sexta-feira, 5 de agosto de 2011



05 de agosto de 2011 | N° 16783
TEMOR DE RECESSÃO GLOBAL


Incerteza testa defesas do Brasil

Quedas fortes nas bolsas mundiais, comparáveis às da crise de 2008/2009, refletem prenúncio de novo período de dificuldade

Uma nova onda de crise mundial provocou pesadas perdas nas principais bolsas de valores do planeta, só comparáveis às da Grande Recessão de 2008/2009. É um sinal de que o Brasil precisa se preparar para um período de maior dificuldade, que pode desembocar na forma de crescimento menor, lucros decrescentes e até menos emprego.

Ainda não é certo que o mundo enfrentará um período tão difícil como o atravessado entre 2008 e 2009, mas analistas prenunciam ao menos a desaceleração do crescimento mundial, em decorrência de problemas nas economias desenvolvidas – Estados Unidos e Europa.

– As bolsas são investimentos especulativos por natureza, reagem sempre de forma extremada. Existe risco de recessão global, mas é pouco provável. Para o Brasil, a situação é tranquila no curto prazo, mas temos duas condições desconfortáveis a médio e longo prazo: a moeda mais valorizada e o juro mais alto do mundo – adverte Antonio Corrêa de Lacerda, especialista em economia internacional.

Na avaliação de Rogerio Mori, professor da FGV especializado em economia brasileira, o mau humor dos mercados afeta o Brasil aos poucos. Por isso, projeta perspectiva de crescimento menor no país, com menos lucros e redução de ganhos para acionistas de empresas.

Mori considera “razoável” um cenário de recessão mundial, porque todas as grandes economias enfrentam dificuldades. Os países emergentes como o Brasil estão em melhor situação, mas talvez não consigam segurar sozinhos o ritmo do planeta, explica o professor:

– Uma coisa é certa: o cenário não é positivo como semanas atrás.

Estudioso da economia americana, João Marcus Marinho Nunes lembra que em agosto de 2010 houve um início de nervosismo semelhante, ao que os EUA responderam com uma injeção de dólares.

– Pode ser só mais um bug de verão (no hemisfério norte), mas as dívidas das grandes economias indicam que pode ser um problema sério. Embora tenham saído da recessão, os EUA ainda estão em depressão, não voltaram ao nível anterior de Produto Interno Bruto (PIB) – afirma Marinho Nunes.

marta.sfredo@zerohora.com.br


05 de agosto de 2011 | N° 16783
ARTIGOS - Carlos Alexandre Netto*

Uma universidade de excelência

É reconhecida a importância da expansão das universidades federais, com ampliação de vagas e de cursos nos últimos anos, mas pouco se tem falado sobre o significativo crescimento da qualidade acadêmica que vem ocorrendo.

Divulgado no final de julho, o Webometrics Ranking of World Universities, que avalia a visibilidade na internet das instituições de Ensino Superior, traz a Universidade Federal do Rio Grande do Sul na terceira posição na América Latina, tendo à frente apenas a Universidade de São Paulo e a Universidade Autônoma do México. Ocupando a 150ª colocação mundial, a UFRGS avançou mais de 140 posições no contexto mundial e três no latino-americano desde 2010.

O Conselho Superior de Investigações Científicas, espanhol, avalia cerca de 20 mil universidades globais, isto é, aquelas reconhecidas pela qualidade da formação de pessoas e de produção de conhecimento e inovação, e com políticas claras de internacionalização.

A metodologia compreende o desempenho e a visibilidade das instituições na web, com indicadores de pesquisa, citações bibliográficas, repositórios digitais, qualidade de estudantes e docentes, bem como o compromisso com outros setores da sociedade. Ao avaliar amplo conjunto de instituições, oriundas dos cinco continentes, com critérios bem estabelecidos, aceitos e com poder estatístico, o ranking é uma importante ferramenta de avaliação externa.

A conquista da segunda posição entre as universidades brasileiras demonstra que a UFRGS vem trilhando o caminho da excelência acadêmica. Uma trajetória iniciada no ato de sua criação, há 76 anos, e que materializa o esforço dos milhares de pessoas que contribuíram para a sua história.

A percepção internacional da qualidade tem como bases a relevância da produção científica institucional e a capacidade de formar lideranças em todos os níveis de ensino e de dialogar com universidades globais através do intercâmbio de estudantes e de professores.

Alcançar este patamar, no momento em que a UFRGS faz uma expansão histórica da graduação e da pós-graduação, reafirma que é possível expandir e crescer em qualidade.

Ao atingirmos esta marca, nosso sentimento é de satisfação pelo sucesso institucional, mas, ao mesmo tempo, nos coloca a grande responsabilidade de consolidar uma relação cada vez mais transformadora entre a universidade e a sociedade.
CARLOS ALEXANDRE NETTO* | *Reitor da UFRGS


05 de agosto de 2011 | N° 16783
PAULO SANT’ANA


O preto velho

Entro no táxi e topo com um preto velho como motorista. A pele negra retinta, os fios de barba branca fazem de suas faces dois pequenos tapetes de dominó.

