segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017


06 de fevereiro de 2017 | N° 18761
L.F. VERISSIMO

Dos muros


Os muros de Jericó, nos conta a Bíblia, caíram depois de um sítio de sete dias. Os israelitas, após a fuga do Egito e os 40 anos no deserto, invadiram a cidade do vale do Rio Jordão, desprotegida com a queda da sua fortificação. Os muros de Jericó ficaram na história bíblica como um exemplo do poder da fé, pois foram as preces e as encantações dos sitiantes, além das cornetas, que os destruíram. Ou seja, os muros de Jericó foram derrubados, literalmente, no grito.

Não há paralelo possível entre os muros de Jericó e outros muros famosos, como o Muro de Berlim. No caso deste, o governo comunista da Alemanha Oriental justificava a existência da excrescência como uma maneira de segurar cidadãos para os quais o Estado assegurava educação e saúde mas não resistiam ao apelo do outro lado, ainda mais que Berlim Oriental era um lugar lúgubre e Berlim Ocidental uma vitrine para o que o capitalismo tem de mais chamativo. 

Onde é que entra a comparação com os muros de Jericó? O Muro de Berlim também caiu no grito. Não resistiu ao clamor internacional pela sua destruição. E, certamente, a algumas preces também.

A grande muralha da China foi construída para proteger o império chinês de incursões de tribos inimigas. Sua construção começou há 2 mil anos e não se sabe se um dia cumpriu seu objetivo militar ou apenas sua função como limite do insular Reinado do Meio, um símbolo do seu distanciamento do resto do mundo. A grande muralha da China não foi destruída. Pior, virou atração turística.

Israel, esquecendo-se de Jericó, construiu um muro para separá-lo de territórios palestinos e também está sendo muito criticado por isto, embora não se espere que ceda ao clamor crescente tão cedo. E temos o muro proposto por Trump para impedir a entrada de mexicanos e centro-americanos nos Estados Unidos. O mais importante do muro do Trump não é o muro, é o clamor contra o muro. Que talvez não impeça a sua criação, mas pode levar a uma revolta – junto com as outras barbaridades propostas por Trump – que o faça repensar tudo, inclusive seu penteado.

As cornetas já começaram.

sábado, 4 de fevereiro de 2017



04 de fevereiro de 2017 | N° 18760 
LYA LUFT

O grande silêncio da morte

Há coisas que fazem emergir o pior de alguns seres humanos, aprendi cedo com meu pai. Separação, sucesso, doença, morte e inventário. Já observei em casos de separação pessoas que um dia se amaram, tiveram sonhos e filhos, construíram uma vida, portando-se uma em relação à outra com raiva, rancor e até ódio, usando os filhos para se vingar, acusando de ações absurdas, com uma mesquinhez inacreditável em tempos normais. 

Já vi pessoas ricas brigando num inventário por um móvel velho (não antigo, velho mesmo), ao qual nunca deram atenção antes, ou buscando lograr uns aos outros. Já vi amizades ou relações profissionais terminadas quando um dos membros tem um sucesso ou nova felicidade. A esta altura da vida, já vi muitas coisas belas ou horrendas ou medíocres. Enfim, dizem, é a vida. Será?

Quero deixar claro aqui que não tenho partido político, pois de momento nenhum me seduz. Observo, analiso, procuro o mais decente ou confiável.

Vamos ao assunto: não conheci Marisa Letícia pessoalmente. Mesmo se conhecesse, dificilmente este seria o momento de julgar. Me impressionam manifestações de ódio sobretudo em redes sociais.

Parece que foi uma mulher bastante comum, vários filhos, família. Casada com o Lula, foi bastante apagada em público. Ainda que fosse uma megera corrupta, quase me assustam os que dizem que nem deveria ter sido atendida, mas morrer logo “para que o Capeta a abraçasse na hora”. Ou os que incitam a matar Sergio Moro como vingança.

Acontece que uma pessoa morreu, uma mulher de mais de sessenta anos, com filhos e netos.

Não se deve canonizar cinicamente os mortos nem condenar quem já se foi. O que dentro de nós é tão violento? Os mortos se foram pela vereda de mistério e sombra que nos intriga e nos faz pensar – ou ao menos deveria. Por um instante quem sabe podemos suspender juízos e indignação, até a justa, calar as acusações e abrir o ouvido da nossa alma para o tremendo silêncio da morte, solene e soturno. 

Dá medo, por isso evitamos esse silêncio, não queremos nada com o assunto, ou, como dizia um querido amigo que já se foi, “enquanto eu só acompanhar o cortejo, tudo bem”. Quando se abre a ferida da perda, por vezes incurável, talvez deixando para sempre uma dolorosa cicatriz, temos o susto da própria fragilidade: e eu, quando?

Talvez por isso, sem saber, muitos reajam de maneira quase implacável, embora sejam boas pessoas. Deixem Marisa Letícia descansar em paz quando terminar seu périplo de morte nunca bem confirmada. Que Deus a tenha e aquiete nossas emoções menos generosas. Depois poderemos brandir de novo o nosso arsenal de julgamentos e condenações


04 de fevereiro de 2017 | N° 18760 
MARTHA MEDEIROS

Desculpe por chorar

Quando alguém chora à minha frente, pareço uma pateta, não sei se abraço, se finjo que não está acontecendo nada, se começo a chorar também. Quase sempre começo a chorar também

Era janeiro e fazia muito calor. O Instituto Ling recém havia sido inaugurado e eu estava excitada para conhecer um dos pontos culturais mais bacanas de Porto Alegre, então fui até lá para assistir a Ayres Potthoff (flauta), Daniel Wolff (violão) e Rodrigo Alquatti (cello) no show Beatles em Concerto, num fim de tarde sofisticado, divertido e musicalmente impecável. Tudo sob a chancela do Porto Verão Alegre, esse mesmo que segue firme e forte.

Pois bem. Durante o espetáculo, um dos integrantes pediu licença para abrir um parêntese naquela playlist de sucessos dos Fab Four. Ele queria tocar uma música que seu pai, recentemente falecido, havia composto. Diante do consentimento da plateia, pediu: “Vou tentar tocá-la até o fim, mas me perdoem caso eu me emocione”. E tocou belamente, com a emoção controlada, ainda que visível.

Na hora, pensei: por que raios a gente pede desculpas por se comover? Lembrei de algumas pessoas que já caíram em prantos na minha frente escondendo o rosto, envergonhadas, e as compreendo, pois também tenho vontade de sumir quando choro diante dos outros. Os psicanalistas, acostumados a debulhações diárias em seus consultórios, poderiam responder: quando elas acontecem, seus pacientes costumam se desculpar?

Ninguém tem culpa alguma de sofrer, ninguém tem culpa por se sentir frustrado, ninguém tem culpa por sentir saudade, ninguém tem culpa por não conseguir reagir a seco às suas desordens internas. Deveríamos, sim, é nos sentir orgulhosos por não frear nem disfarçar nossas emoções, por permitir que elas extravasem, autorizando os outros a testemunharem esse momento em que estamos tão desprendidos, sendo tão humanos.

