domingo, 7 de agosto de 2011


ELIANE CANTANHÊDE

Na defesa, não no ataque

BRASÍLIA - Militares e diplomatas são carreiras de Estado, com uma cultura de ordem, hierarquia, promoções por mérito e grupos que se movem em torno de um líder.

As coincidências param por aí. Na caserna convém falar alto, mas acatando ordens e batendo continência. No Itamaraty, é bom falar baixo, mas articular muito e, em caso de necessidade, solapar.

Há preconceito de parte a parte. Para diplomatas, militares são uns grosseirões. Para militares, diplomatas são escorregadios, intelectuais com trejeitos afeminados.

Nelson Jobim se encaixava melhor no feitio militar e até nas fardas de campanha com que se embrenhava com seu mais de 1,90 m por selvas e descampados. Celso Amorim, porém, pode surpreender.

Diplomata "três em um", pois passou com louvor pelas áreas de política, de cultura e de comércio, ele não tem nada de escorregadio nem usa punhos de renda.

Tal como Jobim, Amorim é ousado, afirmativo, falante e estratégico -pensa longe. E também é acusado, vez ou outra, de arrogância e autossuficiência. Não fala grosso, mas é estridente. Não tem 1,90 m, mas sabe bem ocupar espaços.

Oficiais dizem que "diplomata não gosta de guerra", mas quem, sem ser fanático, gosta? Os limites entre diplomacia e defesa estão cada vez mais curtos. Jobim vivia invadindo a seara de Amorim.

O problema da Defesa não era nem vai ser de falta de comando, mas sim de condições objetivas: sobram projetos, faltam verbas. A não ser que Dilma abra os cofres para suavizar o pouso do novo ministro.

No mais, Amorim dificilmente vai mexer nos acordos para a Comissão da Verdade, bem costurados por Jobim na dupla condição de ministro da Defesa e ex-presidente do Supremo.

O que deve preocupar Dilma não é a Defesa, mas o descontrole e a traição latente no Congresso. Mais do que militares e diplomatas, quem a ameaça são os políticos.

elianec@uol.com.br

sábado, 6 de agosto de 2011



07 de agosto de 2011 | N° 16785
MARTHA MEDEIROS


Uma mulher entre parênteses


Tinha algo a dizer, mas jamais aos gritos, jamais com ênfase, jamais invocando uma reação

Era como ela catalogava as pessoas: através dos sinais de pontuação. Irritava-se com as amigas que terminavam as frases com reticências... Eram mulheres que nunca definiam suas opiniões, que davam a entender que poderiam mudar de ideia dali a dois segundos e que abusavam da melancolia.

Por outro lado, tampouco se sentia à vontade com as mulheres em estado constante de exclamação. Extra, extra! Tudo nelas causava impacto! Consideravam-se mais importantes do que as outras! Ela, não. Ela era mais discreta. A mais discreta de todas.

Também não era do tipo mulher dois pontos: aquela que está sempre prestes a dizer uma verdade inquestionável, que merece destaque. Também não era daquelas perguntadeiras xaropes que não acreditam no que ouvem, não acreditam no que veem e estão sempre querendo conferir se os outros possuem as mesmas dúvidas: será, será, será? Ela possuía suas interrogações, claro, mas não as expunha.

Era uma mulher entre parênteses.

Fazia parte do universo, mas vivia isolada em seus próprios pensamentos e emoções.

Era como se ela fosse um sussurro, um segredo. Como uma amante que não pode ser exibida à luz do dia. Às vezes, sentia um certo incômodo com a situação, parecia que estava sendo discriminada, que não deveria interagir com o restante das pessoas por possuir algum vírus contagioso.

Outras vezes, avaliava sua situação com olhos mais românticos e concluía que tudo não passava de proteção. Ela era tão especial que seria uma temeridade misturar-se com mulheres óbvias e transparentes em excesso. A mulher entre parênteses tinha algo a dizer, mas jamais aos gritos, jamais com ênfase, jamais invocando uma reação. Ela havia sido adestrada para falar para dentro, apenas consigo mesma.

Tudo muito elegante.

Aos poucos, no entanto, ela passou a perceber que viver entre parênteses começava a sufocá-la. Ela mantinha suas verdades (e suas fantasias) numa redoma, e isso a livrava de uma existência vulgar, mas que graça tinha?

Resolveu um dia comentar sobre o assunto com o marido, que achou muito estranho ela reivindicar mais liberdade de expressão. Ora, manter-se entre parênteses era um charmoso confinamento. “Minha linda, você é uma mulher que guarda a sua alma.”

Um dia ela acordou e descobriu que não queria mais guardar a sua alma. Não queria mais ser um esclarecimento oculto. Ela queria fazer parte da confusão.

“Mas, minha linda...” E não quis mais, também, aquele homem entre aspas.


07 de agosto de 2011 | N° 16785
ARTIGOS - Fernando Henrique Cardoso*


David e Golias

Apropósito do atual dilema americano, a secretária de Estado, Hillary Clinton, disse que pela primeira vez em muito tempo não havia um abismo tão grande entre poder, economia e sociedade. Pode parecer banal, mas não é: nos Estados Unidos, o “ideal americano” dava solidez para um caminho em comum para o país.

Havia tensões, tendências mais progressistas chocavam-se com outras mais conservadoras, o grande business sempre quis controlar mais de perto o governo, os governos ora se inclinavam para atender aos reclamos das maiorias ora assumiam a cara mais circunspecta de quem ouve as ponderações da ordem, da econômica em primeiro lugar.

Mas, bem ou mal, liberdade, democracia, prosperidade e ação pública caminhavam mais ou menos em conjunto.

E agora, poderia perguntar perplexa a secretária de Estado? Agora, digo eu, parece que as classes médias e os mais pobres querem gasto público maior e emprego mais abundante, os conservadores querem ortodoxia fiscal sem aumento de impostos, os muito ricos pouco se incomodam com o gasto social reduzido, desde que a propriedade de cada um continue intocável.

No meio de tudo isso, a crise provocada pelo cassino financeiro surgiu como um terremoto. Logo depois, veio o marasmo da semiestagnação e, pior ainda, se desenha o que há pouco era impensável, a moratória do país mais rico do mundo!

Por trás da peleja econômica corre a outra, mais profunda, a do poder: o Tea Party – os ultrarreacionários do Partido Republicano – levaram o governo Obama às cordas. A agenda política, mesmo depois de “resolvida” a questão do endividamento, passou a ser ditada por eles: onde e quanto cortar mais no orçamento de um país que clama por muletas para reavivar a economia.

Na Europa, as coisas não andam melhores. Cada solavanco da economia americana aumenta o contágio, esta doença internética: as taxas de juros cobrados dos países ultraendividados vão para as nuvens. A rua se agita, não faltam movimentos dos “Indignados” que veem o povo sofrer as agruras do desemprego e da desesperança e ainda ser cobrado para que as contas se ajustem.

E, naturalmente, como nos Estados Unidos, os que mais têm e os que mais especularam ou esbanjaram (inclusive governantes imprevidentes) balançam a poeira e querem dar a volta por cima. Esperam que mais aperto, mais rigidez no gasto público e menos salários resolvam o impasse. Não se estão dando conta de que a cada xis meses uma nova tormenta balança os equilíbrios instáveis alcançados.

É como se daqui a 30 anos os historiadores olhassem para trás e dissessem, “ah, bom, a Grande Crise dos Derivativos começou em 2007/2008, foi mudando de cara, mas prosseguiu até que novas formas de produzir e de distribuir o poder começaram a dar sinais de vida lá por 2015/2020...”

