quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016


04 de fevereiro de 2016 | N° 18435
ARTIGOS - PAULO DE ASSIS BERGMAN*

CIDADÃOS DE BEM. QUEM? 


Indago aos meus perplexos botões o porquê de os autodenominados cidadãos de bem invariavelmente fazerem a apologia da bala e de seus nefastos instrumentos de morte.

Aqui, um parêntese: “cidadão de bem” é expressão eivada de imprecisão terminológica, tal qual “mulher honesta” ou “loucos de todo o gênero”, oportunamente banidas do mundo jurídico pelo novo Código Civil Brasileiro.

Parece-me mais um dadivoso e gigantesco albergue, que a tudo e a todos acolhe. Basta querer fazer parte, que o indivíduo é contemplado com o abadá do Bloco dos Cidadãos de Bem. Sugestão aos gestores públicos: criação de uma Contribuição Provisória sobre a Abusiva Utilização da Expressão Cidadão de Bem (CPAUECB).

Outro aspecto interessantíssimo a envolver a abusiva utilização da expressão cidadão de bem é a esquizofrenia, perdão!, “esquerdofrenia” que acomete os que dela abusam. Explico: ao tempo em que a insegurança pública era de responsabilidade de governo do PT, a conta era a ele dirigida.

Hoje, estranhamente, a conta é endereçada ao Estatuto do Desarmamento, como se infere da missiva sob o mesmo título, na seção Leitor da ZH de 02/02/2016.

Nesse contexto, parece acaciano que a responsabilidade pela segurança pública não compete aos cidadãos, quer sejam de bem, quer sejam do mal. Afora isso, é anarquia, é desgoverno. Como estamos a viver hoje no Rio Grande do Sul, como nunca antes. Também não é ocioso referir que as armas nas mãos dos cidadãos que não são propriamente os de bem são “adquiridas”, muitas vezes, através de ações heterodoxas, que extrapolam o circuito comercial, popularmente conhecidas como “perdeu, playboy, perdeu”.

Entrementes, no país das liberdades individuais – como se o direito de matar a rodo fosse a afirmação de direito subjetivo, como querem os cidadãos de bem – , já não sem tempo, o presidente Barack Obama busca mitigar a permissividade extremada na comercialização de armas de fogo, objetivando barrar o dramático incremento por elas proporcionado nas estatísticas de mortes em massa e massacres.

Portanto, que se institua e se cobre a CPAUECB dos abusados. É a minha humilde proposta, enquanto aguardamos ação de quem para tanto foi eleito.

Servidor público do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região*


04 de fevereiro de 2016 | N° 18435
CAMPO ABERTO | Gisele Loeblein


INDÚSTRIA DE MÁQUINAS QUER FEIRAS BIANUAIS


Diante do cenário de recuo nas vendas e alta dos custos, a indústria de equipamantos agrícolas do Rio Grande do Sul irá sugerir que feiras e exposições do agronegócio passem a ser feitas de dois em dois anos. Ainda no final do ano passado, por solicitação das empresas associadas, o Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas do Estado (Simers) discutiu o tema em assembleia geral.

– Houve um pedido para a entidade intermediar a questão. Quando todo mundo estava vendendo bem, as feiras eram maravilhosas. Agora, não estão, e o custo é alto – pondera Claudio Bier, presidente do Simers.

O valor gasto em um evento varia de indústria para indústria, mas pode superar a casa do milhão. Além do estande, há despesas com transporte dos equipamentos, horas extras dos funcionários e estadia.

A proposta seria intercalar as feiras. Em um ano se faria a Expodireto-Cotrijal, por exemplo. No outro, a Show Rural Coopavel. Isso não incluiria, no entanto, a Expointer, feira realizada pelo governo do Estado, no parque Assis Brasil, em Esteio, que inclui exposição agropecuária.

Em pleno andamento, a Show Rural Coopavel, em Cascavel (PR), ficou neste ano sem a presença das grandes fabricantes. Devido ao ajuste de datas – a organização quis mudar o período da exposição e depois voltou atrás – Massey Ferguson, Valtra, John Deere, Case IH e New Holland não foram, dando prioridade para a feira de Não-Me-Toque, no Estado, que ocorre no período de 7 a 11 do mês de março.

Bier levará a proposta adiante e argumenta que, se necessário, se reunirá com a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Presidente da Expodireto-Cotrijal, Nei César Mânica, diz que, se for procurado pelas empresas para discutir o assunto, irá conversar:

– Quero mostrar para elas a importância de realizar a feira anualmente, para não haver uma desmobilização. De dois em dois anos, se perde a motivação. E o evento a gente faz também para o expositor.

Nicho no refúgio

Há anos realizando campanhas para reforçar a importância da prática do refúgio nas lavouras de milho, com o objetivo de presevar a eficácia da tecnologia Bt (transgênica), a multinacional Monsanto deu um passo à frente.

Acaba de lançar, na Show Rural Coopavel, no Paraná, sementes específicas paras essas áreas não-Bt, com promessa de alto potencial produtivo. A empresa colocará no mercado cinco novos híbridos, adaptados a diferentes regiões do país. A tecnologia, batizada de RefúgioMax, estará disponível para ser cultivada na próxima safra, 2016/2017.

A recomendação dos técnicos para a cultura do milho é de que híbridos não-Bt sejam cultivados em 10% da área, em uma distância máxima de 800 metros da lavoura onde a biotecnologia é utilizada.

– A não adoção das áreas de refúgio aumenta o risco de perda da eficiência das sementes Bt, resistentes a insetos – explica Guilherme Lobato, gerente de biotecnologia de milho da Monsanto no Brasil.

Quanto ao custo da nova tecnologia, Lobato afirmou que será o próximo passo da campanha, com possíveis preços promocionais para incentivar a adoção.

Os híbridos desenvolvidos para áreas de refúgio poderão ser plantados em lavouras cultivadas com sementes da própria multinacional ou de outras marcas de tecnologia Bt disponíveis no mercado. A distribuição será por meio dos parceiros comerciais de milho da Monsanto: Dekalb, Sementes Agroceres e Agroeste.

OS PRIMEIROS CACHOS OFICIAIS
Foi no Vale do Rio Pardo que o Rio Grande do Sul deu a largada oficial da colheita da uva. Os primeiros cachos foram retirados dos parreirais da Casa Valduga pelo governador José Ivo Sartori. Neste ano, o impacto do clima reduzirá pela metade o volume produzido. A projeção é de que sejam colhidos 350 milhões de quilos da fruta.

– Mesmo com a dificuldade que os produtores têm, às vezes muita chuva, ou chuva fora de hora, tempo ruim em outra, geada fora de hora, ninguém perdeu o estímulo, e estamos avançando bastante nesta área que, com certeza, é muito importante para a economia do Rio Grande do Sul – disse Sartori.

Se no campo o trabalho segue a pleno, fora dele produtores continuam mobilizados na busca pela garantia dos recursos destinados à subvenção do seguro rural. Parlamentares voltaram a se reunir nesta semana com representantes do Ministério da Agricultura para tratar do assunto.

Segundo informações da pasta, as seguradoras se mostraram abertas a negociar o pagamento das apólices.

Mas o que os produtores querem mesmo, como pontua o presidente da Comissão Interestadual da Uva, Dênis Debiasi, é o uso de recursos previstos para 2016 para quitar valores em aberto de 2015 – o que exige elaboração de lei.

NO RADAR
AS PEÇAS do mercado global de produtos químicos se mexeram com o anúncio da compra da suíça Syngenta pela gigante estatal chinesa ChemChina. A oferta foi de US$ 43 bilhões. Comunicado afirma que a operação é a aquisição mais importante de uma empresa chinesa no Exterior.



