quinta-feira, 11 de agosto de 2011



11 de agosto de 2011 | N° 16789
L. F. VERISSIMO


O espírito da coisa

Dizem que juiz de futebol bom é o que não é notado. O Nelson Jobim não poderia ser julgado pelo mesmo critério porque um homem do seu tamanho e com sua personalidade nunca deixaria de ser notado. Mas, mesmo não tendo exatamente um perfil baixo, Jobim foi um ministro da Defesa razoavelmente discreto.

Não houve nenhuma crise maior com os militares durante sua gestão e a coisa mais controvertida que ele disse no cargo – que os registros da ditadura em poder dos militares já tinham sido destruídos – recebeu, curiosamente, pouca atenção, e nenhuma cobrança.

A maior falha do Jobim como ministro talvez se deva à sua envergadura. Se fosse um ministro da Defesa menor vestindo aquela farda de campanha na companhia de militares, como ele fez mais de uma vez, o erro seria menos conspícuo.

Escolhendo o traje militar tamanho GG, com camuflagem, para ser fotografado como um membro da tropa, Jobim subverteu o que é, afinal, o significado mais importante de se ter um ministro civil da Defesa: o fato de ele ser um civil.

A criação do cargo de ministro da Defesa como existe em todos os países adiantados do mundo e até em alguns atrasados foi um dos bons feitos do governo Fernando Henrique. Marcou o fim oficial de uma era em que se liam as ordens do dia dos quartéis para conhecer aquela emanação ominosa, “o pensamento militar”, e muitas vezes o nosso destino político.

A distinção entre o chefe civil das Forças Armadas e seus subordinados de uniforme deveria ser enfatizada até no meio da selva, em vez de sacrificada por uma ideia equivocada de companheirismo ou integração. Acho até que, mesmo em missões no mato, o ministro deveria ir de terno e gravata. E, vá lá, de botas. Mas civis.

O Jobim, vestindo-se como soldado, mostrou que não tinha entendido o espírito da coisa. Ou então estava apenas cedendo a um ímpeto juvenil, e neste caso está perdoado. De qualquer maneira, podemos ter uma certeza. Jamais veremos o Celso Amorim de uniforme de campanha.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011


ANTONIO PRATA

Twitter, Facebook e o Apocalipse

Vamos admitir: desde que inventaram o Facebook e o Twitter que ninguém mais trabalha, só finge

AS COISAS não vão nada bem no hemisfério Norte. A Grécia foi pra cucuia, Portugal e Espanha estão no vinagre, e, na Irlanda, os únicos habitantes que fizeram alguns caraminguás em 2011 foram os quatro integrantes do U2. Até os EUA, quem diria, ameaçaram dar um calote global, o que levou a agência Standard & Poor's a divulgar que a grande potência está mais pra "poor" do que pra "standard".

Diante dos abalos econômicos e da ameaça de recessão mundial, acusam-se os suspeitos de sempre: a esquerda vê o fim do capitalismo, a direita vocifera contra a ineficiência do Estado. Eu, contudo, cronista independente, sem outro compromisso senão com a verdade -e com minha pequena, claro-, sei que a culpa não é dos negociantes nem dos políticos: a culpa, meus caros, é das mídias sociais.

Vamos admitir: desde que inventaram o Facebook e o Twitter que ninguém mais trabalha, só finge -uma hora, ia dar problema. Se o hemisfério Norte quebrou antes de nós é porque se enredou primeiro nessas arapucas do Demônio, mas não demorará para nos estrumbicarmos também: afinal, o dia-padrão de um trabalhador brasileiro não é tão diferente do de um americano ou europeu.

Vejamos: você chega ao trabalho, senta-se diante do computador e, antes de começar suas tarefas, resolve dar uma checada rápida na "homepage". A "home" traz uma fofoca sobre o comportamento sexual de uma cantora pop, e você imediatamente pensa numa bobagem para tuitar. Abre o Twitter, escreve.

Passa então a clicar, de dez em dez segundos, no "your tweets retweeted" -como um ratinho de laboratório, acionando a barra de glicose-, pra ver se gostaram da sua piada. Infelizmente, em 15 minutos, só um retuíte. Você decide preencher a carência que subitamente lhe bateu indo até o Facebook: vai que alguém lhe deixou um recado, na madrugada? Nada, ninguém quis lhe dizer coisa alguma nas últimas 12 horas.

Você descobre, contudo, que a Juliana Pereira, sua ex-colega de ginásio, postou as fotos do feriado, na praia.

Você se lembra dessa Juliana, era bonita, e quando dá por si está há uns três minutos vasculhando as imagens da moça, na esperança algo adolescente, algo senil, de vê-la de biquíni. Não achando nada além de filhinhos sorridentes e uma ou outra foto artística de conchas, com efeitos gráficos do iPhone, decreta que é, enfim, hora de começar a trabalhar.

Mas, já que ficou tanto tempo no Facebook, por que não dar só uma passadinha no Twitter, ver se, nesse meio tempo, alguém te retuitou, ou comentou seu tuíte? Nada, ainda, mas um amigo colocou um link para uma propaganda belga de cerveja, muito engraçada. Quando vai ver, já está na hora do almoço, e o dia nem começou.

Agora, caro leitor, some todo o tempo que você tem perdido nessas inúteis perambulações virtuais ao tempo de todos os outros milhões de internautas, calcule o prejuízo em dólares, euros ou reais, e o resultado é uma bela recessão global. Reajamos enquanto é tempo: ou a gente acaba com as mídias sociais, ou as mídias sociais acabam com a gente!

PS- Meu amor, a história da Juliana Pereira é meramente ilustrativa, real apenas no terreno da ficção. Espero que compreenda.

antonioprata.folha@uol.com.br


10 de agosto de 2011 | N° 16788
MARTHA MEDEIROS


Amo Domingos

Se você fizer uma enquete sobre o dia mais odiado da semana, vai ouvir a mesma resposta dos entrevistados: segunda-feira. Tsc, tsc, que falta de espírito de aventura. Nada como uma segunda-feira novinha em folha pra você dar continuidade a tudo o que ficou pendente na semana passada. Se você acha que só uma neurótica comemoraria a volta ao trabalho e ao trânsito, está esquecendo o que a segunda-feira tem de melhor: acabou o domingo.

Domingo só é bom quando você está fora da cidade e, melhor ainda, do país. Estando em casa, o cenário é de guerra: as camas permanecerão como amanheceram, o jornal passará o dia inteiro esquartejado no chão e a cozinha será interditada pela Vigilância Sanitária. E, ao ligar a TV num canal aberto, aí mesmo é que a pulsão para o suicídio será latente. Domingo é um tédio. Mas é possível salvá-lo.

Domingo passado, me ofertei uma overdose de Domingos Oliveira. Assisti no DVD aos filmes Separações e Feminices, li alguns textos seus para teatro reunidos em livro, assisti a reprises de programas que ele gravou para o Canal Brasil e ainda sobrou tempo para curtir seu blog. Recomendo Domingos Oliveira contra o marasmo dos dias, de qualquer dia.

