segunda-feira, 15 de agosto de 2011



15 de agosto de 2011 | N° 16793
L. F. VERISSIMO


Influência das mães

Ainda não se deu a devida importância à influência das mães e suas lições de higiene na história do mundo moderno.

Passamos a infância ouvindo que não havia nada mais sujo do que dinheiro. Depois de tocar uma nota que andara por mãos desconhecidas, acumulando micróbios, devia-se ir correndo lavar as nossas. Botar a mão na boca depois de tocar em dinheiro e antes de lavá-la era morte certa. O resultado é que o dinheiro está em vias de extinção.

Foi substituído pelo cartão de crédito, cuja principal vantagem é que, sendo de plástico e pessoal, circula menos pelo terrível mundo das bactérias e dos dedos que ninguém sabe onde andaram (grande terror das mães). E estamos chegando ao ideal que nenhuma mãe previu, nem nos seus sonhos mais antissépticos: o dinheiro transformado em impulso eletrônico.

O dinheiro que cruza o éter de computador a computador, sem jamais ser tocado pelo maior inimigo do homem, ou do filho, que é a mão dos outros.

Outra grande ameaça de contágio era corrimão de escada. Saíamos de casa com ordens expressas de não tocar em corrimão de escada. Entre rolar escada abaixo e segurar no corrimão devia-se optar pela queda. Fraturas pelo menos se viam, enquanto os micróbios agiam em segredo. Resultado: inventaram a escada rolante. Outro triunfo das mães.

Mas terror mesmo, tema de histórias assustadoras com exemplos gráficos inesquecíveis do que podia acontecer, era tampa de privada. A princípio, devia-se evitar banheiros públicos. Se a necessidade de usá-los fosse inadiável, devia-se tomar precauções.

As meninas recebiam instruções minuciosas do que fazer no caso de não haver alternativa ao banheiro público. Deviam forrar o assento da privada com papel ou, melhor ainda, equilibrar-se alguns centímetros acima da tampa, sem tocá-la, e confiar na pontaria. Sob pena de, nos casos mais graves, até ficarem grávidas. Resultado: o travesti. O travesti foi a maneira que a Natureza encontrou de tranquilizar as mães, desenvolvendo a mulher que faz xixi de pé.

domingo, 14 de agosto de 2011


FERREIRA GULLAR

Arthur Bispo e a arte contemporânea

Ele jamais pretendeu fazer carreira de artista nem revolucionar as linguagens artísticas consagradas

A exposição de Arthur Bispo do Rosário na Caixa Cultural - Unidade Chile, no Rio, oferece a oportunidade de apreciarmos um número considerável de seus trabalhos realizados com fio e, também, de refletirmos sobre sua personalidade e sua obra. E isso se torna tanto mais oportuno quando alguns estudiosos dessa obra, ou apenas curadores, o associam ao que se convencionou chamar de arte contemporânea.

Essa associação inapropriada dá margem a uma série de equívocos, tanto no que se refere a esse gênero de arte quanto ao que aquele artista criou.

Mas não é só isso. Um pequeno texto na entrada da exposição afirma que Arthur Bispo do Rosário se rebelou não apenas contra o tratamento psiquiátrico como também contra a terapia ocupacional.

A referência à terapia ocupacional é surpreendente, primeiro porque, na Colônia Juliano Moreira, hospital psiquiátrico em que estava internado, não havia esse tipo de terapia, criado por Nise da Silveira no Centro Psiquiátrico Nacional. Tampouco era pretensão dela formar artistas, ali, mas apenas oferecer aos pacientes a possibilidade de se expressarem.

Aquela afirmação, porém, não é gratuita, uma vez que o texto procura apresentar Arthur Bispo do Rosário como um artista revolucionário, consciente da necessidade de romper com as formas artísticas existentes.

Essa tese alia-se a outra, que pretende mostrá-lo como uma espécie de precursor da chamada arte contemporânea, uma vez que não se utiliza das linguagens artísticas consagradas, como a pintura, a escultura ou a gravura.

Sua obra consiste em objetos recobertos por fio, além de mantos e estandartes bordados a mão. Trata-se, em ambos os casos, de teorias equivocadas.

Associar a obra desse artista à chamada arte contemporânea é ignorar a origem e a natureza de ambas as manifestações. Todo mundo sabe que o que se chama de arte conceitual ou contemporânea tem sua origem nos "ready-mades" de Marcel Duchamp e nos desdobramentos decorrentes da ruptura com as linguagens artísticas.

Já Bispo do Rosário --que não tinha nenhum conhecimento daquelas experiências-- jamais pretendeu fazer carreira de artista nem muito menos revolucionar as linguagens artísticas consagradas.

Sua obra é, na verdade, resultado de dois fatores que se juntaram: um talento artístico excepcional e uma visão mística, alimentada por seu desligamento da realidade objetiva, dita normal.

Sabe-se que Arthur Bispo do Rosário, nascido em Sergipe em 1911, mudou-se para o Rio em 1926, onde entrou para a Marinha, passando depois a trabalhar na Light. Em 1938, experimentou o primeiro delírio místico, que o levou a um mosteiro, donde o encaminharam a um hospital psiquiátrico. Depois de algum tempo alternando períodos de internação com atividades profissionais, passou a fazer miniaturas de navios, automóveis e bordados.

Em 1964, internado na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, teria ouvido a voz de Deus dizer-lhe que sua missão era salvar os objetos do mundo. Preso que estava numa solitária, por ter agredido outros internados, decidiu que a maneira de salvar os objetos seria recobri-los com fio.

E passou a fazê-lo, desfiando o tecido de seu próprio uniforme para, com o fio assim obtido, envolvê-los.

E prosseguiu nessa tarefa, que incluiria tudo o que lhe chegava às mãos, fossem facas, garfos, funis, algemas etc. Curioso é que, para salvá-los, decidiu ocultá-los, envolvendo-os com fio, e assim protegê-los do olhar humano.

Deve-se atentar para o fato de que não pretendia ser consagrado artista, como se deduz do que disse quando falaram em expor seus trabalhos: "Não faço essas coisas para as pessoas, mas para Deus". Não por acaso, sua obra-prima é um manto que bordou para com ele apresentar-se diante de Deus.

Certamente, isso não retira de seus trabalhos o valor estético e a criatividade que definem as obras de arte, mas, sem dúvida, torna inapropriado atribuir-lhe intenções vanguardistas.

Aliás, a natureza artesanal do que realizou --que lhe exigiu não só talento como mestria e dedicação-- nada tem a ver com a arte contemporânea, que nasceu da negação do trabalho artesanal do artista, o que está evidente no nome "ready-made" --que significa "já feito".

DANUZA LEÃO

A Bolsa ou a vida

As pessoas estão andando ou correndo, bonitas, saudáveis, queimadas de sol. Mas e a crise? Esqueça

SE VOCÊ MORA NO RIO, costuma ler os cadernos de finanças e tem um dinheirinho aplicado, deve estar pensando em qual a solução mais prática: se cortar os pulsos ou atear fogo às vestes. Uma sugestão: vista um short, ponha um tênis e, diante de tanta falta de futuro, vá dar uma voltinha na praia.

A cidade anda linda; nos últimos dias o ar tem estado puro, o céu azul, a temperatura perfeita, o mar em tons de azul e verde escuro, diferentes a cada dia, numa combinação de tons que nenhum pintor conseguiria fazer nem parecido. Ah, Deus tem muito bom gosto e estava particularmente inspirado quando criou o Rio.

