swift (Dublin, 1667-1745) foi um dos mestres que mais influência exerceu sobre Machado de Assis. Apesar de magistrado e clérigo anglicano, o autor de "As viagens de Gulliver" chegou a propor que comêssemos criancinhas para evitar a superpopulação e a necessidade de proteínas.

Os gênios sempre estão contra a corrente e afirmam, como Galileu Galilei, que não é o Sol que se move em torno da Terra, e sim o contrário.

sábado, 22 de janeiro de 2011



e3 de janeiro de 2011 | N° 16589
MARTHA MEDEIROS


Intoxicados pelo EU

A gente perde muito tempo pensando na nossa imagem, no nosso futuro. Até que um dia acordamos asfixiados

Outro dia acordei com uma espécie de ressaca existencial, sentindo necessidade de me desintoxicar, e era óbvio que o alívio não viria com um simples gole de Coca-Cola. Precisava, antes de tudo, descobrir o que é que estava me pesando, e logo percebi que não era excesso de álcool, nem de cigarros, nem de noitadas, os bodes expiatórios clássicos do mal-estar, e sim excesso de mim.

Desconfio que já tenha acontecido com você também: de vez em quando, sentir os efeitos da overdose da própria presença. Desde que nascemos, somos condenados a um convívio inescapável com a gente mesmo. Quando penso na quantidade de tempo que estou presa a essa relação, fico pasma de como consegui suportar tamanho grude. Eu e eu, dia e noite, no único relacionamento que é verdadeiramente pra sempre.

Ando escutando uma banda uruguaia chamada Cuarteto de Nos (que, aliás, fará show esta semana em Porto Alegre), cujas canções possuem letras divertidas e sarcásticas, entre elas, Me Amo, uma crítica bem-humorada a essa era narcísica que estamos vivendo.

O personagem da música não ouve ninguém e não consegue imaginar como seria o mundo sem a sua presença. Tem muitas garotas, porém nenhuma é digna dele. Está muito bem acompanhado a sós. “Soy mi pareja perfecta”.

Intoxicação talvez seja isso: considerarmos que somos um par. Só que no meu caso, sou um par em conflito. Um eu que deseja fugir e outro eu que deseja ficar. Um eu que sofre e outro eu que disfarça. Um eu que pensa de uma forma e outro eu que discorda. Um eu que gosta de estar sozinho e outro eu que precisa amar. Nada de “pareja perfecta”, e sim caótica.

Uma relação tranquila consigo mesmo talvez passe pela conscientização de que não devemos dar tanto ouvido às nossas vozes internas e que mais vale nos reconhecermos ímpares e imperfeitos por natureza.

A vida só se tornará mais leve e divertida se pararmos de nos autoconsumir com tanta ganância e darmos uma olhadinha para fora. A gente perde muito tempo pensando na nossa imagem, no nosso futuro, nos nossos problemas, nas nossas vitórias, no nosso umbigo.

Até que um dia acordamos asfixiados, enjoados, sem ânimo e sem paciência para continuar sustentando a pose, correspondendo às expectativas, buscando metas irreais, vivendo de frente pro espelho e de costas pro mundo.

É a era do egocentrismo, somos vítimas de um encantamento por nós mesmos, mas, como toda relação, essa também desgasta. Fazer o quê? Esquecer um pouco de quem se é, esquecer da primeira pessoa do singular, das nossas existências isoladas, e pensar mais no que representamos todos juntos. Ando cansada de tantos eus, inclusive do meu.


23 de janeiro de 2011 | N° 16589
GRÊMIO


O tri vale milhões

A estreia de quarta-feira em Montevidéu contra o pequeno Liverpool reinstala na torcida do Grêmio a saga do eterno sonho da Libertadores. A ansiedade aumenta, provoca aflição por contratações, contagia as discussões e contamina a paixão que se mostra na rua em camisetas e artigos de passeio.

Se o time de Renato mantiver a torcida inflamada até o título, os gabinetes do Olímpico estimam embolsar mais R$ 20 milhões além do orçamento de R$ 130 milhões. O tricampeonato e a ida a Tóquio chamaria outros 20 mil sócios que depositariam R$ 6 milhões nos cofres.

Foram sete tentativas desde o bi de 1995, e só o sucesso redimiria as derrapadas em contratações do início do ano.

De quebra, combinaria com o surgimento dos primeiros pilares da construção da Arena.