Como muitos sabem da minha fissura por Woody Allen, podem estar fazendo a conexão, já que dizem que um é a versão do outro, mas acho que cada um é brilhante a seu modo. Se há uma conexão, é a da inteligência, da irreverência e do prazer. Eles falam da dor existencial como se ela fosse uma bênção, como se devesse ser consumida com uma pequena dose de sarcasmo e um bom vinho.

Sempre é outono no universo desses cineastas, mesmo que esteja nevando lá fora ou que um mormaço africano esteja derretendo catedrais. Em suas obras, a vida é celebrada a cada palavra, a cada vírgula, e sem ponto final. Não há pedantismo, não há manipulação dos sentimentos, tudo é poesia, mistério e graça. Há quanto tempo você não depara com poesia, mistério e graça?

Adoro também o jeito que eles dirigem seus filmes. Fica-se com a sensação de que tudo é um grande e ininterrupto ensaio, que o roteiro não precisa ser seguido com rigidez, que o improviso é que dá o tom do espetáculo: tal qual a vida fora do palco e das telas.

E há, por fim, o amor. A paixão. As desilusões. A ópera burlesca dos desejos. A busca incessante por estar com o outro, ser amado pelo outro, ganhar algum significado através do outro. É um balé de encontros e desencontros tragicômico que permanece continuamente em cartaz.

Hoje Domingos Oliveira será homenageado pelo Festival de Cinema de Gramado. Não podendo estar lá, faço minha pequena homenagem aqui neste espaço mesmo.

Eu, que não gosto de domingos, hoje venho publicamente dizer que adoro Domingos.


10 de agosto de 2011 | N° 16788
ARTIGOS - Jorge Alberto Salton*


Ambulatório das falsas crenças

Em 1998, o médico Alan Berkenwald publicou no Annals of Internal Medicina, com o título “Em nome da medicina”, um artigo sobre o número impressionante de terapias não científicas oferecidas à sociedade.

Desde então, a chamada “medicina alternativa” ganhou corpo, organização e capacidade de divulgação na mídia. Hoje, inclusive, passa a disputar espaço entre os estudantes de Medicina. Se uma dessas terapias alternativas conseguisse, mediante pesquisa adequada, comprovar sua eficiência, a medicina científica passaria também a empregá-la.

Quem pratica tais terapias tem a vantagem de, em geral, receber diretamente do cliente, de forma particular, e não por convênios. Não tem sobre si o rígido Código de Ética Médica, além de correr um risco muito menor de sofrer processos.

Existem casos extremos de terapia alternativa, desde tratamentos tipo “terapias de vidas passadas”, até tratamentos mais próximos da medicina tradicional, que, por força do grupo relacionado a essa prática, conseguem abrir espaço nas associações médicas.

Propala-se que nos atendimentos é indispensável a “arte” de quem atende. A resposta é positiva, se o procedimento se faz por meio de uma técnica embasada no método científico.

François Jacob, Prêmio Nobel de Medicina de 1965, escreveu: “O que há de comum – entre ciência e arte – é o fato de que no começo de tudo há um esforço de imaginação. Dele tanto depende a ciência quanto a poesia, só que o cientista é obrigado a confrontar a realidade imaginada com a realidade em si, enquanto o poeta pode fazer qualquer coisa”.

A invasão do espaço destinado à ciência obriga entidades médicas e faculdades de Medicina a periodicamente retomar a discussão da questão e a fazê-la de forma criativa. Atualmente, citando como exemplo, circula no meio médico o longa-metragem Ambulatório das Falsas Crenças, que trata da luta dos profissionais para manter-se dentro do método científico e resistir ao canto de sereia da pseudociência.

Platão personifica a ciência ao dizer: “A palavra tem de concordar com o fato”. Já a pseudociência é muito bem representada pelo personagem de Nelson Rodrigues que descaradamente declara: “Se os fatos estão contra mim (ou contra minhas crenças), azar dos fatos”.

*Médico psiquiatra, professor da Faculdade de Medicina da UPF


10 de agosto de 2011 | N° 16788
JOSÉ PEDRO GOULART


Sandy e Amy

Voltei. O que, você nem percebeu que eu havia saído? Pois é, estive no resguardo, certo estão os ursos que hibernam. Por mim, o inverno podia ser cancelado. Enquanto estive fora daqui muita chuva rolou por debaixo da ponte; a Amy Winehouse morreu, a Sandy ressuscitou.

As personalidades quanto mais esquisitas ficam ainda mais atraentes. No caso da Amy, havia talento envolvido. Houve choro porque ela morreu jovem e houve resmungos porque ela não se cuidou; tomou todas, cavou a própria cova.

Ao mesmo tempo, a rapaziada colocou bebida na calçada da casa dela como tributo, uma ironia; mais ou menos como atirar anestésicos na calçada do Michael Jackson.

Cada país com sua devassa. No Brasil, temos a Sandy. Ela é da mesma profissão da Amy, e assim como Amy, fez propaganda de cerveja, mas ao contrário da inglesa, que engolia, Sandy cuspia – achava a bebida muito amarga. E ainda agora disse que é possível ter prazer anal, disse isso na Playboy, revista que como se sabe não traz músicas para tocar no violão, (acho que a Sandy não sabia disso).

Amy, cá estivesse entre os vivos, riria da polêmica dizendo: “Deve ser possível ter prazer anal, eu nunca soube porque prazer anal de bêbado não tem dono”. Mas Amy se foi. Ficaram o Júnior, a Sandy, o Chitãozinho e o único favorecido nisso tudo: o marido da Sandy. Todos boquiabertos com a declaração da ex-namoradinha do Brasil, afinal a ideia da devassa era pra ser só de mentirinha.

Das coisas difíceis da vida, uma das mais é ser coerente. Atração e reprovação andam lado a lado. Acho que é por isso que os fãs da Amy depositaram garrafas de bebida na calçada dela, sinal de respeito.

Reconheceram na cantora um uma espécie de “licença artística de trocar os pés pelas mãos, viver uma vida intensa e breve, ao contrário dos caretas e suas existências longevas e ordinárias”.

No final da vida, Amy Winehouse vinha produzindo sucessivas imagens onde aparecia cambaleante e insegura, exibindo um olhar amedrontado. Aparentemente tentando se segurar naquilo que a fez subir num palco pela primeira vez, a sintonia entre alma e corpo, e o manifesto através da musica. Um artista é um trapezista sem rede de proteção.

Espio por uma fresta da minha caverna e imagino que a Sandy desconfia disso, e talvez sinta que sem rede de proteção não dá. Mas seria legal que ao menos ela tivesse “o tipo de prazer que disse ser possível” – qualquer prazer é saúde.


10 de agosto de 2011 | N° 16788
PAULO SANT’ANA


Solidão a dois

Bravos maridos os que passam a enfrentar diretamente a solidão no momento exato em que chegam em casa, às oito horas da noite.