Curiosamente, o contrário não envergonha. Mais do que nunca, as pessoas têm sido grosseiras, estúpidas, deselegantes no trato, e não lhes bate um pingo de remorso, nenhuma inibição. Pedir desculpas, nem pensar.

Então por que pedir perdão por algo tão bonito, que é estar emocionado?

Acho que a pessoa emocionada se desculpa por constranger os outros. Sabe que a plateia, seja ela formada por 100 pessoas ou por uma só, se sente fragilizada diante de uma pessoa comovida. Ao testemunharmos alguém em situação tão delicada, não sabemos como agir, o que dizer. Quando alguém chora à minha frente, pareço uma pateta, não sei se abraço, se finjo que não está acontecendo nada, se começo a chorar também. Quase sempre começo a chorar também.

É por isso que certas pessoas pedem desculpas pela própria comoção. Sabem que uma emoção exposta não deixa ninguém indiferente, obriga a uma reação, e eles não querem dar trabalho. Pois é, os sentimentais têm dessas nobrezas.


04 de fevereiro de 2017 | N° 18760 
CARPINEJAR

O beijo na boca


Casais que não se beijam na boca estão se separando. Vão se tornando amigos, parentes, irmãos, até se esquecerem de caminhar de mãos dadas. Vão se apartando do cheiro da pele, do gosto do abraço, das provocações infantis de corredor, das pernas alisadas no fundo da coberta.

O beijo na boca é a autêntica aliança, o ouro que vinga, a certidão que não desbota.

Só que me refiro ao beijo mesmo, de girar o corpo, o pescoço, o rosto.

Selinho não conta, onde os lábios são uma carta para quem já está distante. Beijo seco também não vale, onde não há a ameaça de morder os lábios.

O beijo molhado é que une. Um beijo úmido por dia renova o amor.

O beijo de quem tem saudade dos tempos apaixonados, um beijo que ainda sopre de volta os elogios ditos um para o outro.

O beijo sussurrado, em que os sons tremem com as respirações próximas.

O beijo que não tenha a necessidade de ser pensado demais senão surge sem jeito, forçado, cinematográfico.

O beijo que seja um segredo a dois, que você extravie o horário e suspenda a noção do lugar.

O beijo que toque uma canção dentro, que desperte a vontade de dançar.

O beijo de língua não permite o vazio crescer, a lacuna, o lapso. Pois uma ausência dentro de casa ainda tem conserto, duas ausências não têm como recuperar – o par esqueceu o amor em algum lugar das lembranças e não correu para reaver.

O beijo de língua desfaz as formalidades, os medos e a educação que esfriam a relação.

Beijo de língua é beijo para combater o tédio, a mecânica repetida dos gestos.

Beijo de língua salva os desaforos, perdoa as críticas e as cobranças. É como uma janela batendo com a chegada da chuva, uma porta batendo com o vento. É um susto que põe o coração a bater de novo.

Nem o sexo resolve o que o beijo faz. A transa sem beijo é apenas desafogo, catarse, apego de bichos. O beijo com língua é o que nos singulariza entre os animais.

Casais felizes sempre se buscam pela boca. É uma receita simples de longevidade.

Sem o beijo, a pessoa tem a vontade de largar tudo e ficar sozinha. Com o beijo, ela não perde a vontade de largar tudo, mas com a diferença de querer levar junto aquele que ama.

04 de fevereiro de 2017 | N° 18760 
PIANGERS

Dedo podre

Ela disse que esse era o terceiro namorado que não dava certo e que estava quase desistindo da matéria já que, pela experiência, não sabia escolher homens. Sabe como é, né? Dedo podre. Outra foi casada uma vez, o marido a abandonou grávida, casou de novo, nova separação. Acho que meu dedo é meio podre, Piangers. Uma largou um relacionamento abusivo pra entrar em outro. Sabe o que eu acho que eu tenho?, perguntou. Dedo podre.

Odeio estragar assim a sua fantasia de que o motivo de todos os problemas da sua vida é você mesma, mas acho que talvez seria uma boa levar em conta que pode ser que o problema esteja, não no seu indicador, mas pro que ele aponta. Desculpem detentoras de dedo podre, mas não é o seu dedo que tem problema, são as frutas desta feira. Quando todas as frutas da quitanda estão podres, não é você que não sabe escolher.

Posso imaginar algum homem indignado com essa premissa, mas acho que a reflexão é válida: será que não somos mesmo péssimos? Será que não temos comportamentos vergonhosos com as mulheres? Será que não poderíamos ser melhores? Será que nossas mulheres não estão conosco por simples conformismo? Será que não merecem algo melhor? O homem que simplesmente não se permite essa reflexão mostra que já está errado.

O dedo podre não existe. Para a mulher, é como um amuleto do Dumbo ao contrário: ao invés de te dar confiança pra voar, vai te deixando cada vez mais insegura e desanimada na escolha de caras. Com o passar do tempo, a menina se acostuma com o talismã imaginário e se conforma com suas escolhas erradas, aceitando ficar com um cara porque “é o que tem”. Algumas decidem ficar sozinhas. Algumas decidem ficar com outras mulheres. Algumas se esforçam pra transformar seu companheiro. Dizem que algumas conseguem. Esse é mais um mito que teremos que investigar.

04 de fevereiro de 2017 | N° 18760 
DAVID COIMBRA

Os loucos e a morte de Marisa Letícia

A política enlouquece as pessoas. A maneira como muitos brasileiros se comportaram no episódio da morte de Marisa Letícia demonstrou o nível perigoso de loucura a que chegou o país. Houve quem comemorasse a morte, houve quem acusasse o juiz Moro pelo que ocorreu, todos com óbvia, rasteira, baixa motivação política.

Dona Marisa era mulher de Lula, que é venerado e odiado. Sim. Mas era, também, mãe e avó. Nem por filhos e netos manifestou-se respeito, tanto de parte dos que veneram quanto dos que odeiam Lula.

Eu achava que a política era só uma justificativa, que o sujeito perturbado se perturbaria com qualquer outra coisa, como religião ou futebol, mas não. O problema é a política mesmo.

A religião pode servir como consolo, o futebol pode servir como diversão. Uma e outro são, em essência, positivos, originam-se de bons sentimentos dos seres humanos.

A política, não.

A política é, em essência, a disputa pelo poder. Tudo se torna subalterno a essa disputa, tudo pode ser usado nessa disputa, inclusive o futebol e a religião. Inclusive a morte de um ser humano.

O brasileiro, de uns anos para cá, politizou-se espetacularmente. A maioria da população, é claro, continua indiferente a esse jogo. No Brasil, como em qualquer parte do mundo, as pessoas chamadas “comuns” estão pouco ligando para quem exerce o poder ou para a igualdade.

Igualdade é assunto de intelectual.

A massa silenciosa quer viver bem, quer ter um trabalho e uma casa, quer poder cuidar da família, divertir-se aos fins de semana – não muito mais do que isso.

Um pedaço do Brasil, porém, passou a se importar com a política, ultimamente. Passou a ter opinião e a opinião se transformou em causa e a causa se transformou em obsessão e a obsessão se transformou em loucura.

Não que o assunto seja novo para essas pessoas. Se você prestar atenção, verá que esses que hoje são os mais dementes já faziam incursões na política tempos atrás. Mas eram suaves, um palpitezinho aqui, uma declaração de voto ali, uma conversa meio casual no bar.