ASSUNTO DA ASSEMBLEIA

O pedido para que as imposições da Lei Kiss em estabelecimentos agropecuários como aviários, armazéns e estufas de hortigranjeiros sejam reconsideradas vinha mobilizando o setor. E partir de agora poderá se tornar assunto também da Assembleia Legislativa.

O deputado Elton Weber (PSB) protocolou ontem proposta para criar uma comissão especial dedicada à lei complementar 14.376. Para ir adiante, a proposta precisa ser aprovada em plenário.

Colaborou Joana Colussi


04 de fevereiro de 2016 | N° 18435 
DAVID COIMBRA

Os chinelões do Congresso Nacional


O Congresso brasileiro foi tomado pelos chinelos. Adjetivo preciso esse, “chinelo”. Vem do antigo “pé de chinelo”, que, em português padrão, pode ser definido, talvez, como “pessoa vulgar”.

Isso de pé de chinelo obviamente é do tempo em que os chinelos não gozavam do prestígio de que hoje gozam. Antes dos anos 1970, um homem que prezasse a elegância só sairia à rua calçado de sapatos. Tênis, inclusive, era coisa de guri. Até porque só havia três tipos de tênis: a Conga, o Bamba e o Kichute. Infelizmente, eu quase que só usei a Conga, que, para empregar outro adjetivo tão popular quanto funcional, era considerada “bagaceira”.

Uma vez a minha mãe me deu um Kichute. Lembro até hoje da emoção de abrir a caixa e ver aquele par de Kichutes pretinhos, com trava e tudo. Nem podia acreditar. Era o tênis do Cyborg. Calcei-o e saí correndo pela rua. Tinha certeza de que estava muito mais rápido, dentro dos meus Kichutes.

Naquele tempo, as pessoas sentiam vergonha de usar chinelo de dedo, bermuda e camisa de time. Aí as Havaianas começaram a fazer propaganda de gente bonita usando sandálias na TV e, logo, até a Gisele Bündchen passou a calçar chinelo de dedo. Um caso de sucesso mundial. Aqui, nos Estados Unidos, já vi cobrarem 36 dólares por “Havaianas flip flops”, o que atinge os R$ 150.

Aliás, que ótima palavra para chinelo, não é? Flip flop. É o barulhinho que a Fernanda Lima faz, quando caminha com suas Havaianas por aí. Se fosse traduzir a primeira frase deste texto para um americano, diria que nosso Congresso foi tomado pelos flip flops.

Por que eles são flip flops? Não apenas porque gritam, insultam e agridem uns aos outros. Não apenas porque quebraram cabines de votação, semanas atrás. Não apenas porque se comportam como torcedores de futebol durante sessões importantes, cantando e berrando palavras de ordem.

Não, não é só por isso, embora isso já fosse o suficiente.

É, também, porque eles não têm noção de como funciona a democracia. Não têm noção nem do seu próprio papel na esfera pública.

Tal falta de consciência republicana ficou demonstrada de sobejo já na primeira sessão do ano, na terça passada. Naquele dia, a presidente da República saiu do Planalto para prestigiar a reabertura do Congresso. Foi a primeira vez que essa visita ocorreu, desde Sarney, há cerca de 30 anos.

A ida do chefe do Executivo ao Congresso é um gesto importante. É uma aproximação dos dois poderes. É uma valorização do sistema de pesos e contrapesos da democracia representativa. É uma forma de administrar o país em parceria com outros estamentos da sociedade. No entanto, quando Dilma citou a CPMF em seu discurso, muitos dos congressistas a vaiaram.

Ora, Dilma não tem nenhuma acusação de ilícito pessoal pendendo sobre sua cabeça. Ela não é suspeita de possuir contas bancárias escusas no Exterior como o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Nem é suspeita de manter relacionamento promíscuo com empreiteiras como é o seu antecessor, Lula. E mais: apesar de ser constantemente atacada e até ofendida, Dilma nunca reagiu com autoritarismo. Sua conduta tem sido estritamente democrática.

É verdade que Dilma não faz um bom governo, isso até os petistas admitem. Mas ela é a presidente da República. E ela não estava num estádio de futebol; estava no Congresso Nacional. Os deputados que a vaiaram, faltaram com respeito à instituição da Presidência. Desrespeitaram o povo brasileiro, que elege o presidente. Desrespeitaram a democracia. Foram indignos dos cargos que ocupam. Para usar uma linguagem que eles possam entender: foram chinelos. Triste Brasil, com seu Congresso tomado por chinelos.



04 de fevereiro de 2016 | N° 18435 
L. F. VERISSIMO

Históricos


A eleição do novo presidente americano em novembro se encaminha para ser tão histórica quanto foi, há oito anos, a eleição do Barack Obama, um afrodescendente (de primeira geração, seu pai era africano) nascido no Havaí. O Baraca está chegando ao fim do seu segundo mandato nos Estados Unidos e ainda tem gente que discute se sua biografia não foi forjada e se ele tinha condições legais de ser presidente, tamanha a reação àquele fato impensável, um negro na Casa Branca.

Se Hillary Clinton for escolhida como candidata do Partido Democrático à eleição, será a primeira vez na história que uma mulher chega tão alto na política americana. Já o mesmo ineditismo não se aplica à candidatura de Bernie Sanders pelo mesmo partido. Outros socialistas, com ou sem aspas, como ele já chegaram perto da presidência, notadamente Eugene Debs, que no começo do século passado mobilizou sindicatos e outros insatisfeitos com o capitalismo selvagem que rugia na época e alcançou votações respeitáveis em duas eleições presidenciais. 

Outros candidatos progressistas ou francamente esquerdistas que passaram do traço nas pesquisas de intenção de voto foram Robert La Follette e Norman Thomas. Este último foi o candidato do Partido Socialista da América em seis eleições consecutivas. Teve a má sorte de ser contemporâneo de Franklin Roosevelt, que, na presidência, com suas medidas econômicas contra a recessão e sua legislação social, apelidadas de “New Deal”, sequestrou o voto de esquerda e tornou-se imbatível. 

A novidade da candidatura de Sanders é, antes de mais nada, ter chegado aonde chegou, muito mais longe do que os “progressistas” de antanho (está praticamente empatado com a Hillary nas pesquisas), e o fato de a sua pregação contra a desigualdade e o poder de Wall Street ter encontrado ressonância entusiasmada – esta sim, inédita – entre os eleitores mais jovens. Um crítico declarado do capitalismo na Casa Branca seria sem dúvida histórico.

Donald Trump na Casa Branca não seria inédito. Uma presidência pela qual já passaram Richard Nixon e George Bush, só para ficar em recentes, não tem nenhum tipo de seriedade a ser ameaçada por outro bufão. Trump eleito seria histórico porque ele incorpora tudo que é lamentável na política – do poder do dinheiro à demagogia mais rasteira – na forma de autocaricatura, mas diz a verdade: se o que acontece na Casa Branca não nos afetasse tão diretamente, a perspectiva de Trump e sua cabeleira dourada na presidência não seria a mais divertida de todas?

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016



03 de fevereiro de 2016 | N° 18434 
MARTHA MEDEIROS

Sentimentalismo


Li um texto divertido sobre as praias gaúchas (ah, sempre elas, as vítimas clássicas de todo verão). O autor, Giovani Groff, descreve Hermenegildo, depois Cassino, até chegar a Quintão, Magistério, Pinhal, Cidreira, Mariluz, Tramandaí, Xangri-lá, Capão, Arroio do Sal e Torres – e mais o que existe no caminho entre elas. Claro que é uma pegação de pé danada, e mesmo quem já foi feliz nas areias do litoral gaúcho, como eu, deixa o sentimentalismo de lado e dá boas gargalhadas.