E nós aqui nesta periferia gloriosa a quantas andamos? Longe do olho do furacão, cantamos glória pelo que fizemos, pelo que de errado os outros fizeram e pelo que não fizemos, mas, pensamos, pouco importa, o vendaval do mundo varreu a riqueza de uma parte do globo para outra e nos beneficiou. Será que é assim mesmo? Será que a proe-za de evitar as ondas do tsunami impede que a malignidade do resto do mundo nos alcance?

Tenho minhas dúvidas. Falta-nos, como impuseram os reacionários americanos a Obama, uma agenda, mas que seja nova e não a desgastada do “clube do chá” americano. A nova agenda existe, está exposta cotidianamente pela mídia e não é propriedade de um partido ou de um governo. Mas onde está a argamassa, como o antigo ideal americano, para conter as divergências, o choque de interesses, e guiar-nos para um patamar mais seguro, mais próspero e mais coeso como nação?

Mal comparando, a presidenta Dilma está aprisionada em um dilema do gênero daquele que agarrou Obama. Só que, se no caso americano a crise apareceu como econômica para depois se tornar política, em nosso caso ela surgiu como política, mas poderá se tornar econômica.

Explico-me: a presidenta é herdeira de um Sistema, como dizíamos no período do autoritarismo militar. Este funciona solidificando interesses do grande capital, das estatais, dos fundos de pensão, dos sindicatos e de um conjunto desordenado de atores políticos que passaram a se legitimar como se expressassem um presidencialismo de coalizão no qual troca-se governabilidade por favores, cargos e tudo mais que se junta a isso.

Esta tendência não é nova. Ela foi-se constituindo à medida que o capitalismo burocrático (ou de Estado, ou como se o queira qualificar) amealhou apoios amplos entre sindicalistas, funcionários e empresários sedentos por contratos e passou a conviver com o capitalismo de mercado, mais competitivo.

Na onda do crescimento econômico, as acomodações foram se tornando mais fáceis, tanto entre interesses econômicos quanto políticos (incluindo-se neles os “fisiológicos” e a corrupção).

No início, parecia fenômeno normal das épocas de prosperidade capitalista, que seria passageiro. Pouco a pouco, se foi vendo que era mais do que isso: cada parte do Sistema precisa da outra para funcionar e o próprio Sistema necessita da anuência dos cooptáveis pelas bolsas e empregos de baixos salários e precisa de símbolos e de voz. Esta veio com o “predestinado”: o lulismo anestesiou qualquer crítica não só ao Sistema mas a suas partes constitutivas.

É neste ponto que o bicho pega. A presidenta é menos leniente com certas práticas condenáveis do Sistema. Entretanto, quando começa a fazer uma faxina, quebram-se as peças da engrenagem toda. Sem leniên- cias e cumplicidades entre as várias partes, como obter apoios para a agenda necessária à modernização do país?

E, sem ela, como fazer frente à concorrência da China, à relativa desindustrialização, ou melhor, “desprodutividade” da economia e como arbitrar entre interesses legítimos ou não dos que precisam de mais apoio do governo, advenham eles de setores populares ou empresariais?

É cedo para prever o curso dessa história, que apenas começa. Mas não há dúvida de que para se desfazer da herança recebida será preciso não só “vontade política” como, o que é tão difícil quanto, refazer os sistemas de alianças. É luta para Davis, e, no caso, Golias é pai de Davi.

*Ex-presidente da República


07 de agosto de 2011 | N° 16785
PAULO SANT’ANA


Estranho fenômeno

Fui percebendo, nos últimos anos, um estranho fenômeno psicossocial acontecido entre nós: psicanalistas, psiquiatras e psicólogos se separavam de suas esposas e se casavam com suas clientes.

Era um aqui e outro acolá, foram se sucedendo os terapeutas que se apaixonavam por suas clientes e, separando-se de suas esposas, seguiam a vida em frente em companhia de mulheres que antes recebiam como pacientes.

“Qual será o traço comum desse comportamento?”, perguntava-me até ontem, quando encontrei definitivamente a resposta.

O meu leitor ou leitora certamente me desculpará por ter tido curiosidade acerca desse estranho fato.

É que esses casos foram se sucedendo e todos os que os vivenciaram não se aperceberam de que estavam inseridos num fenômeno coletivo que, afinal, tinha a mesma causa.

Como não fui protagonista de nenhum desses casos, já que não sou terapeuta, à distância tive melhores condições para diagnosticar a impressionante série de separações e em seguida novos casamentos havidos entre os terapeutas e suas clientes.

É o seguinte: os psicanalistas, psiquiatras e psicólogos que cometeram esse ajuste em suas vidas, casados, conviviam durante 24 horas por dia com suas esposas.

Vinte e quatro horas por dia dá 168 horas por semana, 720 horas por mês, 8.760 horas por ano na lida conjugal. Até aí tudo bem.

Só que com as clientes eles conviviam apenas uma hora por semana, quatro ou cinco horas por mês, 52 horas por ano, o tempo apenas de uma hora que duravam as consultas.

Ou seja, fizeram a comparação entre o tempo exaustivo em que conviviam com suas esposas e o tempo rápido, fugaz e agradável em que conviviam com suas clientes.

E, como as clientes eram também uma novidade, tão saudável que até lhes pagavam pelas consultas, e as esposas, além de não pagarem nada, lhes custavam os olhos da cara, não tiveram dúvida em se apaixonar pelas clientes, separarem-se das esposas e iniciar uma vida nova e prometedora.

Pretendo, assim, que esclareci o intrigante fenômeno. Não raro, assim como alguns alunos com as professoras, as clientes dos terapeutas se apaixonam em meio ao trabalho, ao exercício da terapia, que como se sabe consiste numa interlocução sempre amável, muito perscrutadora e por vezes insinuantemente íntima e frequentemente invasiva.

Daí para o amor, é um passo quase inevitável.


07 de agosto de 2011 | N° 16785
VERISSIMO


Confissão de um sócio atleta

Participei do grande evento culinário-gastronômico que o suplemento Paladar, do Estadão, organiza todos os anos, e que reúne chefs e sommeliers, produtores de comida e aficionados do bem comer para trocar ideias, ensinar, aprender e simplesmente conviver durante três deliciosos dias. Fui convidado como palestrante, junto com o Ignácio Loyola Brandão, o Humberto Werneck, o Pedro Martinelli, o Fernando Gabeira e o Guilherme Studart, entre outros.

O Loyola lembrou as comidas da sua infância, em Araraquara, o Werneck falou das famosas empadinhas de Belo Horizonte, o fotógrafo Pedro Martinelli tratou da comida dos índios da Amazônia, que ele conhece como ninguém, e o Gabeira, da sua experiência com a macrobiótica. E o assunto do Guilherme Studart, que edita um guia dos botecos do Rio, foi comida de boteco um universo em expansão.

Anos atrás, eu e o Armando Coelho Borges, que depois escreveria sobre gastronomia na imprensa de São Paulo, ajudamos a criar um clube de gourmets em Porto Alegre. Como éramos os únicos do grupo que não sabiam cozinhar, ficou acertado que entraríamos na categoria de sócio atleta. E não decepcionamos: dispensados de entrar na cozinha, tivemos um ótimo desempenho na mesa. Me senti um pouco como sócio atleta no evento do Paladar.

Sem saber cozinhar e como é tarde demais para aprender, não aproveitei nada das aulas como a do Edinho Engel sobre as muitas variedades de feijão e seu preparo, ou a da Helena Rizzo sobre nhoques feitos de mandioca, a não ser os pratinhos servidos para a plateia com o magnífico resultado final da arte de cada chef, quando gemi mais alto do que qualquer um.