Por que era tão tranquilo?

Porque todo mundo concordava. Ninguém era a favor da ditadura. Dentro do Exército havia gente contra a ditadura. Figueiredo era contra a ditadura, a ponto de prometer prender e arrebentar quem se opusesse à redemocratização.

Quando o Exército enfim se retirou da disputa política, abriram-se as possibilidades. Agora, todos podiam alcançar o poder. A situação ficou mais complexa. Mas nem tanto.

Lembro da primeira eleição presidencial, depois de 25 anos. Na véspera, escrevi uma coluna em que dizia haver cinco candidatos dignos de voto: Brizola, Lula, Covas, Roberto Freire e Ulysses Guimarães. Os outros, argumentei, eram de alguma forma egressos da ditadura. Não deviam ser votados na eleição da volta da democracia.

Era um raciocínio fácil. Ainda havia apenas dois lados a escolher. Só que o Brasil se sofisticou. Esses cinco que, em 1989, estavam no mesmo campo, tornaram-se adversários e passaram a se esforçar para mostrar as diferenças que havia entre eles.

Mesmo assim, o Brasil poderia seguir escolhendo ora um, ora outro, sem maiores sobressaltos. Afinal, eram todos meio parecidos. Lula no poder foi a demonstração prática dessa semelhança. Lula nunca teve ideologia, nunca foi socialista, nunca foi dogmático. Lula abraçava qualquer um que lhe desse apoio – até o maior símbolo do “outro campo”, Paulo Maluf.

A falência do projeto petista é que ideologizou o país. Os distraídos empunharam bandeiras e pularam para trás de trincheiras. Bateram-se tanto, discutiram tanto, que enlouqueceram. Hoje vejo pessoas antes sensatas esgoelando-se em discursos fanáticos.

A cantilena de que Dilma foi vítima de golpe é conversa de maluco. Acusar quem defende os direitos humanos de ser “esquerdopata” é conversa de maluco. Culpar o juiz Moro pela morte de dona Marisa ou gritar que Temer é assassino na porta do Sírio-Libanês é atitude de maluco. Comemorar a morte de dona Marisa ou se satisfazer com a dor de Lula é sentimento de maluco.

Não é problema de caráter, não é caso de burrice; é loucura. A política os enlouqueceu. E nem a morte é capaz de curar.


04 de fevereiro de 2017 | N° 18760 
ANTONIO PRATA

A VIVÊNCIA LÚDICA DO EDUCAR

Deviam estabelecer como prova final num desses cursos que prometem estimular a criatividade: duas horas diante de um portão de embarque com uma menina de três anos e um menino de um e meio, sem choro – nem das crianças, nem dos adultos. “Tem que andar pisando só no preto. O branco é água!”. “Agora só no branco, o preto é fogo!”. “Vamos fazer chapéu de guardanapo?”. “A mala de rodinha é um trator. Quem quer andar de trator?”. “Não, Olivia, você já comeu catorze pães de queijo”. “Não, Dani, você já assistiu a quarenta e nove episódios de Masha e o Urso”.

Foi com o alívio de um maratonista avistando a linha de chegada, portanto, que no final da primeira hora (sensação térmica de seis) vi numa loja de revistas um balde cheio de ímãs. “Hematita”, segundo o vendedor, era o nome das pedrinhas cor de grafite, algo irreais em seu brilho mercúrio-Terminator sob as lâmpadas dicroicas. Peguei uma, as outras grudaram embaixo formando um cordão, uma corrente prateada que – assim acreditei – seria capaz de resgatar meus filhos das profundezas do tédio. Comprei um punhado.

Cheguei com os ímãs no bolso, pensando em como daria o presente. Estava feliz não só com a possibilidade de entreter as crianças com uma atividade sem açúcar, sem gordura e sem pixels, mas sobretudo por poder apresentá-los a esse interessantíssimo capítulo da vida na terra: o magnetismo.

“Daniel e Olivia”, eu disse, com a pompa que o momento merecia, “lá no banheiro, eu encontrei um mágico e o mágico me deu”. “Cadê o mágico?!”, a Olivia me interrompeu. “Ádico! Ádico!”, ecoou o Dani, discípulo da irmã mais velha – não muito seguro, acho eu, do que estava falando. “O mágico... O mágico deu um presente pra vocês!”. “Eu não quero presente, eu quero ver o mágico!”, ela me atropelou, de novo, o lábio inferior já dobrando-se perigosamente sobre si. (O lábio inferior dobrado está para o pranto como a nuvem negra está para a chuva – e quando a minha filha resolve trovoar, amigos, o furacão Katrina parece aqueles esguichinhos de vapor do Ibirapuera.)

Não havia tempo para preâmbulos. Tirei as pedras do bolso. Se a simples visão das bolotas metálicas não fosse suficiente para seduzi-los, vê-las saltando da minha mão e grudando umas nas outras seria. “As pedras voam! Olha, são pedras mágicas!”. “Eu não quero pedra! Eu quero o mágico! Papai! Vamos atrás do mágico! Cadê o mágico?!”. “Olivia, o mágico... O mágico foi embora”.

Olivia se atirou no chão. Rolava de um lado pro outro: “Máááágico! Máááágico!”. Daniel, por educação, a acompanhava no pranto: “Áááádico! Áááádico!”. As paredes tremiam. O teto sacudia. Pousos e decolagens foram temporariamente suspensos. Minha mulher me encarava com um olhar que ainda não sei se era de ódio ou compaixão.

Vinte e sete pães de queijo e duzentos e trinta e nove episódios de Masha e o Urso depois, embarcamos pra São Paulo. No Uber, a caminho de casa, os dois finalmente dormem. Minha mulher encosta no meu ombro e dorme, também. Sigo o mesmo rumo. Fica acordado só o motorista – e as hematitas, que, no meu bolso, usam seus maravilhosos superpoderes para destruir meu celular e apagar os meus cartões de crédito, do seguro-saúde, do trabalho, do supermercado, da livraria, do clube e da academia. Que coisa mais lúdica, mais mágica é a vivência do educar.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017


03 de fevereiro de 2017 | N° 18759
EDITORIAL

O MAR REVOLTO DA POLÍTICA

O governo Temer sai fortalecido nas escolhas dos parlamentares que comandarão as principais casas legislativas do país pelos próximos dois anos. Em ambas as eleições, deu o que o Planalto queria: o cearense Eunício Oliveira (PMDB) para liderar o Senado e o fluminense Rodrigo Maia (DEM) reeleito por mais um mandato na Câmara dos Deputados. 

Na teoria, a presença de aliados nos cargos legislativos mais importantes e na própria linha de sucessão presidencial assegura o encaminhamento e, provavelmente, a aprovação das reformas estruturais que o governo vem implementando. Pode, portanto, ser adequado para o país.

Porém, considerando-se que os dois parlamentares figuram também entre os suspeitos citados por delatores da Operação Lava- Jato, aumenta o risco de retrocesso no combate à corrupção, que também é um clamor nacional. Mesmo ressalvando-se o fato de que citação não é culpa e que todos os políticos mencionados nos depoimentos têm direito a uma investigação justa, com ampla oportunidade de defesa, a realidade é que o país está confrontado com o desafio de moralizar a política e a administração pública sem recorrer a autoritarismos e macarthismos, ao mesmo tempo em que precisa superar a crise econômica.