Só que resolvi ler também os comentários sobre o texto, e aí confirmei: essa história de deixar o sentimentalismo de lado não é uma de nossas qualidades – aliás, nem é considerada uma qualidade.

Houve quem, contrariado com o texto, enaltecesse nossa região serrana – que nada tinha a ver com o assunto. Teve quem aproveitou a oportunidade para esculhambar Santa Catarina por estar com algumas praias poluídas – o que também não vinha ao caso. Era só um texto engraçado, mas os advogados de defesa do Rio Grande não saem de férias, estão sempre de plantão.

Este pequeno e desimportante episódio da série “não falem mal das nossas praias” me fez pensar que o sentimentalismo barato não é exclusividade nossa. O Brasil inteiro é assim.

Não sou nenhum bloco de gelo e acho que, enquanto nos emocionarmos, há salvação. Mas a afetação excessiva geralmente desvia a criatura do foco. Um exemplo antigo, mas ilustrativo: a Seleção Brasileira na última Copa. Aquela choradeira dos jogadores. O hino cantado como se o time estivesse diante de um pelotão de fuzilamento. As camisetas e bandeiras homenageando Neymar, como se ele tivesse sido vítima do Estado Islâmico. Isso não é ser emocional. É piegas. Um pouquinho menos de passionalidade e a gente teria perdido por 3 x 1, bem mais razoável.

Os alemães são secos? Os ingleses são frios? Os franceses são antipáticos? Estereotipando, é verdade, assim como é verdade que os brasileiros são alegres e afetivos, um atributo louvável. Mas os alemães também se apaixonam, os ingleses se comovem e os franceses são gentis, então seria natural que os brasileiros também fossem sérios e racionais, não?

Não. É nesta busca de equilíbrio que a gente peca. Temos pavor de deixar o sentimento de lado em prol de um raciocínio lógico. É como se, ao abrir mão do nosso perfil emotivo, perdêssemos a identidade. Queremos fazer amigos em cada bar, queremos ser amados, queremos contagiar com nossa faceirice e simploriedade. A ideia é encantar e seduzir através do nosso gigantesco coração. Só que, calorosos desse jeito, a autocrítica, que nasce do intelecto, desaparece. Sem autocrítica, como amadurecer?

Um Brasil um pouquinho mais cerebral e seríamos outro país.



03 de fevereiro de 2016 | N° 18434
EDUCAÇÃO

Há excesso numa ponta e falta na outra


A comparação entre as informações de renda dos 5.457 candidatos aprovados no vestibular da UFRGS de 2014 e os dados da Pesquisa Anual por Amostra de Domicílios (Pnad) do mesmo ano evidenciam a desigualdade no acesso ao Ensino Superior: 

- Na UFRGS, 8,65% dos calouros declararam renda familiar superior a 20 salários mínimos (hoje, R$ 17,6 mil). No Brasil e na Região Sul, só 2,1% das famílias recebiam o equivalente. 

- 22,7% dos aprovados eram de famílias com rendimentos de pelo menos 10 salários mínimos (R$ 8,8 mil). No Brasil, apenas 7,5% dos domicílios tinham rendimentos maiores (o percentual sobe para 9,2% na Região Sul). 

- 45,9% dos novos alunos vinham de famílias com renda acima de cinco salários mínimos (R$ 4,4 mil). No Brasil, somente 22,9% dos lares ganhavam mais do que cinco mínimos. Na Região Sul, eram 30%. 

- 26,4% dos calouros tinham renda familiar de até três salários mínimos (R$ 2.640). No Brasil, 52,3% dos domicílios recebiam até três salários mínimos. Na Região Sul, o percentual era de 41,3%. 

As informações foram analisadas pelo professor de Economia da Universidade Federal de Pelotas Felipe Garcia, pesquisador de políticas públicas de educação, saúde e mercado de trabalho. 

– Há sobre-representação dos ricos, enquanto os pobres estão sub-representados. Vale dizer que isso ocorre a despeito das políticas de cotas para o ingresso – comenta Garcia, para quem os dados suscitam diversas questões para a criação de políticas públicas de educação e de combate às desigualdades. – As respostas não são óbvias. 

Garcia sustenta que, se o desejo das universidades é gerar pesquisa em conhecimento, o que pode acarretar em progresso tecnológico e crescimento econômico a longo prazo, não importaria o perfil socioeconômico dos estudantes, apenas que os melhores fossem selecionados. Mas se a promoção de oportunidades e suavização da pobreza forem prioridades, o processo de seleção de novos alunos deve ser reconsiderado.

É INCONSTITUCIONAL?


- Não é a primeira vez que uma proposta quer acabar com a gratuidade do Ensino Superior público para os mais ricos. O próprio senador Marcelo Crivella, há 10 anos, já havia apresentado projeto quase idêntico, que, na época, foi rejeitado pela Comissão de Educação por ser considerado inconstitucional.
- É que o inciso 4.º do artigo 206 garante a “gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais”.
- Apenas uma proposta de emenda à Constituição (PEC) poderia alterar esse princípio.
- A PEC 395/14, do deputado federal Alex Canziani (PTB- PR), foi aprovada em primeiro turno na Câmara em outubro de 2015. Ele quer mudar o princípio da gratuidade, permitindo a cobrança para cursos de pós-graduação, como especialização e mestrado profissional. Apenas cursos regulares de graduação, mestrados e doutorados teriam a gratuidade assegurada na Constituição.
- Segundo Eduardo Carrion, professor titular de Direito Constitucional da UFRGS e da Fundação Escola Superior do Ministério Público, o debate jurídico no país tem admitido uma cobrança específica para certas modalidades de cursos, porém isso não incluiria a graduação.
- “Há de se reconhecer as dificuldades orçamentárias do poder público, mas não podemos, com isso, atingir conquistas sociais importantes como o Ensino Superior gratuito. Mesmo uma PEC para instituir uma cobrança na graduação suscitaria outro debate, sobre o retrocesso ou não em direitos sociais”, avalia o jurista.


03 de fevereiro de 2016 | N° 18434
EDUCAÇÃO


ALGUÉM DEVE PAGAR PELA FACULDADE PÚBLICA?

ALUNOS COM RENDA FAMILIAR SUPERIOR A 30 SALÁRIOS MÍNIMOS pagariam anuidade nas universidades, propõe senador. Economistas apoiam, e educadores acreditam que seria criada mais desigualdade

Nos Estados Unidos, não é incomum que bebês de classe média já nasçam com uma conta poupança reservada para os gastos com Ensino Superior no futuro. Depois de formados, a realidade para muitos é enfrentar grandes dívidas estudantis. Ainda que as anuidades sejam inferiores às de universidades privadas, as faculdades públicas no país são pagas. Quem não for contemplado com uma bolsa tira do próprio bolso para cursar a graduação.

No Brasil, ricos e pobres podem conquistar um diploma universitário sem pagar mensalidade. O caminho? Estudar bastante para ficar entre os mais bem colocados em concorridos vestibulares para as universidades públicas. Em tese, é um modelo mais igualitário. Mas as estatísticas comprovam que o acesso não é tão universal.

Em 2004, segundo dados do IBGE, os estudantes que pertenciam aos 20% da população com os maiores rendimentos familiares representavam 54,5% do total de alunos no Ensino Superior público. Os 20% dos brasileiros com menor renda familiar representavam apenas 1,2% de universitários.

Políticas públicas – como as de cotas e as de financiamento – e a ascensão da classe C (jovens que antes precisavam trabalhar exclusivamente para ajudar no sustento da casa puderam se dedicar aos estudos) reduziram a discrepância. Em 2014, os mais ricos eram 36,4%, e os mais pobres, 7,6%.

