sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017


Jaime Cimenti

Obra essencial da literatura brasileira

Lendo, relendo e treslendo o poema Cobra Norato (José Olympio, 94 páginas, 30ª edição), do rio-grandense Raul Bopp, nascido em Pinhal - município de Santa Maria em 1898 - e falecido no Rio de Janeiro em 1984, não há como deixar de constatar que se trata de uma das obras mais marcantes e influentes da literatura brasileira.

O grande e genial poema situa o escritor como um de nossos maiores autores, especialmente no âmbito do Modernismo de 1922, que até hoje influencia os caminhos da cultura brasileira. Raul Bopp viajou muito pelo Brasil e pelo mundo, tendo sido diplomata em vários países. Os estudos sobre folclore, as pesquisas de campo e conversas com pessoas e as viagens serviram de base para a lenta e cuidadosa elaboração de Cobra Norato, que, inicialmente, seria um poema para crianças. Cobra Norato é texto emblemático do modernismo e utiliza o mito amazônico da Cobra Grande, lenda que tem algumas variantes.

Uma delas é justamente a do Cobra Norato. Câmara Cascudo, em seu famoso Dicionário de Folclore, escreveu que uma índia se banhava entre o rio Amazonas e o Trombetas quando foi engravidada pela Cobra Grande. Nasceram-lhe um menino, Norato, e a menina Maria Caninana. Maria era uma peste, provocava naufrágios. Norato, que era bom, foi obrigado a matá-la. Como penitência, Norato, à noite, passou a transformar-se em sedutor, deixando na beira do rio sua longa pele. Segundo a lenda, se alguém conseguisse pingar leite na boca da cobra e ferir sua cabeça, ela se desencantaria e se tornaria um rapaz. Tal façanha foi conseguida por um soldado do rio Tocantins.

Na introdução, estão as seguintes palavras da professora Lígia Morrone Averbuck: "Pode-se verificar que, hoje, quando há um renovado interesse pelo exame da significação do movimento modernista, com vistas à interpretação global da cultura brasileira, a obra de Raul Bopp aparece realçada por um significado fundamental no conjunto do período, como expressão de uma poética linguística e estilisticamente revolucionária, pela margem conotativa revelada nas entrelinhas do seu texto e sua aproximação com uma das mais ricas formulações da temática modernista, a do movimento antropofágico, aspectos todos eles abertos ainda à discussão e à análise".

Na orelha, o escritor Affonso Romano de Sant'Anna escreveu: "o poético do texto vem menos do tratamento do verso do que da utilização do mito dentro da estética modernista. O autor passou a vida inteira fazendo pequenas correções nas muitas reedições de Cobra Norato. Esteticamente pertence ao primitivismo poético, um esforço intelectual para incorporar a ingenuidade narrativa das lendas indígenas brasileiras". lançamentos

A onda corporativa - Corporativismo e ditaduras na Europa e na América Latina (FGV, 344 páginas), organizado por Antônio Costa Pinto, da Universidade de Lisboa, e Francisco Martinho, da USP, tem textos deles e de especialistas sobre adoção de corporações sociais e políticas na primeira metade do século XX. Memória das árvores - Poemas escolhidos, do poeta, jornalista e filólogo da Moldávia Nicolae Dabija (Bestiário, 48 páginas), com tradução de José Eduardo Degrazia, apresenta densos e sensíveis poemas que trazem lendas, tradições religiosas e a natureza do País do autor.

Sucessão - O processo sucessório nos negócios, na empresa e no patrimônio (Imersões, 216 páginas), de Werner Bornholdt, doutor em psicologia das organizações e recursos humanos, economista e consultor trata com profundidade sobre sucessão, governança, mitos, coaching e outros tópicos relevantes. - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/02/colunas/livros/545003-obra-essencial-da-literatura-brasileira.html)


10 de fevereiro de 2017 | N° 18765 
CLÁUDIA LAITANO

O iluminista

“Senhora, eu vos amo tanto / Que até por vosso marido / Me dá um certo quebranto”.

Faltou a cara de pau, mas não a ocasião, para aproveitar os versos que o Quintana escreveu pensando na Cecília Meireles para confessar ao escritor Tzvetan Todorov o quanto eu gostava do que ele escrevia. O ensaísta de origem búlgara, que morreu nesta semana em Paris, aos 77 anos, esteve em Porto Alegre em 2012, participando do seminário Fronteiras do Pensamento – infelizmente, sem a companhia da mulher, a ótima escritora canadense Nancy Huston, por quem, de fato, até sinto um certo quebranto.

Todorov ficou conhecido nos anos 60 como crítico literário, depois de deixar a Bulgária e se radicar em Paris. Nos últimos anos, escrevia sobre qualquer tema que lhe interessasse, o que é o sonho de todo intelectual atento ao que acontece em volta: política, história, literatura, filosofia... Como Zygmunt Bauman, que morreu há exatamente um mês, Todorov não se resguardava do debate público, o que em uma época tão atordoada quanto a nossa tornou-se ainda mais essencial. 

Se, como Umberto Eco escreveu pouco antes de morrer, a internet deu voz e ressonância aos idiotas, é preciso oferecer combate esclarecido (e incansável) às pós-verdades, às trolagens, às abobrinhas. Todorov, Bauman e Eco fizeram isso não apenas refletindo com clareza sobre os problemas da nossa época, mas comunicando-se com seus leitores por meio de uma linguagem acessível e apaixonada. Farão falta não apenas pelas ideias, mas pelo entusiasmo intelectual.

No livro Em Defesa do Iluminismo (2009), um dos meus preferidos, Todorov explica por que ainda se mantém fiel aos ideais que, no século 18, lançaram as bases daquilo que hoje conhecemos como democracia. O iluminismo, escreveu, não é um movimento que se encerrou no passado, no tempo das revoluções, mas uma atitude intelectual que se adapta a diferentes épocas e circunstâncias – sempre mantendo como norte a construção de uma sociedade mais aberta, mais justa, menos supersticiosa.

Diante de tantas opiniões que expressam desprezo pela justiça, pela democracia, pela ciência e pelo bom senso mais elementar, ser iluminista hoje é simplesmente não jogar a toalha. Que Todorov continue nos inspirando.



10 de fevereiro de 2017 | N° 18765
NÍLSON SOUZA | NÍLSON SOUZA

LEITURAS PARA O CORAÇÃO

De tanto ouvir comentários entusiasmados de minhas colegas de ofício, resolvi ler Elena Ferrante, a best-seller italiana que encanta multidões com a força, a sensibilidade e o talento de seus textos. Estou arrasado. Recém terminei o primeiro livro da chamada tetralogia napolitana e comecei a embalar no segundo, mas a minha sensação, neste estágio da leitura, é a de que todos os homens do planeta, desde o início dos tempos, são opressores, machistas, espancadores de mulheres e sem escrúpulos nos seus negócios e nas suas intimidades. Ok, a história da humanidade aponta para essa culpa original, da qual talvez nunca nos livraremos, mas precisa ficar batendo nessa tecla o tempo todo?

Antes que o fã-clube da escritora me crucifique, já vou dizendo que os livros são imperdíveis. A mulher – depois de ler A Amiga Genial não me restou qualquer dúvida de que se trata de uma mulher, ainda que exista uma controvérsia internacional sobre a verdadeira identidade do pseudônimo Ferrante – escreve com a habilidade de um encantador de serpentes. Mesmo os cérebros masculinos mais resistentes acabam capturados pelos diálogos inteligentes, pelas reflexões lúcidas e pelo estilo narrativo que contém uma surpresa em cada parágrafo.