Também não podia competir com a Amazônia, a macrobiótica, as empadas de Belo Horizonte, os bolinhos de bacalhau do Rio – e, meu Deus, a Araraquara do Loyola – nas minhas reminiscências.

Palestrar sobre o quê? Me lembrei de uma história que fazia parte do folclore da família. Com meus quatro ou cinco anos de idade ganhei um carrinho em miniatura, daqueles em que as partes de um carro de verdade são minuciosamente reproduzidas, provavelmente importado e certamente caro.

Estava brincando com o carrinho na frente da casa da minha avó quando passou um garoto com um balaio vendendo pastéis de carne. O garoto me propôs uma troca: um pastel pelo carrinho.

Aceitei na hora. Com quatro ou cinco anos de idade, defini minhas prioridades para o resto da vida. Até hoje acho que foi uma boa troca. E ainda dou qualquer coisa por um bom pastel de carne.

Comecei minha “palestra” com este episódio definidor. Botei “palestra” aí entre aspas porque em seguida me limitei a ler coisas que já tinha escrito sobre minhas relações com comida, paladar, restaurantes, etc., depois daquele pastel primordial. E preciso fazer uma confissão.

Só aceitei participar do evento pela oportunidade que ele me traria de provar pratos feitos por alguns dos melhores cozinheiros do país, sem pagar nada. Estou fazendo “mmmmm” até agora.

Ruth de Aquino

Uma epidemia que mata 100 por dia

A causa não é fome, guerra, vírus ou bactéria. Uma vida se perde a cada 15 minutos em acidentes de trânsito no Brasil. Olhe seu relógio e pense: “100 brasileiros morrem a cada 24 horas em ferragens, no asfalto e na calçada”. Por ano, são 36 mil – no cálculo mais conservador. Esses são os mortos. Sem contar os amputados e paraplégicos. Motoristas, passageiros, pedestres, ciclistas, motociclistas. Eu sei, você sabe. E quem dirige carros potentes, alcoolizado e a 150 quilômetros por hora também sabe.

Desastres recentes, no Estado de São Paulo, envolveram gente de muita grana e na idade mais perigosa segundo as estatísticas da violência sobre rodas: entre 20 e 30 anos.

A nutricionista Gabriella Guerrero Pereira, de 28 anos, perdeu o controle do Land Rover blindado e atropelou na calçada o administrador Vítor Gurman, de 24, na Rua Natingui, na Vila Madalena, bairro com bares e restaurantes lotados à noite.

Gabriella deu entrevista, chorou, disse que assumiu a direção do carro “robusto mas instável” porque o namorado estava bêbado. “A rua é muito estreita para a proporção do carro. O acidente aconteceu”, disse ela. Gabriella não fez exame de bafômetro “porque o PM não pediu”. O PM desmentiu. Disse que ela se recusou. Vítor morreu dias depois do atropelamento.

O engenheiro Marcelo Malvio Alvez de Lima, de 36 anos, dirigia um Porsche na Rua Tabapuã, no bairro Itaim Bibi. Num cruzamento, chocou-se com o Tucson da advogada Carolina Menezes Cintra Santos, de 28 anos. Carolina tinha cometido um erro: ela passava o sinal vermelho lentamente, quando foi atingida pelo Porsche de Marcelo. O engenheiro foi acusado de estar a 150 quilômetros por hora, numa rua que permite velocidade máxima de 60 quilômetros por hora.

Ele nega. “Não sou bandido”, disse, em entrevista. Tinha bebido, segundo ele, “não mais do que duas taças de vinho”. Não gostou de ficar conhecido como o “dono do Porsche”. Sobre o desastre, afirmou: “Aconteceu um acidente, ela faleceu, com certeza isso estava nos planos de Deus”. Marcelo pagou R$ 300 mil de fiança. Carolina morreu no instante da colisão.

O administrador João Luís Raiza Filho, de 30 anos, perdeu o controle de seu Chevrolet Camaro, subiu no canteiro de uma praça em São Bernardo do Campo, bateu em árvores e derrubou um muro. Como estava nu da cintura para baixo, um PM precisou emprestar a ele uma cueca para sair do carro.

No banco ao lado do motorista, havia uma garrafa vazia de uísque. Raiza Filho já foi personagem de “Nossa Antena”. Em outubro de 2007, o playboy, então com 27 anos, destruiu sua Ferrari na véspera do GP de Fórmula 1 em São Paulo. Bateu sob um viaduto. Deu cabeçada na boca de um cinegrafista.

Teve de pagar R$ 3 mil pela agressão. Há quatro anos, esta coluna dizia o seguinte: “Numa sociedade em que nossos atos têm consequência, esse rapaz seria condenado a prestar serviços à comunidade. Se seu castigo for apenas trocar uma Ferrari por um Mercedes, nada mudará em sua vida”. E não mudou mesmo. Errei na marca do novo carro.
Olhe seu relógio e pense: uma vida se perde a cada 15 minutos em acidentes de trânsito no Brasil

Raiza Filho não matou ninguém ainda. Mas é evidente que ele e milhões de motoristas são um perigo real para si e para a sociedade. Pilotam estimulados por álcool, deprimidos por drogas ou excitados pela sensação de onipotência.

Ainda há os que simplesmente não sabem dirigir e não poderiam ter carteira de habilitação. Temos ao volante um exército de homicidas e suicidas em potencial. O trânsito brasileiro mata 2,5 vezes mais que nos Estados Unidos e 3,7 vezes mais que na Europa, segundo um estudo divulgado em dezembro de 2009.

“Não é possível que haja no Brasil muitos problemas mais graves do que 100 mortos em acidentes a cada dia.” A declaração é do diretor-geral de trânsito na Espanha, Pere Navarro Olivella, de 59 anos. A Espanha reduziu em 57% as mortes nas estradas. Não basta educar, é preciso vigiar e punir.

As campanhas devem ser duras, segundo ele: “Ridicularizar infratores reincidentes, mostrar deficientes e crianças acidentadas na TV”. Acidente de trânsito “não é maldição divina e deve ser combatido como doença grave”, disse Olivella. Chega de culpar o destino e Deus.


06 de agosto de 2011 | N° 16784
NILSON SOUZA


Inércia demográfica

Escrevi em 1998 uma crônica intitulada “O seisbilionésimozinho”, que tratava do nascimento do bebê que elevaria a população da Terra para 6 bilhões de habitantes. No ano seguinte, quando a marca foi atingida, a ONU previu que o mundo levaria 14 anos para chegar aos 7 bi. Levou apenas 12.

Será em outubro próximo, de acordo com os previsores. Eles arriscam, inclusive, a vaticinar o nascimento em algum lugar da Índia, que em breve será o país mais populoso do planeta, deixando a China para trás. Os chineses, como sabemos, têm uma política draconiana de controle da natalidade, um filho por casal, e estamos conversados.

Ainda assim, a população da China, que é hoje de 1,6 bilhão de pessoas, só começará a diminuir a partir de 2030 por causa da tal inércia demográfica – um conceito científico que explica por que as populações continuam crescendo mesmo quando a taxa de fecundidade está abaixo do índice de reposição.

Por exemplo: o Brasil já alcançou esta taxa reducionista em 2006, mas a população continua crescendo porque a quantidade de mulheres em período reprodutivo é muito maior do que o de pessoas em idade avançada, que não terão mais filhos. Resumo da ópera: a população brasileira só começará a regredir por volta de 2040 e a mundial fará a curva em 2050, quando o planeta tiver 9 bilhões de habitantes.