Como reconheceu o novo presidente do Senado no discurso que precedeu a votação, as lideranças do país estão diante da “difícil missão de acalmar as águas desse mar revolto que é a política brasileira neste momento”. Diante desse cenário de incertezas, o desejável é que os dois políticos eleitos para comandar o Legislativo enfrentem com transparência as acusações de que são alvo e tenham discernimento para implementar ações que ajudem o Brasil a reencontrar o caminho do desenvolvimento sem perder o rumo da restauração ética.


03 de fevereiro de 2017 | N° 18759 NÍLSON SOUZA
O BICO DA ÁGUIA

Tem um Prometeu no shopping.

É branco, barbudo e está sentado sobre uma pedra, com algemas e tornozeleiras visíveis nos braços e nas pernas. Mas as presilhas não parecem limitar-lhe os movimentos. Na verdade, não se movimenta: é uma estátua. É a estátua de um deus grego, ainda que esteja apartado da turma que ocupa a arquibancada do Olimpo, um pouco mais adiante. O único incômodo é a águia, impelida por Zeus a bicar-lhe o fígado por 30 mil anos no rastro da operação que apurou o furto do fogo do céu.

A história de Prometeu é das mais intrigantes e simbólicas da mitologia grega. Auxiliado por Minerva, a deusa da sabedoria, ele subiu ao Olimpo e roubou o fogo do carro do sol, para servir aos homens. Zeus, furioso e vingativo, preparou-lhe uma cilada. Mandou Pandora, mulher de extraordinária beleza, entregar-lhe uma caixinha de presente. Prometeu, esperto como só ele, não caiu nessa. Não quis nem ver a enviada especial do soberano dos deuses. 

Mas seu irmão Epimeteu espichou o olho para a bela mulher, casou-se com ela e, na noite de núpcias, abriu a caixa que continha todos os males do mundo para atormentar a humanidade. Pagamos caro – e ainda estamos pagando – pelo domínio do fogo, que iluminou casas e cidades, alimentou fábricas e alterou a face do planeta.

Mas Zeus não ficou satisfeito com a desgraça coletiva, pois o ladrãozinho da chama sagrada não fora punido diretamente. Como a astúcia não funcionou, apelou para a força: acorrentou o atrevido numa pedra, condenando-o a 30 milênios de imobilidade e à pena adicional da águia comedora de fígado. Só esqueceu de raspar-lhe a cabeça.

Porém, mais tarde, segundo a lenda, Prometeu foi anistiado. Zeus permitiu que o forçudo Héracles o libertasse e ambos se transformaram em heróis cultuados por gregos, romanos e academias de musculação.

Brinco com essa história fabulosa, mas ela também nos faz refletir sobre os nossos vilões e seus julgamentos. Considerando-se que a maioria roubou para se beneficiar, lixando-se para a humanidade, aquela águia do shopping talvez pudesse ficar por aqui quando a exposição sobre os legados gregos for encerrada, no próximo domingo.





03 de fevereiro de 2017 | N° 18759 
DAVID COIMBRA

Não vote em Bolsonaro

Já estou sentindo medo de que os brasileiros cometam o terrível erro de eleger Bolsonaro presidente da República. Seria uma desgraça, talvez a maior dentre tantas que afligem e afligiram o país.

Sei como os eleitores de Bolsonaro estão reagindo neste momento, um segundo após lerem as duas frases acima. Estão argumentando:

– E Lula e Dilma foram bons? E Temer tem sido?

Também não gostei dos governos de Lula e Dilma, e tampouco gosto do de Temer, mas Bolsonaro seria muito pior. Seria o pesadelo.

Sei bem que minha opinião não mudará a de ninguém. Essa história de formador de opinião é balela – só formo as opiniões que concordam previamente com as minhas. Ou seja: as opiniões já estão formadas. Você escreve e o leitor elogia:

“É bem assim que eu penso”.

Na verdade, ele está se autoelogiando. Jamais acontece de alguém dizer:

“Eu pensava o contrário, mas você me convenceu”.

Ninguém convence ninguém de nada.

Se os formadores de opinião realmente formassem opinião e se a mídia tivesse realmente o poder que as pessoas acham que tem, Trump não seria presidente.

E Bolsonaro não teria esse cardume de admiradores.

Mas, mesmo assim, mesmo sabendo que não mudarei a opinião de ninguém ao expor a minha, preciso fazê-lo.

Por dois motivos.

Um: devido à curiosa legislação brasileira, que proíbe certas manifestações políticas exatamente em ano eleitoral, quando as manifestações seriam mais relevantes.

Dois: por uma obrigação de consciência. Se vejo que as pessoas estão prestes a fazer algo horrível, tenho de pelo menos emitir um grito de alerta.

E, sim, a eleição de Bolsonaro seria algo horrível.

Não é porque ele é de direita. É o tipo de direita que ele é. Uma direita truculenta e, pior, sem nenhum conteúdo.

A esquerda contra a qual essa direita está reagindo, representada pelo PT, fez coisas que na aparência eram boas, mas deram resultado ruim. Essa direita pretende coisas que na aparência são ruins, mas darão resultado péssimo.

Há quem alegue que Bolsonaro é honesto. Não é verdade. O roubo não é a única desonestidade de que é capaz um homem. Bolsonaro não rouba, mas defende a ditadura, o fechamento do Congresso, a tortura e até o assassinato. Não sou eu quem diz; é ele. Vá ao YouTube e escandalize-se por si mesmo.

Assisti, incrédulo, ao crescimento de Trump nos Estados Unidos. Parecia impossível que o país de Lincoln, Benjamin Franklin e Jefferson, terra dos livres e lar dos bravos, elegeria um homem de tal maneira grosseiro. Elegeu, e é bem provável que o mundo inteiro sofra por causa disso.

O Brasil já tem sua quota de sofrimento. Não precisa de mais.

Sei que será inútil, sei que ninguém dará importância ao que digo, mas tenho de dizer: votar em Bolsonaro não é um repúdio ao PT; é um repúdio ao Brasil. Não vote em Bolsonaro, portanto. Não vote em Bolsonaro. Não vote em Bolsonaro.


03 de fevereiro de 2017 | N° 18759
CLÁUDIA LAITANO


Os outros eus

É possível estudar História olhando apenas para aquilo que não aconteceu. A chamada “história contrafactual” projeta cursos alternativos que a História poderia ter tomado se este ou aquele evento tivesse se encaminhado para um desfecho diferente – Hitler vencendo a II Guerra, Getúlio Vargas morrendo de velho em São Borja.

Esse tipo de fabulação tem sido explorado com frequência também pela ficção. No romance Complô Contra a América (2004), por exemplo, o escritor americano Philip Roth imagina o que teria acontecido com os Estados Unidos se Charles Lindbergh, pioneiro da aviação e suposto simpatizante do nazismo, tivesse sido eleito presidente em 1940, dando início a uma versão local da perseguição aos judeus na Europa.