A maior de todas para mim, creio que pessoal e intransferível, foi a constatação de que a história vivida pelas meninas de Nápoles, na infância e no ambiente escolar, se assemelhava muito ao enredo do primeiro livro que li na infância, Coração, do italiano Edmundo de Amicis, meu presente de “melhor companheiro” na quinta série do Grupo Escolar Dr. Ferreira de Abreu. 

Naqueles tempos remotos, o Rotary Club promovia uma eleição nas escolas e, apesar da minha timidez estratosférica, ou talvez por causa dela, até as meninas votaram em mim. Bom, o que interessa é que ganhei o livro de presente e fiz dele a minha leitura inesquecível. Nele, estão os mesmos sentimentos, preocupações, medos e desafios constatados em A Amiga Genial, só que contados sob a ótica masculina. Para comprovar a minha impressão, as próprias personagens de Ferrante também fazem uma referência à leitura de Coração.

São livros de épocas diferentes, que têm em comum a abordagem das virtudes e dos defeitos humanos – um com as tintas coloridas do romantismo, outro com o grafite implacável da realidade.


10 de fevereiro de 2017 | N° 18765 
DAVID COIMBRA

No torno, aos 10 anos de idade

O velho sapateiro Walter, aliás meu avô, tinha 10 anos de idade quando seu dedo indicador direito foi esmagado pelo torno de uma fábrica de sapatos, em Novo Hamburgo.

Ele não estava brincando no torno; estava trabalhando. O chefe o tirou da linha de produção, enrolou o dedo com um pano e o mandou para casa. O dedo do meu avô ficou torto para o resto da vida.

Uma vez, ele, que não era de vaidades, me disse que queria muito poder usar um anel. Perguntei-lhe:

– E por que não compra um, vô? Ele me mostrou o dedo em garra:

– E como vou usar um anel numa mão como essa? Era a sua segunda frustração. A primeira foi não ter conseguido estudar. Meu avô não completou a terceira série do primário. Mas lia sem parar, sobretudo jornais, e sabia muito de história, de futebol, de política. Possuía vocação intelectual.

Hoje, meu avô teria mais sorte. O mundo mudou para melhor, ele provavelmente não trabalharia numa fábrica aos 10 anos de idade e provavelmente estudaria numa escola pública, como estudei. Mas provavelmente não poderia fazer faculdade, como fiz. Porque, além de pobre, era branco. Não há quotas para brancos e pobres em faculdades.

É por isso que sou a favor de quotas. Para pobres de todas as cores. Universidade gratuita, só para pobre. Rico ou remediado, que pague. Inclusive na universidade pública.

Pensei no meu avô, na universidade que ele queria ter feito e nas quotas que não existem porque pensei no sistema que vige no Brasil: um curioso sistema de justiça compensatória.

A isso nos levou a desigualdade. Foi mais ou menos na época em que o meu avô teve o dedo esmigalhado, anos 1920, que descobrimos a desigualdade, no Brasil. Desde lá, tentamos corrigi-la. O problema é a nossa pressa.

Getúlio, na pressa de dar aos trabalhadores o que o meu avô não tinha, fraturou a democracia. A partir daquele momento, não paramos mais de nos atrapalhar e de empregar o mesmo padrão de compensação. O trabalhador brasileiro ganha mal, mas na Justiça do Trabalho ele vence sempre. 

O ensino público básico é ruim, mas o ingresso nas universidades é fácil. O salário do aposentado é baixo, mas ele para de trabalhar cedo. O empresário é amassado pelas taxas e pela burocracia, mas é aliviado por empréstimos amigos de bancos públicos. O empreiteiro tem que pagar propina para fazer a obra, mas superfatura na licitação.

Você reconhece o erro, admite-o de público, mas não o corrige: para se redimir, oferece uma contrapartida. É como o juiz de futebol que tenta consertar o erro na marcação de um pênalti com o erro na marcação de outro. Em vez de errar uma só vez, ele erra duas. Em vez de cumprir a lei, ele tenta fazer justiça.

Está tudo arrevesado. O que era para ser garantia virou chicana. A justiça compensatória, no fim, produz injustiça.

Meu avô teve a mão mutilada trabalhando aos 10 anos de idade. Aquele dedo nunca mais desentortou. Alguns defeitos de infância não são corrigidos jamais.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017



09 de fevereiro de 2017 | N° 18764
HISTÓRIAS DE VERANEIO | NÍLSON SOUZA

O som do mar

Quando vejo motoristas e veranistas se queixando de engarrafamento na freeway, penso nas primeiras viagens que fiz a Tramandaí, na pré-história da minha infância, lá pelos anos 1950. Era raro encontrar outro carro na estrada, mas levávamos um dia inteiro para completar o percurso pela ERS-030, hoje Estrada Velha. Saíamos de Porto Alegre antes de o dia clarear e só chegávamos ao litoral no fim da tarde.

O veículo da excursão familiar era uma caminhoneta Ford-38, furgão que meu pai utilizava para distribuir leite a domicílio. Naqueles tempos pretéritos, o leite era engarrafado. Engradados de ferro ou latão, com 10 litros, eram retirados pelos distribuidores no antigo Deal (Departamento Estadual de Abastecimento de Leite) e entregues de casa em casa, de apartamento em apartamento. Eu mesmo, numa época em que o trabalho infantil era obrigação e honra no ambiente familiar, ajudei algumas vezes na atividade que nos sustentava.

Pois a velha Ford, impulsionada a manivela e com um radiador insaciavelmente sedento, arrastava-se a uns 40 quilômetros por hora pela esburacada faixa asfáltica. Era uma estrada precária, parte ainda de terra, e tão estreita que, em certos trechos, o carro tinha de parar no acostamento para outro passar. 

Curiosamente, havia controle de velocidade: ao longo do caminho, tinha-se de parar nos chamados “destacamentos”, guaritas localizadas em pontos de referência onde o policial rodoviário preenchia um papel com o horário da passagem, para ser entregue e conferido no posto seguinte. Chegar antes do previsto dava multa, pois significava, na era pré-radar, que o sujeito correra demais. Contam meus parentes mais antigos que, certa vez, um velhinho chegou esbaforido no posto de Santo Antônio, com sua fubica (automóvel velho) fervendo, e foi logo reclamando para o fiscal:

– Bota um horário maior. Quase não consegui chegar a tempo.

Acampávamos na beira da praia, nas proximidades do antiguíssimo Hotel Siri, e dormíamos no próprio carro, em beliches improvisados com tábuas, que às vezes desabavam no meio da noite. Uma de nossas diversões de meninos era recolher conchinhas na areia. Tinha bastante. A história de Tramandaí conta que o lugar já foi chamado de Paragem das Conchas. Foi de lá que trouxemos uma dessas maiores, que se cola ao ouvido para captar o som do mar.

A explicação científica é desprovida de graça. O que se ouve, na verdade, é o som ambiente que a concha capta e potencializa. Dá para fazer o mesmo com uma xícara vazia posicionada sobre a orelha.

Mas a concha – asseguro-lhes – tem a propriedade de emitir o ruí- do das ondas de um modo muito especial, acrescentando à sensação auditiva as mais doces recordações da infância, potencializadas pela magia do mar.