São apenas previsões, sempre é bom lembrar. Os tsunamis estão aí para provar que não só o homem é imprevisível na sua capacidade destruidora, mas a natureza também. Possivelmente, os dinossauros também se julgavam imortais. Tem ainda o desafio de arranjar alimento para toda essa gente e de impedir que entupam o Amazonas com pneus velhos. Mas não é esse o objetivo deste comentário.

O que me move é o espanto de ver que a população humana, mesmo com as guerras e os acidentes de trânsito, aumentou em 1 bilhão de pessoas entre uma crônica e outra que escrevi. Custo a acreditar que presenciei tamanho fenômeno. Ainda mais sabendo que o mundo precisou de 125 anos para passar de 1 bilhão para 2 bilhões de almas encarnadas.

Pois bem, naquela ocasião, ao saudar a chegada do bebê 6.000.000.000, lamentei: “Seis bi de cérebros ditos inteligentes e ainda não fomos capazes de descobrir a fórmula da paz. Seis bi de corações ditos humanos e ainda não aprendemos o significado da solidariedade. Seis bi de vidas dependentes da natureza e ainda não aprendemos a respeitá-la”. Em breve seremos sete bi – e nenhuma dessas metas parece visível no horizonte.

Será a tal inércia demográfica?


06 de agosto de 2011 | N° 16784
ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES


Ernesto e o Bombo

Brasileiro, americano,
Em ti eu vejo um Hermano,
Meu amigo, meu parceiro.
Sou teu irmão, companheiro,
Teus sonhos são os meus sonhos,
Tua dor é a minha dor.

Nós não somos diferentes,
Diferente é a nossa cor.
No peito de todos nós
O coração ergue a voz,
Bombo leguero e tambor.

Bombo, bombo, bombo
Leguerito mio.
Bombo, bombo, bombo,
Leguerito mio.

Todos os duendes dos sonhos
Wiracocha, Pachamama,
Tupã, Xangô e a larga fama
Do Deus de todos os crentes
Para que esteja presente
Com seu amor que ilumina
A terra que nos irmana
E esta raça tão humana
Que até parece divina.

Esses versos aí acima fiz como se fosse o Ernesto conversando com o bombo leguero. A ligação dele com o instrumento é mais que visceral, é anímica. No bombo, ele sente o pulsar do próprio coração e a vibração da terra ligando harmonicamente o homem americano ao pampa.

Atrás das origens do bombo leguero, ele andou pela Argentina, de Santiago del Estero a La Plata acompanhado por gente especial: Rene Goya Filho, Pablo Chasseraux e Paulinho Fagundes. Em Santiago, visitou o Pátio do famoso luthier de bombo leguero, Índio Froilán Gonzalez. Acompanhado pelo violão do mano Paulinho, bateu bombo na praça de Santiago e em Buenos Aires, em plena Plaza de Mayo, diante da Casa Rosada.

De tudo resultou um magnífico documentário cinematográfico dirigido pelo Rene e que hoje, sábado, às 14h, será exibido, com entrada franca, no Palácio dos Festivais. É a primeira vez que algo semelhante é exibido na programação do Festival de Cinema de Gramado. E o diretor Rene, da Estação Elétrica, e o Ernesto estarão lá conferindo tudo de perto.

O Ernesto é um vencedor. Adolescente ainda, era campeão de chula e de malambo. Daí, para o bombo leguero, foi apenas um passo – sapateado... Eu lhe dei o primeiro bombo leguero, hoje peça de museu no Alegrete. Parece que foi o maior presente que Ernesto Fagundes ganhou até hoje.


06 de agosto de 2011 | N° 16784
PAULO SANT’ANA


Fim dos desabrigados?

Tem dois tipos de pessoas que não tenho visto nas ruas de Porto Alegre nestes dias de frio e chuva rigorosos: os azuizinhos e os desabrigados.

Não sei se a EPTC não distribuiu capas e agasalhos para os azuizinhos, o fato é que eles desapareceram das ruas completamente, mal chegaram o frio e a chuva.

E desabrigados também não há na cidade.

Curioso, telefonei para o prefeito José Fortunati. Perguntei a ele sobre que mistério é este, que não há desabrigados em Porto Alegre, não se vê nenhum deles nas ruas.

A resposta do prefeito: “Sabe, Sant’Ana, apesar de toda a chuva que tem se abatido sobre o nosso Estado, trazendo problemas dos mais variados e desabrigando milhares de famílias por esse Rio Grande, é importante salientar que em Porto Alegre não houve nenhum caso de família que teve que ser removida pelas enchentes. Não é porque em Porto Alegre tenha chovido menos. Isto é fruto de ações concretas da prefeitura. Gostaria de destacar abaixo algumas delas:

1) Desde que assumi (2010), estamos retirando as famílias em situação de risco de alagamento, desmoronamento e desabamento através de um mecanismo chamado de ‘aluguel social’. Ou seja, nós cadastramos as famílias para que recebam unidades habitacionais no programa Minha Casa Minha Vida e de imediato permitimos que elas escolham uma casa para alugar até um determinado valor.

A prefeitura aluga a casa e fica pagando o aluguel até a entrega da unidade habitacional definitiva (em torno de um ano). Quem escolhe a casa para alugar é a própria família e pode estar localizada em qualquer área do município.

2) Ao todo, são mais de mil famílias que estão sendo contempladas com o ‘aluguel social’ neste momento. Terminei, desta forma, com as famigeradas ‘Casas de Passagem’. Comunidades como as da Vila dos Sargentos, Loteamento Túnel Verde, Vila dos Herdeiros, Jardim Ipê, estão nesta situação;

3) Também criei o Programa de Fiscalização e Monitoramento Ambiental, que vistoria todas as cerca de 70 áreas de risco da cidade, verificando as condições das moradias e impedindo a proliferação de novas ocupações;

4) Também é importante destacar as grandes obras de drenagem que estão sendo feitas desde 2005 e que impedem os alagamentos: Conduto Forçado Álvaro Chaves, bacia de detenção de cheias na Chácara das Pedras, reforma das casas de bombas que drenam as águas para o Guaíba, rede de macrodrenagem da Avenida Panamericana (Lindoia), redes do Arroio Sarandi etc.;

5) Ampliamos as equipes e serviços executados pela Divisão de Conservação do DEP que resolvem problemas de alagamentos locais.

É lógico que pontualmente ainda temos problemas de alagamentos em dias de muita chuva e por isso prosseguimos com as obras, como é o caso das recém-iniciadas obras de drenagem da Avenida Farrapos e São Pedro. Acho, portanto, Sant’Ana, que estamos cumprindo nosso dever e vou ficar torcendo para que tu continues a não ver desabrigados nas ruas da nossa cidade”.

Desliguei o telefone fortemente impressionado com o relato do prefeito Fortunati. Não há dúvida de que a política, quando bem manejada, é fator de salvação social.

No entanto, assim que terminei de escrever o que está acima, chegou-me um e-mail de um leitor (sergiohkeller@serkell.com.br) dizendo que assistiu a dezenas de pessoas desabrigadas nas ruas e que os albergues de POA estão lotados.

Será que tive uma falsa visão da realidade?


06 de agosto de 2011 | N° 16784
CLÁUDIA LAITANO


Vergonha, vergonha alheia e orgulho hétero

Nos últimos anos, a expressão “vergonha alheia” se espalhou na linguagem cotidiana e nas redes sociais como se nunca tivéssemos vivido sem ela. Os mais novos podem achar que o termo sempre esteve aí, à disposição de falantes, escreventes e tuitantes, mas o fato é que se trata de uma expressão recém-importada – coisa de menos de 10 anos para cá. O termo “vergüenza ajena” está para a língua espanhola mais ou menos como “saudade” está para o português.