Oadvogado Juarez Jover faz a sua parte de torcedor. Sempre que pode envia um torpedo endereçado ao amigo Antônio Vicente Martins, o vice-presidente de futebol do Grêmio. O texto é curto e varia muito pouco:

– Vicente, e o Mascherano? Vamos trazer o Mascherano.

Nas ligações pelo celular, a conversa apresenta o mesmo desfecho:

– Não esqueça do Mascherano!

Entre o tom jocoso e sério, Jover vai fazendo sua pressão como torcedor. Quer Mascherano porque, em ano de Libertadores, é preciso colocar no time um gringo que se entenda em campo com o árbitro de língua espanhola. O Vicente Martins não aguenta mais tantas sugestões. Cada ideia louca tem suas justificativas.

– O Mascherano é reserva no Barcelona. De repente... Como não há notícia de algum neto do Dinho, é preciso procurar um volante daqueles que usa botina, não chuteira – discursa Jover, também conselheiro do clube.

A volta à Libertadores tem disso. Aparecem dicas de contratações que negam qualquer sintonia com a realidade. Não importa que o Barcelona tenha pago R$ 49,2 milhões pelo volante argentino, o que importa é que o Grêmio tem de se armar para o tri.

Se a direção fosse atender à avalanche de e-mails que batem nos computadores da central de relacionamento do Olímpico, teria de contratar dois times novos crivados de craques até no banco de reservas.

Pela ansiedade geral do momento, é possível estimar um faturamento de R$ 20 milhões a mais por conta da Libertadores. A GremioMania do Olímpico revela isso. Logo que a equipe garantiu vaga no G-4 do Brasileirão, as vendas de dezembro estouraram em R$ 2,4 milhões, um valor jamais visto na história da loja.

Não à toa o janeiro desponta com 30% a mais comparado ao mesmo mês de 2010. Vai faturar duas mil peças a acima do normal e fechar a conta em R$ 1 milhão, uma façanha para este período de férias e cidade vazia.

Só a paixão vitaminada pela Libertadores explica tamanha procura por camisas de jogos oficiais, de treinos, de passeio, bonés e uma infinidade de quinquilharias até o chaveirinho.

É na porta da Libertadores que o torcedor mais se transforma em cliente-fiel.

– Conheço ex-marido, ex-cabeludo, ex-padre, não conheço ex-gremista – justifica o gerente João Basílio, da GremioMania.

Esta é a oitava temporada atrás do tricampeonato, após o bi de 1995. Só nos anos 2000 já foram quatro tentativas, a última delas em 2009. Adiciona-se a isso o ingrediente da derrota do Inter no Mundial de Abu Dhabi. O dezembro incendiou o orgulho, bateu nas vendas e justificou a ousadia da tentativa de contratação de Ronaldinho.

Vicente Martins assistiu à conquista da Libertadores de 1983 sobre o Peñarol alojado na arquibancada atrás da goleira da Carlos Barbosa. Na decisão de 1995, viu da cadeira do Olímpico o primeiro jogo diante do Nacional, de Medellín, e conferiu a finalíssima na casa de um amigo conselheiro.

Lembra de ter acabado com a buzina do carro vagueando pela cidade, sem saber para onde ir. Àquela época, simples torcedor, Vicente também pedia contratações como o amigo que hoje o atazana.

Só não exigia nomes como Mascherano.


23 de janeiro de 2011 | N° 16589
VERISSIMO


Os pêssegos

Pêssegos ruins são maus presságios?

Estava ficando tarde. Tinham começado a jogar às nove, eram duas da manhã. Cinco horas de pôquer. E ainda por cima o Natalino perdia feio. Passara a noite inteira perdendo feio. E ficando cada vez mais irritado.

Não se ouvia mais nada na mesa, além dos ruídos naturais do pôquer. O clicar das fichas. Frases curtas: “Dou cartas”. “Vou”. “Não vou”. “Pago pra ver”. “Não é possível!” (o Natalino). Etc. Um ou outro gemido. E alguns bocejos. Estava ficando tarde.

Foi quando o Eraldo disse “não vou” e jogou fora as suas cartas. Não iria naquela rodada. Espreguiçou-se. E depois disse a frase:

– Os pêssegos estão ruins este ano.

O Natalino olhou em volta, com cara de espanto. Depois perguntou:

– O quê, Eraldo?