O motorista começou o seu discurso, comigo de ouvinte, enquanto a corrida se desenvolvia: “O senhor não sabe quanta é minha honra em transportá-lo. Nunca pensei que ia ter essa oportunidade. O senhor está vendo este preto velho aqui e não sabe que ele fez infância ali na Rua Domingos Crescêncio, bem ali onde havia antigamente um quilombo, uma reserva de negros, como aquela outra que naquele tempo criaram perto da Rua Dona Laura. Meu nome é Walmir. Estou aqui de motorista desde o tempo em que não havia Volkswagen como táxi”.

Pensei um pouco e calculei que, se o preto velho era taxista já no tempo em que não havia Fusca na praça, então tratava-se de um profissional de mais de 40 anos de trabalho em táxi.

Ele continuou a sua fala: “Eu vejo, doutor Sant’Ana, as pessoas dizendo que nunca houve um inverno tão rigoroso como este por que estamos passando. E acho que não é verdade. Vou lhe contar, seu Sant’Ana, eu hoje tenho 68 anos, quando eu era guri fez aqui em POA um inverno tão rigoroso, que, eu morava na Vila Floresta, a gente abria a torneira do tanque ou da pia e não saía água. Acredite, seu Sant’Ana, a água do encanamento virou gelo. Eu sempre me lembro disso quando entra neste táxi um passageiro se queixando do frio. Pois já houve, por mais que não possam crer, inverno pior do que este”.

Eu escutava o taxista. Já tinha ouvido dizer que na Serra não saía água na torneira porque a corrente gelara. Mas eu também era guri quando o preto velho tinha infância e não me lembro de torneiras congeladas aqui na Capital.

Chegamos ao final da corrida, que tinha o preço de R$ 12. Puxei uma nota de R$ 20 e alcancei-a ao preto velho.

Ele disse: “Assim, o senhor vai me ofender. Eu não posso cobrar a corrida do senhor. Como já lhe disse, a honra de transportá-lo é muito grande para mim. Não tenho condições de aceitar o seu dinheiro. Para o senhor, é de graça, em homenagem aos serviços que o senhor tem prestado aos gaúchos em rádio, jornal e televisão. Guarde o seu dinheiro e pode crer numa coisa: foi uma honra enorme conhecê-lo”.

Eu insistia em pagar e ele insistia em não receber. Foi então, como eu estava com pressa, que tentei um acordo: quem sabe ele concordava em me dar um desconto e a corrida sairia por R$ 10? Não teve jeito, o preto velho não queria receber o preço da corrida.

Foi então que, depois de descer do táxi, como o impasse se prolongasse, agradeci com insistência a gentileza do preto velho, joguei a nota de R$ 20 no assento do banco em que eu estava, bati a porta e saí correndo rua afora.

Foi a primeira vez em toda a minha vida que uma corrida de táxi ia ter custo zero para mim e acabou me custando quase o dobro do que ela legalmente me custaria.

Só me falta agora aparecer aqui no jornal, qualquer dia, o preto velho, para tentar me devolver os R$ 20.

Se eu estiver apressado, de algum modo esta corrida acaba ainda me custando R$ 40.


05 de agosto de 2011 | N° 16783
DAVID COIMBRA


Coisas!

Meu filhinho queria que eu brincasse de esqueleto com ele, mas eu tinha de arquivar uns recibos. Você deve guardar os recibos por cinco anos, sabia? IPTU, IPVA, contas de luz, água, condomínio, telefone, TV a cabo. Alguns documentos você precisa guardar toda a vida. Certidão de nascimento, carteira de identidade, de trabalho, passaporte, CPF.

Tem também o caderno de vacinação do seu filho. Você precisa cuidar para que ele tome dezenas de vacinas. Isso me faz lembrar que é muito importante separar as notas de médico e dentista para descontar do IR. Aulas de inglês não descontam mais, mas são indispensáveis. Só não adianta ir à aula duas vezes por semana. O ideal é três. Já exercícios físicos têm de ser feitos diariamente.

Aliás, você já fez check-up? Vi o Marcos Paulo falando que ele faz check-up de seis em seis meses, e foi por isso que descobriu que tinha câncer a tempo de se tratar. Quando você fizer, não esqueça de pedir para o proctologista efetuar o exame do toque. É chato um homem invadir assim a sua, digamos, intimidade. Mas é necessário.

O seu carro também precisa de check-up: a revisão. E é fundamental verificar a calibragem dos pneus e o nível do óleo com alguma periodicidade. A calibragem correta está no manual do carro. Você lê o manual? Há que se ler manuais.

Óbvio que o melhor é ler por prazer. Mesmo assim, há quem perca o hábito. Emende um livro no outro, sempre. E leia o jornal diariamente. Semanalmente, revistas. O bom é ler o jornal ao café da manhã, que, você sabe, é a refeição mais importante do dia. Nunca deixe de tomar café da manhã.

De preferência, com uma fatia de mamão – faz bem para os intestinos. E, ao acordar, beba um copo d’água em jejum, antes mesmo de escovar os dentes. Que têm de ser escovados depois de TODAS as refeições.