E, para ser igual, admiráveis esposas que veem se iniciar intensamente o seu tédio às oito horas da noite, quando chegam em casa os seus maridos.

A vaidade crescente dos homens é o fator principal que leva a esta emergente onda de lesbianismo.

O paciente vai ao médico e é por ele imediatamente interrogado: “O senhor fuma?”. O paciente responde que não fuma.

O médico faz a segunda pergunta: “O senhor bebe bebidas com álcool?”. O paciente responde que não bebe.

Terceira pergunta do médico: “O senhor faz exercícios físicos?”. O paciente responde que diariamente se exercita.

O médico fica pálido e se decepciona com as três respostas. Porque daí em diante fica sem saída, não consegue, para chegar ao seu diagnóstico, culpar nem o cigarro nem a bebida nem o sedentarismo.

Não há paciente mais incômodo para o médico que o que não fuma, não bebe e se exercita diariamente.

Não ter nenhum filho ou ter cinco filhos são motivos que influem diretamente na separação dos casais.

Está provado que casais que possuem um ou dois filhos têm menos chance de se separar.

E, agora, como é que ficamos? Sempre que havia uma coisa errada no Brasil, nós dizíamos que nos EUA e na Europa não era assim, lá é que era bom viver.

Vivíamos elogiando os EUA e a Europa como nossas ideais referências.

E, agora que estão quebrando financeiramente os EUA e a Europa, o que dirá a nossa macaquice brasileira?

Poderíamos nos mirar na China, mas, se os EUA quebrarem, a China também quebra, ela é a maior credora dos norte-americanos e quase toda a sua exportação é dirigida para a América.

Acabou a macaquice.

Todo torcedor que se interessa muito por futebol não tolera os treinadores. Porque gostaria de sê-lo.

Ouvi a frase inteligentíssima no rádio e não soube identificar o autor pela voz: “Há 18 clubes no campeonato brasileiro que têm fundadas razões para se queixar das arbitragens. As duas únicas exceções são Flamengo e Corinthians, que usam árbitros próprios”.

terça-feira, 9 de agosto de 2011



09 de agosto de 2011 | N° 16787
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Uma vida plena

Hoje eu quero paz. Quando era mais jovem, tinha como ideal uma vida intensa e agitada, em que não faltassem projetos, livros, amores, desejos, sonhos e movimentação.

Hoje eu almejo serenidade. Há épocas para desfrutar cada momento, querer a muitas mulheres, sofrer dessa dor boa que é apaixonar-se. Há tempos para mergulhar em paixão, numa voragem irresistível e magnífica. Há instantes para existir ardentemente, viajar sem horizontes, voltar a lugares onde se foi feliz.

Mas há também ocasiões para traçar um balanço de todas as belas experiências vividas, não para recriá-las, mas para fazê-las se reinaugurar na memória. Tive uma bela experiência de vida. Mas agora quero fruí-la como quem percorre as páginas de um diário e a reinventa com prazer.

Berlim, 1982. Na segunda de minhas estadas naquela cidade, então dividida contra si mesma, eu despertava nas manhãs de domingo com um sentimento inaugural do mundo. A alma leve, o coração tranquilo, eu refletia que tinha estudado bem toda a semana e agora havia um dia inteiro para ser feliz.

Nova York, 1984. O happy hour do café do Hotel Rochester me enchia de doces expectativas, mas nenhuma tão sedutora como a da loira de olhos azuis que pediu licença para sentar à minha mesa, no que foi o prelúdio de momentos inesquecíveis.

Paris, 1980. Eu tomando um vinho no Café des Beaux Arts e o Rio Sena fluindo mansamente diante de mim. E em minha companhia aquela suave sensação de que eu era feliz pelo simples ato de existir.

Ilha de Rodes, 2002. Eu e uma amiga descendo a ladeira que levava ao Colosso e escalando num bar para um café. Éramos como duas crianças, relembrando coisas da viagem de transatlântico e recordando nossas próprias infâncias. E à nossa frente as águas esmeralda do mar.

E tudo isso é somente um prólogo. Há um tempo de viver e um tempo de reviver. Eu revivo minhas lembranças com uma única e grande certeza.

Tenho uma vida plena


09 de agosto de 2011 | N° 16787
CLÁUDIO MORENO


Uma fábula moderna

Nenhum pensador grego deixou de se ocupar com uma questão muito simples, mas essencial até hoje: o que nós temos que o animal não tem? Entre as várias respostas – a capacidade de rir, de fazer geometria, de usar as mãos, de andar ereto e de sentir vergonha, além da disposição para fazer sexo a qualquer momento ou estação (inclusive, se bem me entendem, com seres de outras espécies) –, uma foi unânime: só nós temos linguagem.

O animal não fala, não faz promessas, não mente, não tem crenças nem faz ironia, não tem ideia do futuro e não conhece o “se” das hipóteses, conceito que nos torna donos imaginários de todas as possibilidades do universo.

É verdade que nas fábulas ele fala, às vezes até demais, mas usando nossa voz e nossa gramática; o lobo e o cordeiro, o corvo e a raposa são seres humanos que Esopo e La Fontaine disfarçaram para melhor criticar nossos costumes. A própria mitologia grega, tão rica em prodígios, tem raríssimos bichos falantes.

O mais famoso foi Xanto, um dos cavalos de Aquiles, que resolveu tomar a palavra para avisar que em breve seu dono ia morrer – manifestação tão incomum que os deuses imediatamente o emudeceram, para que não esquecesse que aos animais não foi dado o dom de falar.

Conosco é diferente; podemos conversar com eles. Certos animais – o cavalo, o gato e, acima de tudo, o cachorro – terminaram se tornando nossos parceiros e confidentes. Contrastando com a efêmera e frágil natureza das relações humanas, eles oferecem – especialmente o cão – o tesouro de uma devoção completa, de um vínculo que só se romperá quando morrer um de nós, e por isso os elegemos como o ouvido ideal para as mais íntimas reflexões.

Não é um diálogo entre as espécies: ao falar com meu cachorro, é comigo mesmo que eu falo. Há quem afirme que ele pode me entender, mas, mesmo que o faça, sei que guardará para sempre um discretíssimo silêncio.

Pois no livro Amazing Dogs, lançado este ano, o prof. Jan Bondenson descreve a delirante experiência da Tier-Sprechschule, criada na Alemanha entre-guerras, que “ensinava” os cachorros a falar.

Dizem que um desses “alunos” articulava claramente “Mein Fuhrer”, enquanto outro, que usava as patas para indicar o alfabeto, confessava seu desprezo pelos franceses. Hitler e muitos de seus cientistas apoiaram a pesquisa com entusiasmo, pois o ideário nazista considerava fundamental a integração do homem com a natureza, especialmente com os animais.