– Os pêssegos. Não estão bons este ano.

– E o que os pêssegos têm a ver com o jogo, Eraldo? Ou com qualquer coisa?

– Nada. Foi só um comentário.

– Não é metáfora? Os pêssegos não querem dizer outra coisa? Pêssegos ruins são um mau presságio, é isso? Como pássaros caindo mortos do céu? Um prenúncio do fim dos tempos? Ou o quê?

– Não. Nada. Eu só comentei que...

– Está bom, Eraldo. Nós já ouvimos. Agora deixa eu me concentrar na minha mão. Que, como sempre, está uma porcaria.

O silêncio voltou à mesa. O jogo continuou. Natalino tinha um par de rainhas. Perdeu para dois pares. O baralho andou. Nova rodada. Todos fizeram o seu jogo. E o Eraldo falou:

– E olha que é tempo de pêssegos...

Natalino avisou ao resto da mesa:

– Eu vou matar esse cara.

– Calma, Natal. Calma.

– Eu vou matar esse cara!

Eraldo tentou se defender.

– Eu só estava...

– Me faz um favor, Eraldo – interrompeu Natalino. – Não diz mais nada. Eu não quero mais ouvir a palavra “pêssegos” esta noite. Está bem?

– Oquei, oquei. Três rodadas silenciosas depois, novamente o Eraldo:

– Quem é o tal de Holden, afinal? – Quem?

– Texas Holden. O nome desse tipo de pôquer que o pessoal está jogando.

– Não é Holden. É hold’em. Texas hold’em. Eme no fim.

– Ah...Novo silêncio, e de novo o Eraldo:

– Será parente do William? – Quem?

– William Holden. Aquele ator americano que fez...

Natalino se atirou por cima da mesa para agarrar a garganta do Eraldo. Espatifou a mesa. Tiveram dificuldade em arrancar o Natalino de cima do Eraldo, que ele tentava esgoelar. Todos concordaram que Natalino tinha razão para se irritar daquele jeito, ainda mais perdendo como estava.

Mas também desconfiaram que havia estratégia na sua explosão. Com o seu salto espetacular, as fichas tinham se espalhado para todos os lados. Seria impossível saber quem estava ganhando ou perdendo. De qualquer jeito, decidiram acabar o jogo.

Estava ficando tarde.


23 de janeiro de 2011 | N° 16589
PAULO SANT’ANA


Nhoque e sorvete

Há coisas que a gente vai descobrindo na cidade.

Por exemplo, não discuto qual seja o melhor ou o mais movimentado, mas o mais bonito shopping da cidade não há dúvida de que é o BarraShoppingSul.

E os seus vários restaurantes com vista para o Guaíba fazem os clientes se deliciarem em seus ambientes.

Esses dias, dei os costados por lá e fui ao Restaurante Bah: comi um nhoque com carne de panela, com molho de tomate, divino.

Os uruguaios fazem um nhoque gratinado (molho de leite) de a gente comer de joelhos. Mas este nhoque do Bah é de encher as medidas.

Que invenção diabólica esta dos italianos: o nhoque. Dizem que os melhores cozinheiros conseguem fazer o nhoque se desmanchar na boca usando a batata para se misturar à farinha de trigo.

Minha ex-mulher fazia um nhoque ímpar, perdi a mulher mas não perco o nhoque.

Um dos últimos prazeres que me restaram vem da cozinha.

E um dos pratos mágicos que pontuam meu cardápio é a carne de panela.

Com molho de tomate primacialmente, mas de qualquer jeito a carne desfiada de panela é inefável.

Carne de panela com espaguete Barilla. Carne de panela com fettuccine. Carne de panela é tão bom, que só carne de panela não necessita nenhum outro complemento.

Eu tenho fixação em massa. Li certa vez em qualquer lugar que o alimento mais consumido no mundo ainda é o arroz. Mas, em segundo lugar, vem rasgando a massa. Até na China a massa tende a superar o arroz em quantidade consumida.

Por sinal, segundo se depreende, foi Marco Polo que trouxe da China a massa para a Itália.

Assim como trouxe o sorvete. Só não entendo como é que da China até a Itália o sorvete trazido por Marco Polo não derreteu.

Falando nisso, quando eu não era ainda diabético, juro-lhes que comia de uma assentada um quilo e meio de sorvete. Agora que sou diabético, Dr. Jorge Gross se espanta, como só meio quilo de sorvete de uma tacada.