Por sinal, você tem ido ao dentista? Mesmo que não sinta nenhuma dor, você não deve deixar de ir ao dentista a cada semestre, nem que seja para fazer limpeza. Sobretudo antes de alguma viagem longa, para não padecer de dor de dente no Exterior.

Nessa viagem, lembre-se de usar suas milhas. Você tem cartão de milhagem? Converte os pontos do cartão de crédito para milhas? E os do posto de gasolina? Há cartões de posto, de lojas de roupa, de livrarias, de clínica médica e oftalmológica. Falando nisso, prepare-se: todas as pessoas, sem exceção, terão de usar óculos para perto, algum dia.

Ah, é fundamental verificar a pressão do olho, tanto quanto a pressão arterial, e controlar a quantidade de sal da comida, bem como a de açúcar, melhor é usar adoçante, apesar de o aspartame fazer mal à saúde, então o certo seria não adoçar nada, nem salgar nada, nem comer carne vermelha, nem pão branco, nem gorduras, muito menos embutidos, salgadinhos e biscoitos igualmente são um horror e as frituras são um crime, da mesma forma o álcool, que até leva à depressão, e contra a depressão consulte um psicanalista, que inclusive deve ser consultado mesmo que você não tenha depressão, nem qualquer problema mental evidente, nem nada, só porque você tem muitas coisas a fazer, muitas, muitas, tantas, que tornam a vida insuportável.

Melhor ir brincar de esqueleto com meu filhinho.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011


KENNETH MAXWELL

Obama aos 50 anos

Hoje é o 50º aniversário de Barack Obama. A comemoração foi iniciada na noite de ontem, com concerto, jantar e evento de arrecadação de fundos, no histórico salão Aragon, em Chicago.

O Aragon Ballroom foi construído em 1926, com arquitetura no estilo mourisco. Seu interior lembrava uma aldeia espanhola, e o salão cujo nome celebra uma região da Espanha foi um grande sucesso no início dos anos 1930.

Reza a lenda que túneis secretos o conectavam ao Green Mill Bar, um reduto alcoólico da era da Lei Seca frequentado por Al Capone, o mais famoso gângster de Chicago.

No final dos anos 1960, quando morei em Chicago, o Aragon Ballroom havia-se tornado local dos maiores shows de rock, e era notório pelos frequentadores desordeiros.

Nos anos 1970, sob novos proprietários de etnia latina, a casa passou a promover shows e bailes para hispânicos, bem como ocasionais lutas de boxe.

Para Obama, uma festa de aniversário no Aragon Ballroom representa um retorno às "raízes". Mas a história de Obama em Chicago é, de certa maneira, problemática.

Em larga medida, ignora seus anos de infância passados no Havaí e na Indonésia, o papel de seus avós brancos e seus anos de estudo no Occidental College, em Los Angeles, e na Universidade Columbia, em Nova York.

Mas, então, o que Obama decide enfatizar sobre seu passado tende a ser político. Seus anos de trabalho em Chicago como ativista social e, depois, professor de direito e político, assim como suas atividades na

Escola de Direito da Universidade Harvard e o papel de sua mulher e filhas, receberam muito mais ênfase. Mas a verdade é que a semana não foi boa para Obama.

Seu 50º aniversário vem logo depois de um acordo de último minuto no Congresso para elevar o limite da dívida federal norte-americana, ou seja, o montante máximo de dívida que o governo pode acumular para pagar suas contas.

Mas o acordo surgiu à custa de grandes cortes futuros no deficit e sem aumento concomitante de impostos, e veio com a criação de uma comissão legislativa, formada por membros da Câmara e do Senado, que recomendará novos cortes de gastos antes do final deste ano, que terão de ser votados sem emendas.

Quase todos os pré-candidatos republicanos à Presidência norte-americana se opuseram ao acordo. Mesmo os democratas que votaram a favor acreditam que representa grande derrota para Obama.

Na verdade, o acordo foi uma vitória para os membros da direita mais extrema do movimento Tea Party, que se mostraram completamente indispostos a aceitar compromissos. Não é o mais feliz dos aniversários para Obama.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

ELIANE CANTANHÊDE

À beira de um ataque de nervos

BRASÍLIA - Os ministros, ex-ministros e futuros ex-ministros estão à beira de um ataque de nervos.

Alfredo Nascimento, defenestrado dos Transportes, usou a volta ao Senado para admitir ter mágoa de Dilma, jogar os escândalos no colo do sucessor Paulo Sérgio Passos, seu ex-secretário-executivo, e liberar um desconhecido lado cômico: "O PR não é lixo para ser varrido".

Wagner Rossi foi jogado na fogueira pelo ex-diretor da Conab (o Dnit da Agricultura) Oscar Jucá Neto, irmão do longevo e famoso líder do governo no Senado, Romero Jucá. Também no Congresso, Rossi negou que haja uma "central de corrupção" na pasta que comanda. Reduziu tudo a "ressentimento".