Ou seja: não existe equivalente nacional perfeito – o que fizemos foi pegá-lo emprestado dada sua evidente utilidade semântica. (Com a multiplicação das ferramentas de transmissão de micos voluntários e involuntários, a vergonha alheia nunca esteve tão em voga.)

Darwin teria sido um dos primeiros cientistas a estudar o papel da vergonha no comportamento humano. No livro A Expressão das Emoções em Homens e Animais, o biólogo britânico dedica um capítulo inteiro à reação, exclusivamente humana, de corar em determinados momentos.

Para Darwin, sentimos vergonha em basicamente dois tipos de situação: quando expomos sem querer algum pensamento ou emoção íntimos ou quando intuímos que os outros condenam nosso comportamento. Para sentir vergonha, a pessoa deve chegar à conclusão de que fez algo que contraria um referencial próprio ou do grupo do qual faz parte – e isso deve ter lá sua utilidade evolutiva como recurso de adaptação ao grupo, suponho.

Aqueles que aparentemente não se incomodam com gestos ou palavras que a nós matariam de vergonha (ou vergonha alheia) tanto podem ser desviantes involuntários, gente que simplesmente não é capaz de seguir os códigos coletivos de comportamento (lavar os cabelos, por exemplo), quanto libertários: pessoas que subvertem as regras estabelecidas e ousam pensar/agir diferente (usando o cabelo comprido quando todo mundo usa bem curtinho, por exemplo).

Em momentos de ruptura, quando uma maioria é pressionada a começar a assimilar e respeitar a diferença, é comum inverter a equação e transformar a antiga inferioridade no sentimento que é o oposto da vergonha: o orgulho. Quando proclamamos o orgulho negro, o orgulho feminino, o orgulho gay ou mesmo o orgulho de sermos gaúchos (habitantes de uma província economicamente secundária), estamos propondo uma nova forma de ver o mundo – menos limitada, mais complexa.

Mas quanto mais atrasado for o ponto de vista (do país, da cidade...), mais difícil será aceitar que é possível sentir orgulho por fazer parte do grupo menos poderoso ou menos valorizado socialmente.

O fato de a Câmara de Vereadores de São Paulo ter instituído um bizarro Dia do Orgulho Hétero – fabricando um cerco imaginário à heterossexualidade típico da mentalidade paranoica que gera a violência – seria até cômico não fosse a combinação de falta de luzes com preconceito tão potencialmente perigosa.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011



O QUE VOCÊ TEM ATRAÍDO PARA A SUA VIDA?

Há uma estória atribuída ao filósofo grego Sócrates, sobre como lidar com pessoas

negativas, que vale a pena contar.

Certa vez um homem correu apressadamente em direção a Sócrates e disse:“Eu tenho novidades para contar-lhe”. Sócrates fez sinal com a mão ao homem afoito para que se acalmasse.

“Antes, deixe-me fazer-lhe três perguntas”, disse Sócrates.

“Bom; está bem!!”, respondeu o homem.

“A notícia que está para contar-me, você pessoalmente, sabe se é verídica?”

“Na verdade não” respondeu-lhe o outro. “Mas eu a ouvi de fonte segura”.

“Então vamos à segunda pergunta”, continuou Sócrates.

“A notícia que pretende contar-me é sobre alguém que você conhece pessoalmente?”

“Bem, não o conheço”, respondeu-lhe o homem. “Mas acho que você o conhece.”

“Ah, sei”, disse Sócrates. “Então deixe-me fazer-lhe a última pergunta. Essa notícia é

positiva ou negativa?”

“Bem, ela é negativa!” falou o outro.

“Então vejamos”, retrucou o sábio. “Você pretende contar-me uma notícia que pessoalmente você não sabe se é verídica, a respeito de alguém que você não conhece, e além disso é negativa.”

“Bem, posto desse jeito, parece ser algo ruim mesmo,” respondeu o homem.

“Obrigado, mas estou fora dessa,” disse Sócrates.

Sócrates sabia que atraímos coisas de acordo com a qualidade de nossos pensamentos. Recebemos aquilo em que concentramos nossa atenção. Focalize no que lhe falta e você terá privação. Focalize no seu reumatismo e ele piorará. Focalize

no seu mau-humor e ele aumentará a cada dia.

Onde se concentra a maior parte dos seus pensamentos? Que tipo de conversação predomina no seu dia-a-dia com as pessoas?

As respostas a essas perguntas certamente lhe dirão muita coisa a respeito da qualidade de seus pensamentos e o que vem junto com eles, em sua vida.

Floyd Patterson, o grande campeão mundial de boxe dos pesos pesados da década de 60, falou certa vez que “Em vez de tentar vencer o mundo, tente simplesmente melhorar a si mesmo. Exceda à sua própria personalidade e acabará descobrindo o melhor de si.”

Em outras palavras, se você não está satisfeito com consigo mesmo, descubra uma forma de vencer a si mesmo.

Dessa forma não haverá competição. Não haverá inimigo. Existirá apenas o desejo de melhorar a si mesmo. A medida que você melhora, o mundo também melhora.

O primeiro e mais importante passo para o êxito em qualquer área de sua vida (seja pessoal, profissional, espiritual etc), é focalizar fortemente a sua atenção naquilo que você realmente almeja ter (que são seus ideais, metas e objetivos), em vez de olhar para o que não deseja, ou olhar para o seu estado atual, e trabalhar decididamente naquela direção.

Você atrairá de maneira automática aquilo que predomina em seus pensamentos. Logo, se as coisas não andam bem, comece a refocalizar – do negativo para o positivo- o seu modo de pensar e as suas atitudes.

Assim, “Eu não quero esse reumatismo”, se transforma em “Eu quero um corpo sadio”.

“Eu não quero essas dívidas”, se transforma em “Eu quero dinheiro mais do que suficiente para tudo aquilo que eu desejo”.

Redirecionando a sua mente para o que deseja, isto irá levá-lo consistentemente, em direção ao que você quer, contanto que seja perseverante e tenha fé no sucesso.

O primeiro passo é seu. Os próximos passos também serão seus, mas agora mais facilitados, pois a ajuda, como que fluirá ao seu encontro, automaticamente, através de pessoas e situações, que o levarão continuamente aos seus objetivos.

A pergunta que fica é: “Você está disposto a se empenhar ao máximo nesse sentido?”

Eu espero que sim, pois o resultado, se for ético e honesto, valerá muito a pena.

A decisão final é sua.

Ernesto Artur Berg.

Gostosa sexta-feira para você e um excelente fim de semana


05 de agosto de 2011 | N° 16783
TEMOR DE RECESSÃO GLOBAL


Incerteza testa defesas do Brasil

Quedas fortes nas bolsas mundiais, comparáveis às da crise de 2008/2009, refletem prenúncio de novo período de dificuldade

Uma nova onda de crise mundial provocou pesadas perdas nas principais bolsas de valores do planeta, só comparáveis às da Grande Recessão de 2008/2009. É um sinal de que o Brasil precisa se preparar para um período de maior dificuldade, que pode desembocar na forma de crescimento menor, lucros decrescentes e até menos emprego.

Ainda não é certo que o mundo enfrentará um período tão difícil como o atravessado entre 2008 e 2009, mas analistas prenunciam ao menos a desaceleração do crescimento mundial, em decorrência de problemas nas economias desenvolvidas – Estados Unidos e Europa.