Tem um sorvete de marca Freddo, que é o encanto da vida de meu neto Gabriel. Como sempre na cidade estrangeira onde eu me encontrar ou encontrá-lo.

O sorvete de doce de leite dessa marca é um dos alimentos mais saborosos que conheci em toda a minha vida.

Sorvete de sabor ameixa também é de enlouquecer. Sorvete com salada de frutas. Torta de sorvete.

E sorvete com cobertura de frutas vermelhas, meu Deus, não existe nada igual.

É pela boca que vivemos, nos alimentando à mesa e beijando na alcova.

O peixe morre pela boca.


Uma razão para se orgulhar
RUTH DE AQUINO

Existe uma máxima no mundo da mídia: “Good news is no news” (boas notícias não são notícia). Entre os escombros da tragédia de 2011, há uma notícia tão boa que não dá manchete. A cidade do Rio de Janeiro inaugurou o centro mais moderno de controle de operações do mundo, totalmente computadorizado, com radares e alertas para enchentes. Um novo sistema poderá prever dilúvios 48 horas antes e deslocar a tempo famílias em risco de perder suas casas e suas vidas.

O centro carioca de operações tem um telão de 80 metros quadrados – maior que o da Nasa, segundo o prefeito Eduardo Paes. Reúne 30 órgãos municipais e concessionárias e 400 profissionais. É resultado de uma parceria com a IBM. O objetivo é transformar o Rio em referência para o Brasil e o mundo no planejamento de eventos e gestão de crises. A ideia é repetir o modelo em metrópoles brasileiras até a Copa.

O cérebro tecnológico do prédio é um indiano que vive em Nova York, mas tem visitado tanto o Rio que uma de suas bebidas prediletas é a caipirinha e seu point favorito é a Lapa boêmia e musical. É vice-presidente de tecnologia da IBM e seu nome é Guru. Foi batizado como Guruduth Banavar, mas até a mãe dele o chama de Guru (leia a entrevista) .

Em cada monitor, vemos o que está acontecendo naquele momento em todos os pontos da cidade: obras, engarrafamentos, acidentes, falta de luz ou de gás, onde estão os reboques, por onde trafegam os ônibus, onde está sendo recolhido o lixo. É evidente que não basta ter acesso aos dados. Só com inteligência e integração esses dados podem ser úteis. Mas acabou a desculpa “eu não sabia de nada”. O prefeito tem um quarto ali para dormir, em emergências.

Uma reportagem recente da revista The Economist, intitulada “It’s a smart world” (É um mundo inteligente), traduz o que se tenta fazer nesse centro. É como se o mundo real e o mundo digital convergissem para criar eficiência. Para as pessoas comuns, significa menos estresse e mais conforto.

Segundo o diretor da IBM Pedro Almeida, carioca apaixonado pelo que faz, essa é a base para o conceito de Smarter Cities, ou “cidades mais inteligentes”, que a IBM criou em 2007 e, agora, inclui o Rio como uma das vitrines mais vistosas.
Entre os escombros da tragédia, há uma ótima notícia: o novíssimo centro de alerta para enchentes

No caso das chuvas, a era do achismo e da irresponsabilidade terá de acabar para não se repetir o vale de lágrimas da serra fluminense. Cientistas e geólogos concluíram o primeiro mapeamento do solo da cidade do Rio, depois de fotografar de helicóptero, com câmeras especiais e laser, ruas, vales e morros. Existem hoje 18 mil casas em alto risco em 117 comunidades. Fora o médio risco e o baixo risco.

Caso o novo radar da prefeitura, importado dos Estados Unidos, preveja chuvas fortes, sirenes tocarão. A IBM promete, com seu novo sistema, a ser instalado neste semestre, prever calamidades com dois dias de antecedência. Mais de 2 mil agentes comunitários foram treinados pela Defesa Civil e equipados com celulares para receber alertas por mensagens de texto.

Se um sistema parecido estivesse em vigor na serra do Rio, não estaríamos chorando hoje mais de 700 mortos. Podemos ser solidários e generosos, mas não vamos esquecer que existem culpados.

O que aconteceu em Petrópolis foi um crime premeditado. As estações meteorológicas sofisticadas existem, estão instaladas em lugares estratégicos, uma delas ao lado do vale que deixou de luto dezenas de famílias. Mas não estavam funcionando. Por quê?