Olhe as pessoas; elas estão andando ou correndo, bonitas, saudáveis, queimadas de sol. Mas e a crise, e as Bolsas? Esqueça; tente, pelo menos por umas horas.

Segundo os que entendem, os pobres estão mal, os ricos péssimos, e a situação pode piorar; é preciso começar a sofrer urgentemente.

Já que os economistas sabem tanto, poderiam nos dar alguma orientação; afinal, devemos sair comprando ou, ao contrário, não comprar nada? Mas não: eles se limitam a nos prevenir, para que se fique com os nervos à flor da pele, sem conseguir sorrir uma vez que seja, durante o dia. É preciso que se fique sério, sombrio, sisudo, para mostrar que participamos das desgraças que não vão poupar ninguém.

Enquanto isso, um monte de gente continua fazendo alongamento, andando e correndo, mas, segundo a cartilha da crise, estão fugindo da realidade. Tudo vale se o resultado for péssimo, e você começa a acreditar que trata-se de um bando de neuróticos alienados. Não é isso: eles estão apenas respirando, enquanto podem.

Aí você passa por um quiosque e vê um homem não tão jovem, mas também não um aposentado. Ele está sentado, sozinho, sem camisa, tomando sol, e o mais grave: de olhos fechados.

Vamos refletir: é verdade que em situações do mais profundo estresse algumas pessoas são capazes de delírios, tipo conversar e sorrir, até de fazer planos para uma futura viagem a Paris.

Ah, de que não são capazes as pessoas para fugir da realidade e se baratinar, sonhar com coisas que nunca vão acontecer.

Mas o homem que está tomando sol de olhos fechados é diferente; pense nos séculos que você passou na praia, quando era uma adolescente, antes dos 25.

Nesse tempo você fazia como ele, pois não tinha nenhum problema. Mas depois, quando eles foram chegando, bem discretamente -dava para fechar os olhos e ficar tomando sol? Claro que não.

Quem tiver que ir ao banco já fica impedido de pensar em qualquer coisa agradável, e ver alguém instalado num quiosque, bebendo um coco gelado no canudinho, sentindo o prazer do sol esquentando a pele, não é grave: é gravíssimo.

Mas isso acontece na praia inteira, do Leme ao Recreio. Não é preciso conhecer filosofia para saber que essas pessoas são, ou estão, felizes, mesmo com a crise. Ou serão apenas irresponsáveis?

Olhe bem para eles: nem uma só ruga na testa, nem um só traço de ansiedade no rosto, e quando encontram um amigo não falam sobre as Bolsas -falam de mulher. Detalhe: isso, às 10h da manhã de uma quinta-feira.

Quando passar por um desses homens felizes, dê um oi, assim, pra nada. Ele vai responder com outro oi, você vai continuar andando. Andando e pensando: a Bolsa ou a vida? Ora, a vida, claro.

danuza.leao@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

Surge um nome de oposição

BRASÍLIA - Passada a primeira semana da estridente e estabanada saída de Nelson Jobim do Ministério da Defesa, já é possível concluir: a oposição encontrou um endereço para chorar as mágoas.

Jobim está de "stand-by" para eventualidades, olhando e avaliando o cenário. Fernando Henrique Cardoso é, hoje, um pensador-provocador, José Serra está rompido com 25% do PPS, 50% do DEM e 75% do PSDB, e Aécio Neves ora cai do cavalo, ora cai no bafômetro. DEM e PPS não têm nomes.

Na avaliação corrente -até entre governistas, cá pra nós-, Jobim errou na forma, mas não no conteúdo. Foi deselegante, talvez agressivo, mas não disse nenhuma mentira. Ou, pelo menos, nada que não venha sendo dito à boca pequena. Há muitas dúvidas quanto ao governo Dilma e à própria Dilma.

Se ela ajustar bem o apoio popular, a sustentação política e as respostas à crise econômica, que se confundem, será a candidata do PT e do bloco governista em 2014. Do contrário, Lula está a postos. Quanto mais fraca Dilma, mais forte Lula -e vice-versa.

Para ter chance, a oposição torce para o tripé de Dilma balançar, mas não a ponto de dar a vaga a Lula. Não basta isso. É preciso unir forças e ter um bom nome, ou melhor, uma boa chapa.

Jobim abdicou do Supremo Tribunal Federal buscando uma brecha para disputar a Presidência ou a Vice-Presidência da República. Uma candidatura a senador não o atrai, muito menos a deputado, mas a presidente ou a vice continua tentadora.

O PMDB é um dos maiores, senão o maior partido do país, mas se pendurou em Fernando Henrique, depois em Lula e agora em Dilma. Pode cismar de assumir o protagonismo, dispensando intermediários, ou refazer a dobradinha com o PSDB, com Jobim na cabeça de chapa ou na vice de Aécio.
Se colar, colou. Se não, ele não tem mais nada a perder.

elianec@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

Uma fábula

RIO DE JANEIRO - Parece que foi na antiga Rússia dos tzares. Todo documento público precisava de estampilhas para ter valor legal.

Ivan Petrocivich perdeu a mulher e precisou comunicar o fato ao Registro Civil. Entrou na papelaria e pediu os selos necessários. O empregado lamentou não poder atendê-lo, não havia selos nem estampilhas, a Casa da Moeda estava fechada, todos os funcionários, do diretor ao faxineiro, estavam afastados ou presos por corrupção.

Ivan Petrocivich foi ao primeiro cemitério que encontrou, explicou a impossibilidade de legalizar a certidão de óbito, mas o coveiro que o recebeu nada pôde fazer: a instituição que explorava os cemitérios estava toda demitida por corrupção, vendia túmulos, mármores, enterravam quem bem entendessem, o jeito foi fechar os cemitérios.

Meio desesperado, Ivan Petrocivich apelou para a polícia. Pediu audiência ao chefe do sistema da Polícia Central, mas não foi atendido. Na véspera, o aparelho policial estava fechado, o Estado havia demitido toda a cúpula da instituição a bem do serviço público, dada a corrupção em todos os níveis.

Um vizinho o aconselhou a procurar o ministro da Justiça. Ivan Petrocivich chegou ao ministério e ali encontrou grande agitação. O ministro acabava de ser preso, estava algemado, dentro de uma troica que pertencia ao palácio do tzar. Mas a troica não saía do lugar porque faltavam os três cavalos de praxe, que na véspera haviam sido vendidos na bacia das almas, enriquecendo o noivo de uma das princesas da corte.

Desesperado ficou também o tzar. Garantiu que continuaria a combater a corrupção doesse a quem doesse.

Só não aprovou o uso das algemas, que começavam a escassear no mercado, uma vez que a principal fábrica de algemas estava sob intervenção federal devido aos frequentes casos de corrupção.

sábado, 13 de agosto de 2011



14 de agosto de 2011 | N° 16792
MARTHA MEDEIROS


Aquele que cativas

Me concedo o direito de não me sentir responsável por aquele que cativo. Me sinto grata, mas responsável é demais

Devia ter uns 14 anos. Estava na sala de aula, olhar compenetrado no quadro-negro, quando de mão em mão chegou até mim um bilhete de uma colega que costumava ser esnobada pela turma e com quem conversara algumas poucas vezes na hora do recreio. Ela me convidava para ir a sua casa à tarde. E concluía com uma sentença: És eternamente responsável por aquele que cativas.

Eu não tinha a menor intimidade com aquela colega e não estava a fim de ir a sua casa. Mas ela havia recorrido a Saint Exupéry. Me impressionou.