(Não foram poucos os leitores de Roth, aliás, que nos último dias tiveram a sensação de que o livro, inventando um passado distópico sob um governo Lindbergh, acabou prevendo o futuro sob o governo Trump.) No Brasil, o escritor paranaense Miguel Sanches Neto fez algo parecido no romance A Segunda Pátria (2015), que mostra o que poderia ter acontecido por aqui se Getúlio tivesse abraçado oficialmente os ideais da Alemanha nazista.

Lançado nos Estados Unidos nesta semana, o romance 4321, do escritor americano Paul Auster, faz um curioso e intrincado exercício múltiplo de “história contrafactual”. Com muitos traços autobiográficos, o romance, de mais de 800 páginas, propõe quatro trajetórias diferentes para um mesmo personagem, Archie Ferguson.

Do nascimento, em 1947, em uma família americana de origem judaica, ao início da vida adulta, cada uma das suas versões registra experiências diversas na infância, na adolescência, no amor, nos esportes. Seus pais também se desdobram em quatro versões. Em uma delas, o pai de Archie morre cedo, na outra torna-se uma figura distante. Em uma das versões, o personagem é gay, nas outras três, não. Em todas as encarnações, porém, o personagem mantém um eixo comum: o sonho de tornar-se escritor.

Confrontada com diferentes escolhas feitas ao longo de uma vida, a maioria das pessoas talvez considere mais fácil imaginar versões contrafactuais daquilo que poderiam ter sido (e não foram) do que encontrar aquilo que, consideradas todas as variáveis externas possíveis, permaneceria exatamente igual – e essencial.

BINGO
Nosso país não é do Primeiro Mundo. Não validar oficialmente esse jogo que é considerado de azar, em detrimento da pura distração de muitos que esperam por sua legalização, principalmente idosos, mostra uma faca de dois gumes, já que contravenção mesmo é o jogo do bicho, que corre solto em qualquer lugar e hora. E os jogos da Caixa Federal, o que são? Distração? Dois pesos e duas medidas, infelizmente.

NORTON ALOISIO

Aposentado – Porto Alegre

Instituições e pessoas brasileiras vicejam em enorme clima de hipocrisia. O recente episódio do abre e fecha da casa de jogos de azar demonstra a plena falsidade que nos alimenta. Em um país destroçado pela corrupção e pelo desemprego, com a economia em frangalhos, a reabertura das casas de jogo, pagando impostos, legalizadas e criando empregos seria um pequeno oásis nessa miséria virulenta que estamos enfrentando. Uma oportunidade de ouro para amainar tanto desespero e desesperança.

PEDRO MONTEZUMA PACHECO PRATES

Advogado – Porto Alegre



SOBRE ZH

Criminosos do colarinho branco, segundo David Coimbra, não são violentos (ZH, 31/1). Esquece ele que, ao roubarem dinheiro da sociedade, contribuem para a morte de pacientes nas filas do SUS, para o não recebimento de medicamentos, contribui também essa gente fina do colarinho branco de que ele tem pena para que o aluno não tenha merenda na escola, não tenha livros, computadores e professores recebendo dignamente. Os criminosos do colarinho branco não matam violentamente uma pessoa, eles matam centenas a conta- gotas, lentamente, e muitos não notam, como David Coimbra!

FRANCISCO OLIVEIRA DA SILVA

Economista – Palmeira das Missões

Rosane de Oliveira classifica de “violência” a raspagem de cabelo dos presos (ZH, 31/1). Violência é cobrar impostos extorsivos, não construir escolas, hospitais e presídios suficientes, corromper ou ser corrompido. Sem contar a obtenção de ganhos muito superiores ao teto salarial, por si só pornográfico num país de salário mínimo irrisório.

SÉRGIO BECKER - Jornalista – Porto Alegre

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017


02 de fevereiro de 2017 | N° 18758

EDITORIAL

SELEÇÃO POR COMPETÊNCIA

É promissora a decisão da prefeitura de Porto Alegre de privilegiar competência e meritocracia sobre indicações políticas na escolha dos gestores dos órgãos municipais. Já o novo presidente da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), segundo informou ontem o secretário de Infraestrutura e Mobilidade Urbana, sairá do Banco de Talentos que está sendo formado com esse propósito. 

Ainda que o processo seja mais demorado, a seleção técnica garante transparência e eleva a confiança dos cidadãos nos seus representantes, principalmente neste momento de descrédito da classe política.

Evidentemente, ninguém deve ser excluído de oportunidades na administração pública por ser político ou por ter filiação partidária, até mesmo porque tais condições são indispensáveis para o funcionamento da democracia representativa. Mas parece adequado, como está propondo o prefeito Nelson Marchezan, que o recrutamento para alguns cargos de gestão obedeça critérios técnicos e meritocráticos – e não apenas o político, como vem sendo feito historicamente no país.

Nem sempre é fácil atrair profissionais de excelência para a gestão pública, que, devido à continuada crise financeira, já não consegue competir com a iniciativa privada na oferta de remuneração e vantagens para os executivos mais capacitados.

Ainda assim, a criação de um banco de talentos, como está fazendo a prefeitura da Capital, possibilita encontrar profissionais que querem fazer carreira na administração pública e que poderão ser avaliados pela competência e pelos resultados.


02 de fevereiro de 2017 | N° 18758 
CARLOS GERBASE

DESAFINANDO EM "LA LA LAND"

Gosto de filmes musicais, antigos e contemporâneos. Adoro Cantando na Chuva (de Gene Kelly e Stanley Donen, 1952), sempre é bom rever Cabaret (Bob Fosse, 1972), acho que Lars von Trier foi genial em Dançando no Escuro (2000) e curto muito o romantismo exagerado de Moulin Rouge: Amor em Vermelho (Baz Luhrman, 2001). Para citar um filme mais recente, vi duas vezes seguidas Bem Amadas (Christophe Honoré, 2011) e fiquei alguns meses ouvindo a trilha no carro. 

Que belas canções, que letras inspiradas, que elenco afinado, que história bacana, cheia de amores e tragédias! Portanto, antes de ver La La Land (Damien Chazelle, 2016), um musical aclamado pela crítica e multi-indicado para o Oscar, eu tinha certeza que iria me divertir. Pois não me diverti. Pelo contrário: fui me irritando aos poucos e, no final, estava decididamente aborrecido. É um filme chato, banal e irrelevante.

Sei o que faz de La La Land uma obra bem sucedida. É um filme “espetacular”, no mesmo sentido em que são “espetaculares” os filmes de super-heróis da Marvel e da DC Comics. A câmera faz movimentos espetaculares, os números de dança têm momentos espetaculares (especialmente pelo número espetacular de bailarinos) e os cenários de Los Angeles são espetacularmente bonitos, enquanto Ryan Gosling e Emma Stone fazem o possível para ser espetacularmente charmosos. 

Nunca vi dois personagens mal de grana tão bem vestidos, penteados e maquiados. Tudo está “certo” em La La Land para fazer o espectador ficar espetacularmente satisfeito. As canções são, musicalmente falando, bem fraquinhas, mas a Academia não concorda comigo e indicou duas delas para o Oscar. Enfim, o espetáculo não somente não pode parar, como tem que ser mais e mais espetacular.