– As bolsas são investimentos especulativos por natureza, reagem sempre de forma extremada. Existe risco de recessão global, mas é pouco provável. Para o Brasil, a situação é tranquila no curto prazo, mas temos duas condições desconfortáveis a médio e longo prazo: a moeda mais valorizada e o juro mais alto do mundo – adverte Antonio Corrêa de Lacerda, especialista em economia internacional.

Na avaliação de Rogerio Mori, professor da FGV especializado em economia brasileira, o mau humor dos mercados afeta o Brasil aos poucos. Por isso, projeta perspectiva de crescimento menor no país, com menos lucros e redução de ganhos para acionistas de empresas.

Mori considera “razoável” um cenário de recessão mundial, porque todas as grandes economias enfrentam dificuldades. Os países emergentes como o Brasil estão em melhor situação, mas talvez não consigam segurar sozinhos o ritmo do planeta, explica o professor:

– Uma coisa é certa: o cenário não é positivo como semanas atrás.

Estudioso da economia americana, João Marcus Marinho Nunes lembra que em agosto de 2010 houve um início de nervosismo semelhante, ao que os EUA responderam com uma injeção de dólares.

– Pode ser só mais um bug de verão (no hemisfério norte), mas as dívidas das grandes economias indicam que pode ser um problema sério. Embora tenham saído da recessão, os EUA ainda estão em depressão, não voltaram ao nível anterior de Produto Interno Bruto (PIB) – afirma Marinho Nunes.

marta.sfredo@zerohora.com.br


05 de agosto de 2011 | N° 16783
ARTIGOS - Carlos Alexandre Netto*

Uma universidade de excelência

É reconhecida a importância da expansão das universidades federais, com ampliação de vagas e de cursos nos últimos anos, mas pouco se tem falado sobre o significativo crescimento da qualidade acadêmica que vem ocorrendo.

Divulgado no final de julho, o Webometrics Ranking of World Universities, que avalia a visibilidade na internet das instituições de Ensino Superior, traz a Universidade Federal do Rio Grande do Sul na terceira posição na América Latina, tendo à frente apenas a Universidade de São Paulo e a Universidade Autônoma do México. Ocupando a 150ª colocação mundial, a UFRGS avançou mais de 140 posições no contexto mundial e três no latino-americano desde 2010.

O Conselho Superior de Investigações Científicas, espanhol, avalia cerca de 20 mil universidades globais, isto é, aquelas reconhecidas pela qualidade da formação de pessoas e de produção de conhecimento e inovação, e com políticas claras de internacionalização.

A metodologia compreende o desempenho e a visibilidade das instituições na web, com indicadores de pesquisa, citações bibliográficas, repositórios digitais, qualidade de estudantes e docentes, bem como o compromisso com outros setores da sociedade. Ao avaliar amplo conjunto de instituições, oriundas dos cinco continentes, com critérios bem estabelecidos, aceitos e com poder estatístico, o ranking é uma importante ferramenta de avaliação externa.

A conquista da segunda posição entre as universidades brasileiras demonstra que a UFRGS vem trilhando o caminho da excelência acadêmica. Uma trajetória iniciada no ato de sua criação, há 76 anos, e que materializa o esforço dos milhares de pessoas que contribuíram para a sua história.

A percepção internacional da qualidade tem como bases a relevância da produção científica institucional e a capacidade de formar lideranças em todos os níveis de ensino e de dialogar com universidades globais através do intercâmbio de estudantes e de professores.

Alcançar este patamar, no momento em que a UFRGS faz uma expansão histórica da graduação e da pós-graduação, reafirma que é possível expandir e crescer em qualidade.

Ao atingirmos esta marca, nosso sentimento é de satisfação pelo sucesso institucional, mas, ao mesmo tempo, nos coloca a grande responsabilidade de consolidar uma relação cada vez mais transformadora entre a universidade e a sociedade.
CARLOS ALEXANDRE NETTO* | *Reitor da UFRGS


05 de agosto de 2011 | N° 16783
PAULO SANT’ANA


O preto velho

Entro no táxi e topo com um preto velho como motorista. A pele negra retinta, os fios de barba branca fazem de suas faces dois pequenos tapetes de dominó.

O motorista começou o seu discurso, comigo de ouvinte, enquanto a corrida se desenvolvia: “O senhor não sabe quanta é minha honra em transportá-lo. Nunca pensei que ia ter essa oportunidade. O senhor está vendo este preto velho aqui e não sabe que ele fez infância ali na Rua Domingos Crescêncio, bem ali onde havia antigamente um quilombo, uma reserva de negros, como aquela outra que naquele tempo criaram perto da Rua Dona Laura. Meu nome é Walmir. Estou aqui de motorista desde o tempo em que não havia Volkswagen como táxi”.

Pensei um pouco e calculei que, se o preto velho era taxista já no tempo em que não havia Fusca na praça, então tratava-se de um profissional de mais de 40 anos de trabalho em táxi.

Ele continuou a sua fala: “Eu vejo, doutor Sant’Ana, as pessoas dizendo que nunca houve um inverno tão rigoroso como este por que estamos passando. E acho que não é verdade. Vou lhe contar, seu Sant’Ana, eu hoje tenho 68 anos, quando eu era guri fez aqui em POA um inverno tão rigoroso, que, eu morava na Vila Floresta, a gente abria a torneira do tanque ou da pia e não saía água. Acredite, seu Sant’Ana, a água do encanamento virou gelo. Eu sempre me lembro disso quando entra neste táxi um passageiro se queixando do frio. Pois já houve, por mais que não possam crer, inverno pior do que este”.

Eu escutava o taxista. Já tinha ouvido dizer que na Serra não saía água na torneira porque a corrente gelara. Mas eu também era guri quando o preto velho tinha infância e não me lembro de torneiras congeladas aqui na Capital.

Chegamos ao final da corrida, que tinha o preço de R$ 12. Puxei uma nota de R$ 20 e alcancei-a ao preto velho.

Ele disse: “Assim, o senhor vai me ofender. Eu não posso cobrar a corrida do senhor. Como já lhe disse, a honra de transportá-lo é muito grande para mim. Não tenho condições de aceitar o seu dinheiro. Para o senhor, é de graça, em homenagem aos serviços que o senhor tem prestado aos gaúchos em rádio, jornal e televisão. Guarde o seu dinheiro e pode crer numa coisa: foi uma honra enorme conhecê-lo”.

Eu insistia em pagar e ele insistia em não receber. Foi então, como eu estava com pressa, que tentei um acordo: quem sabe ele concordava em me dar um desconto e a corrida sairia por R$ 10? Não teve jeito, o preto velho não queria receber o preço da corrida.

Foi então que, depois de descer do táxi, como o impasse se prolongasse, agradeci com insistência a gentileza do preto velho, joguei a nota de R$ 20 no assento do banco em que eu estava, bati a porta e saí correndo rua afora.

Foi a primeira vez em toda a minha vida que uma corrida de táxi ia ter custo zero para mim e acabou me custando quase o dobro do que ela legalmente me custaria.

Só me falta agora aparecer aqui no jornal, qualquer dia, o preto velho, para tentar me devolver os R$ 20.

Se eu estiver apressado, de algum modo esta corrida acaba ainda me custando R$ 40.


05 de agosto de 2011 | N° 16783
DAVID COIMBRA


Coisas!

Meu filhinho queria que eu brincasse de esqueleto com ele, mas eu tinha de arquivar uns recibos. Você deve guardar os recibos por cinco anos, sabia? IPTU, IPVA, contas de luz, água, condomínio, telefone, TV a cabo. Alguns documentos você precisa guardar toda a vida. Certidão de nascimento, carteira de identidade, de trabalho, passaporte, CPF.