“E onde fica a moral da fábula?” – pergunta Gaudí, meu pequeno shih-tzu – “Por acaso a adesão daqueles homens maus tornou menos nobre a nossa causa?”. É claro que não, inquieta criatura. O problema é bem outro: enquanto os nazis abarrotavam os trens da morte com o povo judeu, não houve dia em que a imprensa alemã não manifestasse sua grande preocupação com o destino dos cães abandonados por aquela gente toda...


09 de agosto de 2011 | N° 16787
PAULO SANT’ANA


A Copa da Miséria

O deputado federal Giovani Cherini (PDT-RS), criticado rudemente por esta coluna por ter movido ação penal contra o músico Tonho Crocco, mandou defesa a esta coluna.

Entre outros pontos, o deputado diz que não agiu na surdina, como na coluna foi escrito, mas com a presença de todas as lideranças partidárias da Assembleia.

Disse também que seu nome nem consta da música do citado cantor, quando ela nomina os deputados que se autoconcederam aumento nos subsídios.

E que houve, ontem, decisão do magistrado estadual Artur dos Santos e Almeida, na qual foi declarado que Giovani Cherini não é parte no processo em causa, pois nunca existiu representação de sua autoria contra o músico Tonho Crocco.

O que Giovani Cherini fez contra o músico não foi uma representação criminal.

No entanto, ele assinou, como presidente da Assembleia, um pedido de providências ao Ministério Público, denunciando o músico por letra de música ofensiva aos deputados, o que vem a ser a mesma coisa.

Não foi ao arcebispado que o deputado denunciou o músico, foi ao Ministério Público.

Portanto, não produz efeito o truque eufêmico do deputado.

A série de reportagens que Zero Hora publicou na semana passada sob o título de “O Rio Grande indigente”, de autoria dos repórteres Carlos Wagner e Itamar Melo, fotos de Tadeu Vilani, trouxe entre tantos casos de miséria o da aposentada Arlinda Morais dos Santos, com 62 anos, moradora de Linha Schaffer, interior de Vicente Dutra.

De cortar o coração: ela mora numa encosta de morro, a oito quilômetros da zona urbana. Para chegar lá, é preciso enfrentar subidas e descidas por uma estreita estrada de terra. Como seu casebre estava se desmanchando, mudou-se para o paiol, uma construção de madeira velha, com um única peça, praticamente sem mobília e tomada pelo entulho:

– Espicho o colchão aqui e me deito. Banheiro, eu nunca tive. Faço minhas necessidades no mato. O banho eu tomo com a roupa do corpo, usando a água da manga. Dá trabalho, com este frio.

Essa aposentada é analfabeta e passa fome. Recentemente descobriu que fizeram um empréstimo frio em seu nome e por isso não tem recebido nada da Previdência.

Ela é mais uma gaúcha que entoa a cantiga triste e desolada da pobreza extrema.

É um exemplo apenas dos milhões de brasileiros que sobrevivem na miséria, entregues ao abandono nos grotões infaustos da tragédia de fome existentes no país.

E os lindinhos realizando uma Copa do Mundo e uma Olimpíada que consumirão bilhões de reais, fora a corrupção do superfaturamento e dos descarados aditivos.

Tinham que realizar aqui no Brasil a Copa do Mundo da Miséria, do Descaso, do Descaramento, quando então poderíamos almejar o título de campeões


09 de agosto de 2011 | N° 16787
DAVID COIMBRA


O que contempla do alto das pirâmides

Você sabia que a Pirâmide de Quéops é o mais pesado monumento forjado por mãos humanas em toda a História?

Decerto que não sabia. Até por que, pensando bem, por que alguém haveria de querer levantar a Pirâmide de Quéops? Certo.

Mas é evidente que basta a menção do nome “Egito” para lhe vir à mente a imagem Pirâmide de Quéops, chamada de A Grande Pirâmide, a única das Sete Maravilhas do Mundo Antigo ainda de pé.

Todas as 80 pirâmides que brotam da areia do deserto fervente do Egito são admiráveis, mas nenhuma é mais do que essa, por sua imponência e perfeição. No entanto, isso não faz com que seu construtor seja, ele também, admirável. Ao contrário, Quéops foi odiado por seus contemporâneos.

Segundo Heródoto, Quéops foi um faraó cruel e tirânico. Heródoto saiu da sua Grécia e visitou o Egito no quarto século antes de Cristo. Ou seja: dois mil anos DEPOIS do reinado de Quéops.

Mesmo assim, o testemunho de Heródoto é confiável, porque muitas das histórias que ele conta em seu livro foram confirmadas nos últimos séculos por descobertas da Ciência, apesar de parecerem, essas histórias, nada mais do que fantasias do autor ou de suas fontes. Por isso, eu aqui não apenas li o livro de Heródoto com prazer como acreditei em tudo que ele relatou e que não foi desmentido mais tarde.

Sobre Quéops, Heródoto escreveu o que lhe repassaram os sacerdotes egípcios: o homem estava de tal forma obcecado com a construção da sua pirâmide que exauriu o tesouro público na obra. Você sabe como são obras: custam sempre muito mais do que o previsto. Se o arquiteto apresenta um orçamento de 60 mil, prepare-se para gastar 120 mil. Foi o que aconteceu com Quéops. Os recursos do Egito foram todos empregados na construção da pirâmide, o país estava arruinado, o povo passava fome e a coisa não ficava pronta nunca.

Você, se está nessa situação, o que faz? Apela para a rede bancária. Mas não existiam bancos no Egito de 45 séculos atrás. Qual a saída? Quéops lançou mão de um recurso pouco ortodoxo, que dá bem a medida de seu caráter: mandou a própria filha para um lupanar, ordenando que se entregasse à população masculina mediante pagamento e que a féria fosse destinada à finalização da obra.

E a princesa converteu-se em meretriz, mas com uma condição: cada cliente, além do pagamento em espécie, teria de lhe presentear com uma pedra para que ela também pudesse plantar uma pirâmide no deserto, a fim de repousar em seu interior por toda a eternidade.

Assim foram construídas a Grande Pirâmide e mais outra, que se encontra à sua frente, onde foi deitada a múmia da princesa. Se você for a Gizé, pare entre elas, olhe de uma para outra e pense em como se ergueram do chão. Faça então uma saudação àquela princesa da mais remota Antiguidade, porque ela foi uma mulher linda, ou não teria tanta freguesia; porque ela foi uma filha obediente, ou não teria se deixado profanar com tanta facilidade; e porque ela foi uma competente profissional do prazer, ou não teria conseguido levantar aquele verdadeiro monumento ao sexo a soldo.

Quéops, portanto, concluiu sua pirâmide, reinou por 56 anos e entrou para a História, mas não conquistou o amor ou o respeito de seus súditos. A prova é que os egípcios não chamavam sua pirâmide de Pirâmide de Quéops, como nós. Não: eles a chamavam de “Pirâmide de Filítis”, um pastor que tinha por hábito apascentar seu rebanho naquele local. Uma pequena vingança de um povo oprimido.