Ainda que os dados mostrem um avanço na democratização, o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) acredita que o abismo entre os mais pobres e os mais ricos no Ensino Superior pode diminuir se os mais privilegiados passarem a pagar pelos estudos. Esse foi o motivo para apresentar o projeto de lei 782/2015 em dezembro. Crivella propõe que estudantes com renda familiar superior a 30 salários mínimos (R$ 26,4 mil) paguem uma anuidade para frequentar universidades públicas. 

O valor da cobrança, conforme consta no texto do projeto, seria calculado com base nos custos por aluno em cada curso. “A maior parte das vagas nas instituições públicas é ocupada por estudantes que poderiam pagar, com maior ou menor sacrifício, os seus cursos nas universidades privadas, impedindo, indiretamente, que tais vagas sejam oferecidas a estudantes reconhecidamente carentes dos recursos necessários, muitas vezes até, para pagar as próprias taxas dos exames vestibulares”, justifica o senador no projeto de lei.

Crivella argumenta que uma mudança na lei também arrecadaria mais fundos para as instituições que, segundo o senador, “andam à míngua de recursos”. Por e-mail, via assessoria de imprensa, o senador diz que o sistema de cotas é adequado, mas sua proposta não é excludente. E questiona: “De que adianta para um aluno que pode pagar ter a universidade gratuita, mas sem estrutura por dispor de poucos recursos?”.

QUEM PAGA ACHARIA QUE TEM MAIS DIREITOS, CRITICA ESPECIALISTA

A proposta não agrada Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que agrega uma rede de grupos e entidades. Ele cita os recentes debates sobre o tema no Chile e nos EUA como exemplos de um movimento que caminha no sentido contrário. No país sul-americano, acaba de entrar em vigor a lei do ensino universitário gratuito, aprovada em dezembro de 2015. Nos EUA, uma geração de endividados está no cerne da discussão sobre o quão justo seria o sistema vigente. 

O valor total da dívida estudantil no país já ultrapassa US$ 1,3 trilhão. De acordo com The Institute For College Access and Success, uma ONG que trabalha para tornar a educação superior no país mais acessível, em 2014, 69% dos estudantes que se formaram em universidades públicas ou sem fins lucrativos saíam com algum tipo de endividamento. A média por aluno era de US$ 28.950, o equivalente a mais de R$ 117 mil.

Para Daniel, implementar uma forma de cobrança de mensalidade ou matrícula para os mais ricos, por meio de mudança na lei, abriria fortes precedentes para uma diminuição do limite estabelecido conforme a renda familiar no futuro.

– A chance desse patamar descer para as classes mais baixas é grande. Você abre uma porteira para uma visão equivocada de como deve ser a universidade. A curto prazo, se criaria outro tipo de estudante: o que acha que tem mais direitos porque paga – avalia.

À frente da entidade cuja bandeira principal para democratizar o ensino superior é a criação de políticas afirmativas, Daniel defende uma reforma tributária, investimentos na educação básica e assistência aos universitários carentes durante os estudos.

– A desigualdade nas universidades é um sintoma, não uma causa. O Brasil é desigual – pondera.

Maria Beatriz Luce, professora titular de política e administração da educação na UFRGS, defende a mesma bandeira. Ela, que já foi conselheira por dois mandatos do Conselho Nacional de Educação (CNE), nas câmaras de Educação Básica e Superior, enxerga um progresso anual.

– No atual momento histórico, o Ensino Superior público gratuito é essencial para a democracia no Brasil. As universidades não podem ser excludentes, nem para os mais pobres nem para os mais ricos. Além da produção de conhecimento científico, as instituições têm função de formação do cidadão – afirma Maria Beatriz.

paula.minozzo@zerohora.com.br


03 de fevereiro de 2016 | N° 18434 
MOISÉS MENDES

Intocáveis


O documentário Entreatos, de João Moreira Salles, sobre a campanha da primeira eleição de Lula, em 2002, tem uma cena reveladora de quem era José Dirceu. A equipe de filmagens entra na sala em que ele coordena uma reunião com Guido Mantega e Gilberto Carvalho. É forte a reação do poderoso coordenador da campanha de Lula. Dirceu quer saber como eles entraram sem pedir licença.

Carvalho diz que a equipe é de confiança. Dirceu rebate dizendo que “não existe confiança absoluta”. Fica irritado e parece querer mostrar que manda em Mantega e em Carvalho. Sabe-se que mais adiante chegou a achar que mandaria em Lula.

Dirceu apareceu na segunda-feira em outros vídeos,no depoimento ao juiz Sergio Moro. Ele explica ao juiz como escolhia os diretores da Petrobras. E faz um desabafo:

– Eu não consigo aceitar a minha prisão, doutor Moro.

Condenado a sete anos e 11 meses de cadeia pelo mensalão, Dirceu foi preso em novembro de 2013. Em outubro de 2014, ganhou direito à prisão domiciliar. Em agosto do ano passado, voltou para a cadeia por causa da Lava-Jato.

Dirceu não queria ser filmado lá em 2002 porque tratava de detalhes da posse de Lula. Nesta semana, foi filmado de novo dizendo outras coisas que não queria que ouvissem. Mas uma coisa, pelo menos uma, ele queria tornar pública.

O que ele disse a Moro, para todo mundo ouvir, foi que a indicação do propineiro Renato Duque para a direção de Serviços da Petrobras foi do PSDB. Duque seria indicação não necessariamente de Aécio Neves, mas dos tucanos.

Ninguém vai acreditar em Dirceu, mesmo que ele tenha dito que a escolha estaria dentro da lógica de Furnas, estatal do sistema Eletrobras controlada oficialmente pelo PTB em nome de gente do PSDB.

A existência de Dimas Toledo, o homem dos tucanos em Furnas (via PTB), poderia explicar a escolha de Renato Duque. Dirceu jogou Duque, um dos mafiosos graúdos, no colo do PSDB. E o que isso significa? Nada.

O Zé Dirceu lá do filme Entreatos virou um zumbi. Imagine se irão investigar a sua estranha versão para a indicação de Duque, se não investigaram a fundo nem a história dos propineiros de Furnas na gestão de Dimas, sempre apontado como um infiltrado tucano.

Dirceu não tem força para acusar ninguém, muito menos um tucano. Nem Judas, se ressuscitasse hoje, seria levado a sério ao delatar um tucano.

Todos os tucanos, dos que voam alto aos que ainda estão aprendendo a voar, são intocáveis, as únicas figuras absolutamente confiáveis da política brasileira. A não ser que a Justiça, em algum momento, decida dizer o contrário.



03 de fevereiro de 2016 | N° 18434 
DAVID COIMBRA

Parabéns ao Instituto Lula


Sou fã do Instituto Lula. Que boa ideia. Se um dia ficar importante, vou fazer um instituto para mim. Instituto David Coimbra. Todas as ocorrências desagradáveis da minha vida serão tratadas pelo Instituto David Coimbra. Um leitor reclama da coluna? O Instituto David Coimbra responde. Reuniões? Quem participa é o Instituto David Coimbra. Pagamento de contas? Tarefa para o Instituto David Coimbra.

O que é genial nos nossos institutos, o meu e o do Lula, é que somos nós e não somos ao mesmo tempo. Nossa opinião exata, precisa, definitiva, essa não é conhecida, só a dos Institutos, que, convenientemente, sempre estão prontos para nos defender. Institutos, em geral, são muito leais.

Você dirá que a defesa acaba enfraquecida. Ao contrário! O Instituto a fortalece. Porque não é um indivíduo se defendendo; é uma entidade que o defende. É algo além das pessoas e acima delas, algo com identidade jurídica, com marca e logotipo. É perfeito, sobretudo para nós brasileiros que adoramos uma chancela oficial.