09 de fevereiro de 2017 | N° 18764
O PRAZER DAS PALAVRAS | Cláudio Moreno

Fila indiana

A ETIMOLOGIA, campo fértil para a fantasia, sempre deve ser examinada com um pezinho atrás

A pergunta nos vem de Maria Amélia V., professora de Lajes, Santa Catarina: “Como leitora assídua de sua coluna, sou muito grata pelos ensinamentos que recebo. Quantas vezes paguei mico ao explicar em aula que a palavra aluno queria dizer “sem luz”! Depois que o senhor mostrou que não tem nada a ver com isso, comecei a desconfiar dessas explicações etimológicas que, como se diz na minha terra, andam na boca do povo. 

Meu problema agora é com a fila indiana; segundo um famoso pesquisador, Mário Souto Maior, a gente emprega esta expressão porque as filas surgiram há mais de cinco mil anos na Índia, onde os indianos tinham o costume de caminhar em filas, quando saíam de uma para outra região, numa espécie de êxodo. É isso mesmo? Está me parecendo – desculpe a expressão – uma pura forçação de barra”.

Prezada Maria Amélia, seja bem-vinda ao clube dos céticos! A etimologia, campo fértil para a fantasia, sempre deve ser examinada cum grano salis (que é a maneira elegante de dizer “com um pezinho atrás”). Deve haver aqui uma citação distorcida; não acredito que Souto Maior, um folclorista conhecido, tenha caído na tentação de situar a origem das filas na Índia apenas para combinar com a fila indiana (e os chineses? e os egípcios? e os sumérios?). Na verdade, o adjetivo indiano, aqui, se refere aos indígenas das Américas, como vamos ver.

A confusão, você sabe, começou com Cristóvão Colombo. Convicto da redondeza da Terra, levou suas naves numa linha reta através do Atlântico, certo de que fatalmente chegaria às Índias por uma rota diferente da habitual. Ao avistar terra firme na região das Bahamas, pensou ter chegado finalmente a seu objetivo e chamou de índios os nativos que vieram recebê-lo na praia. Esse era o termo usado, tanto no Português quanto no Espanhol, para designar os povos da Índia, como podemos ver nas Décadas, de João de Barros (1552): “detrás deste povo vinham dois elefantes adestrados por dois índios, que de cima deles, em modo de porteiros, faziam afastar a gente”.

Não por acaso, o Novo Mundo foi chamado, por muito tempo, de Índias Ocidentais. O idioma francês contribui, neste caso, com um exemplo curioso: juntamente com o tomate e a batata, as novas Índias apresentaram ao mundo gastronômico europeu uma ave de porte avantajado, ideal para banquetes: o peru, batizado pelos franceses de coq d’Inde (“galo da Índia”), que evoluiu para dindon, sua forma atual. É por isso, também, que muitos idiomas usam uma mesma palavra para designar tanto os nativos da América quanto os naturais da Índia: indian (Ing.), indien (Fr.), indio (Esp.).

Nossa língua, no entanto, criou desde cedo a variante indiano, que podia ser usada como sinônimo de índio até o séc. 19: “O cristão adormeceu ouvindo suspirar, entre os murmúrios da floresta, o canto mavioso da virgem indiana” (Alencar); “A aparição de Gonçalves Dias chamou a atenção das musas brasileiras para a história e os costumes indianos” (Machado de Assis). 

A fila indiana, portanto, (indian file no Ing., file indienne no Fr.) seria a forma de se deslocar em grupo pelas trilhas estreitas do novo continente, que ainda tinha intacta toda sua vegetação primitiva. Esse tipo de formação, que obedecia a uma hierarquia de experiência e importância, era também adotado pelas famílias coloniais, como se pode ver nas pitorescas gravuras de Rugendas.



09 de fevereiro de 2017 | N° 18764 
DAVID COIMBRA

Código de Conduta para Brasileiros nos Estados Unidos

Primeiro capítulo do Código de Conduta para Brasileiros nos Estados Unidos.

Antes de tudo, cabe uma explicação sobre o que é o Código de Conduta para Brasileiros nos Estados Unidos. O Código de Conduta para Brasileiros nos Estados Unidos é exatamente isso: um código de conduta para brasileiros nos Estados Unidos.

Feito esse indispensável esclarecimento, vamos ao ponto 1.

1. A Pizza.

Americano adora pizza, embora a pizza deles não seja tão boa quanto a nossa. A nossa vem cheia de coisa em cima. Às vezes, reconheço, até demais.

Aliás, deixe-me aproveitar para protestar contra certas barbaridades, como pizza de chocolate branco. Por favor! Não estraguemos a pizza nem o chocolate branco.

Outra: pizzas com quatro, cinco ou até seis queijos. É ridículo. Mistura o sabor dos queijos. Um só basta. Além do mais, suspeito que esse negócio de quatro queijos seja mentira. Os caras botam um queijo e dizem que tem quatro lá. Quem vai saber a diferença? Queijo tem tudo gosto de queijo.

Já a pizza americana é mais próxima da italiana, que, essa sim, é minimalista.

Mas isso realmente não importa. Importa é como os americanos comem a pizza: com as mãos nuas. Quer dizer: eles não usam talheres. Parece meio anti-higiênico, mas é prático. É que pizza é um troço difícil de cortar com a faca. Ela é meio elástica, melhor arrancar pedaços com os dentes, como o leão faz com a coxa do gnu.

Então, proceda como recomendam os médicos e as boas maneiras: lave as mãos antes das refeições e pegue seu pedaço de pizza com os dedos, feito macho.

Porém, há um porém. Se você for a Chicago, não deixe de comer a pizza da tradicional Pizzaria Uno. Eles criaram o que chamam de “deep dish pizza”, que, em livre tradução, seria uma pizza em prato fundo. A massa dessa iguaria de Chicago tem três dedos de altura, é crocante nas bordas e bem temperada no centro. Uma delícia. Que se come com garfo e faca.

Ou seja: se você for muito delicado e cismar que tem de comer pizza com talheres, vá para Chicago.

Aliás, o ponto 2 do nosso Código de Conduta tem a ver com hábitos de higiene, também. Eis:

2. A Escovação de Dentes.

O brasileiro escova muito mais os dentes do que o americano. Americano escova, basicamente, duas vezes: depois de acordar e antes de dormir. O saudável costume que temos de levar escova de dentes para o trabalho e fazer higiene bucal após cada refeição é considerado esquisito pelos americanos.

Isso me lembra de uma vez em que, depois de traçar uma espiral de coco com café preto no bar da redação, entrei no banheiro com minha escova em punho. O Paulo Sant’Ana estava lá e, ao me ver, comentou:

– Essa nova geração escova os dentes...

Achei engraçado. Na verdade, seria exatamente isso que os americanos diriam, se me vissem naquele momento. O Sant’Ana se daria bem nos Estados Unidos.

Oportunamente, publicarei mais capítulos do nosso Código. Aguarde.


09 de fevereiro de 2017 | N° 18764 
L.F. VERISSIMO

“Football”

O futebol americano já foi descrito como rúgbi para moças. O rúgbi é mais violento do que o football e é jogado sem nenhuma proteção, em contraste com os capacetes, as máscaras de ferro e os outros protetores usados pelos americanos. A comparação é injusta: apesar de toda a proteção, há mais lesionados no football do que no rúgbi. 

É raro ver-se um jogador de rúgbi sendo atendido no campo ou saindo de campo amparado, como é comum no football. Existe até um movimento para acabar com o football nos Estados Unidos, tantos são os casos de contusão cerebral de jogadores. Um movimento que, claro, não prosperará enquanto se repetirem espetáculos sensacionais como o do último Super Bowl.