Então por que eu não curti La La Land nem um pouquinho? Porque, perto de todos os musicais que citei, a narrativa é muito mal desenvolvida. Nada a criticar quanto ao tema. “O artista lutando para ter uma chance” é um argumento clássico e poderia funcionar muito bem. Mas, como ensina Umberto Eco, não há nada errado em começar com um clichê. O problema é terminar com ele. La La Land é a mais espetacular sucessão de clichês de todos os tempos. E pode ganhar 39 Oscar que minha opinião não mudará.



02 de fevereiro de 2017 | N° 18758 
DAVID COIMBRA

Comedores de placenta

Não comerei placenta. O Potter e a Kelly estão agora com essa mania de fazer com que as pessoas comam placenta. Irritante. Foi desde que entrevistamos a Bela Gil no Timeline, da Gaúcha, dias atrás.

A Bela Gil, informo, é filha do Gilberto e tem um programa de culinária naturalista na TV. Ela come coisas como inhame. E, quando teve filho, pediu que o médico guardasse a placenta, bateu-a com banana no liquidificador, bebeu um copo inteiro e deu para o marido e o filho beberem também.

Placenta. Diz que é bom para algo.

Pois o Potter e a Kelly, ouvindo-a, se entusiasmaram. Estão loucos para comer placenta.

Eu, não.

Considero comer placenta uma mistura de autofagia com canibalismo, ainda que atenuada pela banana e outros condimentos, como fez Bela Gil. Verdade que pessoas já comeram muito outras pessoas no passado, e não estou falando em sentido figurado. Durante pelo menos 300 anos, entre os séculos 16 e 19, os europeus e os japoneses trataram-se de diversos males ingerindo pó de múmia.

As múmias eram arrancadas das tumbas do Egito, picadas, moídas e transformadas em pó. Em seguida, eram acondicionadas em frascos e enviadas para as boticas europeias e japonesas, onde farmacêuticos felizes as vendiam a preços altíssimos a fim de tratar infecções, dores de cabeça, revoluções intestinais e até paralisia. A múmia triturada se transformava em um pó preto, que deixava um sabor amargo na boca durante muito tempo e, como efeito colateral, provocava náuseas violentas. Reis e rainhas ingeriam pó de múmia. Ou seja: comiam egípcios mortos.

Portanto, se dissessem para essa gente que comer placenta cura dor de cabeça, eles comeriam. Mas não o degas aqui. Ah, não. Prefiro Melhoral.

Mesmo assim, não vou falar mal dos comedores de placenta. O Potter e a Kelly são meus amigos e achei a Bela Gil bem simpática. Digo mais: não os recriminaria por isso nem se não gostasse deles. Cada um coma o que bem entender.

O problema é que a maioria das pessoas chega a ficar ofendida quando encontra outras que vivem de forma diferente. Um é insultado porque come placenta, o outro porque gosta de se relacionar sexualmente com pessoas do mesmo sexo ou com vegetais, como o Sergei, outro porque pratica certa religião, outro porque não pratica religião alguma, outro porque tem pele de determinada cor, outro, ainda, porque é anão ou só tem uma perna ou abana a orelha quando dá tchau.

O que é que tem? Por que você quer que todas as pessoas façam tudo exatamente como você faz e sejam exatamente como você é?

Por que a diferença incomoda?

Direi. Porque as pessoas têm medo de estar vivendo da maneira errada. Quando todos se comportam como você, você se sente aliviado: é assim mesmo que se faz. Mas, quando o outro é diferente, assalta-lhe a dúvida: será que não deveria ter feito igual? Será que o jeito dele não é melhor do que o meu? Será que não perdi meu tempo? Será que meus pais me ensinaram errado?

Isso é terrível, porque pode lhe roubar o sentido da vida, e todos estamos sempre procurando um sentido para a vida. Por essa razão, qualquer diferença é agressiva, mesmo que não seja de conteúdo, seja só de forma.

A verdade é que não existe uma única fórmula. Há várias, porque as pessoas são variadas, e inclusive a uma só pessoa pode-se aplicar várias fórmulas, e todas podem dar certo. Ou não.

Faça como você quiser, pois. Mas não insista. Não comerei placenta. Talvez, inhame.


02 de fevereiro de 2017 | N° 18758 
L.F. VERISSIMO

Diálogo Norte-Sul

Com Trump, como será a política americana com relação à América Latina? O diálogo Norte-Sul pode ficar assim:

– Ola, guapo.– Rai.

– Tienes um cigarrito?

– Aqui está.

– Mmmm. Tanks, rubio. (Cantarola, com a melodia de Guantanamera) “Quanto le devo, o, o, quanto le devo...”

– Eu boto na conta.

– Cierto. Bien que podias me dar una cojer de tcha, hein, gringo? Tenho 17 filhos.

– Mas não tens marido.

– E com 17 filhos, quem pode sustentar um marido? Dançamos?

– Devagar, que eu não sou bom nisso. Vocês do Sul é que têm ritmo. Vocês são autênticos. Fazem artesanato. Passam fome. Têm muitos filhos. Nós, do Norte, perdemos contato com o barro da vida, entiendes? Eu, por exemplo, tenho uma mulher e 1,3 filho. Vien a mi suíte, corazón.

– Da última vez, usted disse que íamos nos casar e ser igual em tudo. Até me ofereceste uma aliança, para el progresso.

– Como sos caliente, chiuaua.

– Aiuto! Socuerro!

– Ninguém pode ajudá-la, mi periquito. Tens que fazer o que eu mando. Como vocês, pobres, são sensuais. Não resista, entre.

– Bonita a sua suíte. Olha essa mão, guapo.

– Oh yes, yes. Solamente una vez.

– Calma, deixa eu tirar a...

– Mmm. Este cheiro de frijoles. Dá-me tus maracas. Dá-me tu Petrobras. Oh, yes...

– Ai! Ui!

– Was it good?

– Disparas rápido, cabron. Não pude nem dizer minhas preces.

– (Bocejo)

– O que quieres dizer com (bocejo)?

– Depois que tudo que te dei, não me dás nada em troca?

– Como no? E mi matéria hermana?

– Você quer dizer matéria-prima.

– Era uma irmã para mim! Levaste-a por nada e me devolveste transformada, manufaturada, irreconhecível! – por uma fortuna. Maldición!

– Calma, calma.

– Só quero ser tratada como uma igual.

– Ora, uma igual. Eres fecunda, maltrapilha e escancajada. Falas o inglês com sotaque e vês telenovelas chupando o dente.

– Sou assim porque, todos estes anos, fui na sua conversa. Sugaste meus sonhos e a minha juventude e me deixaste, sola y inadimplente, como um bagaço.

– (Cantando ironicamente) “Tangerine”...

– Sabe de uma coisa, rubio? Vaya com Dios.

– “Vaya com Dios”? Já não estás mais a mi lado, corazón?

– Quer me largar?

– O que é isso, rã? Vamos conversar.

– Não me chamou de piolhenta? No quierem hacer um muro para que não entre más piolhentos? Pois então me larga.

– “Piolhenta” no bom sentido. Perdeu um pouco na tradução.

– Jô, hein?