Nelson Jobim, o que detesta ser "dissimulado" e adora falar suas verdades por aí, conversou ontem com Dilma, saiu calado e viajou a serviço para a região Norte, onde assina com a Colômbia acordos para a proteção conjunta das fronteiras. Como se nada tivesse acontecido -até a próxima verdade.

E o Planalto fez um troca-troca: sai a CPI dos Transportes, ufa!, e entra uma fila de mais cinco ministros para depor "a convite" na Câmara: Comunicações, Meio Ambiente, Desenvolvimento Agrário, Cidades e o novo dos Transportes.

De CPIs sempre podem sair cobras e lagartos. De depoimentos camaradas só saem palavrórios e imagens para preencher a grade de programação da TV Câmara.
Pelo sim, pelo não, o Palácio do Planalto se esforçou para salvar pelo menos um, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão. No lugar dele vai o diretor da ANP (Agência Nacional do Petróleo), Haroldo Lima. Por enquanto...

Sem a CPI, o PR falou grosso no Congresso e se retirou do bloco de apoio ao governo. Repare bem: do bloco de apoio, não do governo. Aí, vale o "daqui eu não saio, daqui ninguém me tira".

Conclusão: está uma bagunça danada no fim do recesso. Por quê? Está faltando comando.
elianec@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

Romário

RIO DE JANEIRO - É cedo para avaliar a atuação da safra de novos deputados federais eleitos para a atual legislatura. Não sou entendido no setor nem tenho conhecimentos amplos sobre os trabalhos ali realizados. Contudo gostaria de destacar a atuação de Romário, do PSB carioca.

Conhecia-o de sobra nos campos de futebol, mas julgava-o no mesmo patamar de outros esportistas e artistas que, em certo trecho das respectivas carreiras, decidem tentar a política, seduzidos pelos partidos interessados em aumentar seus coeficientes eleitorais.

Tirante ideias específicas sobre esporte ou pela popularidade de seus ofícios, nada trazem de novo para o debate social.

Romário despontou com um programa novo para este tipo de político mais ou menos improvisado. Nascido em favela, conhecendo a vida dentro e fora dos campos, guardou dentro de si algumas ideias lúcidas que já começaram a se impregnar em sua personalidade ainda rude, mas inteligente e, tal como em suas atuações nos estádios, oportunista no bom sentido.

Sua luta pela inclusão social de grande parte da população, no que diz respeito principalmente aos deficientes, está fazendo dele uma liderança respeitada pelos entendidos no assunto.

Com a força de sua popularidade, está atraindo a discussão nacional para um tema que sempre foi tratado de maneira utópica, para encher linguiça nas campanhas eleitorais. No seu terreno preferencial, o esporte, já alertou o governo com severidade sobre o atraso nas obras para a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016.

Pouco a pouco, vem se destacando entre os novos e já falam em seu nome para a prefeitura carioca, não mais como o herói de tantas jornadas, mas como ex-favelado que, sem a argúcia e a experiência política de Lula, tem o bom-senso dos simples e a simplicidade dos fortes.


04 de agosto de 2011 | N° 16782
ARTIGOS - João Maurício Farias*

Miséria não é igual em qualquer canto

Nesta semana, fui entrevistado por ZH sobre a situação de miséria dos indígenas no Rio Grande do Sul. Desde então, não me saía da mente uma parte da letra de uma música dos Titãs: “Miséria é miséria em qualquer canto, riquezas são diferentes”. Pensava nos indígenas guarani, kaingang e charrua e xokleng e que suas misérias não são iguais em qualquer canto.

É necessário trocarmos as lentes de nossos óculos analíticos para tentar compreender os povos originários (como alguns preferem ser identificados, pois consideram “índios” um termo genérico que os destitui de especificidades). Quando vemos os “outros”, o fazemos a partir de nossos valores culturais e princípios epistemológicos (lógicas de pensamento).

Tendemos a não ver nos outros sua “alteridade”, os outros passam a ser apenas uma extensão de nós, uma cegueira antropológica. Para evitá-la, é necessário compreender que existem perspectivas distintas de mundo, cosmologias diferentes; a acumulação de capital e a exploração ao máximo dos recursos naturais para o enriquecimento material individual não estão no centro de suas dinâmicas sociais.

Há aproximadamente 20 mil pessoas dos povos originários que viviam nesta região quando das invasões bárbaras. Por não serem de uma sociedade de produção intensiva com excedentes para abastecer mercados, são vistas pelo senso comum como preguiçosos que não gostam de trabalhar. Apesar de 511 anos de contato, não se aceita que sejam diferentes, com direito à diferença.

Você pode pensar: mas quando este cara vai falar da miséria material ou da riqueza cultural dos povos originários? Certamente há uma enorme carência material nas aldeias indígenas no RS, quase refugiados em suas próprias terras. Mesmo morando nas margens de estradas federais e estaduais, debaixo de lonas e sobras de madeira, enfrentando frio abaixo de zero grau (como aconteceu há 20 dias), essas comunidades indígenas possuem fortes valores culturais.