O prefeito Paulo Mustrangi diz que era fim de ano, havia raspado o caixa e não tinha os R$ 900 mil para fazer funcionar. O Instituto Estadual de Ambiente afirma que não recebeu nenhum pedido de ajuda do prefeito.

Prefeitos que permitem construir favelas, condomínios e hotéis em encostas e áreas de risco e não tomam providências para garantir o bem-estar de seus eleitores deveriam perder o mandato e ser levados à Justiça. Pensando bem, que Justiça?

Na cidade do Rio, liminares judiciais impedem a prefeitura de reassentar mais de 130 famílias que permanecem em casas condenadas, que já deveriam ter sido demolidas. Quem vai julgar os juízes?


22 de janeiro de 2011 | N° 16588
NILSON SOUZA


Depois do pesadelo

Meu irmão deu uma volta na barca de Caronte, mas retornou para a margem de cá e para seu próprio corpo, depois de 57 dias na UTI do Hospital Dom João Becker, em Gravataí. Foi tratado com imenso carinho e muita competência pela equipe de médicos e enfermeiros comandada pelo doutor Cristian Benicasa.

Em determinado momento de sua doença, com a voz cassada pela traqueostomia, indispensável para facilitar-lhe a respiração, protagonizou um episódio desconcertante para seus familiares. Íamos visitá-lo na Unidade de Tratamento Intensivo e ele nos expulsava com olhares alucinados e gestos de cabeça, uma vez que estava com o restante do corpo imobilizado pelo longo período de sedação.

Agora que está de volta, ainda com limitações físicas temporárias mas perfeitamente lúcido, perguntei-lhe o que viu do outro lado e por que nos mandava embora quando queríamos apenas manifestar-lhe nosso afeto e nossos cuidados com a sua saúde. Compartilho sua resposta com meus leitores, até para que possamos entender o que se passa na cabeça de uma pessoa ressentida pela longa internação, pela enfermidade e pelo efeito das medicações:

– O outro lado é horrível. É um delírio, em que a gente não sabe o que é sonho, o que é pesadelo e o que é realidade. Eu via aquelas pessoas de branco e tinha certeza de que elas queriam matar vocês. Então, eu me desesperava, queria que vocês fugissem de lá, mas ninguém me entendia e eu não conseguia me comunicar.

Felizmente, o pesadelo terminou. Não fugimos, não fomos embora, não o abandonamos nunca em nossos pensamentos e em nossas orações. Aos poucos, graças principalmente à eficácia do tratamento, ele começou a sair do sonho ruim e recuperou totalmente a consciência.

Agora falta-lhe recuperar os músculos amortecidos pela prolongada imobilização. Sabemos que ainda temos pela frente um longo caminho para a retomada normal da vida, mas estamos todos fortalecidos pela experiência e pelo aprendizado. E eternamente gratos ao hospital e aos profissionais que nos prestaram tão precioso atendimento, custeado inteiramente pelo Sistema Único de Saúde.

Voltando agora aos meus delírios literários, penso que talvez nunca venhamos a saber exatamente por que Caronte o devolveu para o nosso convívio depois da viagem iniciada, mas é provável que o mitológico barqueiro – que conduz as almas para o outro lado da vida em troca de uma moeda – também tenha se sentido rejeitado pelo inquieto passageiro. Ou talvez ele estivesse sem a moeda.


22 de janeiro de 2011 | N° 16588
ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES


Tipos Populares do Alegrete (final)

Eram muitos os tipos populares do Alegrete nos tempos da minha distante adolescência. O lado bom desse fato é que o povo da cidade – a não ser alguma gurizada malacara – tratava todos muito bem, quase sempre com carinho e com respeito.

Um desses tipos era o Orango, negro forte e feio, mas muito simpático e amigo da gurizada. A gente chegava para ele e dizia: “fala inglês, Orango” e ele falava: “oia,oia,oia o ingrêis”. “Fala francês, Orango: oia,oia,oia, o francêis”. Sorria sempre e era muito camarada.

Outro tipo popular era o Batata. Era um tipo patético, ainda moço, dizia-se que tinha comido uma irmã e o pai simplesmente capou o Batata e o expulsou de casa. Era um homem normalmente triste. O Batata tinha um costume impressionante: ele sempre sabia quando tinha casamento na bela igreja matriz da cidade.