Mas o que importa é a forma como foi erguido um dos mais impressionantes, senão o mais impressionante edifício da História humana: com sacrifício de todo um povo e com o amor remunerado. É no que penso agora, 4.500 anos depois, quando vejo a construção dos estádios brasileiros para a Copa do Mundo. Quanta história escusa há por trás de cada bloco de pedra fria.


09 de agosto de 2011 | N° 16787
FABRÍCIO CARPINEJAR


Por que eu amo minha mulher?

Não é nenhum grande ato que desperta o amor, não é um heroísmo, uma atitude exemplar, um feito impressionante.

O que faz um homem amar uma mulher e uma mulher amar o homem é tão pessoal, que é possível passar uma vida inteira sem desvendar o motivo. Não é necessário ter consciência para ser feliz. Não é fundamental entender para amar. Mas é mais bonito.

Fico me perguntando o que inspirou minha confiança na Cínthya. Qual foi a delicadeza que ela cometeu a ponto de me viciar no convívio? O que realizou no começo do relacionamento que mexeu comigo e não quis mais abandoná-la?

O que ela aprontou de errado que deu tão certo? O que me pôs a repeti-la um dia atrás do outro sem cansar? O que me seduziu de tal forma, que entrei uma vez em sua casa com uma mochila e voltei com uma mala?

Talvez tenha sido sua simplicidade. Eu me impressiono com o que é espontâneo. Não havia quadros em suas paredes, nem estantes. A única coisa que estava de pé era o violão. Aquilo me emocionou: a música de sentinela. Ela brincou:

– O violão é meu confidente, meu melhor amigo.

Inventei de dedilhar as cordas para descobrir logo seus segredos, só que desafinei e ri envergonhado. Não estava maduro para o mistério, não merecia ainda suas lembranças, dependia de mais cumplicidade.

Mas não foi isso, ou somente isso, sempre tem algo que se soma.

Acho que ela travou meu olhar na hora em que passeávamos de carro pela orla do Guaíba. Estreava na rádio a canção Janta, de Marcelo Camelo e Mallu Magalhães.

“Eu ando em frente por sentir vontade...”

Cínthya cantava sem conhecer a letra. Aprendia a letra enquanto cantava. Longe do medo da gafe. Em voz alta, errando, tropeçando, gravando o refrão. Completava os trechos que não entendia com melodia e dirigia as rimas até o fim. Descobri que ela tinha coragem. Não iria temer um desafio. Mesmo que fosse complicado como eu.

Pensando bem, me rendi no café da manhã. Quando ela me ofereceu um saco de bolachas doces do bairro Liberdade. Eu peguei as redondas, perfeitas, para explodi-las com exclusividade em meus dentes.

Ela não; ciscou os farelos. Optou pelas bolachas partidas. Do fundo, recolhia os pequenos retângulos, triângulos, quadrados desiguais. Compadecida do pouco, enamorada da miudeza.

Um gesto silencioso que me cativou. Cuidava de mim já na primeira manhã juntos. Comia as quebradas para me deixar as inteiras. Havia cinco ou seis bolachas intactas:

– Toma, por favor...

Reprisando nossa vida, ela avisou, naquele momento, que nunca partiria meu coração

segunda-feira, 8 de agosto de 2011



08 de agosto de 2011 | N° 16786
ARTIGOS - Cláudio Brito*


Máfia de vândalos

Até quando resistirão os contêineres que a prefeitura de Porto Alegre instalou nas ruas para recolhermos o lixo orgânico? Até onde irá a paciência da população? Os vândalos são imbatíveis? O que andam fazendo com os novos equipamentos da limpeza pública?

Destruição pela simples vontade de destruir o que é de todos nós? Conspiração para impedir que a modernização atrapalhe gente inescrupulosa que, de alguma forma, tira altos lucros do lixo que a cidade produz?

Como disse a delegada Shana Hartz, que investiga os incêndios e outros crimes de dano cometidos contra os contêineres, nenhuma hipótese pode ser afastada. O prefeito Fortunati tem a suspeita de que mafiosos do lixo estão por trás dos ataques.

Não fez rodeios e disse mais de uma vez que “lixo mexe com muito dinheiro, por isso tantos problemas. Fomos avisados de que enfrentarímos dificuldades com quem defende os interesses de pessoas envolvidas na máia do lixo,grupos que querem um jogo de cartas marcadas nas licitaçõs”.

Há quem veja apenas o vandalismo, coisa parecida com o que fazem os pichadores nas paredes e monumentos, ou o que fazem os hackers no mundo virtual. Seria uma febre e ponto final.

Onde estavam esses demolidores que nada fizeram contra os contêineres de entulhos, há anos presentes em várias esquinas? Fosse só vandalismo a onda de agora, o mesmo teria ocorrido com os coletores de restos de obras e demolições, ainda que mais robustos e indestrutíveis. Conclusão que reforça o pensamento do prefeito.

Tenho a cautela da polícia. Nada se despreza, tudo é possível.Vandalismo ou conspiração? Trama suja, para combinar com o lixo. Uma terceira possibilidade junta as duas anteriores.Tanto a máfia estaria agindo organizadamente quanto arruaceiros solitários responderiam pelo fogo ateado nas madrugadas.

Quem começou a baderna? O que importa saber é como terminar com isso e preservar o patrimônio público. Indispensável descobrir os autores dos atos de vandalismo e puni-los, sejam doidos varridos ou quadrilheiros que obedecem a um planejamento meticuloso.

Mais que os latões incinerados,o que estamos perdendo é a cultura da preservação. Separar o lixo, dar chance à reciclagem e cuidar do ambiente em que se vive são valores que vândalos ou mafiosos agrediram cada vez que um coletor foi queimado,amassado ou de algum modo danificado.

Quem souber de alguma coisa, ligue para o 156, que a prefeitura tomará providências. Procure a polícia, se preferir. A coleta seletiva continua.Nos mesmos dias de sempre, os caminhões recolhem o lixo seco. Os contêineres coletam o lixo orgânico 24 horas por dia. Nosso jeito de cuidar do lixo é exemplo para o Brasil, assim foi saudada a instalação dos coletores.

Não dá para sujar. Não me preocupa saber se os incendiários são mafiosos ou desordeiros. Todos são destrutivos e perigosos. Seja como for, são vândalos, são mafiosos.Agem por nada, ou atacam por tudo.Máfia de vândalos.
Jornalista


08 de agosto de 2011 | N° 16786
KLEDIR RAMIL


Marmelada

Nunca fui um bom atleta. Culpa daquela minha professora de piano que, no primeiro dia de aula, me proibiu de jogar vôlei, basquete e, por via das dúvidas, futebol. “Esportes primitivos”, segundo a avaliação dela. Eu só tinha permissão para jogar xadrez. Os conceitos radicais dessa professora terminaram por me afastar do ambiente esportivo e fez o Brasil perder um atleta de talento. Hipoteticamente falando.