A relativa ausência de mortos e feridos entre seus praticantes é um dos mistérios do rúgbi. O maior mistério, para mim, é a definição de falta num esporte em que, aparentemente, vale tudo. Dizem que, num jogo de rúgbi, o juiz só apita falta se, além de derrubar, soquear e chutar um adversário, o jogador também insultar a sua mãe. No futebol americano, também é difícil entender o que vale e o que não vale quando as linhas de ataque e defesa se chocam e se amontoam daquele jeito. Parece que, além de não insultar a mãe, não pode bolinar.

O quarterback, que comanda as ações do seu time, é uma espécie de idealização do homem americano, embora nem todos sejam bonitos e casados com a Gisele como o Tom Brady. Sua imagem é a de um intelectual orgânico, como o descreveria Gramsci se acompanhasse o football: um pensador arriscado a também ser derrubado mas sem medo de se sujar com a vida. 

Nos combates medievais, um grito que ecoava com frequência quando as coisas se complicavam era “Protejam o rei!”. No football também é assim: o time todo se mobiliza para proteger o rei. O rei é o quarterback. King Brady.

Curiosidades: os nomes de certos times de futebol americano têm ligação com a história ou a geografia dos lugares onde têm suas sedes. Os Patriots do Tom Brady têm este nome porque são da Nova Inglaterra, berço da guerra pela independência do país. Os Seahawks de Seattle se chamam Falcões do Mar porque Seattle é um importante porto no Pacífico. Já a explicação para o time de Baltimore se chamar Ravens, “Corvos”, é mais esotérica. Baltimore era a cidade de Edgar Allan Poe, cujo poema mais conhecido é O Corvo. Daí...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017



08 de fevereiro de 2017 | N° 18763 
MARTHA MEDEIROS

The Brothers

“O documentário faz a gente se reapaixonar pelos Beatles”, escutei alguém dizer, e eu que não estava pensando em assistir a Eight Days a Week por preguiça e presunção de que já sabia tudo, corri para o cinema e confirmo: sim, o documentário faz a gente se reapaixonar pelos Beatles sem remorso por estar chovendo no molhado.

Nada de fofocas, dramas, romances. O objetivo do filme é registrar as turnês da banda, desde os primeiros shows no Cavern Club, em Liverpool, até as apoteóticas apresentações nos maiores estádios do mundo, culminando com a última, em 1966, em San Francisco. Quatro meninos de 17 anos que começaram a tocar por diversão e que não pararam de se divertir nem mesmo quando se transformaram nos ícones absolutos da cultura pop. O segredo: convivência intensa, muita risada e o lema dos mosqueteiros: todos por um. 

A primeira providência de Brian Epstein, o classudo empresário da banda, foi mandar fazer ternos idênticos para John, Paul, George e Ringo, e dali por diante eles passaram a ser um só: “Um monstro de quatro cabeças”, como brincavam entre eles. Era um grude: dormiam sob o mesmo teto, faziam as refeições juntos e nada era decidido se os quatro não estivessem de acordo. Em meio a entrevistas, não perdiam a piada. O sucesso veio rápido e a gaiatice continuava. Era uma turma de colégio, uma gangue de rua: os The Beatles eram também The Brothers.

Até que o prazer deixou de ser essa coisa toda. Quando começaram a fazer shows colossais, não conseguiam mais escutar um ao outro no palco – cortesia do público gritante. Passaram a se sentir inseguros e cansados. Chegaram a fazer 90 cidades em 15 países numa única turnê. Sua juventude foi consumida pela beatlemania e um dia se viram adultos participando de um circo que não divertia mais: 

“Fecharam o boteco”, como diz um amigo, e voltaram para o estúdio, onde praticamente inventaram uma banda nova (ainda mais extraordinária) a partir do antológico álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. Só três anos depois do jejum de shows, é que voltaram a cantar em público, de surpresa, no terraço do prédio da Apple Records, em Londres, para alguns sortudos desavisados que estavam passando lá embaixo a caminho da padaria.

E foi seu réquiem: no mesmo ano, a banda se desfez.

Desfez em tese, porque é um fenômeno vitalício. Os Beatles não se pareciam com nada que havia surgido antes e jamais foram igualados depois, apesar das boas tentativas. A maior banda do planeta nunca teve mais do que dois roadies por show. Nada de telões. MTV. Redes sociais. Entraram para a História simplesmente pelo exagero de talento e carisma: sobrava para uma semana de oito dias. Faça de conta que não sabe nada disso e corra para o cinema para ter certeza outra vez.


08 de fevereiro de 2017 | N° 18763 
FÁBIO PRIKLADNICKI

VIVER DE CULTURA

Há uma ideia difundida no meio cultural de que a arte vive em uma espécie de ambiente isolado do mundo econômico. É uma posição coerente com a crítica ao capitalismo e ao establishment presente no discurso de muitos. Ao mesmo tempo, os diferentes atores do setor (criadores, produtores, técnicos etc.) batalham para que nunca sejam solicitados a fazer de graça a única coisa que têm para vender: sua obra. De fato, não há nada mais aviltante para um artista do que trabalhar de graça.

Sendo eu um interessado tanto pelos movimentos da arte quanto pela história das ideias econômicas (embora não com o mesmo grau de conhecimento de uma e de outra), fico intrigado com o desprezo de figuras do meio cultural pela forma como funcionam as finanças. É preocupante para a sustentabilidade de qualquer projeto. Entendo que isso tem a ver com o ideal de integridade segundo o qual um artista de verdade jamais deveria pautar sua obra por interesses econômicos – daí a desconfiança dos mais críticos com relação a best-sellers, blockbusters do cinema e estrelas da música pop.

Não proponho que nenhum artista abandone seus princípios, pois são o que temos de mais precioso. O que quero dizer é o seguinte: reconhecer que a arte se dá em um ambiente de trocas, e não em um vácuo idealizado, é um ponto de partida para se pensar a economia da cultura. É bom para todos os envolvidos que a arte movimente dinheiro, o que não quer dizer, de forma alguma, que se deva fazer qualquer coisa por dinheiro. Afinal de contas, os criadores – assim como nós, mortais – também precisam almoçar.

É necessário pensar nas cifras desde o primeiro dia de envolvimento com um projeto. O artista precisa de tempo para criar, o que deve ser viabilizado de alguma forma: com um adiantamento ou patrocínio, um segundo trabalho, um edital público ou privado, uma bolsa, uma reserva financeira. Se o projeto exigir financiamento mais polpudo (no caso de um filme, uma peça de teatro, uma exposição), será preciso captar recursos. Tudo isso requer conhecimento especializado. Se o artista não tiver isso, precisará contratar alguém que o tenha.

São ótimas as histórias sobre gênios incompreendidos que morreram na miséria e depois tiveram sua obra mundialmente reconhecida. Não acredito que alguém hoje almeje desfecho similar. O que querem os profissionais do setor é viver – e não apenas sobreviver – honestamente com seu trabalho, fazendo aquilo em que mais acreditam. Para isso, é preciso valorizar e entender a economia da cultura.


08 de fevereiro de 2017 | N° 18763 
DAVID COIMBRA

Que falta faz a hipocrisia

Somos tantos, 7 bilhões de seres humanos respirando debaixo do sol, graças ao polegar opositor e à hipocrisia. Não fosse a benfazeja hipocrisia, o mundo seria o sonho dos ecologistas: sem desenvolvimento, sem cidades, sem pessoas.

A hipocrisia salva.

A hipocrisia é o cimento da civilização.

Há quem diga que hipocrisia é falsidade. Talvez, mas prefiro um falso bonzinho a um verdadeiro malvado.