Fui à casa dela, conversamos, emprestei uns cadernos, mas nunca ficamos íntimas e nunca mais ouvi falar da garota. Hoje deve ser uma ótima advogada, já que desde menina conhecia as manhas para se convencer alguém.

O que ficou daquela tarde foi o argumento. “És responsável por aquele que cativas.” Acabei rezando por essa cartilha por um longo tempo. Bastava a pessoa simpatizar comigo e eu me sentia na obrigação de ser atenciosa a ponto de fazer coisas que não queria. Até que um dia dei um basta nesse trelelé.

Com todo o respeito ao autor de O Pequeno Príncipe, a terceira obra mais publicada e traduzida no mundo, presença constante nas listas dos mais vendidos mesmo 68 anos depois de ter sido lançado, me concedo o direito de não me sentir responsável por aquele que cativo. Me sinto grata e envaidecida, mas responsável é um tantinho demais.

A frase, que não deixa de ser um bonito verso, ganhou ares de reprimenda e punição. Cuidado: se alguém gostar muito de você, se passar a depender de você, danou-se, será obrigatório adotá-lo. O que era pra ser espontâneo virou um dever.

Reconheço as melhores intenções do livro, que é belo e merece continuar sendo lido por muitas gerações. Mas a frase, quando usada como ameaça, cria um mal-estar entre cativantes e cativados. Será mesmo que você é responsável por quem se encantou por você?

Sei que há pessoas de má-fé que seduzem os outros por diversão e depois desaparecem, deixando o seduzido chorando abraçado às suas ilusões. Maldade. Não se deve brincar com os sentimentos de ninguém, aprendemos isso antes mesmo de aprender a ler. Mas nos casos em que a sedução se deu de forma não proposital, ninguém deve sentir-se amarrado.

E mesmo quando houve sedução intencional e essa foi retribuída, virando um relacionamento, quem desama primeiro não precisa se sentir culpado se resolver ir embora. Que seja educado, gentil, amável com aquele que tanto o preza ainda, mas está liberado para tocar sua vida de outra forma e à distância. Quem fica deve aprender a fazer o mesmo. Não é fácil ser rejeitado, mas transferir a responsabilidade do seu bem-estar para outra pessoa tampouco é uma atitude cativante.

Nada pessoal, pequeno príncipe. Apenas um contra-argumento.

Gostoso domingo para você. Aos papais leitores deste blogger, sintam-se abraçados. Muita Saúde, para todos.


14 de agosto de 2011 | N° 16792
José Galló*


Grêmio: gestão, eis a questão!

Para começar, gostaria de esclarecer que não pertenço ao conselho de administração do Grêmio, a nenhuma torcida organizada e também não sou sócio. Sou apenas um observador e torcedor. Um clube de futebol, assim como uma empresa, uma ONG ou qualquer associação, depende de gestão para ser eficiente e vencedor.

Gestão é o conjunto de pessoas que compõem o conselho de administração, a diretoria e os gerentes, incluindo aqui o treinador. A gestão inicia-se no conselho de administração.

O conselho é o grande responsável por determinar aonde o clube quer e deve chegar a longo prazo, quais as estratégias e projetos que devem ser adotados para que isto ocorra. O que vemos no Grêmio? Várias correntes que lutam entre si pelo poder, com diferenças de ideias e desavenças que constantemente aparecem ao público através da imprensa.

Como deveria ser? É claro que é até salutar a divergência de ideias. Deve haver muitas discussões e até diferentes caminhos. Mas, ao final, deve haver algo em comum pelo qual todos vão aderir e lutar. A partir do momento que termina uma reunião de conselho, a linguagem e a direção devem ser únicas. O que vemos? Divergências expostas publicamente, ataques pessoais e divisões. Assim não se chega a lugar nenhum. Um jogo de futebol começa a ser perdido a partir da desunião do conselho.

A energia que deveria ser empregada para levar o clube para frente, para conquistas e vitórias, é gasta internamente em disputas pessoais. O clube deve ser algo maior, a razão maior de todos, não o resultado de lutas fratricidas.

O coirmão Internacional é um bom exemplo disto. Na década passada, um grupo de dirigentes uniu o conselho e diretores, estabeleceu estratégias, metas e objetivos.

Esse clube foi vencedor e até chegou a ser Campeão do Mundo. Recentemente surgiram e foram expostas divisões internas. O que aconteceu? O time passou a ter dificuldades de obter bons resultados.

A visão de um conselho deve ser uma visão de longo prazo, com claros objetivos e os recursos necessários para atingi-los. Esta visão deve ser passada aos diretores, ao treinador e ao time.

Como pode um time que troca constantemente de treinador (equivalente a um gerente de operações em uma empresa) ser eficiente? Em três meses, atacar; no próximo treinador, defender-se; no seguinte, atacar e defender-se. Impossível. Uma equipe, seja de futebol ou numa empresa, precisa entre seis meses e um ano para formar um conjunto entrosado que passe a produzir resultados.

Temos um bom exemplo no Santos Futebol Clube: conselheiros e dirigentes uniram-se, fizeram um plano, conseguiram a união de todos e os resultados estão visíveis. Esse grupo, formado por profissionais bem-sucedidos em seu dia a dia, levou técnicas modernas de gestão ao clube, pensando em curto, médio e longo prazos.

Temos um clube que constantemente é citado por seus títulos e sua eficácia: o Barcelona. Qual é a sua tática de jogo há mais de 30 anos? Manter a posse de bola no maior tempo possível. Quem tem a posse de bola domina o jogo, faz gols e atinge resultados. Muda o conselho, mudam os dirigentes, muda o treinador e... a equipe sabe claramente o que deve fazer.

Há uma frase célebre do presidente desse clube: “A bola não entra por acaso”. Há muita estratégia e processos atrás de cada gol perfeito.

Quais são os objetivos do Grêmio hoje? Escapar da zona de rebaixamento, não cair para a segunda divisão. Muito pouco para um clube com tantas vitórias e tanta tradição.

Não há fórmulas mágicas, diretores de futebol mágicos, técnicos salvadores da pátria. Tudo se inicia com uma grande união de cima para baixo.

Cabe aos dirigentes maiores pensarem não em posições e ideias de grupos ou pessoas, mas, sim, em algo que seja único, integrador, vencedor. O Grêmio é muito maior do que qualquer pessoa ou grupo isolado. Sem união, sem gestão, não há solução.

*Administrador de empresas


14 de agosto de 2011 | N° 16792
VERISSIMO


Rosé Sarney

Vamos defender, pelo menos, o nosso jota, gente

Durante muito tempo me intrigou a quantidade de jogadores de futebol brasileiros chamados Donizete. Uma homenagem, imaginei, ao compositor italiano Domenico Gaetano Donizzeti, autor, entre outras, da ópera Lúcia de Lammermoor, mas mais conhecido pela ária Una Furtiva Lacrima de outra ópera, Lelisir dAmore.

Mas o nome pressupunha pais que admiravam a ópera, ou pelo menos sabiam das existência do compositor, o que era improvável. E mesmo que isto explicasse dois ou três Donizetes, não explicava uma geração de Donizetes.

Qual seria o mistério? Depois descobri que o homenageado era um padre do interior paulista com fama de milagreiro e uma multidão de seguidores. Eu nunca tinha ouvido falar no padre, que não sei se ainda vive, mas é ele o responsável pela proliferação de Donizetes, muitos dos quais se tornaram jogadores de futebol. Nenhum deles milagreiro.