Há pouco, uma grávida guarani na aldeia-acampamento na faixa de domínio da BR-392 preferiu dar à luz acompanhada da parteira e do xamã karai de seu grupo. Com forte pneumonia, acabou sendo levada para o hospital junto com o bebê. Ela foi salva, mas seu filho não irá passar pelo ritual de nominação, nhemongarai, no início da colheita do milho tradicional.

A grande maioria das mais de 5 mil famílias dos povos originários no Rio Grande do Sul se enquadra no programa federal, e agora também no estadual, de “erradicação da miséria”, pois suas rendas mensais não ultrapassam os R$ 70 por pessoa. Os desmatamentos para a produção da soja, a agropecuária e a industrialização avançaram sobre os territórios indígenas, que tinham e ainda têm nas matas nativas seus principais espaços de existência material e cultural.

Para que acabe essa situação de miséria provocada em grande parte pela desterritorialidade indígena no RS, é fundamental que a sociedade brasileira e gaúcha reconheça esta dívida social imensa que a formação da sociedade nacional provocou.

Para alcançar as “metas do milênio” e reduzir ou eliminar a miséria material extrema, é necessário que o Estado brasileiro (União, Estados e municípios) pague essa dívida histórica e restitua territórios aos povos originários, permitindo que possam ter seus filhos e viver bem dentro dos princípios de suas culturas.

*Cientista social (UFRGS) e vice-coordenador da Regional do Litoral Sul da Funai


04 de agosto de 2011 | N° 16782
L. F. VERISSIMO


O platinado

Sei tão pouco do motor de um carro quanto sei da alma humana. Olho o que tem debaixo do capô como se olhasse um abismo sem fundo e só peço do motor do meu carro que funcione, sem precisar entrar na sua intimidade. Conheço algumas partes do motor de ouvir falar, claro, como o radiador e a bateria, e simpatizo com o virabrequim apesar de não ter a menor ideia do que seja.

Mas o virabrequim é o limite do meu envolvimento com o abismo. Não sei o que é o platinado, por exemplo. E me surpreendo com o número de vezes em que o platinado é citado quando busco ajuda profissional para um motor com defeito.

Muitas vezes, a opinião do mecânico precede um exame do motor.

– Talvez seja o platinado...

Outras vezes, o exame confirma o diagnóstico precoce:

– É o platinado.

E é raro se ouvir que o platinado tem conserto.

Normalmente, a única solução para um problema com o platinado é um procedimento radical. Transplante.

– Tem que trocar o platinado.

Cheguei a desconfiar que, como tenho cara de quem não sabe nada de motores, estavam me enganando, e trocar o platinado fosse só uma maneira de me cobrar mais. Talvez o platinado velho estivesse em perfeitas condições. Talvez nem existisse o platinado! Ou então a troca do platinado era a maneira prática de dispensar uma intervenção mais trabalhosa. Na falta do que fazer, trocava-se o platinado.

Penso no platinado sempre que ouço que mais um técnico de futebol foi trocado por outro, para melhorar a produção do time, acabar com uma fase má ou simplesmente aplacar uma torcida revoltada. A conclusão em todos os casos é que a culpa é do platinado e a solução é um platinado novo.

Quase sempre, a culpa real é de uma administração incompetente ou um time irreparavelmente ruim, mas trocar isto equivaleria a ter que trocar todo o motor. E trocar o platinado adquiriu até uma conotação mística. Um novo técnico teria, como um deus, a capacidade de mudar o clima no vestiário.

De fazer pernas de pau acertarem chutes, jogadores cegos enxergarem a bola e ameaçados de sepultamento na zona de rebaixamento ressuscitarem. Raramente consegue, o que não diminui o poder da ortodoxia: quando as coisas vão mal, troque-se o platinado.


04 de agosto de 2011 | N° 16782
LETICIA WIERZCHOWSKI


Música para super-heróis

Dirijo por Porto Alegre numa segunda-feira amuada. No banco de trás, meu filho de três anos (vestido de Batman) dança de maneira engraçada. Dança como pode dançar, balançando a cabeça e os braços, pois está preso à cadeirinha. Dança uma música de Serge Gainsbourg. Dança com o rosto todo, dança com as mãos, e viaja de maneira tão bonita que preciso fazer força para afastar meus olhos do retrovisor, concentrando-me no trânsito chato da cidade.

Fazia tempo que eu não ouvia Gainsbourg, e comprei esse CD às pressas, depois de assistir ao lindo filme Gainsbourg: o Homem que Amava as Mulheres. Confesso aqui que fui ao cinema mal-humorada, lutando contra uma gripe. Mas nada como uma boa sessão de cinema para levantar o astral da gente – na saída, agradeci ao maridão o convite. Serge Gainsbourg, sua vida, suas canções e seus amores surtiram maravilhoso efeito sobre o meu mal-estar em geral, e muito mais sobre a minha alma.

Disseram por aí do filme dirigido por Joann Sfar que era atravancado, sem muita continuidade, e que só deslanchava quando Serge Gainsbourg andava, na tela, às voltas com as suas mulheres – e ele teve muitas, paixões fulminantes e famosas como as belíssimas Brigitte Bardot e Jane Birkin, com quem, aliás, foi casado por 13 anos.