Tem também o caderno de vacinação do seu filho. Você precisa cuidar para que ele tome dezenas de vacinas. Isso me faz lembrar que é muito importante separar as notas de médico e dentista para descontar do IR. Aulas de inglês não descontam mais, mas são indispensáveis. Só não adianta ir à aula duas vezes por semana. O ideal é três. Já exercícios físicos têm de ser feitos diariamente.

Aliás, você já fez check-up? Vi o Marcos Paulo falando que ele faz check-up de seis em seis meses, e foi por isso que descobriu que tinha câncer a tempo de se tratar. Quando você fizer, não esqueça de pedir para o proctologista efetuar o exame do toque. É chato um homem invadir assim a sua, digamos, intimidade. Mas é necessário.

O seu carro também precisa de check-up: a revisão. E é fundamental verificar a calibragem dos pneus e o nível do óleo com alguma periodicidade. A calibragem correta está no manual do carro. Você lê o manual? Há que se ler manuais.

Óbvio que o melhor é ler por prazer. Mesmo assim, há quem perca o hábito. Emende um livro no outro, sempre. E leia o jornal diariamente. Semanalmente, revistas. O bom é ler o jornal ao café da manhã, que, você sabe, é a refeição mais importante do dia. Nunca deixe de tomar café da manhã.

De preferência, com uma fatia de mamão – faz bem para os intestinos. E, ao acordar, beba um copo d’água em jejum, antes mesmo de escovar os dentes. Que têm de ser escovados depois de TODAS as refeições.

Por sinal, você tem ido ao dentista? Mesmo que não sinta nenhuma dor, você não deve deixar de ir ao dentista a cada semestre, nem que seja para fazer limpeza. Sobretudo antes de alguma viagem longa, para não padecer de dor de dente no Exterior.

Nessa viagem, lembre-se de usar suas milhas. Você tem cartão de milhagem? Converte os pontos do cartão de crédito para milhas? E os do posto de gasolina? Há cartões de posto, de lojas de roupa, de livrarias, de clínica médica e oftalmológica. Falando nisso, prepare-se: todas as pessoas, sem exceção, terão de usar óculos para perto, algum dia.

Ah, é fundamental verificar a pressão do olho, tanto quanto a pressão arterial, e controlar a quantidade de sal da comida, bem como a de açúcar, melhor é usar adoçante, apesar de o aspartame fazer mal à saúde, então o certo seria não adoçar nada, nem salgar nada, nem comer carne vermelha, nem pão branco, nem gorduras, muito menos embutidos, salgadinhos e biscoitos igualmente são um horror e as frituras são um crime, da mesma forma o álcool, que até leva à depressão, e contra a depressão consulte um psicanalista, que inclusive deve ser consultado mesmo que você não tenha depressão, nem qualquer problema mental evidente, nem nada, só porque você tem muitas coisas a fazer, muitas, muitas, tantas, que tornam a vida insuportável.

Melhor ir brincar de esqueleto com meu filhinho.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011


KENNETH MAXWELL

Obama aos 50 anos

Hoje é o 50º aniversário de Barack Obama. A comemoração foi iniciada na noite de ontem, com concerto, jantar e evento de arrecadação de fundos, no histórico salão Aragon, em Chicago.

O Aragon Ballroom foi construído em 1926, com arquitetura no estilo mourisco. Seu interior lembrava uma aldeia espanhola, e o salão cujo nome celebra uma região da Espanha foi um grande sucesso no início dos anos 1930.

Reza a lenda que túneis secretos o conectavam ao Green Mill Bar, um reduto alcoólico da era da Lei Seca frequentado por Al Capone, o mais famoso gângster de Chicago.

No final dos anos 1960, quando morei em Chicago, o Aragon Ballroom havia-se tornado local dos maiores shows de rock, e era notório pelos frequentadores desordeiros.

Nos anos 1970, sob novos proprietários de etnia latina, a casa passou a promover shows e bailes para hispânicos, bem como ocasionais lutas de boxe.

Para Obama, uma festa de aniversário no Aragon Ballroom representa um retorno às "raízes". Mas a história de Obama em Chicago é, de certa maneira, problemática.

Em larga medida, ignora seus anos de infância passados no Havaí e na Indonésia, o papel de seus avós brancos e seus anos de estudo no Occidental College, em Los Angeles, e na Universidade Columbia, em Nova York.

Mas, então, o que Obama decide enfatizar sobre seu passado tende a ser político. Seus anos de trabalho em Chicago como ativista social e, depois, professor de direito e político, assim como suas atividades na

Escola de Direito da Universidade Harvard e o papel de sua mulher e filhas, receberam muito mais ênfase. Mas a verdade é que a semana não foi boa para Obama.

Seu 50º aniversário vem logo depois de um acordo de último minuto no Congresso para elevar o limite da dívida federal norte-americana, ou seja, o montante máximo de dívida que o governo pode acumular para pagar suas contas.

Mas o acordo surgiu à custa de grandes cortes futuros no deficit e sem aumento concomitante de impostos, e veio com a criação de uma comissão legislativa, formada por membros da Câmara e do Senado, que recomendará novos cortes de gastos antes do final deste ano, que terão de ser votados sem emendas.

Quase todos os pré-candidatos republicanos à Presidência norte-americana se opuseram ao acordo. Mesmo os democratas que votaram a favor acreditam que representa grande derrota para Obama.

Na verdade, o acordo foi uma vitória para os membros da direita mais extrema do movimento Tea Party, que se mostraram completamente indispostos a aceitar compromissos. Não é o mais feliz dos aniversários para Obama.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

ELIANE CANTANHÊDE

À beira de um ataque de nervos

BRASÍLIA - Os ministros, ex-ministros e futuros ex-ministros estão à beira de um ataque de nervos.

Alfredo Nascimento, defenestrado dos Transportes, usou a volta ao Senado para admitir ter mágoa de Dilma, jogar os escândalos no colo do sucessor Paulo Sérgio Passos, seu ex-secretário-executivo, e liberar um desconhecido lado cômico: "O PR não é lixo para ser varrido".

Wagner Rossi foi jogado na fogueira pelo ex-diretor da Conab (o Dnit da Agricultura) Oscar Jucá Neto, irmão do longevo e famoso líder do governo no Senado, Romero Jucá. Também no Congresso, Rossi negou que haja uma "central de corrupção" na pasta que comanda. Reduziu tudo a "ressentimento".

Nelson Jobim, o que detesta ser "dissimulado" e adora falar suas verdades por aí, conversou ontem com Dilma, saiu calado e viajou a serviço para a região Norte, onde assina com a Colômbia acordos para a proteção conjunta das fronteiras. Como se nada tivesse acontecido -até a próxima verdade.

E o Planalto fez um troca-troca: sai a CPI dos Transportes, ufa!, e entra uma fila de mais cinco ministros para depor "a convite" na Câmara: Comunicações, Meio Ambiente, Desenvolvimento Agrário, Cidades e o novo dos Transportes.

De CPIs sempre podem sair cobras e lagartos. De depoimentos camaradas só saem palavrórios e imagens para preencher a grade de programação da TV Câmara.
Pelo sim, pelo não, o Palácio do Planalto se esforçou para salvar pelo menos um, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão. No lugar dele vai o diretor da ANP (Agência Nacional do Petróleo), Haroldo Lima. Por enquanto...

Sem a CPI, o PR falou grosso no Congresso e se retirou do bloco de apoio ao governo. Repare bem: do bloco de apoio, não do governo. Aí, vale o "daqui eu não saio, daqui ninguém me tira".