O hipócrita tem medo de ser malvado. Mesmo que o seja, mesmo que cultive os piores sentimentos, ele não os expressa, por receio da opinião das outras pessoas. Ele até sente vontade de praticar o mal, mas não o pratica. Por pudor. E isso, ao fim e ao cabo, é bom.

Poucas pessoas são tão desagradáveis quanto as sinceras. “Eu digo mesmo, digo na cara!”. Por favor. Acham que estão exercendo a honestidade, e na verdade estão sendo apenas grosseiras. Quer falar mal de mim, fale pelas minhas costas. Seja educado. Seja hipócrita.

O homem só deixa de ser saudavelmente hipócrita em duas situações: quando perde o medo ou quando tem medo demais.

Quando ele não sente mais medo do que os outros dirão dele, ele está pronto para cometer qualquer atrocidade. Os velhos já não se importam com o que os outros pensarão deles, e isso os libera para a grosseria.

O poder em excesso tem o mesmo efeito da idade em excesso: os bajuladores que cercam os poderosos nunca lhes dizem que eles estão sendo grotescos. Não é por acaso que os ditadores mais sanguinários são, em geral, figuras burlescas. Um homem que não teme a opinião alheia é um homem que não possui senso do ridículo.

Esse homem sem medo é terrivelmente perigoso. Mas o homem que sente medo também é, se for medo em demasia. Porque ele fará de tudo para se salvar do perigo que o assombra.

É o caso de Temer e de grande parte dos políticos brasileiros.

Hoje, eles têm mais medo de ir para a cadeia do que da opinião pública. Não sentem mais, portanto, a necessidade de se valer da dissimulação e da sutileza. Eles fazem o que tiverem de fazer para escapar.

Pensei que Temer, com suas pretensões de constitucionalista cordato, com aquele seu jeito de quem anda sempre de toga, daria valor às aparências e resistiria um pouco mais à pressão dos políticos em pânico.

Enganei-me. Nos últimos cinco dias, Temer nomeou Moreira Franco para o ministério com a evidente intenção de dar-lhe foro especial e indicou Alexandre de Moraes para o STF com a evidente intenção de contar com um aliado no momento em que ele, Temer, for delatado na Lava-Jato.

Esses dois movimentos são mais do que abertos: são escandalosos. Mostram que o medo da Justiça é maior do que o medo da opinião do próximo. Mostram que o terror venceu a hipocrisia.

Do que mais eles serão capazes para se salvar?

Tempos perigosos se aproximam.



08 de fevereiro de 2017 | N° 18763
ARTIGO - FERNANDO DE OLIVEIRA SOUZA*

DESINFORMAÇÃO OU MÁ INFORMAÇÃO?

Seguidamente me questiono sobre o que é pior: a desinformação ou a má informação.

Exemplifico com uma rotina atual de consultório: chega uma paciente feminina de meia-idade e, apontando para o lado esquerdo da porção alta do seu abdômen, me diz: “Doutor, estou com pedras na vesícula biliar e quero fazer uma ultrassonografia para confirmar o (meu) diagnóstico”.

Com toda a paciência do mundo, neste caso o paciente é o médico, pergunto a ela, mesmo já sabendo a resposta, de onde tirou essas informações, ao que ela me responde: “Da internet, é claro”.

Inicio dizendo que no site visitado de assuntos médicos para pacientes não deveria haver referências à anatomia do abdômen, visto que as manifestações clínicas de doença da vesícula biliar são sentidas na porção alta do lado direito do abdômen, e não no esquerdo, com irradiação para o dorso no mesmo lado.

É preciso, então, desconstruir a ideia preconcebida pela paciente que se “informa” de seus problemas na internet e vem para a consulta esperando que o médico referende seus achados.

Ora, circula muita informação pela rede, não há nem poderia haver um filtro de qualidade na divulgação dessas informações, havendo inclusive pessoas mal-intencionadas que se valem dessa ferramenta valiosíssima para divulgar conceitos errados propositadamente, com fins espúrios.

No caso de uma fonte honesta, como em vários sites de medicina, cabe ao médico interpretar os dados, porque somente ele pode tirar real proveito dessas informações.

Para o leigo, elas podem acabar mais confundindo do que ajudando.

Mesmo se tratando de um caminho sem volta, vamos deixar para o profissional os assuntos referentes à saúde, substituindo a internet por uma excelente relação médico-paciente, com confiança mútua e a segurança imprescindível para uma boa conduta.

Para o bem de todos.

Médico e professor universitário fsouza@via-rs.net

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017



07 de fevereiro de 2017 | N° 18762 
CARPINEJAR

Mãe que é mãe

Mãe que é mãe, mas mãe mesmo, diplomada e pós-graduada, tem que possuir uma receita de família e fazer charme para contar. Uma receita que herdou e agora é só dela. Uma receita caseira, inescrutável, que não passa para ninguém, que não anotou em livro nenhum, que muda de assunto na hora de entregar os ingredientes e o preparo aos filhos. Uma receita que permanece na tradição oral e que é capaz de mudar o mundo, o destino de um casamento, recuperar uma amizade, resolver a arenga entre judeus e palestinos, desfazer depressão e mau olhado.

É uma receita divina, de dar água na boca e também umedecer os olhos.

Pode ser uma sopa de tomate, uma pizza alta, um quibe, um arroz-doce. Quanto mais simples, maior a magia.

Sabe aquele pudim de claras perfeito? Tipo isso. Uma receita que a parentela inteira espera com suspense, que se transforma em presente de aniversário e coroação de datas festivas. Uma receita que não é feita sempre, que não é banalizada, mas só realizada depois de muito apelo e insistência.

E daí a mãe coloca o avental e fecha a porta da cozinha para ninguém observar. Só escutará o barulho das panelas e será envolvido pelo cheiro de baunilha escapando pelas frestas. Talvez a senha seja caramelar a fôrma. Talvez seja a batida dinâmica das claras para triplicar o tamanho. Talvez seja o pouso das claras batidas na fôrma com aquele estampido seco que anuncia o sucesso. Talvez. Não se sabe, ela não confessa, e todos ficam fantasiando o truque.

Uma receita que é a fórmula da Coca-Cola, que é o último segredo de Fátima, que é a profecia de Nostradamus, que a mãe promete um dia revelar ao filho e ele fica se comportando o resto da vida aguardando o instante de merecimento. Não duvide que aconteça somente no último suspiro, nas derradeiras palavras, quando o filho com caneta e caderninho à beira do leito de morte anota às pressas, torcendo para que ela tenha força para terminar a frase.

Mas não é qualquer pudim, mas O PUDIM, simétrico, escandalosamente bonito, com a calda escorrendo como a neve nas mais altas montanhas do Nepal. O pudim que sugere ter sido criado num feitiço, a ser medido com uma régua e esquadro, comprovando que os dois lados apresentam os mesmos centímetros de comprimento e de altura.

Mãe quando é mãe de verdade tem uma receita de estimação que não abre. Guardar o mistério é o que lhe confere o status de toda poderosa Nonna.



07 de fevereiro de 2017 | N° 18762
PERIMETRAL | Paulo Germano

UM BAR PARA 10 PEDINTES

Nove e meia da noite, na Lima com a República, a gente se abanca em uma mesa na rua e chega um engraxate. Ele não pede; ele exige, implora, suplica para engraxar minhas botas, só que minhas botas são de camurça, e aquele troço é para couro. Tento argumentar, ele mal me escuta, pede por favor, diz que tem fome, que tem filhos, que tem dores, que tem aids. Tá bem, dou-lhe R$ 5 e minhas botas viram lixo.