Eu digo do filme que é delicioso, debochado e divertido, que tem um andamento próprio e um encadeamento encantador, que as atuações são incríveis (Eric Elmosnino simplesmente encarnou Serge Gainsbourg), e é tão maluco quanto o seu personagem principal.

Porque Gainsbourg era moderno, maluco e irreverente antes que isto se tornasse, digamos, uma atitude mercadológica corrente. No delicado começo do filme, Gainsbourg aparece menino, um judeuzinho muito esperto e de orelhas enormes, vivendo a ocupação nazista na França.

Mas o pequeno Lucien (Gainsbourg se chamava Lucien e trocou seu nome apenas quando começou a fazer sucesso com a sua música) sobrevive aos nazis e segue em frente, firme e forte. Feio e charmoso (ele dizia que a feiura era superior à beleza porque durava mais), Gainsbourg navegou por muitos mares até ancorar na linda inglesinha Jane Birkin, seu grande amor.

Mas dirijam-se ao cinema mais próximo, por favor, e passem um par de belas horas no escuro. O que não está no filme é o imostrável – ninguém pode explicar completamente outra pessoa.

Agora estamos em casa, meu Batman e eu, ainda ouvindo (e adorando) Serge Gainsbourg. Meu caçula está dando pulos pela sala ao som de Le Canari Sur le Balcon. Ah... Salve, Gainsbourg!


04 de agosto de 2011 | N° 16782
PAULO SANT’ANA


Ódio combinado

Ontem, por volta de meia-noite, Paulo Odone decidiu que Julinho Camargo seria dispensado e substituído por Celso Roth, que será anunciado hoje à tarde.

No Roda Viva, da TV Cultura, segunda-feira, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, citou uma frase de Ulysses Guimarães: “Na política, até o ódio tem de ser combinado”.

Eu aproveito para dizer que no casamento, na relação direta entre marido e mulher, até o ódio entre os dois tem de ser combinado.

Isso quer dizer que, em última análise, pode o casal até odiar-se de vez em quando, mas, na hora do pega pra capar, os dois têm de estar lealmente juntos.

De repente, embora cultivada por longo tempo a sua busca, recuperei a felicidade.

E, agora, o que faço com ela?

Voltando ao ódio combinado entre os casais, o amor entre eles não necessita ser combinado, pois seria a normalidade.

O ódio, sim, tem de ser orquestrado, porque, se o casamento quiser ser mantido, é imprescindível que as brigas entre o casal sejam superadas, esquecidas.

Vou mais longe: é permitido entre os casais o ódio, a raiva.

O que não é permitido é o rancor.

Se um casal se licencia para o rancor, está condenada ao fracasso a relação.

O rancor só necessita para seu sucesso de um nervo exposto qualquer em um dos dois ou nos dois cônjuges.

Qualquer atritozinho que haja entre o casal, pronto, está aceso o rastilho do rompimento.

Quando escrevi a coluna de anteontem, aquela que falava da homenagem que eu prestava a todos os que não tinham conseguido mudar o seu mau destino, finalizando que a coluna não passava de uma auto-homenagem que fazia a mim mesmo, vencido por meu sinistro destino – aquela coluna, quando a escrevi aqui no computador, disse para meus companheiros da sala: “É uma das melhores colunas que escrevi em toda a minha vida”.

Não deu outra. A repercussão foi enorme nas ruas, por onde andei, e aqui na Redação, por onde não andei, mas soube por terceiros.

É que incrivelmente atingi todos os leitores. Quem é que não queria que seu destino, pelo menos parcialmente, fosse diferente do que parece que vai ser?

Acertei na mosca. Foi um tal de gente sensibilizada, que muitas pessoas se deitaram a derramar lágrimas, chorando o seu próprio destino.

E eu previ que a coluna faria sucesso, um instante após escrevê-la. A gente tem essas premonições. O segredo é que, quanto mais gente a coluna atingir em seu conteúdo, mais êxito ela terá.

Aquela coluna foi bombástica. Porque foi humana, no sentido de que todos somos muitas vezes vítimas do nosso próprio destino, que não podemos modificar.

Quem leu viu que eu acertei na mosca. E, quando um colunista acerta na mosca, sai da frente, que ele estará ganhando crédito com seus leitores. Crédito até para fazer uma coluna água com açúcar, como a que fiz ontem.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011



03 de agosto de 2011 | N° 16781
MARTHA MEDEIROS


Vingança

Muitas frases espirituosas já foram escritas a respeito de vingança. Gosto de uma que diz: “Contra quem lhe tomou sua esposa, não existe vingança melhor do que o infeliz ficar com ela pra sempre”. Vale para ambos os sexos, acrescento.

A vingança é uma atitude de mau humor, e o mau humor pode ser risível. Eu, ao menos, acho engraçado que alguém perca tempo se dedicando a se vingar do que quer que seja, deixando claro o quanto se sentiu ofendido. Há vingança melhor do que não dar a mínima?