Já viu as propagandas? Essa é a cerveja “oficial” da Copa. Esse é o patrocinador “oficial” da Seleção. O Inter se orgulha de ser campeão do mundo “oficial Fifa”. Para os colorados, o Grêmio é um mero campeão do mundo “Toyota”. A Toyota é uma empresa, é como uma pessoa. Não é uma federação, não é um “órgão”, não é um instituto. Não é oficial.

Preciso de um instituto.

Usaria o Instituto David Coimbra principalmente com a minha mulher. Não gosta de algum comportamento meu? Queixe-se com o Instituto David Coimbra. Quer comprar alguma coisa? Fale com o Instituto David Coimbra. Quer que eu vá junto à loja? Leve o Instituto David Coimbra. Leu no celular uma mensagem que não devia ter lido? É com o Instituto David Coimbra.

Mas é claro que tudo tem seu limite.

Lembro de uma velha história de Foguinho, o imortal Oswaldo Rolla, treinando o goleiro Schneider em 1969, durante sua breve passagem pelo Inter. Schneider perguntava:

– Seu Rolla, se o cobrador da falta bater aqui nesse canto, o que eu faço?

– O senhor dá um passo para frente, para fechar o ângulo.

– E se ele bater mais em cima, ali. O que faço?

– Aí o senhor recua, para poder alcançar a bola.

– E se ele bater por cima da barreira, com força, exatamente na forquilha. O que faço?

– Aí o senhor toma o gol, seu Schneider!

É isso. Às vezes, o gol é inevitável. Já enfrentei situações em que não tinha explicação para o meu erro, a não ser admitir: errei. Paciência.

Lula vive uma contingência deste jaez. Ele jura não ser dono de um sítio que foi reformado pela Odebrecht, mas está comprovado que passou lá 111 finais de semana em quatro anos, um a cada 15 dias. Além disso, parte de sua mudança foi levada para lá e a imprensa sempre tratou o lugar como “o sítio de Lula”, sem jamais haver desmentido. 

Lula também jura não ser dono de um triplex que foi reformado pela OAS, mas está comprovado que pagou parte do imóvel, que sua mulher acompanhou a reforma e que ele foi ao local acompanhado de ninguém senão o próprio dono da OAS, Léo Pinheiro.

Se você pensar que Collor renunciou por ter comprado um Fiat Elba com dinheiro mal-havido...

Não, governistas, não: Lula não está sendo perseguido. Sim, governistas, sim: Lula deve explicações. Mas que explicações poderá dar? Nem o Instituto é capaz de resolver essa. Lula tomou o gol.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016


Bolsas ajudam a bancar pós-graduação no Brasil e no exterior

MICHELE LOUREIRO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
31/01/2016  02h00

Mais opções

Uma saída para quem planeja uma pós-graduação é tentar uma bolsa de estudo.

Há três fontes de financiamento público para mestrado e doutorado no Brasil: a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e as fundações estaduais de amparo à pesquisa.

Os valores variam entre as fundações estaduais, mas grande parte delas usa como base a remuneração da Capes e do CNPq: R$ 1.500 para quem cursa um mestrado, R$ 2.200 para doutorado e R$ 4.100 para os alunos de pós-doutorado.

Em geral, as bolsas de mestrado duram 24 meses e as de doutorado, 48 meses.

Cada fundação define as regras para o processo seletivo e as exigências para a concessão dos valores. Algumas exigem relatórios periódicos, por exemplo.

A Capes recomenda procurar a coordenação do curso de pós-graduação em que o aluno pretende ingressar para se informar sobre os procedimentos e requisitos.

É importante lembrar que as bolsas são quase todas direcionadas para pesquisadores em tempo integral, o que impede acumular a ajuda de custo com um salário.

REFORÇO

Há ainda ao menos duas instituições privadas que fornecem bolsas parciais de estudo –o Instituto Ling, em Porto Alegre, e a Fundação Estudar, de São Paulo.

A organização gaúcha concede ajuda de custo para mestrado e pós-graduação em administração, direito, jornalismo, engenharia e liderança.

Só podem concorrer alunos já aprovados em universidades estrangeiras e institutos parceiros.

Os valores variam de acordo com a área escolhida, mas podem chegar a US$ 35 mil para um MBA.

O instituto pede, contudo, que o bolsista doe o valor obtido quando terminar os estudos e voltar ao mercado.

Já a Fundação Estudar oferece de R$ 200 a R$ 2.000 por mês a alunos de cursos no Brasil e de US$ 5.000 a US$ 20 mil por ano para quem opta por estudar no exterior.

No último ano, 4.000 candidatos se inscreveram para o processo seletivo, que tem sete fases. Apenas 24 foram escolhidos.

"Selecionamos alunos com viés empreendedor e potencial para provocar impacto na sociedade", afirma Tiago Mitraud, diretor da Fundação Estudar.

O engenheiro José Frederico Lyra Netto, 41, foi um dos contemplados em 2013. Ele ganhou US$ 20 mil para cursar o mestrado profissional em políticas públicas da Universidade Harvard.

"Vendi meu carro, juntei minhas reservas e procurei bolsas", diz Netto. Ele pagou US$ 100 mil pelo curso.

"Mesmo assim precisei fazer um empréstimo a juros baixos nos Estados Unidos e vou pagar a dívida em 20 anos", conta o engenheiro.

O investimento, diz, já compensou. Há dez meses, ele trabalha como líder de equipe na consultoria de gestão estratégica Falconi, em São Paulo.

ONDE PROCURAR

Capes
www.capes.gov.br

CNPq

www.cnpq.br

Fapesp

www.fapesp.br

Fundação Estudar

www.estudar.org.br

Instituto Ling

www.institutoling.org 


02 de fevereiro de 2016 | N° 18433
EDITORIAIS

AS LIÇÕES DA VENTANIA


A tormenta que atingiu vários bairros de Porto Alegre e provocou transtornos em outras áreas da Região Metropolitana deixa lições que precisam ser assimiladas pelo poder público e pela sociedade. A primeira delas é a evidência de que, mesmo descontando-se a raridade e a violência do fenômeno, a infraestrutura de serviços básicos da Capital tem de ser revisada para que a população conte com alternativas de fornecimento de água e luz quando as redes de abastecimento são afetadas.

Ninguém ignora que a rede elétrica de Porto Alegre é precária, os fios estão amontoados, muitos postes são antigos e estão sobrecarregados, e a manutenção não é feita com a frequência desejada. Também não parece sensato que as estações de bombeamento de água sejam tão dependentes da rede elétrica, sem contar com geradores que permitam o funcionamento temporário em caso de emergência.

Cabe reconhecer que as autoridades responsáveis pelos serviços básicos e pela Defesa Civil agiram com presteza e organização, tanto na mobilização das equipes de socorro quanto na prestação de informações à população. Na ausência do prefeito José Fortunati, em viagem, o vice- prefeito Sebastião Melo desempenhou satisfatoriamente o exercício do cargo, colocando-se na linha de frente do mutirão formado para atenuar o sofrimento dos cidadãos e restaurar a cidade.

Mas, tão logo a cidade volte à normalidade, é impositivo investir na prevenção e nos cuidados com equipamentos e instalações mais sensíveis, como, por exemplo, hospitais e postos de saúde. Também está na hora de se pensar na substituição gradativa da rede elétrica aérea por cabos subterrâneos, mais dispendiosos, mas também mais resistentes a intempéries. O decreto de Situação de Emergência, assinado ontem pela prefeitura de Porto Alegre para agilizar a compra de máquinas e a contratação de pessoal, é oportuno, mas também evidencia um velho ensinamento: remediar custa mais do que prevenir.