Nosso grupo retoma o papo, pede uma batata, mas uma mão distribuindo papelzinho interrompe: “Por favor, ajude minha família a continuar tendo onde morar. Que o desejo de ajudar o próximo vença o egoísmo e a falta de esperança no ser humano”. Tenho esperança no ser humano: dou mais cinco para o guri surdo.

Em seguida chega ela. Não pesa mais de 40 quilos, vive zanzando por ali, a cara chupada e roída pelo crack. Todos negam esmola, ela pede um pedaço de torrada e meu amigo dá.

– Sai daqui, ô demônio! – é o garçom que grita com ela.

– Vai tomar no rabo! – ela rebate, pega a comida e vai embora.

Outro pedinte vem de cadeira de rodas, outro entrega uma oração de Nossa Senhora da Conceição, um terceiro pede cigarro, um quarto chora ao falar da filha – em duas horas, recebemos 10 deles, um a cada 12 minutos. Na hora de ir embora, esqueço que, ao engraxar as botas, eu havia deixado no chão, equilibrada entre a mesa e a parede, minha pasta com documentos, cartões, notas fiscais e algum dinheiro.

Voltei ao bar no outro dia. Nada. Escrevo este texto na fila do Tudo Fácil, ainda sonhando com a “esperança no ser humano”, como pedia o papelzinho.

A CARA DA RUA
"O bom de morar na escadaria é que todo mundo se conhece, a gente senta no degrau e toma chimarrão. Mas já pensou numa ambulância chegando aqui? Minha avó, antes de morrer, tinha de ser carregada num cobertor. Querida... Lembro dela na janela, em dia de chuva, esperando alguém cair. Aqui sempre cai alguém em dia de chuva."

Cláudia de Azevedo, moradora de um prédio junto à escadaria da Rua 24 de Maio

PRECISO DE TI, LEITOR DAQUI 

Esta coluna quer mostrar uma Porto Alegre que nem sempre a gente vê, mas também entender melhor a Porto Alegre que a gente está careca de ver. Dos cafundós aos personagens, das belezas aos horrores, só há um jeito de apresentar tudo isso: junto com quem vive aqui. Me ajuda, leitor, me escreve, me sugere, me critica e me abre os olhos. Nunca fez tanto sentido o tal do tamojunto.

32 buracos em 90 metros de asfalto – mais de um a cada três metros – é o pavoroso cenário da Assis Brasil nas proximidades do Terminal Triângulo

POR TRÁS DO CARTAZ

Quem atende é a mãe de santo Jussara Gomes:

– O que eu faço é trabalho de amarração com as sete pombagiras. Para eu entender o problema da pessoa, tem a consulta de tarô, que é R$ 50. Às vezes, não tem solução, aí nem adianta fazer nada. Se eu vejo solução, peço para o cliente comprar o material: velas, rosas, bebida e cigarro. Ele me paga mais R$ 100 depois do resultado, que é sempre garantido.



07 de fevereiro de 2017 | N° 18762
EDITORIAIS

A POLITIZAÇÃO DO STF

Depois de receber mais de 50 sugestões de nomes, o presidente Michel Temer decidiu indicar o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, para a vaga de Teori Zavascki no Supremo Tribunal Federal. É uma indicação preocupante, pois significa a troca de um magistrado técnico e discreto por um político no momento em que a Corte Suprema está sendo demandada a julgar exatamente parlamentares e governantes citados pela Operação Lava-Jato.

Ainda que tenha conhecimento jurídico suficiente para o exercício da função, Alexandre de Moraes terá que enfrentar a desconfiança gerada pela sua filiação partidária ao PSDB e também a contradição decorrente de sua tese de doutorado na Faculdade de Direito da USP. Na ocasião, Moraes defendeu o veto de candidatos ao Supremo que tivessem exercido ou estivessem exercendo cargo de confiança na administração do presidente da República responsável pela indicação. É exatamente o seu caso neste momento.

Há resistências a Alexandre Moraes também no âmbito da Operação Lava-Jato. Embora não deva atuar diretamente no caso, pois a relatoria ficou com o ministro Edson Fachin, o indicado para o lugar de Teori poderá desequilibrar a visão da Corte sobre a execução provisória de pena após a condenação em segunda instância. 

Zavascki estava entre os seis votos favoráveis, contra cinco ministros que defendiam a liberdade de condenados antes do trânsito em julgado, isto é, antes de se esgotarem todos os recursos. As condenações provisórias, como se sabe, têm sido um dos trunfos da Lava-Jato para obter delações premiadas e dar efetividade à investigação.

Todos esses pontos deveriam ser considerados pelo presidente da República na indicação do novo ministro do STF.
07 de fevereiro de 2017 | N° 18762 
DAVID COIMBRA

O Brasil em perigo

Recebi mais de 200 mensagens dos admiradores de Bolsonaro insultando-me porque falei mal do ídolo deles.

Isso me deixa preocupado. Não os insultos: a admiração por Bolsonaro.

Trump elegeu-se presidente dos Estados Unidos. Trump é um troglodita, mas, perto de Bolsonaro, transforma-se em sócio de clube de cavalheiros ingleses, com cachimbo e pince-nez. Trump tem o mérito de ser um vencedor. É um bilionário, sabe ganhar dinheiro, conhece os negócios e os homens de negócios.

Bolsonaro, não. Bolsonaro é apenas um homem grosseiro.

O medo do terror fez Trump crescer nos Estados Unidos. O medo da violência urbana faz Bolsonaro crescer no Brasil.

O medo arranca o pior dos seres humanos.

Tanto Bolsonaro quanto Trump se cevam na rejeição à vigilância moral dos politicamente corretos. É um erro terrível. Se você não gosta do politicamente correto, não significa que tenha de ser politicamente incorreto.

As pessoas estão fazendo confusão.

Você pode criticar as novas feministas, os movimentos negros e as entidades de defesa LGBTs, mas você não pode desrespeitar as mulheres, discriminar os negros e ter preconceito contra os homossexuais.

Você pode criticar o PT e a atuação dos sindicatos, mas não pode deixar de entender as necessidades dos trabalhadores.

Defender os direitos humanos não é defender bandidos – é, apenas, defender os direitos humanos, que são os SEUS direitos, leitor.

A violência não aumentou porque acabou a ditadura, até porque a atenção dos generais não estava voltada para a violência urbana e sim para a guerrilha urbana. Alguns dos países mais violentos do mundo são ditaduras, como o Congo e a Venezuela.

Houve e há militares inteligentíssimos. Golbery do Couto e Silva e Castelo Branco são exemplos ilustres que você tira de dentro do ventre da ditadura brasileira. Bolsonaro não é um deles. Bolsonaro não tem nada de inteligente. Nada. O problema de Bolsonaro não é ser militar. O problema de Bolsonaro é ser Bolsonaro.

Trump não foi levado a sério nos Estados Unidos, e hoje está assombrando a Casa Branca.

Bolsonaro tem de ser levado a sério no Brasil, antes que seja tarde.

Cara de pau


A delação da Odebrecht vem aí. Poucos políticos restarão sem mancha. Eles sabem disso e estão se movimentando para tentar se salvar. A indicação de Alexandre de Moraes para a vaga do STF faz parte desse movimento.