– (Sedutor) Camone. – Na-o.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017


01 de fevereiro de 2017 | N° 18757 
MARTHA MEDEIROS

Ô, magrão


“Se você quer conhecer uma pessoa, veja como ela se comporta numa mesa de jogo.” É o que diz a sabedoria popular, que também recomenda: “Se você quer conhecer uma pessoa, viaje com ela”. Ambos os testes funcionam. Ver uma pessoa apostando dinheiro ou lidando com imprevistos garante um raio X aproximado de seu caráter.

Eu já acho que, se você quer conhecer uma pessoa, precisa conviver com ela no mínimo uns 50 anos e ainda assim estará sujeito a surpresas, mas elegerei também um método de conhecimento imediato, aquele do tipo que faz você dizer para si mesmo: “Humm, já vi tudo”. Como não jogo pôquer e não viajo todo dia, minha fórmula prosaica de identificação de espécies raras é reparar como a pessoa trata os garçons.

Pense no seu círculo de amigos e parentes: certo que você já foi com todos eles a algum restaurante, a um bar, a uma festa. É só prestar atenção.

Quase todos serão gentis, agradáveis, educados, eu sei: você não anda com trogloditas. Mas sempre tem aquele que joga água fora da bacia.

É o homem (ou mulher) que fala com o garçom num tom mais alto do que o normal, como se o sujeito fosse surdo. Ou levanta a voz porque pensa que deve deixar claro quem é que manda ali. Sabe aquele timbre autoritário, de quem acha que está sendo atendido por alguém que não irá entender o que está sendo solicitado se não for imposto algum “respeito”? Sério, quando vejo alguém ser intimidador com um funcionário que está nos servindo, fico com vontade de abrir um buraco no chão e me enfiar nele. Vergonha alheia.

Menos maquiavélico, mas também sem noção, é aquele que trata todos os garçons como se fossem os brothers do futsal, sem esperar um sinal de que a gaiatice está autorizada. Quando o ambiente é descontraído, tudo bem uma camaradagem – “e aí, chefe, qual o prato do dia?” –, invertendo simpaticamente a hierarquia presumida, ou “aí, irmão, sai um chope?” – beleza. 

Porém, uma vez eu estava num restaurante bem elegante, do tipo em que os garçons são treinados pelo cerimonial do Palácio de Buckingham e ganham mais do que os clientes da casa. Meu acompanhante não se intimidou: “Ô, magrão, essa mesa aqui está liberada?”. Não tínhamos reserva, mas como era tarde da noite, havia uma possibilidade. “Sim, senhor.”

“Valeu, magrão, vai trazendo uma gelada enquanto eu olho aqui o cardápio.”

“O meu nome é Roberto, senhor.”

“Bonito nome, magrão.”

Rapazes e moças, regrinha básica: nem arrogância, nem excesso de intimidade, e ao menos nos estabelecimentos gastronômicos reinará a paz no mundo, que já está ameaçada o suficiente.


01 de fevereiro de 2017 | N° 18757
POLÍTICA + | Rosane de Oliveira

PONTOS DE INTERROGAÇÃO

Com um discurso moderado na posse como presidente da Assembleia, o deputado Edegar Pretto (PT) terá de administrar, a partir de hoje, o conflito entre a pressão de seus aliados de esquerda e a direção de uma casa plural, com maioria alinhada a um governo de inspiração mais liberal. Pretto lembrou que o comando é colegiado e reafirmou que vai respeitar a democracia e o regimento interno, mas quem acompanha as sessões do Legislativo sabe que a postura do presidente faz toda a diferença na votação de projetos polêmicos.

Uma amostra da tensão latente nessas relações pôde ser vista já na citação das autoridades presentes. O governador José Ivo Sartori e o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan, foram vaiados pelas galerias lotadas de pequenos agricultores e simpatizantes do PT e do MST. Foi um ato de deselegância, que em nada contribui para distensionar as relações.

A Mesa pluripartidária é fruto de um acordo que teve o PMDB na presidência em 2015, com Edson Brum, e o PP em 2016, com Silvana Covatti. Para demonstrar seu apreço à forma democrática como a chapa foi construída, Silvana fez questão de registrar seu voto. No ano passado, quando foi eleita, somente Pedro Ruas (PSOL) votou contra.

Desta vez, o único voto contrário veio de Marcel van Hattem (PP), suplente que está no exercício do mandato porque seu partido tem dois deputados no secretariado. O PP tentou convencê-lo a votar sim, lembrando que Frederico Antunes é o 2º vice, mas foi inútil. Ele diz que a bancada entendeu sua posição de votar contra um petista na presidência, mas os colegas dizem que não foi bem assim. Antunes, João Fischer e Sérgio Turra pediram que, pelo menos, se abstivesse, para não constranger a bancada, mas o deputado não cedeu.

A presença de Antunes na Mesa é considerada estratégica para conter eventuais excessos de Pretto. O grande ponto de interrogação é: como se comportará o novo presidente se, em votações polêmicas, sindicalistas tentarem invadir o plenário? Pretto diz que vai dialogar e que não pretende, por exemplo, fechar as portas como fizeram Brum e Silvana. Outra dúvida: como se dará a divisão de espaços nas galerias da Assembleia? O presidente responde que o colegiado definirá os critérios para a distribuição de senhas.

Pretto é o terceiro deputado do PT a assumir a presidência. Antes dele, Ivar Pavan foi presidente quando Yeda Crusius (PSDB) era governadora e Adão Villaverde comandou a casa com Tarso Genro (PT) no Piratini.

ALIÁS
Na Praça da Matriz, a comemoração da posse de Edegar Pretto teve clima de comício, com música e cantoria. O deputado usou um chapéu de palha para reafirmar sua origem de homem da roça e reforçar o compromisso com a agricultura familiar.

OTOMAR VIVIAN VOLTA AO COMANDO DO IPE
Presidente do Instituto de Previdência do Estado (IPE) nos governos de Antônio Britto, Germano Rigotto e Yeda Crusius, Otomar Vivian voltará a ocupar o cargo por indicação do Partido Progressista (PP), aceita pelo governador José Ivo Sartori.

O ex-prefeito de Caçapava é amigo de Sartori. Os dois foram colegas na Assembleia Legislativa.

Vivian substituirá José Alfredo Parode, que assumirá a Secretaria de Planejamento de Porto Alegre.

DIRETORIA QUALIFICADA
Selecionados a partir do Banco de Talentos criado pelo prefeito Nelson Marchezan, os novos diretores da Carris foram empossados ontem, na sede da companhia. A qualidade técnica dos escolhidos foi ressaltada pelo prefeito durante a apresentação dos nomes.

O novo presidente, Luis Fernando Ferreira, é economista e tem MBA em Cleveland (EUA). Já foi diretor de multinacionais de médio e grande portes. O diretor técnico Flávio Caldasso Barbosa é engenheiro e mestre em Planejamento de Transporte e Engenharia de Tráfego. A procuradora-geral da Carris, Jaqueline Simões, é formada em Direito Privado na Universidade Panthéon-Assas, em Paris.

MIOLA RECUSA CARGO
Convidado pelo prefeito Nelson Marchezan para ser o secretário da Transparência, o conselheiro Cezar Miola, do Tribunal de Contas do Estado (TCE), disse não.