02 de fevereiro de 2016 | N° 18433
ARTIGOS - LASIER MARTINS*

ERROS E OMISSÕES


A cúpula do PDT, especialmente o presidente, tem me criticado por eu discordar da permanência do partido no governo Dilma. Ora, desde que aceitei concorrer ao Senado prego a saída, a independência do PDT para se fortalecer e se fazer respeitar, seguir com luz própria, como dizia Leonel Brizola. Aliás, tenho certeza de que, se ele ainda vivesse, jamais compactuaria com tantos erros, omissões e crimes lulopetistas.

Lastimo que hoje o PDT viva à sombra do PT, acumpliciado ao fracasso administrativo e às promessas descumpridas em 2015. Em vez da meta de inflação de 4,5%, atingiu 10,67%. Em vez de PIB positivo de 1%, caiu em 3,8% negativos. Em vez do superávit primário de R$ 51 bilhões propagandeados antes da eleição, um estratosférico déficit de R$ 119 bilhões. 

A maior onda de desemprego: 1,5 milhão de demissões com carteira assinada. A indústria produzindo menos, a população consumindo menos, os Estados arrecadando menos em razão da recessão. E o governo compensando sua ruinosa gestão com aumento dos já pesados impostos, negando correção da tabela do Imposto de Renda e achatando mais os salários dos aposentados.

Tal sucessão de problemas não se restringe aos fatores de natureza econômica. Misturam-se às questões políticas e morais, que recheiam o descalabro. O desmantelamento da Petrobras é o símbolo maior da incompetência e da corrupção endêmica, que pautou o ambicioso projeto de perpetuação no poder e contaminou grande parte do organismo estatal. Fatos bem conhecidos pelas denúncias e condenações na Lava-Jato envolvendo empreiteiros, próceres e tesoureiros do PT.

E o PDT fechando os olhos para tamanho esquemão de propinas e falcatruas com uso e abuso dos bens públicos. Despreza as infrações à Lei de Responsabilidade Fiscal, como se não tivesse utilizado sem autorização verbas dos bancos estatais para saldar dívidas, atrasando repasses necessários. Desconsidera o toma lá dá cá no Congresso e os financiamentos do BNDES, com juros camaradas, a obras em países como Cuba, Venezuela, Angola, Moçambique e Panamá, utilizando mais de US$ 3 bilhões, recursos importantes às carências nacionais.

Enfim, a sinistra lista é grande. E precisa da reflexão daqueles que apoiam absurda e incondicionalmente este governo, como a cúpula do meu PDT.

Senador PDT/RS*


02 de fevereiro de 2016 | N° 18433
ARTIGO - HUMBERTO TREZZI*

TIRARAM O MUNDO DA TOMADA

Sim, sou mais um dos milhares que sofreram com o vendaval (microexplosão, tornado?) que se abateu sobre a área central de Porto Alegre na sexta. Na noite de sexta, sacudido pelo vento, “naveguei” com meu carro em meio ao turbilhão de água até chegar em casa. Com janelas abertas, a sala do meu apartamento ficou encharcada. Até agora estou sem água... Não, essa não é uma queixa contra as autoridades. Creio que fizeram o possível, diante da magnitude do desastre.

O texto é apenas para reforçar o quanto nossa dependência de energia é abissal. Não é à toa que, em guerras ou atos terroristas, um dos principais alvos é sempre a central elétrica. Sem eletricidade, nós simplesmente não sobrevivemos. E não falo apenas da dependência em relação à internet, fenômeno moderno, mas difícil de lidar – minha filha de 21 anos que o diga.

Porto Alegre, nas madrugadas de sábado e domingo, parecia cidade de filme de zumbi, classe B. Bandos peregrinando por ruas às escuras, em meio a árvores e postes caídos, emaranhados de fios. A Cidade Baixa, motor notívago da Capital, virada num breu, iluminada apenas pelos faróis de escassos carros que se arriscavam pelas avenidas. O Centro e o Menino Deus, manchas escuras, repletas de obstáculos – várias vias interrompidas. Na sexta-feira, para piorar, fios desencapados expeliam chamas, tornando o cenário apocalíptico.

Poucos lugares abriam para venda. Como pagá-los, se as máquinas de cartões bancários não operavam sem luz? Quem foi pego desprevenido de cédulas de dinheiro, como eu, teve de peregrinar atrás de grana.

Por dois dias, me somei a multidões que vivenciaram o mesmo drama que atinge cotidianamente cidadãos da periferia. Baldes de água espalhados pela casa, chuveiro sem sair uma gota, busca por algum amigo da outra ponta da cidade que tivesse água para um banho. Comidas estragadas. Caos. Incerteza. Escuridão até para subir as escadas do prédio. Nada como um pouco de sofrimento para redescobrir a solidariedade.

Aí, na noite de domingo, a luz voltou. Aleluia. Fiat lux! (Faça-se a luz!, em latim, remetendo à criação do mundo descrita no Gênesis bíblico). Fica o espanto: bastam três dias para nossa rotina virar de cabeça para baixo. Imaginem se tiram de vez o mundo da tomada. Hora de valorizar esse bem tão invisível, a energia nossa de cada dia.

Jornalista, repórter especial de ZH*

02 de fevereiro de 2016 | N° 18433 
DAVID COIMBRA

O grito de rebeldia


Todo mundo gosta de pizza. Digo-o três vezes, por ser tripla verdade. Minha intenção, já revelei, é escrever sobre a política atual, e, ao falar em verdade “tripla”, não faço referência ao triplex do Lula. Nada a ver. Quero tratar de Bolsonaro. Mas, como ressaltei na coluna anterior, não podemos esquecer que pizzaria é coisa recente, em Porto Alegre. Vem da última curva do século 20.

Lembro da primeira pizzaria rodízio da cidade. Chamava-se Sapeca e ficava nas profundezas da Félix da Cunha. Era uma novidade absoluta. A pessoa podia ir lá, pagar certa importância e comer quanto quisesse. Nós nem acreditávamos. Será que era verdade?

Era.

Não passávamos de uns pirralhos, por volta de 15 anos de idade. Aquilo era... o quê? 1977, talvez. Fazíamos concurso de quem comia mais fatias de pizza. Seis me deixavam totalmente empanzinado. Não sou bom em concurso de comer pizza. O melhor era o Jorge Barnabé, que, numa única noite, engoliu 16 pedaços e voltou para casa mareado.

Essa prova de quem comia mais em pizzaria rodízio se tornou meio que tradição na cidade. Ouvi lendas de façanhas impensáveis, gordos devorando 30 fatias e pedindo sobremesa. Não pode ser verdade.

As pizzarias rodízio se multiplicaram como o zika vírus pela Capital. Lembro-me de algumas que anunciavam “60 variedades”. Era preciso ter imaginação para inventar tanta variedade. Comeu-se, em Porto Alegre (acredite!), pizza de chocolate branco. Uma cidade que come pizza de chocolate branco é uma Gomorra, não há de atravessar os tempos sem conhecer o Flagelo de Deus.

De qualquer maneira, isso tudo prova a popularidade da pizza. Era aonde queria chegar. Ocorre que, outro dia, o Potter usou o amor que as pessoas sentem pela pizza para compor uma imagem relacionada a Bolsonaro. Disse o Potter:

“Hoje, se o PT divulgar que a pizza é o prato preferido do partido, todas as pizzarias do Brasil vão fechar, porque todo mundo vai odiar pizza”.

E é verdade. Os brasileiros não suportam mais o PT, e quanto mais os petistas tentam defender o PT, mais se acirra o ódio pelo PT. São muitas as razões dessa ojeriza, não apenas a corrupção. Mas isso, aqui, não importa. O que importa é que personagens como Bolsonaro são fertilizados exatamente por essa repulsa do brasileiro pelo PT.