Conclusão: está uma bagunça danada no fim do recesso. Por quê? Está faltando comando.
elianec@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

Romário

RIO DE JANEIRO - É cedo para avaliar a atuação da safra de novos deputados federais eleitos para a atual legislatura. Não sou entendido no setor nem tenho conhecimentos amplos sobre os trabalhos ali realizados. Contudo gostaria de destacar a atuação de Romário, do PSB carioca.

Conhecia-o de sobra nos campos de futebol, mas julgava-o no mesmo patamar de outros esportistas e artistas que, em certo trecho das respectivas carreiras, decidem tentar a política, seduzidos pelos partidos interessados em aumentar seus coeficientes eleitorais.

Tirante ideias específicas sobre esporte ou pela popularidade de seus ofícios, nada trazem de novo para o debate social.

Romário despontou com um programa novo para este tipo de político mais ou menos improvisado. Nascido em favela, conhecendo a vida dentro e fora dos campos, guardou dentro de si algumas ideias lúcidas que já começaram a se impregnar em sua personalidade ainda rude, mas inteligente e, tal como em suas atuações nos estádios, oportunista no bom sentido.

Sua luta pela inclusão social de grande parte da população, no que diz respeito principalmente aos deficientes, está fazendo dele uma liderança respeitada pelos entendidos no assunto.

Com a força de sua popularidade, está atraindo a discussão nacional para um tema que sempre foi tratado de maneira utópica, para encher linguiça nas campanhas eleitorais. No seu terreno preferencial, o esporte, já alertou o governo com severidade sobre o atraso nas obras para a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016.

Pouco a pouco, vem se destacando entre os novos e já falam em seu nome para a prefeitura carioca, não mais como o herói de tantas jornadas, mas como ex-favelado que, sem a argúcia e a experiência política de Lula, tem o bom-senso dos simples e a simplicidade dos fortes.


04 de agosto de 2011 | N° 16782
ARTIGOS - João Maurício Farias*

Miséria não é igual em qualquer canto

Nesta semana, fui entrevistado por ZH sobre a situação de miséria dos indígenas no Rio Grande do Sul. Desde então, não me saía da mente uma parte da letra de uma música dos Titãs: “Miséria é miséria em qualquer canto, riquezas são diferentes”. Pensava nos indígenas guarani, kaingang e charrua e xokleng e que suas misérias não são iguais em qualquer canto.

É necessário trocarmos as lentes de nossos óculos analíticos para tentar compreender os povos originários (como alguns preferem ser identificados, pois consideram “índios” um termo genérico que os destitui de especificidades). Quando vemos os “outros”, o fazemos a partir de nossos valores culturais e princípios epistemológicos (lógicas de pensamento).

Tendemos a não ver nos outros sua “alteridade”, os outros passam a ser apenas uma extensão de nós, uma cegueira antropológica. Para evitá-la, é necessário compreender que existem perspectivas distintas de mundo, cosmologias diferentes; a acumulação de capital e a exploração ao máximo dos recursos naturais para o enriquecimento material individual não estão no centro de suas dinâmicas sociais.

Há aproximadamente 20 mil pessoas dos povos originários que viviam nesta região quando das invasões bárbaras. Por não serem de uma sociedade de produção intensiva com excedentes para abastecer mercados, são vistas pelo senso comum como preguiçosos que não gostam de trabalhar. Apesar de 511 anos de contato, não se aceita que sejam diferentes, com direito à diferença.

Você pode pensar: mas quando este cara vai falar da miséria material ou da riqueza cultural dos povos originários? Certamente há uma enorme carência material nas aldeias indígenas no RS, quase refugiados em suas próprias terras. Mesmo morando nas margens de estradas federais e estaduais, debaixo de lonas e sobras de madeira, enfrentando frio abaixo de zero grau (como aconteceu há 20 dias), essas comunidades indígenas possuem fortes valores culturais.

Há pouco, uma grávida guarani na aldeia-acampamento na faixa de domínio da BR-392 preferiu dar à luz acompanhada da parteira e do xamã karai de seu grupo. Com forte pneumonia, acabou sendo levada para o hospital junto com o bebê. Ela foi salva, mas seu filho não irá passar pelo ritual de nominação, nhemongarai, no início da colheita do milho tradicional.

A grande maioria das mais de 5 mil famílias dos povos originários no Rio Grande do Sul se enquadra no programa federal, e agora também no estadual, de “erradicação da miséria”, pois suas rendas mensais não ultrapassam os R$ 70 por pessoa. Os desmatamentos para a produção da soja, a agropecuária e a industrialização avançaram sobre os territórios indígenas, que tinham e ainda têm nas matas nativas seus principais espaços de existência material e cultural.

Para que acabe essa situação de miséria provocada em grande parte pela desterritorialidade indígena no RS, é fundamental que a sociedade brasileira e gaúcha reconheça esta dívida social imensa que a formação da sociedade nacional provocou.

Para alcançar as “metas do milênio” e reduzir ou eliminar a miséria material extrema, é necessário que o Estado brasileiro (União, Estados e municípios) pague essa dívida histórica e restitua territórios aos povos originários, permitindo que possam ter seus filhos e viver bem dentro dos princípios de suas culturas.

*Cientista social (UFRGS) e vice-coordenador da Regional do Litoral Sul da Funai


04 de agosto de 2011 | N° 16782
L. F. VERISSIMO


O platinado

Sei tão pouco do motor de um carro quanto sei da alma humana. Olho o que tem debaixo do capô como se olhasse um abismo sem fundo e só peço do motor do meu carro que funcione, sem precisar entrar na sua intimidade. Conheço algumas partes do motor de ouvir falar, claro, como o radiador e a bateria, e simpatizo com o virabrequim apesar de não ter a menor ideia do que seja.

Mas o virabrequim é o limite do meu envolvimento com o abismo. Não sei o que é o platinado, por exemplo. E me surpreendo com o número de vezes em que o platinado é citado quando busco ajuda profissional para um motor com defeito.

Muitas vezes, a opinião do mecânico precede um exame do motor.

– Talvez seja o platinado...

Outras vezes, o exame confirma o diagnóstico precoce:

– É o platinado.

E é raro se ouvir que o platinado tem conserto.

Normalmente, a única solução para um problema com o platinado é um procedimento radical. Transplante.

– Tem que trocar o platinado.

Cheguei a desconfiar que, como tenho cara de quem não sabe nada de motores, estavam me enganando, e trocar o platinado fosse só uma maneira de me cobrar mais. Talvez o platinado velho estivesse em perfeitas condições. Talvez nem existisse o platinado! Ou então a troca do platinado era a maneira prática de dispensar uma intervenção mais trabalhosa. Na falta do que fazer, trocava-se o platinado.

Penso no platinado sempre que ouço que mais um técnico de futebol foi trocado por outro, para melhorar a produção do time, acabar com uma fase má ou simplesmente aplacar uma torcida revoltada. A conclusão em todos os casos é que a culpa é do platinado e a solução é um platinado novo.

Quase sempre, a culpa real é de uma administração incompetente ou um time irreparavelmente ruim, mas trocar isto equivaleria a ter que trocar todo o motor. E trocar o platinado adquiriu até uma conotação mística. Um novo técnico teria, como um deus, a capacidade de mudar o clima no vestiário.

De fazer pernas de pau acertarem chutes, jogadores cegos enxergarem a bola e ameaçados de sepultamento na zona de rebaixamento ressuscitarem. Raramente consegue, o que não diminui o poder da ortodoxia: quando as coisas vão mal, troque-se o platinado.