Eu hoje poderia estar numa Olimpíada. Não competindo, pois não tenho mais idade pra isso, mas talvez como comentarista de TV ou, pelo menos, ajudando a carregar a tocha. A não ser que o COI resolva promover a Olimpíada da terceira idade. Tenho condições etárias de jogar na equipe mirim de futebol de idosos, a seleção sub-60.

Na época da adolescência, como reação à impossibilidade de brilhar nas quadras e nas pistas, e decepcionado com as rigorosas aulas de piano, me refugiei atrás do violão. O que desenvolveu em mim uma musculatura especial. Nas mãos.

Tenho dedos finos, ágeis, velozes, cheios de destreza. Como não encontrei nenhum esporte onde pudesse usar tanta habilidade – fora bolinha de gude – coloquei tudo isso a serviço de uma boa causa: a música popular. Mais recentemente, acrescentei ao uso do teclado do computador algumas técnicas aprendidas naquelas aulas de piano e enveredei pela literatura.

Ao longo da minha vida, conquistei várias medalhas e troféus, sempre em concursos de música ou literatura. Festival de música é uma competição esquisita, onde se escolhe a melhor canção. Como isso é uma questão de gosto, e gosto é relativo, sempre sai um resultado questionável.

Por isso, muitas vezes se ouve a gritaria de “marmelada”. Nas competições esportivas é simples saber quem leva o ouro, a prata e o bronze. É fácil medir quem chega na frente. Metros, centímetros, minutos, segundos ou quantidade de gols. Em arte, a coisa é subjetiva. Ou seja, pode ser marmelada.

Ainda tenho esperança de um dia receber um troféu indiscutível, desses que se consegue nas competições esportivas. Por isso, comecei a fazer exercícios físicos, no aguardo da confirmação da Olimpíada da terceira idade.

Mesmo assim, pra não pagar mico, vou procurar me inscrever em uma modalidade que não chame muito a atenção do público e da mídia, como badminton ou softbol.

Ou, quem sabe, bolinha de gude.


08 de agosto de 2011 | N° 16786
PAULO SANT’ANA


Um triste mandato

Como é que o deputado federal Giovani Cherini (PDT-RS) conseguiu sujar seu mandato ao mover processo contra o músico Tonho Crocco por este ter composto um rap que criticava os deputados estaduais gaúchos por aumentarem em 73% seus próprios vencimentos? Como é que o deputado foi tomar tão infeliz atitude, ferindo a liberdade de expressão e a liberdade artística, garantidas pela Constituição?

E o deputado fez isso tudo na surdina, comprometendo seus colegas e a Assembleia.

Gozado como pretensos democratas se revelam em alguns gestos nazistas.

E não entendo como é que foram aceitar de início esta ação estapafúrdia e antidemocrática.

Que tremendo gol contra o parlamento.

É simples, se a polícia encontrar vestígios de combustíveis nos contêineres da limpeza pública que estão sendo incendiados nas madrugadas da Capital, trata-se de sabotagem.

E, se for assim, sabotagem, ao que quase tudo indica, de interesses contrariados na nova forma de recolher lixo.

É caso só de polícia. E é muito fácil prender os prováveis sabotadores, caso eles prossigam, basta vigiar os contêineres.

Que coisa!

Não sei como pude, na semana passada, dar dois furos jornalísticos em apenas quatro dias: as demissões de Vicente Martins, vice de futebol do Grêmio, Julinho Camargo, treinador, e a posse de Celso Roth no posto destituído.

E, no caso da posse de Roth, fui maliciosamente preciso: disse que seria anunciada “à tarde” de quinta-feira, o que aconteceu na mosca, mas deixou nosso diretor Ricardo Stefanelli, de ZH, nervosíssimo até o desfecho.

Este meu feito prova em primeiro lugar que estou vivo: como posso, além de emitir opiniões a torto e a direito, fornecer aos leitores e ouvintes informações exclusivas, nesta minha incansável e já agora quase imortal ânsia de ser completo?

Eu queria ser meu leitor e meu ouvinte, ostentaria o privilégio de saber das notícias três meses antes, como foi o caso da minha previsão da demissão de Falcão.

Como posso fazer isso? Pois respondo de pronto: estou escrevendo, por exemplo, esta coluna exatamente às 7h8min, manhã cedinho.

Mas como posso, saído de 50 dias de dilacerante radioterapia, ter escrito sem faltar ao serviço 50 colunas fresquinhas para os meus leitores? Como posso?

Onde reúno forças para estas façanhas?

Como me atiro, com 72 anos de idade, ao entusiasmo juvenil dos que estreiam em jornalismo e se dedicam aos furos?

Por falar em furo, o maior de toda a história de Zero Hora fui eu quem deu, no sequestro do menino Alexandre Möller, quase 40 anos atrás. Está bem, mas então eu era um jovem?

Mas e agora, que estou velho, como posso continuar furando?

Como posso? Isso é o que se pode chamar de senso de dever.

E se me elogio assim tão sem pudor é porque, se não o faço, ninguém o faria nesta província glacialmente econômica em louvores ao próximo.


08 de agosto de 2011 | N° 16786
L. F. VERISSIMO


Uma saída

Fora os falsários, só americanos podem imprimir dólar. E o dólar, apesar de combalido, ainda é a moeda padrão do mundo. É por isso que letras do tesouro americano são os títulos preferidos de investidores internacionais.

E é por isso que os mais nervosos com a possibilidade de os Estados Unidos darem um balão na praça, inclusive não honrando suas letras do tesouro, não eram os americanos. Eram os chineses, seus maiores credores.

Pode-se até imaginar uma reunião de emergência do comitê central do partido comunista chinês para discutir a crise americana.

– Mas que capitalismo de araque é esse?

(Nota: a palavra usada não foi “araque”.)

– Em que mundo vivemos, se não se pode mais confiar nem no tesouro americano?!

– Foi para isso que fizemos a Longa Marcha com Mao, sacrificamos milhões de chineses, industrializamos o país na marra, invadimos as lojas 1,90 do mundo com os nossos produtos? Para botar nosso dinheiro na mão de irresponsáveis?

– Há uma real possibilidade de nos darem um calote, se não se entenderem. Será nossa ruína. Onde estão a ética nos negócios e a moral cristã quando precisamos dela?

– Temos que nos defender.

– Há uma saída. – Qual?

– Executamos a dívida. Eles não têm como pagar, portanto não têm como recusar nossa oferta.

– Você quer dizer...

– Sim. Compramos os Estados Unidos.

– Humm. Pode dar certo.

– Substituímos o moreno por um presidente permanente e um comitê central. Acabamos com essa frescura de dois partidos, responsáveis pela lambança atual, e instalamos um partido único com plenos poderes. E damos um jeito na economia deles. Não somos o maior exemplo de economia de mercado bem-sucedida no mundo, hoje? Vamos mostrar a esses americanos como se faz capitalismo de verdade.

– Grande. E teremos outra vantagem, comprando os Estados Unidos.