O convite indica que Marchezan não está de brincadeira quando diz que procura para essa secretaria uma pessoa independente e qualificada.

A recusa faz sentido. Miola é conselheiro com origem no Ministério Público de Contas. Não teria como se licenciar para assumir uma secretaria municipal ou estadual.

OS MAIS DE 300 OCUPANTES DE CARGOS EM COMISSÃO DA GESTÃO DE JOSÉ FORTUNATI EXONERADOS AO LONGO DO MÊS DE JANEIRO AINDA NÃO VIRAM A COR DO DINHEIRO DAS RESCISÕES. A PREFEITURA DIZ QUE AGUARDA O CÁLCULO DA EFETIVIDADE E A DECLARAÇÃO DE BENS DOS DEMITIDOS PARA PAGAR OS VALORES DEVIDOS.

MIRANTE
-O deputado Pedro Ruas (PSOL) foi um dos sete ausentes na sessão de posse da nova mesa diretora da Assembleia. Ruas estava no hospital, acompanhando o pai, o jornalista Isnar Ruas, que sofreu um AVC.

-Nasce em março o terceiro filho do deputado Edegar Pretto e de sua mulher, Alyne Tiska. O bebê vai se chamar Ângelo.

-Correção: o pagamento do salário dos servidores do Executivo será concluído até 10 de fevereiro, e não de janeiro como publicado na edição de ontem.

NA PLATEIA
A posse de Edegar Pretto na presidência da Assembleia teve a presença do governador José Ivo Sartori, do vice, José Paulo Cairoli, e de três ex-governadores: Jair Soares, do PP, Olívio Dutra e Tarso Genro, companheiros do PT, além do ex-ministro Miguel Rossetto.

Olívio, que foi à posse acompanhado da mulher, Judite, é um dos 70 conselheiros do mandato de Pretto e seu principal guru depois da morte do pai, Adão Pretto.


01 de fevereiro de 2017 | N° 18757 
PEDRO GONZAGA

O FORTE

A longa viagem nos levava ao Cassino, era uma das turnês da Hard Working Band, banda de soul em que eu tocava quando o mundo era 20 anos mais jovem, e, apesar de ser janeiro, soprava um vento do fim do mundo, acompanhado de um chuvisco renitente. O veranista gaúcho é, antes de tudo, um forte, mas àquela noite nem os fortes se submeteriam.

O show estava marcado para acontecer num forte à beira-mar, uma espécie de diminuto forte apache, e não lembro quantas vítimas compareceram (melhor dizer resistiram), defendidas pelo som de Aretha Franklin e Stevie Wonder dos ataques das rajadas antarticamente úmidas e de uns relâmpagos que, vez ou outra, acendiam as madeiras da murada, como fogos de uma sinistra artilharia.

Certas imagens, certas situações, certas sensações são tão raras que, mesmo vividas, parecem pertencer ao espaço do fabuloso, ao universo daquilo que apenas sonhamos. E não bastasse a fragilidade da experiência inusual (a maravilhosa invenção da rotina não a protege), ainda está o tempo, com seus pés acachapantes, que termina por tudo aplastar, fazendo da memória um só e mesmo mosto, composto de dúvidas e certezas, realidade e fantasia, projeções e fatos.

Assim, durante anos guardei a impressão de que o tal show não podia ter acontecido. Não duvidava do Cassino, mas do forte. A banda se dispersou, meus parceiros estão pelo mundo, não tive ocasião de lhes perguntar sobre aquela noite, até que neste último fim de semana, nessa espécie de homem banda que é ser um escritor, retornei ao Cassino para a tradicional feira do livro da cidade. Lá, entre a recepção tão amável do pessoal do Sesc e da FURGS, pude comprovar não apenas a existência do forte apache, mas que o local recebera grandes shows, entre eles o do Jimmy Cliff. Alívio. Alegria.

Depois ri sozinho de minha necessidade de buscar a veracidade da memória. Não sou um historiador. Mais do que isso. E se fosse invenção? Teria menos valor? Importaria mais escrever uma história e pedir por sua confirmação? Ou escrever uma história e perguntar: você viveu o que leu?

Não seria Jimmy Cliff, afinal, uma bela fantasia do século passado?

01 de fevereiro de 2017 | N° 18757 
DAVID COIMBRA

O que ensina a quase morte

Cheguei à fronteira do famoso Vale das Sombras da Morte, tempos atrás. Mas não entrei. É que, se você não sabe, tive um câncer, e agora está tudo bem. Mesmo assim, não quero ficar contando vantagem – melhor não provocar.

O que pretendo falar é sobre uma pergunta que, volta e meia, me fazem a respeito. Semana passada, inclusive, dei uma entrevista para o Julio Ribeiro e o Altair Nobre, da Revista Press, e eles questionaram exatamente isso:

– O que você aprendeu?

Dei uma resposta que julguei razoável, mas, terminada a entrevista, segui pensando.

O que aprendi? Será que aprendi?

Passar por uma dura dificuldade sem aprender nada é desperdício de sofrimento. E burrice, convenhamos.

Vez em quando, leio acerca de pessoas que quase morreram. Elas tiveram suas vidas transformadas radicalmente, umas dizem que passaram a valorizar mais a existência, outras que passaram a valorizar mais a amizade e as pessoas que amam, outras ainda decidiram viajar e conhecer o mundo. Essas coisas.

Bem. Desde sempre valorizei a existência, os meus amigos e as pessoas que amo e, quanto a viagens, confesso que prefiro as de trabalho às de turismo. Fazer turismo é meio cansativo.

Então, não aprendi nada nessas áreas. Mas admito que me sinto melhor agora do que antes de descobrir o câncer. Logo, alguma coisa mudou.

O quê?

Aí está o estranho. Não mudei para mais, mudei para menos. Não tive nenhuma epifania, não me tornei outra pessoa, minha compreensão do mundo não aumentou. Ao contrário: em vez de somar prazeres, os diminuí. Não porque precisasse ou planejasse, simplesmente por não sentir vontade.

Talvez antes ficasse esperando sextas-feiras excitantes ou imaginasse que algum evento grandioso ocorreria no ano que vem. Talvez nem pensasse nisso claramente, mas havia em mim a expectativa de que o futuro seria especial.

Agora, não.

Mas não foram ilusões perdidas, de jeito nenhum, nem a falência de sonhos ou coisa que o valha. Ainda acredito em boas surpresas e vou comemorar se acontecerem. Ainda sou otimista. Porém, basta um dia comum para que me sinta muito bem.

Acordar de manhã, tomar café, escrever, conversar com as pessoas, comer quando estou com fome, beber uma cerveja gelada, rir com o meu filho, ver um filme, ler um livro. Isso faz com que me descubra espetacularmente feliz.

As horas vão passando e há coisas bonitas para se ver lá fora. Um gato ronronando na janela do vizinho. O sol batendo na copa das árvores. Um menino que corre atrás da bola. A moça que atira os cabelos para trás, quando se detém na esquina.

A noite chega, e está tudo certo. Digo algo engraçado e minha mulher ri. Leio um pouco na cama e o sono começa a me dominar. Fecho o livro. Apago a luz do abajur. Não penso em nada, antes de adormecer. Sei que foi um dia bom.