Mas surgiu outro mistério no futebol brasileiro: o número crescente de jogadores com o nome Juan. E um mistério ainda maior: por que eles são invariavelmente chamados – por narradores, comentaristas, colegas, amigos e, presume-se, suas próprias mães – de Ruan? A pronúncia certa do “j” em português é o jota de “jujuba”. Se vão chamar os Juans de Ruans, por que não chamar Juarez de Ruarez e Jorge de Rorge?

Lembro que uma vez eu assistia a um noticiário da CNN sobre o Brasil e a pessoa que estava comigo se indignou porque o locutor se referiu ao nosso presidente na época como “Rosé Sarney”. Americano não tinha jeito mesmo, para eles do México para baixo era tudo a mesma coisa, só faltava dizerem que a capital do Brasil era Buenos Aires etc. etc. Mas na insistência em chamar o Juan de Ruan estamos imitando americanos desinformados. Vamos defender, pelo menos, o nosso jota, gente.

Enfim, nada de muito importante. Sou um ativista de pequenas causas.

Faz tempo

Lembro-me, não sei como (faz tempo, e eu ando vazando memória), que a qualquer jogada mais tosca em campo sempre havia alguém da arquibancada que gritava:

“Olha o recurso!”

Queria dizer que faltara habilidade, fineza – em suma, recurso – para o jogador,

Quando um time estava dominando uma partida e forçando o adversário a recuar todo para sua defesa, o grito inevitável era:

“Aluga-se meio-campo!”

E bola chutada para o alto, como um balão, além de demonstrar lamentável falta de recurso, provocava o grito em uníssono:

“Viva São João!”

Já se gritava palavrão na época, mas nunca faltava alguém na torcida que olhava em volta, preocupado, e a cada palavrão alertava:

– Olha as famílias...

Hoje, claro, as famílias gritam detalhes íntimos da vida do juiz em coro.

Quem diria

(Da série “Poesia numa hora dessas?!”)

O mundo gira, o mundo rola.

Quem diria, né?

O Tio Sam passando a cartola...


14 de agosto de 2011 | N° 16792
PAULO SANT’ANA


Um cavalo humano

ARádio Gaúcha, no programa Gaúcha Hoje, divulgou na última quinta-feira a notícia mais espetacular e fantástica do jornalismo brasileiro nos últimos 50 anos.

Avaliem se estou exagerando. Em Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá, Mato Grosso, um cavalo percorre desde abril passado, todos os dias, sete quadras da cidade e se dirige ao túmulo de seu ex-proprietário, que está sepultado há quatro meses no cemitério local.

O cavalo atravessa a cidade e vai visitar a sepultura do ex-dono. Todos os dias.

No primeiro mês após o falecimento de seu ex-proprietário, depõem os parentes do morto, o cavalo passava relinchando: “Parecia que ele estava chorando de saudade ou porque sabia que alguma coisa ruim tinha acontecido”.

“É só deixar o cavalo solto e ele já sabe para onde ir, caminha até o cemitério. E, entre tantas sepulturas, ele escolhe exatamente a de seu dono. Fica parado ali na lápide, balança com a cabeça para cima e para baixo e rende assim sua homenagem ao homem que o domou e cavalgava com ele todos os dias”, acrescenta a mãe do filho morto.

O cavalo Raposa acompanhou o cortejo do seu ex-dono até o cemitério, em meio a uma cavalgada em homenagem ao seu enterro, em abril passado.

Impressionante relação de afetividade existe entre animais e homens.

Há inúmeros casos de pessoas que caem mortas e seus cães não se arredam de junto aos cadáveres.

Mas este caso é o mais curioso e ricamente amoroso que se conhece, porque a homenagem póstuma que o cavalo presta a seu dono acontece há meses e parece que, se não for impedido, o cavalo irá visitar o túmulo de seu domador até o dia de sua própria morte.


13 de agosto de 2011 | N° 16791
NILSON SOUZA


O sorriso de Paula

Meu colega de ofício Léo Gerchmann voltou de Buenos Aires com uma lembrança inesquecível de Puerto Madero, o bairro turístico da moda na capital argentina. É uma foto. Mas a imagem não é de nenhuma das magníficas obras arquitetônicas que transformaram o porto semiabandonado num dos locais mais charmosos da América do Sul.

A fotografia mostra o próprio Léo, com sua filha Paula, de quatro anos, sobre seus ombros. A menina é linda, e o pai é a própria expressão da felicidade. Léo mantém a foto sobre sua mesa de trabalho, olha-a a todo momento e faz questão de mostrá-la para quem passa por perto.

A corujice do meu amigo se justifica, pois nada pode ser tão gratificante quanto o amor incondicional entre pais e filhos, mas a imagem também retrata o novo modelo de paternidade documentado em reportagem da última edição da revista Veja. Os pais nunca estiveram tão próximos dos filhos como nestes tempos de novos arranjos familiares.

Outro dia, saí para caminhar no calçadão de Ipanema e encontrei tantos pais empurrando carrinhos de bebês, que resolvi até fazer um ensaio fotográfico com o celular, para provar à minha mulher que não estava inventando. Ao pedir permissão aos pais para fotografá-los, ouvi comentários como este de um jovem que ajeitava dois inquietos meninos gêmeos nos respectivos assentos:

– Não troco este momento por nada no mundo!

As mães andavam longe, provavelmente fazendo compras, trabalhando ou pagando as contas. Também já vai distante o tempo em que o homem era unicamente o provedor da casa e passava ao largo das funções domésticas. E o mais interessante é que os pais não perderam aquela autoridade de quem tinha a última palavra na hora de impor disciplina.

Pelo contrário, ao assumir a condição de cuidadores parecem estar ganhando ainda mais a admiração e o apreço das crianças, dos adolescentes e dos jovens. Tanto que a garotada já não mostra ansiedade para sair de casa cedo.

Alguns especialistas dizem que o novo papel aumenta a pressão sobre os homens, que precisam ser profissionais competentes, exímios trocadores de fraldas e ainda manter a aura de autoridade disciplinadora.

Pode ser, mas eles parecem bem felizes com isso. Pelo menos é o que dá a entender o colega Léo, hipnotizado de orgulho pelo sorriso emblemático de Paula.


13 de agosto de 2011 | N° 16791
PAULO SANT’ANA


50 anos sem exercícios

A novidade é que ontem iniciei meus exercícios com o personal trainer Paulo Toldo.

Foram 60 minutos de dureza na academia. Fiz exercícios de aquecimento, alongamento, aeróbicos, de flexão.

Toldo é um homem forte, exigiu-me talvez mais do que possa resistir. Mas eu ando numa fase em que resistir é comigo mesmo.

Oxalá eu me vicie em exercitar-me como sou viciado em cigarro, a preparação física pode até me salvar dos males do cigarro: é o meu alienado devaneio.

Então, o Toldo me flexiona o pé com força inaudita. “Dói?”, pergunta-me ele. Eu respondo: “Dói, no metatarso e nos pododáctilos”. O Toldo fica louco com o meu conhecimento de anatomia.

Então ele me flexiona a coxa, mais tarde a perna: “Ai, ai, está me doendo na região do cúbito”.

E lá vou eu nessa minha nova saga. Gostei tanto da primeira aula, que já antecipei para amanhã à tarde a sessão que seria na segunda-feira.

Quanto tempo perdido! Eu tinha que ter iniciado esses exercícios físicos há 30 anos, há 50 anos sou sedentário.