– Sei o que você vai dizer. A Julia Roberts será nossa. – Melhor do que isso.

– O que? – Vamos poder imprimir dólar!

domingo, 7 de agosto de 2011


FERREIRA GULLAR

Mentira tem pernas curtas

Curioso é que já havia falado desse tal encontro em outras ocasiões, sem que Augusto o desmentisse

O artigo de Augusto de Campos publicado neste jornal semana passada me deixou surpreso pela carga de ressentimentos que revelou. E tudo porque, numa crônica, publicada aqui mesmo, mencionei um encontro nosso, em junho de 1955, na Spaghettilândia, no Rio, quando, ao falarmos de Oswald de Andrade, qualificou-o de irresponsável.

Mas, na mesma crônica, digo que, graças à releitura que ele e seus companheiros fizeram de Oswald, a obra deste ganhou o reconhecimento de que hoje desfruta. Qual a razão, então, para tamanho furor contra mim? Apenas porque disse que a visão que ele tinha de Oswald, naquele momento, era equivocada? Mas aquela era a visão que quase todos tinham dele, naquela época.

Antes desse artigo despeitado, Augusto já havia mandado uma carta à Folha afirmando que o tal encontro na Spaghettilândia era invenção minha. Vou demonstrar, aqui, que o encontro houve.

Curioso, porém, é que, naquela carta, ele não nega que tivesse chamado Oswald de irresponsável; prefere dizer que o encontro não aconteceu, quando o que importa é o que disse ou não, tanto faz se na Spaghettilândia ou na Disneylândia.

Curioso é que já havia falado desse tal encontro em muitas outras ocasiões, sem que Augusto o desmentisse. Por que decidiu fazê-lo agora, não sei. A referida crônica, a escrevi para evocar minha relação de amizade com Oswald, e a referência, que provocou a fúria de Augusto, foi apenas uma entre tantas outras. Nunca pretendi apresentar-me como o responsável pela valorização da obra de Oswald.

Contei apenas o que de fato ocorreu entre nós: sua leitura entusiasmada de "A Luta Corporal", ainda inédito; sua visita a minha casa no dia de meu aniversário; minha visita a sua casa no Réveillon de 1953-54 e a notícia de sua morte em outubro daquele ano.

Escrevi então um poema, que Augusto afirma ter sido "sacado do fundo da gaveta". Não sei o que pretende dizer com isso, a não ser negar que entre mim e Oswald houvesse qualquer identificação mais profunda. Enfim, uma tolice.

Aliás, de tolices o seu artigo está repleto. Inventa que meu poema "O Formigueiro" foi uma imitação oportunista de poemas seus. Sucede que esses poemas têm uma lauda cada um (ideogramas); o meu, 50 -e só o publiquei 36 anos depois. Quanto oportunismo, não?

Na tentativa de demonstrar que o tal encontro foi invenção minha, cita uma crônica em que confesso esquecer o que leio, o filme que vejo, chego mesmo a mijar na lata de lixo, julgando que é o vaso sanitário. Ele se vale, desonestamente, dessa autogozação para insinuar que nada do que digo merece crédito. Engraçado é que Chico Buarque, depois de ler a crônica, me disse que também havia mijado, por distração, na lata de lixo...

Augusto, que nunca mija fora do penico, quis retratar-me como um sujeito ególatra e presunçoso, dono da verdade. Pergunto: alguém assim escreveria uma crônica como essa, intitulada "Errar é comigo mesmo", confessando suas trapalhadas? Augusto jamais o faria, uma vez que, modesto como é, não erra nunca. Ele e Deus.

Aliás, prefere mentir. Diz no tal artigo que me viu apenas "umas quatro ou cinco vezes de passagem", mas pouco falou comigo. No entanto, em maio de 1955, escreveu-me uma carta que tem simplesmente cinco laudas datilografadas em espaço um (em espaço normal, daria dez páginas).

Alguém escreveria carta tão longa para um sujeito com quem não quer papo? Nela, diz: "Em que pese nossas divergências, tenho muito interesse, acho mesmo que é um dever, estarmos em contato".

Encerra a carta informando que passará alguns dias no Rio: "Gostaria de entrar em contato com você, mas, como não tenho telefone (...), seria muito interessante que me enviasse um bilhete urgente (sublinhado) com o telefone de seu atual emprego". Passei-lhe o telefone e, assim, nos encontramos.

Escolhi a Spaghettilândia, por estar a uma quadra apenas do lugar onde eu trabalhava. Como se vê, é mais fácil pegar um mentiroso que um coxo.

Ainda me lembro de Augusto ao chegar ali: cabelo penteado, óculos de aros grossos, bigode bem aparado, paletó e gravata. Que contraste com Oswald, que foi a meu aniversário em mangas de camisa e alpercatas! Um não tinha nada mesmo a ver com o outro.

DANUZA LEÃO

Certos encontros

Como estava de óculos escuros, disfarçou e olhou. Não, não podia ser ele. Não podia ser, só que era

ELES TIVERAM UM ROMANCE; não um grande romance, mais tipo um caso.

Ele às vezes sumia, depois aparecia, e assim foram levando, até que um dia acabou de vez; depois de um tempo ela nem lembrava dele, e nunca mais se viram, nem por acaso, andando numa rua.

Anos depois, na sala de embarque de um aeroporto, ela viu lá longe, sentado, alguém que parecia ser ele. Será? Como estava de óculos escuros, disfarçou e olhou. Não, não podia ser. Não podia ser, só que era.

Um começo de calvície, um paletó meio churreado e um ar de derrota: tudo o que ela achava lindo e charmoso no tempo em que achava que estava apaixonada. Respirou fundo e teve medo que ele a reconhecesse e tivessem que conversar.

Sentou-se bem longe e ficou de olho, para evitar o encontro.

Daria a vida, naquela hora, por um cigarro, mas tinha deixado de fumar, e nem poderia, num aeroporto. Pegou o jornal e fingiu que lia as notícias econômicas, enquanto pensava nas loucuras que fez por aquele homem, e nas que teria feito, se ele tivesse deixado.

Pensou também que poderia ser mais normal, passar por ele e dizer um oi, perguntar como vai a vida, mas não teve coragem. Tentou pensar em outra coisa, mas não conseguiu, só queria embarcar logo, e que ele não a visse, pelo amor de Deus.

Depois do que lhe pareceram horas, o embarque foi dado, o que significava que teria que passar pelo lugar em que ele estava, se é que ele ainda estava lá. Tomou coragem, respirou fundo, e foi.

Ele continuava no mesmo lugar; ela ajeitou os óculos e passou, com um olhar distraído, mas olhando pelo rabo do olho. E teve a dolorosa impressão que ele a tinha visto e que não tinha se dirigido a ela pelos mesmos motivos: talvez a tivesse achado feia, velha, churreada, com ar de derrotada pela vida.

Foi das primeiras a entrar no avião e sentou-se bem no fundo, para ver se ele ia no mesmo voo, o que felizmente não aconteceu.