O medo da Justiça está tirando de Temer até a sutileza. Indicar um ministro do seu governo para o tribunal que provavelmente o julgará é mais do que falta de ética: é desfaçatez. Ou, em linguagem popular, uma tremenda cara de pau.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O voo mais longo do mundo chega à Nova Zelândia

Trajeto de mais de 14.500 quilômetros foi feito em 16 horas e 23 minutos.(Crédito: Reprodução)
Aterrissou nesta segunda-feira (6) na Nova Zelândia o voo comercial mais longo do mundo. Operado pela Qatar Airways, o Boeing 777-200LR fez o trajeto de mais de 14.500 quilômetros entre Doha (Qatar) e Auckland, em 16 horas e 23 minutos. “Oficialmente pousamos em Auckland”, escreveu a companhia aérea no Twitter, celebrando a primeira chegada do recém-lançado voo cinco minutos antes do horário planejado.
Havia quatro pilotos a bordo e 15 comissários, que, segundo a companhia aérea, serviram 1.100 xícaras de chá, 2 mil bebidas geladas e 1.036 refeições.
Antes, o voo comercial mais longo, operado desde março do ano passado, era o da Emirates Airlines entre Dubai e Auckland, compreendendo um trajeto de 14.200 quilômetros. (AG)

06 de fevereiro de 2017 | N° 18761
CAMPO ABERTO | Gisele Loeblein

VENDAS ACELERADAS A PARTIR DAS FEIRAS

Começa hoje, com a Show Rural Coopavel, no Paraná, a temporada de negócios para a indústria de máquinas e implementos agrícolas. Neste ano, o clima volta a ser de otimismo, depois de um 2016 em que as vendas do primeiro semestre foram contaminadas pela crise econômica, pela instabilidade política e pelas incertezas sobre a liberação de recursos. O setor sinalizou ao governo federal a necessidade de R$ 1,5 bilhão extra para a linha do Moderfrota. E a resposta vinda do Ministério da Agricultura é de que, se houver demanda, será possível colocar mais dinheiro no circuito. Se for o sugerido, elevaria para R$ 9 bilhões a quantia disponibilizada inicialmente, foram R$ 5 bilhões, depois mais R$ 2,5 bilhões.

Com isso, a expectativa para as feiras é grande. Claudio Bier, presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas do Rio Grande do Sul (Simers), estima que os negócios na Expodireto-Cotrijal, que ocorre em Não-Me-Toque de 6 a 10 de março, recuperem as perdas registradas no ano passado, crescendo de 12% a 13%. Isso inclui a comercialização de pivôs para irrigação.

– Nossa expectativa é muito favorável. O ciclo começa com a Show Rural e termina com a Expointer. Na Expodireto, a estimativa é voltar aos patamares de 2013, 2014, com crescimento entre 20% e 25% – projeta Siegfried Kwast, diretor-superintendente da Fockink.

Na área de máquinas, a New Holland trabalha com perspectiva de crescimento de 15% a 20% na comercialização em 2017. Alexandre Blasi, diretor mercado Brasil da marca, lembra que há uma conjunção de fatores positivos no momento: clima estável, dólar mais previsível, preços das commodities em bom patamar e dinheiro disponível para as aquisições. Isso tudo depois de uma virada positiva nos negócios no segundo semestre de 2016 – ante um primeiro semestre ruim, de vendas restritas, afetadas pelo clima político-econômico.

– Além disso, depois do boom de vendas de 2012, 2013, se passaram quatro anos. Já há produtores com necessidade de troca de equipamentos – acrescenta Blasi, que aponta a Show Rural como um termômetro para o setor.

Gerente de vendas da Massey Ferguson, Leonel Oliveira também estima uma sequência de bons negócios, iniciada no segundo semestre do ano passado. Para 2017, projeta de 8% a 10% de crescimento do mercado total de máquinas. E sobre a relevância das feiras, comenta:

– A gente faz uma leitura mais precisa do mercado nos eventos. A fábrica vai, fala com um grande número de clientes.

O consumidor pode preparar o brinde: 2017 deve ser um ano de estabilidade nos preços de derivados da uva, como vinhos e sucos. É que para recuperar o terreno perdido no ano passado, o setor não tem mais espaço para aumento no valor do produto e para impostos. Essa foi a tônica do discurso de Dirceu Scottá, presidente do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), na cerimônia de abertura da colheita da safra deste ano, realizada no sábado na propriedade da família Barbieri, em Monte Belo do Sul. O governador José Ivo Sartori participou do evento (leia mais na página 8).

– O mercado não suporta nenhum repasse de preço. A prova disso é que o crescimento de importados foi sobre os vinhos de menor valor – afirma Scottá.

Em 2016, houve recuo de 18% na venda de produtos vitivinícolas brasileiros. Reflexo de uma conjuntura que começou com a quebra de 57% no volume produzido, o que reduziu a oferta. Os problemas continuaram com alta de custos, impacto da mudança na cobrança do IPI – que em 2015 passou a ser de 10% –, aumento de ICMS e diminuição do poder aquisitivo dos compradores.

Para este ano, a expectativa é de crescimento nas vendas ou, no mínimo, recuperação do patamar de 2015. Nos parreirais, a retomada ocorreu. A safra poderá chegar perto de 700 milhões de quilos neste ano.

– Temos um cenário bem favorável para esta safra de uva – confirma Ernani Polo, secretário da Agricultura. EM CLIMA DE RECUPERAÇÃO

PREÇOS MAIORES NO ÍNDICE DA FAO

O índice de preços dos alimentos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) fechou em janeiro com o maior nível em quase dois anos: 173,8 pontos, alta de 16,4 pontos na comparação com igual mês de 2016. Os valores de cereais também cresceram, 3,4 pontos, chegando ao maior nível em seis meses, com aumento em trigo, milho e arroz.

Os mercados de trigo reagiram a condições climáticas desfavoráveis e a uma área plantada menor nos EUA, enquanto os preços mais altos de milho refletiram forte demanda e perspectiva incerta para a safra da América do Sul.

NO RADAR

DEVE SER concluída até o dia 15 a avaliação de seis unidades que a Companhia Estadual de Silos e Armazéns pretende vender. Quando a direção estiver com os valores, a estimativa é de que o edital saia em duas semanas. Estão na lista inicial Santa Rosa, Júlio de Castilhos, Cruz Alta, Nova Prata, Passo Fundo e Santa Bárbara.

EM OUTRO MOMENTO

Uma das primeiras emendas a serem apresentadas na comissão especial que analisará o projeto de emenda à Constituição (PEC) 287, sobre a reforma da Previdência, deverá ser para excluir o segurado especial do pacote.

A ideia é deixar a categoria do trabalhador rural de fora das mudanças, discutindo sua situação em um outro momento, explica o deputado federal Heitor Schuch (PSB-RS). O parlamentar diz que seu nome foi assegurado pela líder do partido como integrante da comissão.

Hoje, a reforma previdenciária é um dos assuntos do encontro de dirigentes da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado (Fetag-RS), com a bancada federal. O tema também será discutido na Expodireto, em audiência da Comissão de Agricultura proposta pela senadora Ana Amélia (PP-RS), dia 10 de março.

O RIO GRANDE DO SUL PASSARÁ A FAZER PARTE DO COMITÊ GESTOR INTERMINISTERIAL DE SEGURO RURAL. CONFORME RESOLUÇÃO PUBLICADA NO ÚLTIMO DIA 31, UM REPRESENTANTE DA SECRETARIA DA AGRICULTURA DO ESTADO IRÁ INTEGRAR O GRUPO.