Porque não os iniciei, estão enferrujadas minhas dobradiças dos joelhos, chamadas agora de patelas, estão frouxos meus músculos e Deus me ajude que meus ossos não tenham sido atingidos por algum processo de deterioração.

De longe, os meus médicos devem estar eufóricos com esse novo tratamento para meu esqueleto.

Nunca é tarde para ser feliz.

Estou sendo assediado por diversos blogs que querem saber de mim quando será demitido o novo treinador do Inter.

Já tenho a data em que Dorival Júnior será demitido, mas agora, em respeito aos colorados e ao novo treinador, não a predirei. Se a predissesse, estaria sendo chato e inconveniente.

Eu predisse a data em que Falcão seria demitido porque Falcão era um ídolo do clube e declarara na sua posse que pretendia treinar por muitos anos o Internacional.

Então eu cravei que duraria só três meses, e, quando acertei, foram registrados 127.878 acessos no YouTube, em poucas horas: nunca houve um sucesso igual àquela mostra de meu comentário no Jornal do Almoço, quando pedi demissão no ar.

Vai trabalhar em paz, Dorival Júnior, eu juro que teu futuro, que já tenho previsto, te será desconhecido.

Não existe nada mais fatal que a pessoa ter certeza do que acontecerá no seu futuro.


13 de agosto de 2011 | N° 16791
DAVID COIMBRA


A mulher do colorado

Eles se odiavam. Eles eram inimigos desde a infância. Mas as vidas deles estavam sempre se cruzando. Nasceram e cresceram no mesmo bairro, estudaram na mesma escola. Quando meninos, jogavam bola em times adversários.

Quando jovens, disputavam as mesmas mulheres. Fizeram a mesma faculdade, formaram-se publicitários. Mas trabalhavam em agências rivais e, além disso, cultivavam a mais acre das rivalidades no esporte: Róbson era colorado; Rodrigo, gremista. Rodrigo vivia na esbórnia. Não tinha mulher: tinha mulheres. Róbson, ao contrário, casou-se e teve três filhos. Sua esposa, Gabrielle, era uma bela mulher, uma mulher sorridente e doce. Uma mulher fiel.

E agora havia sido contratada para trabalhar na agência de Rodrigo.

Quando o gremista descobriu que a mulher do colorado seria sua colega, que eles se veriam todos os dias e que, melhor ainda, ele seria chefe dela, quando ele descobriu isso, pensou: “Eis uma mensagem d’O Senhor. Ele, com E maiúsculo, está me dando uma oportunidade rara de atacar meu inimigo e derrotá-lo para todo o sempre”. Decidiu que assediaria Gabrielle sem trégua, até finalmente atarraxar dois cornos bem polidos na testa do colorado.

Foi o que fez.

Aproximou-se dela devagar, sem pressa, mas com determinação, como um leão acercando-se do gnu na savana africana. Todos os dias ele pespegava um pequeno elogio no lóbulo da orelha macia de Gabrielle.

Vez em quando, deixava um Sonho de Valsa sobre a mesa dela. Outro dia deixou uma flor, uma violeta delicada plantada em um vaso. Foi ganhando terreno aos poucos, ocupando território em silêncio, foi chegando sorrateiro, até que, numa festa da firma, aconteceu: Rodrigo prensou-a numa parede e beijou-lhe a boca com sofreguidão. Gabrielle era uma esposa. Esposa não são beijadas na boca com sofreguidão. Por isso, aquele beijo a enfeitiçou. E Gabrielle cedeu.

A cidadela da fidelidade espatifou-se e e ela se entregou à paixão proibida, que é a melhor das paixões. O gremista Rodrigo, quando finalmente teve-a nua e ondulante em seus braços, exultou de alegria: tantos anos de rivalidade e agora ele alcançava a vitória! Gol do Grêmio!, gritava, para dentro de si mesmo. Gol do Grêmio!

O caso foi em frente. Rodrigo envolveu-se seriamente com a mulher de Róbson. Viam-se todas as semanas, volta e meia duas, três vezes por semana. Em alguns meses, Gabrielle era sua única amante. Ele não tinha mais tempo para nenhuma outra. Como trabalhavam juntos, ela sabia de todos os seus movimentos. Rodrigo sentia-se... casado. O que ele menos queria na vida era sentir-se casado. Aquilo o incomodava, mas, ao mesmo tempo, ele não queria magoá-la. Era uma mulher tão boa, tão gentil, tão ingênua...

Uma noite, Rodrigo estava em seu pequeno apartamento, finalmente sozinho, pensando em como resolver a situação, quando a campainha da porta soou. Foi atender sem suspeitar quem poderia ser. Espiou pelo olho mágico e o que viu petrificou-lhe o sangue nas veias: Róbson! Seu inimigo eterno, seu maior rival, o maldito colorado Róbson!

Jesusmariajosé! Ele havia descoberto tudo, claro que havia! Rodrigo encostou-se à porta, suando e tremendo. Será que Róbson estava armado? E agora? Como fugir? Ele morava no oitavo andar, não poderia saltar da janela. A campainha soou novamente.

– Rodrigo! – gritou Róbson do outro lado da porta. – Abre. Pode abrir.

Pode abrir. Não parecia haver agressividade em sua voz. Seria um truque? Que fosse, ele não tinha para onde fugir. Ainda tremendo, Rodrigo abriu a porta. Então, nova surpresa: ela também estava lá. Gabrielle. Ela, os três filhos e muitas, muitas malas.

– Vão entrando – disse Róbson, empurrando a mulher e as crianças.

Entraram, todos. Colocaram as malas no tapete da sala. Rodrigo olhava aquilo tudo, estupefato.

– Essa é a nova casa de vocês – comunicou Róbson para a mulher e os filhos. Depois, voltando-se para Rodrigo, avisou, agora, sim, com muita, muita agressividade na voz: – Cuida bem deles. Se eu descobrir que foram maltratados, eu volto. E não vai ser uma visita agradável.

Dito isso, bateu a porta e foi-se embora para viver sua nova vida de solteiro. Hoje, o colorado Róbson não tem mulher: tem mulheres. Sai com os amigos, diverte-se todas as noites, está livre, livre, livre... O gremista Rodrigo ainda vive com a mulher e as três crianças no apartamento de um único quarto. Já faz dois anos, isso. E parece que ele envelheceu dez.


13 de agosto de 2011 | N° 16791
CLÁUDIA LAITANO


Riso fora de hora

Uma reportagem publicada semana passada no Segundo Caderno colocou em cena a rivalidade entre comedores de pipoca e seus antagonistas – os espectadores que costumam consumir no cinema não mais do que uma garrafinha de água e uma bala de menta.

Enquanto o time da pipoca exerce o direito de esbaldar-se com a iguaria preferida, o pessoal da água mineral reclama seu direito ao silêncio e a um ambiente aromaticamente neutro. Cada um dos lados, curiosamente, sente-se autorizado a propor ao outro uma solução simples para o desconforto: “Quer sossego, fica em casa”.

Por trás da aparente trivialidade do debate, esconde-se uma discussão – muito mais antiga do que a pipoca ou o cinema – sobre os limites da liberdade individual no espaço público.

Brigas de condomínio, desavenças no trânsito e todos os tipos de disputas de fronteiras, reais ou simbólicas, estão relacionados à capacidade de reconhecer e respeitar o espaço do outro – mesmo quando isso implica abrir mão de gestos aparentemente inofensivos como comer um balde de pipocas em um filme do Bergman ou atender rapidamente o celular em meio a um concerto do Nelson Freire.