Pensou em como o mundo é cruel, e quando a comissária de bordo passou oferecendo um lanche, pediu um uísque -só que na ponte aérea não servem bebidas alcoólicas. Teve que segurar o tumulto dentro dela até chegar em casa, tirar o gelo e tomar não um, mas três, um depois do outro.

E parou no terceiro porque, se continuasse, seria capaz de cair em prantos; por ele, por ela, por tudo.

danuza.leao@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

A crise da crise

RIO DE JANEIRO - Poucas vezes na história republicana do Brasil tivemos uma sucessão presidencial que tinha tudo para ser tranquila.

Tirante o período das sucessões da ditadura, sempre havia problemas, alguns sérios, outros seríssimos, na acomodação da máquina política e administrativa da nação.

A transição de Lula para Dilma tinha tudo para ser um mar de rosas, uma idade de ouro digna de ser cantada por um Ovídio disponível. Não tem sido assim, apesar do pouco tempo para uma avaliação mais conscienciosa.

No entanto os movimentos de acomodação no terreno, não se sabe ainda bem por culpa de quem, estão subindo na escala Richter dos terremotos.

Até agora, felizmente, nada de irreparável na condução de uma política que vinha apresentando ótimos resultados na era Lula. Esperava-se a continuação, mas alguma coisa não está funcionando.

Basta lembrar as recentes substituições de ministros e administradores importantes, escândalos possíveis ou prováveis, dando a impressão de que a equipe formada por Dilma sob a supervisão ou autorização de Lula é um saco de gatos.

Causa pasmo que Nelson Jobim, com seu passado de membro do Supremo Tribunal Federal, saindo-se bem na difícil pasta da Defesa, conseguindo administrar até agora os problemas latentes ou inesperados entre as Forças Armadas, por desnecessária incontinência verbal, tenha criado uma situação, mais pessoal do que política, para esse início de governo.

No fundo, nada de sério, de substancial, mas revelador de que as manobras internas do atual governo, com tantos e tamanhos desafios a enfrentar, estejam se desgastando por suspeita de que outros casos poderão vir -e mais graves.

Cedo demais para uma crise sem gravidade, contudo perfeitamente dispensável.

ELIANE CANTANHÊDE

Na defesa, não no ataque

BRASÍLIA - Militares e diplomatas são carreiras de Estado, com uma cultura de ordem, hierarquia, promoções por mérito e grupos que se movem em torno de um líder.

As coincidências param por aí. Na caserna convém falar alto, mas acatando ordens e batendo continência. No Itamaraty, é bom falar baixo, mas articular muito e, em caso de necessidade, solapar.

Há preconceito de parte a parte. Para diplomatas, militares são uns grosseirões. Para militares, diplomatas são escorregadios, intelectuais com trejeitos afeminados.

Nelson Jobim se encaixava melhor no feitio militar e até nas fardas de campanha com que se embrenhava com seu mais de 1,90 m por selvas e descampados. Celso Amorim, porém, pode surpreender.

Diplomata "três em um", pois passou com louvor pelas áreas de política, de cultura e de comércio, ele não tem nada de escorregadio nem usa punhos de renda.

Tal como Jobim, Amorim é ousado, afirmativo, falante e estratégico -pensa longe. E também é acusado, vez ou outra, de arrogância e autossuficiência. Não fala grosso, mas é estridente. Não tem 1,90 m, mas sabe bem ocupar espaços.

Oficiais dizem que "diplomata não gosta de guerra", mas quem, sem ser fanático, gosta? Os limites entre diplomacia e defesa estão cada vez mais curtos. Jobim vivia invadindo a seara de Amorim.

O problema da Defesa não era nem vai ser de falta de comando, mas sim de condições objetivas: sobram projetos, faltam verbas. A não ser que Dilma abra os cofres para suavizar o pouso do novo ministro.

No mais, Amorim dificilmente vai mexer nos acordos para a Comissão da Verdade, bem costurados por Jobim na dupla condição de ministro da Defesa e ex-presidente do Supremo.

O que deve preocupar Dilma não é a Defesa, mas o descontrole e a traição latente no Congresso. Mais do que militares e diplomatas, quem a ameaça são os políticos.

elianec@uol.com.br

sábado, 6 de agosto de 2011



07 de agosto de 2011 | N° 16785
MARTHA MEDEIROS


Uma mulher entre parênteses


Tinha algo a dizer, mas jamais aos gritos, jamais com ênfase, jamais invocando uma reação

Era como ela catalogava as pessoas: através dos sinais de pontuação. Irritava-se com as amigas que terminavam as frases com reticências... Eram mulheres que nunca definiam suas opiniões, que davam a entender que poderiam mudar de ideia dali a dois segundos e que abusavam da melancolia.

Por outro lado, tampouco se sentia à vontade com as mulheres em estado constante de exclamação. Extra, extra! Tudo nelas causava impacto! Consideravam-se mais importantes do que as outras! Ela, não. Ela era mais discreta. A mais discreta de todas.

Também não era do tipo mulher dois pontos: aquela que está sempre prestes a dizer uma verdade inquestionável, que merece destaque. Também não era daquelas perguntadeiras xaropes que não acreditam no que ouvem, não acreditam no que veem e estão sempre querendo conferir se os outros possuem as mesmas dúvidas: será, será, será? Ela possuía suas interrogações, claro, mas não as expunha.

Era uma mulher entre parênteses.

Fazia parte do universo, mas vivia isolada em seus próprios pensamentos e emoções.

Era como se ela fosse um sussurro, um segredo. Como uma amante que não pode ser exibida à luz do dia. Às vezes, sentia um certo incômodo com a situação, parecia que estava sendo discriminada, que não deveria interagir com o restante das pessoas por possuir algum vírus contagioso.

Outras vezes, avaliava sua situação com olhos mais românticos e concluía que tudo não passava de proteção. Ela era tão especial que seria uma temeridade misturar-se com mulheres óbvias e transparentes em excesso. A mulher entre parênteses tinha algo a dizer, mas jamais aos gritos, jamais com ênfase, jamais invocando uma reação. Ela havia sido adestrada para falar para dentro, apenas consigo mesma.

Tudo muito elegante.

Aos poucos, no entanto, ela passou a perceber que viver entre parênteses começava a sufocá-la. Ela mantinha suas verdades (e suas fantasias) numa redoma, e isso a livrava de uma existência vulgar, mas que graça tinha?

Resolveu um dia comentar sobre o assunto com o marido, que achou muito estranho ela reivindicar mais liberdade de expressão. Ora, manter-se entre parênteses era um charmoso confinamento. “Minha linda, você é uma mulher que guarda a sua alma.”

Um dia ela acordou e descobriu que não queria mais guardar a sua alma. Não queria mais ser um esclarecimento oculto. Ela queria fazer parte da confusão.

“Mas, minha linda...” E não quis mais, também, aquele homem entre aspas.