06 de fevereiro de 2017 | N° 18761 
DAVID COIMBRA

Viva o povo brasileiro

Vou defender o povo brasileiro. Muita gente fala mal do povo brasileiro, ninguém mais do que os brasileiros.

Agora mesmo, queriam que o povo brasileiro saísse às ruas para protestar contra a nomeação de Moreira Franco como ministro. “Saíram aos milhões para protestar contra a nomeação do Lula”, argumentaram os detratores, “e ambos são investigados pela Justiça. Por que um e não outro?”

Por quê? Imagine 6 milhões de pessoas nas ruas protestando contra o Moreira Franco, como protestaram contra Dilma e Lula. Seis milhões de seres humanos saindo de suas casas, mudando a rotina do seu dia, vestindo roupas amarelas, se esgoelando nas avenidas por causa DO MOREIRA FRANCO.

Por favor. As pessoas têm mais o que fazer.

Houve quem não entendesse o que o povo brasileiro gritou, vestido de amarelo: ERA O PT, COMPREENDEU?

O PT! O PT era o problema.

Roubo sempre houve, certo, mas não sistemático, não com a apropriação do Estado, não com a arrogância de dizer que se está roubando para dar aos pobres, esse Robin Wood de cinquenta centavos. Foi o PT que instrumentalizou a sociedade, o PT que cooptou sindicatos, universidades, escolas, ONGs e até a Igreja.

Você viu o bispo emérito de Blumenau fazendo o sermão fúnebre de Marisa Letícia? O homem usou o sepultamento para criticar o governo Temer! Lula fazer política no enterro da mulher, tudo bem. Lula, só o que fez na vida foi política. Mas um padre, no momento de encomendar o corpo??? Só o PT teve essa extensão e esse poder.

O povo brasileiro vestido de amarelo nas ruas derrubou não apenas um governo corrupto: derrubou um governo arrogante, que se achava no direito de tutelar o país na suposta defesa de quem ele, governo, elegia como oprimido.

Isso é que era insuportável.

E cada vez que um petista cacareja que foi golpe acrescenta um grama de repugnância a quem já não suportava mais tanta prepotência, e cada vez que alguém fala em “casa-grande e senzala” acrescenta um quilo de certeza de que foi um acerto o banimento do PT.

A corrupção dessa reba que herdou o poder, Temer et caterva? Disso a Justiça se encarregará, e o está fazendo muito bem.

Outro dia, falava com uma amiga americana sobre o Brasil, e lhe disse: aquele que foi o sétimo homem mais rico do mundo, Eike Batista, está na cadeia; o chefe de um clã histórico do empresariado, Marcelo Odebrecht, está na cadeia; políticos poderosos e influentes, como Palocci, Dirceu e Cunha, estão na cadeia; alguns ex-presidentes da República estão tremendo de medo de ir para a cadeia. Que país do mundo é capaz de fazer isso? Onde algum dia se fez isso?

A Operação Mãos Limpas, na Itália, gorou no final. Banqueiros americanos patrocinaram uma crise mundial, em 2008, e estão todos livres e felizes. Na Alemanha, multinacionais admitem corrupção e seus executivos pouco são incomodados.

Em que país o presidente da Câmara sai da tribuna para a cela?

Onde as instituições têm tamanha consistência para se sobrepor ao dinheiro e à política?

No Brasil, e só no Brasil.

O brasileiro está de parabéns, portanto. É um momento de sofrimento, mas, acredite, vai passar, e, depois que passar, tudo vai ficar melhor.

Estamos crescendo. Mas já somos grandes. Somos muito grandes.

Viva o povo brasileiro! Viva você!

Só não vá estragar tudo votando no Bolsonaro.

O culpado ...Petistas dizem que o AVC de Marisa Letícia foi causado pela Lava-Jato.

É possível.

Mas ela tinha o aneurisma há 10 anos. Ou seja: é coisa de 2007. Qual foi seu causador, naquela época? Terá sido o mensalão? Então, o assassino não é Moro, é Joaquim Barbosa.

Ou será que foi alguma incomodação matrimonial, a descoberta de uma aventura do marido, por exemplo? Aí, Lula é que é o culpado.

É preciso fazer uma investigação a respeito. Aliás, há outros crimes semelhantes sem apuração, por aí.

A preocupação dos 12,3 milhões de desempregados do Brasil certamente está produzindo doenças. Em quem botaremos a culpa por isso?


06 de fevereiro de 2017 | N° 18761 
EDITORIAIS

CRESCIMENTO COM ÉTICA

Com a eleição de aliados para a presidência nas duas casas legislativas e a oposição parlamentar visivelmente fracionada, o governo Temer reúne neste segundo mês do ano as melhores condições políticas para implementar reformas estruturais necessárias à superação da crise e ao crescimento sustentável. 

O próprio mercado já percebeu esta calmaria, como comprovam a recuperação da bolsa, a queda do dólar e a perspectiva crescente de controle da inflação. Neste contexto, o Planalto deve anunciar nesta semana a ampliação de crédito para o programa Minha Casa Minha Vida e para outros empreendimentos imobiliários, consciente de que esse setor costuma ser um indutor da geração de empregos.

Há, porém, uma nuvem escura no horizonte da pacificação política: a continuidade da Operação Lava-Jato. É inequívoco que os brasileiros querem a reforma que devolverá solidez à Previdência, assim como o crescimento econômico e a urgente geração de novos postos de trabalho. Mas a sociedade não abre mão da depuração ética representada pela punição dos responsáveis pelo maior escândalo de corrupção da história do país.

É ilusório pensar que o abraço entre políticos adversários num momento de comoção emocional, como ocorreu recentemente entre Michel Temer, Fernando Henrique e Lula, tem abrangência para garantir harmonia política no enfrentamento dos grandes problemas nacionais. Na verdade, o único ponto em comum entre as principais forças políticas do país, representadas pelos partidos de maior expressão, é o desejo inconfesso de esvaziamento da Lava-Jato, que atinge igualmente governistas e oposicionistas. Mas, depois de verem corruptos e corruptores poderosos encarcerados, os brasileiros não aceitam mais retrocessos éticos. Exigem, porque têm direito a isso, um país próspero, igualitário e com justiça social.

A MORTE DA PROFESSORA

Além de se constituir em dor incomensurável para familiares, amigos, colegas de escola e alunos, a morte brutal da professora Maria Francisca Elias, causada por bala perdida num tiroteio entre criminosos e policiais no último sábado, em Gravataí, evidencia mais uma vez que homicídios e execuções não ocorrem apenas entre delinquentes. Os cidadãos inocentes são, sim, as maiores vítimas do descalabro na segurança pública no Estado e no país.

Ainda que a indignação leve as pessoas a também “atirar” acusações para todos os lados, responsabilizando autoridades e políticos, a verdade é que existem culpados pelo absurdo, que precisam ser identificados e punidos. Não é possível que cidadãos comuns não possam passear numa tarde de sábado sem correr risco de vida.

Evidentemente, os principais causadores da barbárie que vitimou Tia Chica são os delinquentes, que cometem todo tipo de atrocidades e raramente são punidos como merecem, devido às conhecidas deficiências do sistema judiciário/prisional brasileiro. Ainda assim, também é importante conferir a atuação dos policiais envolvidos na operação, que, além da coragem e da presteza que demonstraram no atendimento da ocorrência, precisam ter também a perícia exigida para a profissão. 

Mais do que apontar o responsável pelo tiro fatal, a investigação do episódio da Morada do Vale deve ser direcionada para procedimentos preventivos a serem adotados em outros casos semelhantes, sempre no sentido de aumentar a proteção da população.