No mundo das pipocas, dos celulares que tocam no meio dos concertos e das câmeras que atrapalham a visão nos shows, existe uma outra variedade de interferência na fruição alheia de espetáculos que tem se tornado cada vez mais comum, embora mais sutil e até mesmo involuntária: o riso fora de hora.

Quem vai ao teatro com alguma frequência já deve ter percebido que o riso em momentos impróprios tem se tornado tão frequente quanto os celulares ligados. Alguns espectadores, não a maioria, mas uma boa parte, se atiram à gargalhada gratuita como a uma espécie de tábua de salvação em meio ao naufrágio – mesmo quando o espetáculo, na verdade, está convidando o público a um mergulho em águas mais profundas.

Aconteceu esta semana na estreia do espetáculo Viver sem Tempos Mortos, monólogo com Fernanda Montenegro e textos de Simone de Beauvoir. A certa altura da peça, a filósofa francesa fala da dor de assistir à decadência física de Sartre.

Um momento de recolhimento da atriz, que há pouco tempo perdeu o companheiro com quem foi casada por mais de 60 anos. Por algum motivo inexplicável, muita gente achou engraçado o fato de o velho filósofo ter sofrido de incontinência urinária antes de morrer, e as gargalhadas na plateia romperam a delicadeza do momento ainda mais grosseiramente do que o celular que tocara minutos antes.

O humor é uma rentável unanimidade no Brasil: comédias fazem sucesso no cinema, na TV, no rádio, na internet, no teatro... Humor inteligente, humor preconceituoso, humor ingênuo – tem espaço para todos os tipos de surfistas nessa onda.

Há um apetite insaciável pela gargalhada, e nunca houve tantos canais disponíveis para comediantes amadores ou profissionais exercitarem seu talento e encontrarem seu público. Isso porque todo mundo (normal) gosta de rir. Mas rir de tudo, lembra Frejat, é desespero.

Procurar graça onde ela não existe pode ser uma maneira de proteger-se do momento de recolhimento e iluminação que alguns espetáculos oferecem. Um desperdício: chorar, de vez em quando, também é um bom remédio.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011



12 de agosto de 2011 | N° 16790
ARTIGOS - Eduardo Nunes*


Baixa escolaridade e má escolaridade

A baixa escolaridade dos aspirantes ao mercado de trabalho é apontada como um entrave ao desenvolvimento do país, mas a falta desses anos a mais de estudo está longe de ser o principal problema a retardar nosso crescimento. Muito pior que a baixa escolaridade é a má escolaridade.

A má escolaridade é tão nociva porque incapacita até os que atingem, pelo menos no papel, uma alta escolaridade. Um exemplo significativo é a tragédia dos exames da OAB, em que a imensa maioria dos postulantes, todos bacharéis, é reprovada. E a “culpa” não é apenas das faculdades de Direito. As raízes do problema só serão desenterradas se retrocedermos no histórico escolar dos candidatos até o Ensino Fundamental, quando eles certamente deixaram de aprender muitas coisas que deviam ter aprendido.

O jornalista Fausto Wolff, homem de erudição e argúcia notáveis, costumava dizer que devia quase tudo que sabia a suas professoras do primário, com quem aprendeu a ler, escrever e pensar, na Porto Alegre dos anos 40. Ele estava certo.

As fundações sobre as quais edificamos todo o nosso conhecimento são estabelecidas nos primeiros anos de escola, com a alfabetização, com as quatro operações matemáticas, com o desenvolvimento do raciocínio lógico. Se bem trabalhados, esses alicerces garantem aprendizado efetivo e maduro pelo resto da vida. Se mal trabalhados, fazem com que todo o aprendizado posterior seja carente e incompleto.

Em sete anos lecionando na rede pública, testemunhei o gritante despreparo com que as crianças saem dos anos iniciais. Eu não podia usar a maior parte dos livros didáticos enviados pelo MEC porque os alunos eram, quase todos, incapazes de entender o que estava escrito. A capacidade de interpretação e de escrita vem decaindo ano após ano.

As professoras de matemática da quinta série também não podiam trabalhar os conteúdos próprios da etapa, porque eram obrigadas a ensinar as quatro operações básicas, que seus alunos deveriam ter aprendido três anos antes.

E o que fazíamos com esses estudantes? Éramos pressionados, pela Secretaria de Educação e pelos pais, a aprovar o maior número possível, independentemente do desempenho. Aprender, para eles, não é importante. O importante é o avanço.

Uma das causas da disseminação da praga da má escolaridade, além do sucateamento da rede escolar, é o nível dos professores, cada vez mais baixo. Em parte, porque a carreira no magistério, tão mal remunerada, atrai principalmente os que não conseguem colocação melhor, em parte pela proliferação de cursos de licenciatura caça-níqueis sem qualquer excelência, em parte porque o ciclo da má escolaridade se fechou: empurrado pela aprovação quase automática, aquele aluno que saiu da escola sem aprender já concluiu seu curso superior, voltou à escola como professor e hoje é (mal) pago para não ensinar.

Além disso, há docentes que ensinam mal por opção, fundamentados em teorias pedagógicas messiânicas de gurus que pregam que ministrar “conteúdos” é “obedecer à lógica tecnicista do mercado”. Ouvi, em um seminário de educação, um palestrante dizer que, na sala de aula, o con-teúdo é o menos importante. Para ele, o importante é “ensinar o aluno a se fazer a pergunta que liberta”.

Com isso, queria dizer que a formação crítica e política deve preceder o ensino dos conhecimentos básicos. Com ideias assim sendo (mal) implementadas nas escolas, é fácil saber por que diplomamos, ano após ano, tantos analfabetos funcionais.

Enquanto isso, os secretários de Educação e a sociedade comemoram o progressivo aumento da escolaridade média e a redução da evasão escolar, mas poucos parecem notar que as crianças e jovens que estão na escola não estão aprendendo.

*Filósofo e jornalista


12 de agosto de 2011 | N° 16790
PAULO SANT’ANA

O fim dos tempos

Os escândalos de corrupção se sucedem nos ministérios dos Transportes, Cidades, Turismo e Agricultura.

E Zero Hora publicou ontem, de modo incrível, que os governistas estão queixosos da postura da presidente Dilma Rousseff diante dos escândalos, demitindo os envolvidos e dando livre trânsito às investigações e prisões.

O que é que queriam “os governistas”? Que a presidente defendesse e ocultasse os corruptos?

O líder do PTB na Câmara Federal, deputado Jovair Arantes (GO), chegou ao despautério de declarar o seguinte: “Não podemos transformar o país em uma delegacia de polícia. Que história é essa?”.

É muita cara de pau. Um dos líderes da base aliada condenando o combate à corrupção. O que leva a concluir que tanto ele apoia os corruptos quanto se beneficia com isso.

Dizem os governistas, ainda segundo ZH de ontem, que a postura de Dilma Rousseff é uma tentativa de mostrar que o Planalto e o Judiciário são “bons”, enquanto os políticos são “ruins”.

Ou seja, o lodaçal se espalha, combatido aqui e ali elogiosamente pela Polícia Federal, e políticos da base aliada, de modo visível, querem pressionar a presidente a dar ordens à Polícia Federal para sustar as investigações: é outro escândalo dentro do escândalo.

Quase não se chega a acreditar que, no meio político, a falta de vergonha tenha chegado ao ponto de se exaltar a corrupção e pregar que o governo não a reprima. Quase não se chega a acreditar.