Mas, para a maioria das pessoas, é difícil ficar indiferente diante de uma situação que, a priori, causou prejuízo. Até o Velho Testamento cita o “olho por olho” como forma de sanar o dano causado. Toma lá, dá cá. Aqui se faz, aqui se paga. Ok, mas me parece um desperdício de energia.

Não chego ao cúmulo de oferecer a outra face, que isso é coisa pra santo. Perdoo, mas me blindo. Se aprontou uma vez, aprontará outra. Fico na minha, me fortaleço e trato de viver cada dia melhor – nada irrita mais nossos inimigos.

Pesquisas indicam que as mulheres são mais vingativas do que os homens, o que nos faz descer alguns degraus, sustentando a teoria do sexo frágil. Transar com outro, sem estar a fim, só porque fomos traídas? Roubar o namorado da amiga porque ela ficou com nosso emprego? Espalhar boatos pela internet porque alguém foi desleal? É a confirmação da nossa pequeneza, que passa a se igualar à pequeneza de quem falhou conosco.

A iraniana Ameneh Bahrami, que no último domingo perdoou o homem que lhe jogou ácido no rosto, cegando-a, declarou que a clemência lhe fez bem. Ela o salvou minutos antes de ele próprio ter os olhos corroídos por ácido num hospital de Teerã. O médico já estava com o material na mão para consumar a vingança (autorizada pelas leis islâmicas). O agressor estava de joelhos, aos prantos, aguardando o pior, quando chegou o telefonema com o perdão da vítima.

Por que Ameneh desistiu de pagar na mesma moeda? Sei lá, talvez porque não foi um filho dela que o maluco cegou (mexam com nossas crias e bye bye superioridade), mas o mais provável é que o mal nunca tenha feito parte da sua natureza. Ela não quis ser como ele.

Dizem que se vingar dá uma sensação agradável, que a vingança é doce, traz consolo, segurança, que há até um componente erótico em sua consumação. Estão aí os defensores da pena de morte para confirmar o júbilo que a vingança provoca. Eu sigo achando que lutar por justiça é um dever, mas se vingar é tosco. Só é aceitável quando o destino é que se vinga por nós, sem que a gente suje as mãos. Há que se confiar na providência divina.

Já a vingança arquitetada é a infantilidade usando salto alto e batom, fingindo-se de gente grande.


03 de agosto de 2011 | N° 16781
ARTIGOS - Adriana da Silva Ribeiro*


Presídios, hospitais, escolas

“Encontramos o sistema em situação caótica, quase trágica. A falta de investimentos ao longo dos anos fez com que as instalações físicas estivessem absolutamente precárias. Presos, inclusive tuberculosos, dormiam no chão, vazamentos e infiltrações de água, instalações elétricas em constantes panes, rachaduras nas paredes, cozinhas funcionando sem condições de higiene.

O próprio sistema de segurança estava vulnerável: grades corroídas, portas sem fechaduras. Túneis abertos, fugas constantes, presos com verdadeiros arsenais em seu poder. Hospitais e ambulatórios sem medicamentos. Situação precária também quanto a recursos humanos. Um guarda para cem presos. Faltando assistentes sociais, psicólogos, médicos etc.”

Parece a descrição das condições do Presídio Central de Porto Alegre? Mas não é. O relato acima consta do livro A Dona das Chaves, recentemente lançado pela socióloga Julita Lemgruber, referindo-se a um relatório sobre as condições das cadeias do Rio de Janeiro enviado pelo Dr. Avelino Moreira, promotor de Justiça, então no cargo de diretor do Desipe, no ano de 1984, ao seu chefe.

O sistema prisional do Rio Grande do Sul era diferente do sistema prisional do Rio de Janeiro? Não. Quem puxar pela memória lembrar-se-á dos constantes motins com reféns, mortes e fugas ocorridas tanto no Presídio Central de Porto Alegre quanto na Penitenciária Estadual do Jacuí nos anos que antecederam a entrega da administração à Brigada Militar e a inauguração da Pasc – Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas.

Melhoramos o sistema prisional desde então? Não. Ao contrário. Pioramos. A invisibilidade dos muros da prisão não permite que a população veja o que ocorre lá dentro, mas atualmente só não temos motins e reféns ou grandes fugas.

E por que não temos isto? Porque entregamos a administração dos presídios aos presos. Hoje, na falta de agentes penitenciários, recursos financeiros e vagas suficientes, o Estado só chega até o portão das galerias do Presídio Central e da PEJ.

Dali para dentro, quem manda é o “prefeito”. Sabiam que cada galeria tem um? E esse prefeito concede alvarás. Claro, exerce o seu cargo: determina quem vai receber o remédio, a comida, quem vai vender a droga, qual o doente que vai ser atendido pela guarda.

Recente relatório realizado pelo Conselho Nacional de Justiça ao final do mutirão carcerário mapeou as galerias do Presídio Central e das grandes penitenciárias moduladas da Região Metropolitana, relacionando-as às facções que dominam o mundo do crime dentro e fora das prisões. Assim como as cadeias estão loteadas pelas facções, Porto Alegre também está.

A sociedade, porém, enuncia que há impunidade. É um sentimento legítimo da vítima a pretensão de que seu algoz seja punido. Mas pergunto: encaminhar o criminoso para o sistema prisional que temos resolverá a sensação de impunidade da população?