Então na hora que os noivos saíam da igreja, já casados, a noiva resplandecente no seu belo vestido branco, o Batata estava – sempre, sempre – vestido da melhor maneira que podia na porta da igreja, chorando convulsivamente...

O Adão Carboreto era um mulato forte e loquaz que às vezes dava susto na gurizada saindo da sombra da noite ameaçadoramente. Mas não fazia mal a ninguém. Esse apelido advinha do cheiro forte que exalava, tipo os lampiões de carbureto que ainda eram muito usados na periferia urbana.

Outro tipo popular era a Benvinda, uma velhinha esmirradinha, magrinha, pequena, que usava uma touca feita de meia de mulher. Ela era fanhosa e tinha lábio leporino. Andava sempre na Rua General Sampaio, ali atrás do Colégio Osvaldo Aranha.

O Caruncho era um guri bulhento, mais arteiro do que louco, protegido da família Crispim, que era respeitada, por isso ninguém batia o brim do Caruncho, como ele merecia.

Outro tipo importante na sociologia alegretense da época era o Quixote, protegido pela família Fialho. Era magro como uma bicicleta, cara fina, com nariz adunco, que caminhava meio curvado para a frente, sempre balanceando os braços. Era um tipo inofensivo.

Outro tipo popular importante era o mudo da delegacia, um mulato ágil, que se expressava só com gestos e grunhidos. Na época, o que hoje se chama de fofoqueiro, se dizia “falador”.

E o mudo era o maior falador do Alegrete: passava uma moça (ele estava sempre na porta da delegacia) e ele olhando para ela e para os outros fazia gestos que indicavam atividade sexual da transeunte. Passava um cidadão e ele, quando o via pelas costas, fazia gesto de roubo, ou de chifre, ou de homossexualidade e assim era o maior falador do Alegrete.


22 de janeiro de 2011 | N° 16588
PAULO SANT’ANA


Consumidor desrespeitado

Justiça se faça aos que planejaram o fumódromo de Zero Hora: depois de uma demora angustiante, ele nos foi reentregue esta semana.

Está lindo, confortável, tem uma folhagem, tem piso novo, tem poltronas acessórias, novo e potente aparelho de ar condicionado que ventila, uma mesa funcional para o telefone.

E uma grande surpresa: colocaram no canto uma máquina de café em troca de moedas.

Uma obra admirável de respeito de uma empresa aos seus viciados.

Um monumento aos direitos humanos.

O novo fumódromo aplaca um pouco a culpa que temos, os fumantes, de termos sido ultimamente considerados, com justiça e adequação, seres inconvenientes e indesejáveis.

Obrigado.

Ah, também havia no fumódromo uma placa de bronze indicando que eu era o seu patrono, uma singela homenagem por quem se bateu em defesa daquele local.

Uma causa justa mas um tanto envergonhada.

O médico Anderson Kieling (andkieling@hotmail.com) manda reclamar a esta coluna que comprou uma lava-louça nova e já veio estragada.

A loja não quer trocar e a fábrica não dá retorno à reclamação do comprador.

Um desrespeito ao consumidor.

Então, o prejudicado se dirigiu ao Juizado de Causas Especiais, em Novo Hamburgo, que infelizmente não funciona às sextas-feiras. O reclamante terá de voltar lá na semana que vem.

Estranho privilégio que se concede a funcionários públicos que são pagos para atender a cidadania e veem espichados indevidamente os seus fins de semana. Que vergonha, que falta de respeito, que agressão aos direitos das pessoas e dos consumidores.

O prejudicado paga seus impostos, não transgride as leis, mas é assim desacatado com certa violência por integrantes do comércio e da indústria e pelo ócio do funcionalismo público.

Não podiam tratar assim os seres humanos.

Excêntrico por todas as formas este exame da OAB para os bacharéis poderem se tornar advogados.

Já estudaram por cinco anos, se formaram, mas muitos deles, os que não passam no exame, se veem impedidos de exercer uma profissão para a qual foram capacitados pela universidade.

Além desse contrassenso estupendo, é cobrada dos examinados a taxa de extorsivos R$ 200, que chega a fazer supor que a OAB lucra com esse rigor.

E os que conseguem provar que não têm condições de pagar essa taxa são submetidos desumanamente a 45 dias de via-sacra burocrática na busca da isenção.

Tenho certeza de que é desconfortante e mentalmente opressor para a OAB esse exame.