E a Polícia Federal, há muitos anos, vem dando mostras de que é uma das últimas reservas morais da nação.

Transmite-se vivamente de Brasília a impressão de que governo e democracia não funcionam sem uma base aliada e que, mal ela se consagra, instalam-se nos ministérios bolsões imensos de corrupção sob o pretexto da governabilidade.

Imagina-se que os partidos da base aliada se especializaram em equipes encarregadas de transferir grandes nacos das verbas públicas para os bolsos de seus integrantes, através de fraudes, achaques, “mordidas”, sórdidas “comissões”, calculando-se que o Brasil já atinja cerca de 35% de todas as dotações destinados à corrupção.

Parece que chegamos ao fim dos tempos nesse passeio triunfal dos corruptos em torno aos governos.

E a todo esse espetáculo assiste estarrecido o povo, a julgar pelo teor específico dos e-mails que são enviados à imprensa e a esta coluna diariamente, entre protestos e desolações.



12 de agosto de 2011 | N° 16790
DAVID COIMBRA


Quanto você quer que ganhe o seu deputado?

O deputado decide sobre os salários dos policiais e dos professores, decide se o Estado vai destinar mais verba para a Saúde, para a Segurança, para a Educação ou para a construção de estádios de futebol. São decisões importantes, portanto. Quanto deve ganhar esse profissional? Mil reais? Vinte mil?

Quanto você quer que ganhe o médico que resolve o problema de saúde do seu filho? Bem ou mal? E o advogado que livra você de um processo sério? E o engenheiro que ergue as paredes da sua casa? Se você pudesse pagar, você contrataria o médico que ganha 2 mil ou o que ganha 200 mil? O engenheiro que ganha 5 mil ou o que ganha 50 mil? O advogado de 1 milhão por mês ou o rábula que aceita dois salários mínimos?

Digamos que você esteja disposto a pagar mil reais para o seu deputado e eu esteja disposto a pagar 20 mil para o meu. Quem terá condições de atrair o melhor profissional? Eu, com meus 20 mil? Ou você, com seu milzinho?

Afinal, um deputado vive com o seu salário, não é? Ou nós queremos eleger apenas deputados ricos, que não necessitem do salário para sobreviver? É isso que nós queremos, banir pobres e remediados do Legislativo? Você só aceita eleger homens que não precisem do salário para sobreviver?

Quando falo do SEU deputado, não é por acaso. Façamos uma suposição, nada mais do que uma suposição: que você se sinta vivendo numa autêntica democracia. Quem se sente vivendo numa autêntica democracia fala assim: o “meu” deputado. É ele quem escolhe o deputado, o deputado é DELE. Ou seja: ele, o eleitor, também é responsável pelas decisões do seu deputado.

Toda aquela polêmica do Tonho Crocco se deu porque ele chamou de gângsteres os deputados que aumentaram seus próprios salários. Como será que se comportou o deputado do Tonho Crocco naquela votação?

Embora eu seja um eleitor disposto a pagar bem para o meu deputado, não sei se foi justo e acertado o aumento que os deputados deram a si mesmos. Não sei. Mas sei que o Tonho Crocco achou errado. Por isso é que gostaria de saber qual foi o voto do deputado dele. Terá sido um voto que mereceu a confiança do seu eleitor?

Preste atenção: a Assembleia errou ao pedir interferência do Ministério Público por causa da música do Tonho Crocco. ERROU. Não foi uma tentativa de censura, porque não foi pedida a proibição da música, mas foi uma arbitrariedade, uma infantilidade e uma estupidez. A reação da Assembleia só fez aumentar a popularidade do ótimo Tonho Crocco e do rap que ele compôs. Já a pressão que a comunidade exerceu sobre a Assembleia foi legítima e democrática. A sociedade, enfim, pressionou os SEUS deputados. Como deve ser.

Falo aqui do teor do protesto do Tonho Crocco, desse tema recorrente no Brasil: os salários dos deputados. Dos NOSSOS deputados. Do SEU deputado. Você quer que o seu deputado ganhe bem? Quer ter a seu serviço o melhor profissional possível? Ou pode ser qualquer um, com qualquer remuneração? Você vive numa democracia. Você decide.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011



11 de agosto de 2011 | N° 16789
ARTIGOS - Céli Regina Jardim Pinto*


Pobres jovens do século 21

Neste momento, há no mundo três grandes manifestações de jovens: na Espanha, no Chile e na Inglaterra. Na Espanha, um movimento de grande intensidade toma as praças das principais cidades, tendo seu epicentro em Barcelona e em Madri. No Chile, as manifestações de jovens já têm mais de um mês e tomam as ruas de Santiago. Na Inglaterra, há dias, Londres parece uma cidade em chamas e Birmingham, a segunda maior cidade inglesa, já sente os reflexos.

Pergunto ao leitor: de quais das manifestações acima você tem conhecimento? A não ser que seja do ofício como eu, garanto que a grande maioria dos leitores, mesmo os mais atentos, só tem notícias dos acontecimentos em Londres, e me pergunto por quê. Afinal, se prestarmos atenção, as três manifestações têm muito mais em comum do que creem aqueles que dividem o mundo entre vândalos de um lado e pacatos cidadãos de outro.

As três manifestações são lideradas por jovens que sofrem as consequências das mesmas decisões de política econômica e cultural de governos que se sucedem nestes países. Na Espanha, o movimento teve como mote o desemprego, que atinge 25% da população em geral e chega à faixa de 40% entre os jovens de 18 a 24 anos. Os indignados, assim eles se chamam, enfrentam o governo nas ruas pedindo reformas radicais.

No Chile, estudantes universitários, com o apoio de estudantes do ensino médio, dos reitores e docentes, saíram às ruas para pedir o fim da mercantilização da educação. A grande maioria dos estudantes universitários está endividada nos bancos e não pode saldar as universidades privadas e públicas, ambas pagas.

Dados da Universidade Diego Portales apontam que 60% dos chilenos têm renda menor que a média de Angola e 20% têm a renda igual à renda média da Noruega. É fácil entender o endividamento.

Em Londres os bairros atingidos pelas manifestações são os que mais têm sofrido com as políticas privatistas, neoliberais e antimulticulturalistas nos últimos 30 anos. É nessas periferias que se concentra uma grande massa de desempregados, ingleses pobres, filhos de imigrantes ou não.

Portanto, há muitos pontos de encontro entre essas três manifestações, mas não são elas que nos fazem ter tantas notícias da Inglaterra e tão poucas da Espanha e do Chile. Quais são, então, as diferenças: em todas elas, a polícia tem agido com bastante violência, na Espanha e no Chile a ação da polícia tem sido vista com desconfiança, pois são jovens de uma classe média empobrecida, na maioria branca, que têm direitos a manifestação.

E, tanto em um país quanto no outro, tem havido ocupações, tomada de praças, tomada de ruas e feridos. Já na Inglaterra, o que vemos nas imagens são ingleses negros, descendência indiana, paquistanesa, entre outros. Eles são os vândalos, que atacam a polícia inglesa (aquela mesma que matou o brasileiro Jean Charles), que queimam propriedades, que tomam as ruas.

Pobres dos jovens da Espanha e do Chile, pois são na maioria brancos empobrecidos e não chamam a atenção, porque são vistos como dotados de direitos, não podem ser chamados simplesmente de vândalos.