Bolsonaro é um símbolo. O PT também. O que está acontecendo, no Brasil, é a espuma de uma onda mundial, é um refluxo hegeliano. Durante décadas, desde o fim dos anos 1960, as consciências ocidentais são pressionadas pela Nova Moral. É uma moral supostamente de esquerda, que reage à antiga moral, dita de direita. Era para ser libertária, mas isso é impossível: toda moral é restritiva. Toda moral fiscaliza e julga comportamentos. Pior: fiscaliza e julga pensamentos.

Bolsonaro, ao gritar seu preconceito, dá um grito de liberdade. Não devido ao preconceito: devido ao grito.

Trump, nos Estados Unidos, faz o mesmo movimento. Sua sinceridade grosseira é um alívio para quem não aguenta mais tanta vigilância.

As pessoas não se identificam com Trump, nem com Bolsonaro. Identificam-se com a rebeldia deles.

Note: à rebeldia, pouco importa o conteúdo; importa a forma. A rebeldia é uma ação física. Uma reação (em geral explosiva) à pressão. No caso brasileiro, a pressão moralista é exercida, há década e meia, pelos petistas. Ficou fácil reagir: se o PT é contra, você é a favor; se o PT é a favor, você é contra. Mesmo que seja algo bom. Mesmo que seja pizza.


02 de fevereiro de 2016 | N° 18433 
MÁRIO CORSO

Sem noção

Um amigo teve uma ideia que lhe parecia brilhante. Queria criar um curso para os “sem noção”. Afinal, segundo ele, o que mais campeia solto neste vasto mundo sem porteira é gente sem noção. E vamos combinar, ser sem noção atrapalha muitíssimo, a si e aos viventes em volta. A vida pessoal e a laboral podem virar tragédias por causa dessa incapacidade de perceber a verdadeira noção das coisas. Fortunas são dilapidadas, negócios vão pro brejo, famílias se separam, tudo pela falta de noção. Imagina, dizia ele, quanto economizaríamos se todos fizessem meu curso. – Se recuperássemos os sem noção para o bom senso, este mundo seria outro!

Meu amigo desistiu do curso. Mas não pelas dificuldades que eu antevia: afinal, como seria um curso desses? O que explicar e vivenciar para apreender o que seria a verdadeira noção das coisas? E o mais difícil: quem ensinaria? Percebem o desafio? Ele reconsiderou quando, após anunciar sua empreitada didática, apareceram muitos sem noção, mas não para matricular-se, e sim oferecendo-se para dar aula. Ele deu-se conta de que o sem noção não sabe nem admite que é sem noção, logo não procuraria o curso.

Na sua autocrítica, admite que ele mesmo era meio sem noção por não perceber isso antes. Mas, assegurou-me, aprendeu com essa experiência que existe uma grande diferença entre os “meio sem noção”, categoria em que se incluía, e os “sem noção”, gênero básico, que são a maioria. Porém existiria um terceiro caso, o mais alto grau nesse aspecto da inconsciência da noção, que seriam os “sem senso de noção”. Neste último caso, dos quais devemos perder a esperança, entram, entre outros, aqueles que se ofereceram para dar aula. Eles são mais do que sem noção, esses não sabem sequer que a noção existe.

Seu afã classificatório não parou por aqui, tinha tabelas sobre as correlações entre a noção e o barulho. O sábio seria quieto e, quanto mais sem noção, mais ruidoso, mais professor de todas as coisas, doutor em todos os assuntos. Esse especialista universal, que não recua a qualquer tema, também é reconhecido pelo local da docência: discursa em supermercado, elevador, portaria, reunião de família e mesa de bar. 

Além disso, reconheceu uma forte tendência a quanto mais tempo alguém dominar sonoramente o ambiente, menos as suas palavras fazerem sentido. O sem noção não conhece a dúvida, por isso abusa das palavras, chicoteia com a língua todos os temas, e é um missionário fervoroso das suas crenças. O sem noção é um profeta decaído, e o impulso pedagógico intempestivo e gratuito, sua marca.

Mas fiquei curioso sobre como ele me classificava. Começou bem a avaliação, elogio aqui, ali, mas a nota final baixou muito porque, segundo ele, escrevo umas coisas muito sem noção no jornal. Então tá.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016



01 de fevereiro de 2016 | N° 18432
ARTIGOS - CLÁUDIO BRITO*

CULTURA POPULAR


Nem tudo se perdeu. Ainda há quem reconheça o Carnaval como autêntica manifestação cultural, apesar da discriminação e do ranço de alguns, que aplaudem suspensão ou cancelamento de eventos carnavalescos, alegadamente por falta de recursos financeiros e necessidade de atendimento de outras prioridades. Dito assim, com tamanha simplicidade, parece mesmo que a verdade estaria onde estivesse o fim do Carnaval. Agora, no entanto, uma voz bradou em favor da cultura popular. O Conselho Estadual de Cultura emitiu nota sobre o tema, manifestando inconformidade com a política de cancelamento da festa de Carnaval por parte de algumas prefeituras.

Os conselheiros culturais de nosso Rio Grande reconheceram que o Carnaval “é a manifestação maior e mais original da cultura brasileira! Pertence à alma da nação! Por isso, o não incentivo dos poderes constituídos a sua execução se constitui em um grave equívoco administrativo, político e cultural”. A nota oficial trouxe a forma vibrante que os pontos de exclamação querem significar.

É oportuno lembrar que o Conselho tem a estatura que lhe confere a Constituição do Estado, destinando-lhe deveres e prerrogativas para exercer a gestão democrática da política cultural, pelo desempenho de funções que ensejam ao órgão o poder de estabelecer diretrizes e prioridades para o desenvolvimento cultural do Estado, cabendo-lhe fiscalizar a execução dos projetos culturais e aplicação de recursos. 

Bem se vê que se agiganta a posição dos nossos conselheiros culturais ante o Carnaval, pois é mesmo deles a atribuição de fixar rumos para a cultura entre nós. Por isso é que é ao menos um equívoco político a decisão de suspender festejos carnavalescos, se não for mais que isso. Para mim, alguns prefeitos fizeram demagogia em anunciar que, “em nome da saúde e de outras prioridades, o Carnaval está suspenso”. 

Quero saber dos números depois, para ver quem terá salvo a saúde pública pelo fim dos desfiles de escolas de samba, blocos e cordões. Ressaltem-se casos como os de Porto Alegre e Uruguaiana, que, mesmo enfrentando as dificuldades que a crise atual impõe a todos, encontraram saídas, reduziram o aporte de recursos, mas, em momento algum, cogitaram afrontar a cultura popular do Carnaval, agora reconhecida como a maior e mais original manifestação da cultura brasileira.

Jornalista* 

01 de fevereiro de 2016 | N° 18432 
CÍNTIA MOSCOVICH

SALVE-SE QUEM PUDER


Naquele final de dia, meu marido tinha embicado o carro na entrada da garagem e esperava o portão automático abrir. Foi quando escutou batidas no vidro da porta a seu lado. Era um homem com uma arma. Do outro lado, apareceu outro sujeito, igualmente armado. Levaram automóvel, carteira, documentos, um guarda-chuva e uma grande parte de nossa paz. O carro nunca mais foi encontrado.

Ao longo dos 31 anos em que moramos aqui na casa, esse foi o mais sério dos seis assaltos que enfrentamos. Com medo, fomos colocando grades, cerca elétrica, barreiras com infravermelho, sistema de alarme por calor e movimento, câmeras que nos permitem ver e ouvir até lá na esquina, sirenes e monitoramento da gloriosa Altec 24 horas por dia.

No dia do roubo, enquanto meu marido registrava a ocorrência, me dei conta de que as pessoas que estão do “nosso lado” do balcão têm muito mais medo dos bandidos do que os bandidos têm medo da lei. E esse descompasso gera a baderna, a muvuca, o tudo-pode em que estamos afundados.