Ademais, estão contestando o pacto político-econômico que tem mantido no poder partidos velhos e sem projetos, mas absolutamente legitimados pelas organizações financeiras internacionais e pelas elites locais. É melhor deixá-los se manifestarem sem fazer muito alarde.

Pobres dos jovens ingleses, revoltados ocupam todos os noticiários de TV, páginas da internet e jornais. Eles, na verdade, não oferecem perigo, pois podem ser varridos da cena, são nomeados como um bando de arruaceiros, vândalos e, como diria um velho presidente brasileiro do início do século passado, apenas um caso de polícia.

*Professora da UFRGS, PhD em Ciência Política (Universidade de Essex – Inglaterra)


11 de agosto de 2011 | N° 16789
CLAUDIA TAJES


Parece mentira

Um dos mais caros preceitos da literatura diz que toda trama precisa ser verossímil. O editor Ivan Pinheiro Machado, depois de avaliar os originais do meu primeiro livro, fez o seguinte comentário: está tudo bem, vamos publicar, mas alto lá. O último capítulo é inverossímil e o leitor não é bobo, precisa acreditar na história.

O detalhe é que o capítulo em questão era o único mais ou menos autobiográfico, mas esse já é outro assunto. Reescrevi, o livro saiu e ficou a lição: de inacreditável, só a vida.

E é um inacreditável que sobra na cabeça ao se saber de alguns fatos que foram notícia nesses dias. A merendeira que misturou raticida na comida das crianças, diz ela que sem motivo, e qual o motivo para se envenenar crianças? Em Viamão, o policial que manteve em cárcere privado por 20 anos, sob abusos e torturas, uma menina que a própria mãe entregou a ele aos seis anos de idade.

A moça dada pelo irmão aos traficantes para pagar uma dívida de R$ 600. A escola incendiada em Eldorado do Sul, os indiozinhos que vão para a aula de camiseta e pés descalços a zero grau e tantas barbaridades por aí. Na categoria presepada, o deputado que, seis meses depois, tomou as dores da Gangue da Matriz e quis processar o cantor Tonho Crocco em nome da honra.

A gente abre o jornal e fica com a sensação de levar um soco logo de manhã cedo. Não deve ser verdade, o repórter entendeu mal. Essa foto é uma montagem, esse texto é o roteiro do Jogos Mortais ou de outro desses filmes que não servem para nada. Em horas assim, como é reconfortante o princípio do livro, onde tudo precisa fazer sentido.

E, se não fizer, o editor não publica.

Ainda a vida. Dizem que só existem duas coisas certas sobre ela: a morte e que o Celso Roth voltará para treinar o seu time. Sendo novamente a vez do Grêmio, vão aqui os mais sinceros desejos de sucesso. E que, com ele, a gente não apenas pare de afundar, como possa pensar em coisas maiores.

Também para isso a vida é inverossímil.


11 de agosto de 2011 | N° 16789
PAULO SANT’ANA


Trânsito mau-caráter

Só não tem queixas profundas dos motoristas que dirigem em Porto Alegre quem não trafega na cidade.

Ontem, foi um dia atípico, se considerarmos a série de dias chuvosos, de frio e ventosos que tivemos nos últimos tempos. Ontem emergiu o sol.

E o trânsito estava de matar. A princípio, engarrafaram muitos pontos.

Mas principalmente se revelou ontem no trânsito o verdadeiro mau-caráter da maioria dos motoristas porto-alegrenses.

Não retiro a expressão, pelo contrário, repito-a: mau-caráter.

A palavra de ordem é o prevalecimento. Ninguém concede nada aos outros motoristas. Trava-se nas avenidas e nas ruas uma verdadeira guerra.

E a meta dos arbitrários do trânsito é uma só: levar vantagem. Eles querem sobrepujar os outros motoristas.

O meu consolo está no Antigo Testamento: “Os maus por si se destroem”. Sim, porque de repente e com frequência o mau-caráter topa numa avenida com o outro mau caráter: eles se merecem.

Ninguém concede nada no nosso trânsito. Tem de passar na frente do outro, tem de lograr o outro, tem de agredir o outro. Esses são os mandamentos observados pelos maus-caracteres do trânsito porto-alegrense.

Vamos ter de fazer uma campanha séria, profunda, duradoura, pelos meios de comunicação, para mudar o caráter dos motoristas locais.

Eu conheço todas as capitais brasileiras. Em nenhuma das outras se verifica esse ânimo selvagem dos motoristas daqui.

É um modo canalha de dirigir o que se vê todos os dias nas ruas. Canalha e patife. Aconselho aos outros motoristas que não andem armados. Do contrário, vão matar a tiros algum mau-caráter que os enfrente.

O sevandija está vendo que não é a vez dele, mas avança. Sabe que não é a hora dele, mas toca em frente. O negócio desses sacripantas é aterrorizar quem vem na frente deles e irritar quem vem atrás.

O congestionamento é ideal para que se manifeste o mau-caráter. Ali é o ambiente ideal para ele. Ele entra no congestionamento e fica realizado como pinto no lixo.

Agride, pressiona, ocupa o espaço que não é dele, não deixa ninguém passar e vai se embarafustando nos espaços dos outros, não tem ética, não tem espírito cristão e seria imprescindível que todos os motoristas fossem, em última análise, éticos e cristãos no trânsito.

Isso vai ter de acabar. Porque isso é um inferno para os bons e cautelosos motoristas, que chegam em casa estressados por esse torneio diário de maldades.

Isto vai de acabar, seus maus-caracteres!


11 de agosto de 2011 | N° 16789
L. F. VERISSIMO


O espírito da coisa

Dizem que juiz de futebol bom é o que não é notado. O Nelson Jobim não poderia ser julgado pelo mesmo critério porque um homem do seu tamanho e com sua personalidade nunca deixaria de ser notado. Mas, mesmo não tendo exatamente um perfil baixo, Jobim foi um ministro da Defesa razoavelmente discreto.

Não houve nenhuma crise maior com os militares durante sua gestão e a coisa mais controvertida que ele disse no cargo – que os registros da ditadura em poder dos militares já tinham sido destruídos – recebeu, curiosamente, pouca atenção, e nenhuma cobrança.

A maior falha do Jobim como ministro talvez se deva à sua envergadura. Se fosse um ministro da Defesa menor vestindo aquela farda de campanha na companhia de militares, como ele fez mais de uma vez, o erro seria menos conspícuo.

Escolhendo o traje militar tamanho GG, com camuflagem, para ser fotografado como um membro da tropa, Jobim subverteu o que é, afinal, o significado mais importante de se ter um ministro civil da Defesa: o fato de ele ser um civil.

A criação do cargo de ministro da Defesa como existe em todos os países adiantados do mundo e até em alguns atrasados foi um dos bons feitos do governo Fernando Henrique. Marcou o fim oficial de uma era em que se liam as ordens do dia dos quartéis para conhecer aquela emanação ominosa, “o pensamento militar”, e muitas vezes o nosso destino político.

A distinção entre o chefe civil das Forças Armadas e seus subordinados de uniforme deveria ser enfatizada até no meio da selva, em vez de sacrificada por uma ideia equivocada de companheirismo ou integração. Acho até que, mesmo em missões no mato, o ministro deveria ir de terno e gravata. E, vá lá, de botas. Mas civis.

O Jobim, vestindo-se como soldado, mostrou que não tinha entendido o espírito da coisa. Ou então estava apenas cedendo a um ímpeto juvenil, e neste caso está perdoado. De qualquer maneira, podemos ter uma certeza. Jamais veremos o Celso Amorim de uniforme de campanha.