Não sei mais o que os cidadãos comuns podem fazer para conter tanta violência, mas uma coisa é certa: ninguém é honesto e ordeiro por amor à lei (embora haja os que amem a justiça). As pessoas são honestas porque primeiro aprenderam a temer a punição estabelecida em lei, depois criaram vergonha na cara e, graças ao trabalho, acumularam coisas boas o suficiente que justifique ter medo de perdê-las. No frigir dos ovos, como está naqueles famosos Dez Mandamentos, o que a lei dispõe é o respeito ao direito do outro, que é o único jeito de viver em sociedade. 

Por não ter medo da lei muito menos vergonha na cara, as pessoas tanto roubam um carro à mão armada quanto ficam contando lorota para o fiscal da prefeitura que veio ver por que o estabelecimento está trabalhando sem alvará.

Assim como nunca soube que fim levou nosso carro, tampouco sei como se faz para que os delinquentes tenham medo da lei. De uma coisa eu sei: com o rastreador que foi colocado no carro novo, posso encontrá-lo onde quer que esteja. Tudo no melhor estilo salve-se quem puder. Uma tristeza.



01 de fevereiro de 2016 | N° 18432 
DAVID COIMBRA

A catedral

Todo mundo gosta de pizza. Era o que vinha dizendo, com a elevada intenção de tecer considerações acerca da política nacional. Aliás, a respeito da pizza, isso de pizzaria por toda parte não é algo que sempre existiu em Porto Alegre. O que sempre existiu em Porto Alegre, no ramo gastronômico, eram os restaurantes alemães, hoje em veloz extinção, como se fossem pássaros dodôs.

Porto Alegre já foi uma cidade de belos traços germânicos, como uma Vera Fischer em horário nobre. O maior arquiteto de Porto Alegre de todos os tempos era alemão: Theo Wiederspahn. Foi ele quem fez os prédios do Margs, dos Correios e Telégrafos, da Casa de Cultura Mario Quintana, o atual prédio da Tumelero, antes chamado Edifício Ely, a Cervejaria Brahma, hoje Shopping Total, entre muitos e muitos outros. O melhor da arquitetura de Porto Alegre é obra de Theo Wiederspahn. Ele fez tanto sucesso, era tão admirado, que despertou os demônios esverdeados da inveja entre os porto-alegrenses. Começou a ser perseguido. Faliu. Perdeu o registro de arquiteto profissional. Teve de se homiziar na igreja Luterana, para a qual passou a trabalhar.

Em meio a essas tribulações, deu-se o misterioso episódio da construção da nova Catedral Metropolitana. Algum investigador criterioso ainda vai esclarecer o que ocorreu neste caso pontuado de equívocos e desacertos. O primeiro erro foi a decisão de demolir a suave igreja colonial que servia de matriz. O solo abaixo dessa igreja, como soía acontecer no tempo do Brasil Colônia, servia como campo santo: os mortos eram enterrados sob o piso do templo, para que fossem abençoados pela eternidade. 

Como os escravos eram sepultados em cova rasa, envoltos apenas pela mortalha fina, quando desabavam temporais, como o que se abateu sobre a cidade no fim de semana, era normal que pernas, cabeças e braços putrefatos brotassem da terra no grande barranco que desce até a antiga Rua do Arvoredo, atual Fernando Machado.

Mesmo assim, a igrejinha fazia uma bonita evocação do nosso primeiro passado, como uma avó veneranda, e devia ter sido preservada. Que construíssem a catedral ao lado, ou em outro sítio. Mas, não. Puseram abaixo nossa memória.

Foi estabelecido um concurso a fim de escolher o melhor projeto arquitetônico para a nova catedral. Venceu o do arquiteto Jesus Corona, que imaginou um edifício imponente, com cinco torres góticas erguendo-se mais de 70 metros cada uma, em direção ao céu de azul anil. Essa ideia não agradou aos arquitetos locais. Para piorar a situação, o arcebispo começou a ter desavenças com Corona, que, dizem, era anarquista. Corona acabou desclassificado. 

Em seu lugar, resolveram usar o projeto de Theo Wiederspahn. Mas Wiederspahn era luterano e trabalhava para a “igreja rival”, por assim dizer. O arcebispo não estava feliz. Resolveu o problema enviando o projeto para o Vaticano. O italiano e católico Giovanni Giovenale tomou o projeto, fez algumas alterações no acabamento e mandou-o de volta. É ele quem assina a catedral, que, de resto, é bem bonita também.

Essas e outras decepções terminaram por rasgar profundas feridas na alma de Wiederspahn. Ele foi se entristecendo, se entristecendo, até que se viu dominado pelo cão negro da depressão. Theo morreu com pouco mais de 70 anos de idade, no começo dos anos 1950. Dizem que de desgosto.

Mas, puxa vida, não era de Theo Wiederspahn que queria falar. Queria falar da pizza e da política brasileira. Vou ter que deixar para amanhã.


01 de fevereiro de 2016 | N° 18432 
L. F. VERISSIMO

O sono da memória

Não há problema em publicar o Mein Kampf do Hitler, cujos direitos de edição recém caíram em domínio público. O livro interessa a historiadores e estudiosos da psicologia de massa e a qualquer pessoa curiosa sobre o poder das suas ideias, um poder capaz de galvanizar uma nação e mudar radicalmente a sua história. Eu só acho que as novas edições de Mein Kampf deveriam vir com um DVD encartado, com cenas dos cadáveres empilhados e dos moribundos esquálidos descobertos em Auschwitz e outros campos de extermínio, no fim da II Guerra Mundial. 

Cenas terríveis dos esqueletos das cidades bombardeadas e dos milhares de refugiados tentando sobreviver em meio aos escombros, enquanto o mundo ficava sabendo, nos julgamentos dos criminosos, das barbaridades cometidas em concordância com o “kampf” do Hitler. Assim o comprador do livro teria o nazismo como teoria e o nazismo na prática. As ideias e suas consequências.

Seria bom se as ideias viessem sempre acompanhadas de suas consequências. As pessoas pensariam melhor no que dizem e pregam, para não terem remorso depois. Já se disse que muitas barbaridades teriam sido evitadas no mundo se existisse algo parecido com o remorso antes do fato, uma espécie de remorso preventivo. Não se imagina o próprio Hitler se arrependendo das suas teses e, diante dos horrores que elas desencadearam, dizendo “Ei, pessoal, não era nada disso!”. 

Está claro que no cerne patológico da pregação de Hitler há uma volúpia de destruição, um desejo secreto de caos que tem tanto a ver com o romantismo alemão quanto com a geopolítica da época. Mas outros não têm o mesmo motivo para desprezarem as consequências. Ou para esquecerem-se delas.

Naquela famosa legenda de uma gravura do Goya está escrito que o sono da razão cria monstros. Pior que o sono da razão, Goya, é o sono da memória. As pessoas que hoje defendem a volta da ditadura militar no Brasil esqueceram-se de como foi. 

Esqueceram-se das prisões arbitrárias, das torturas, do terror e dos assassinatos de Estado, da censura, do número de estrelas nos ombros como única credencial para governar. Se não lhes falta memória, lhes falta razão. Ou miolos.

O Jair Bolsonaro, principal proponente da volta à ditadura, é o deputado mais votado do Rio. Tem uma multidão de apoiadores. E tem mais do que isso: na recente mudança no comando militar do Sul, Bolsonaro foi um convidado especial do novo comandante para a cerimônia de posse. Não se sabe se o comandante também é um nostálgico como ele. De qualquer maneira, tenho tido longas conversas com a minha paranoia, tentando acalmá-la.