É chegada a hora de a população cobrar do Estado que administra esse sistema prisional que seja cumprida a lei, no sentido exato de lhe devolver um preso melhor do que aquele que entrou no sistema. Assim como devemos exigir do Estado que nos devolva um doente curado ao sair do hospital ou um aluno que tenha aprendido os conceitos, no mínimo básicos, de português e matemática ao sair da escola.

*Juíza da Vara de Execuções Criminais


03 de agosto de 2011 | N° 16781
PAULO SANT’ANA


Frio enregelante

O frio está desgostando as pessoas. E, quando o frio se junta ao tédio, formam uma tragédia pessoal.

O interessante é que, no fumódromo aqui de ZH, todos se queixam do frio e dizem adorar o verão.

Só que, quando chega o calor, todos dizem adorar o inverno.

Vá entender...

Tanto inverno quanto verão são estações detestáveis. Tanto que o ar-condicionado foi criado com o objetivo direto de combatê-las.

Mas, nesta enquete sobre quem gosta de inverno ou de verão, nunca ouvi alguém dizer que gosta do outono.

Inverno, tudo bem. Mas não este inverno que nos últimos 70 anos é o que mais insiste com chuva e frio juntos.

Ouvi duas donas de casa se queixando de que não têm conseguido secar as roupas que lavam.

E as lavanderias andam, assim, ocupadíssimas.

Reparem como os passarinhos e os cães andam tristes com este renitente inverno.

Sempre simpatizei com o verão, em razão de que no inverno me dá uma profunda pena dos pobres, os que não têm agasalhos, não possuem cobertores suficientes, moram em casas cujas paredes ou tetos são furados ou por qualquer forma vulneráveis ao frio.

E sempre me ocorre de como estarão passando, com este inverno rigoroso, os presos nas cadeias.

Um exemplo disso é ser simplesmente proibido a qualquer pessoa tomar banho se não possui no mínimo chuveiro elétrico.

O maior castigo a que se pode submeter uma pessoa é sem dúvida obrigá-la a tomar banho com água fria no inverno.

Entre as desvantagens do inverno e do verão, há uma diferença. Para quem anda na rua, é impossível transitar debaixo do sol inclemente do verão, enquanto que no inverno basta agasalhar-se para não passar mal.

O que são as mudanças de épocas: com os casacos e jaquetas que possuem capuz, o guarda-chuva está em processo de extinção, vai no rumo da galocha.

Frase de Winston Churchill, citada segunda-feira no bar de ZH por Ibsen Pinheiro: “Democracia é aquele regime em que, se batem em sua porta às seis horas da manhã, você já tem a certeza de que é o leiteiro”.

O que me disse o colega Alexandre Bach: “Sant’Ana, quando tu escreveste várias vezes que o Grêmio ia parar na segunda divisão, achei que era um modo de tu não seres surpreendido pela eventual notícia, uma espécie de habeas corpus preventivo. Mas noto agora mais uma vez a tua lucidez. A coisa está feia para o Grêmio”.


03 de agosto de 2011 | N° 16781
PAULO SANT’ANA


Frio enregelante

O frio está desgostando as pessoas. E, quando o frio se junta ao tédio, formam uma tragédia pessoal.

O interessante é que, no fumódromo aqui de ZH, todos se queixam do frio e dizem adorar o verão.

Só que, quando chega o calor, todos dizem adorar o inverno.

Vá entender...

Tanto inverno quanto verão são estações detestáveis. Tanto que o ar-condicionado foi criado com o objetivo direto de combatê-las.

Mas, nesta enquete sobre quem gosta de inverno ou de verão, nunca ouvi alguém dizer que gosta do outono.

Inverno, tudo bem. Mas não este inverno que nos últimos 70 anos é o que mais insiste com chuva e frio juntos.

Ouvi duas donas de casa se queixando de que não têm conseguido secar as roupas que lavam.

E as lavanderias andam, assim, ocupadíssimas.

Reparem como os passarinhos e os cães andam tristes com este renitente inverno.

Sempre simpatizei com o verão, em razão de que no inverno me dá uma profunda pena dos pobres, os que não têm agasalhos, não possuem cobertores suficientes, moram em casas cujas paredes ou tetos são furados ou por qualquer forma vulneráveis ao frio.

E sempre me ocorre de como estarão passando, com este inverno rigoroso, os presos nas cadeias.

Um exemplo disso é ser simplesmente proibido a qualquer pessoa tomar banho se não possui no mínimo chuveiro elétrico.

O maior castigo a que se pode submeter uma pessoa é sem dúvida obrigá-la a tomar banho com água fria no inverno.

Entre as desvantagens do inverno e do verão, há uma diferença. Para quem anda na rua, é impossível transitar debaixo do sol inclemente do verão, enquanto que no inverno basta agasalhar-se para não passar mal.

O que são as mudanças de épocas: com os casacos e jaquetas que possuem capuz, o guarda-chuva está em processo de extinção, vai no rumo da galocha.

Frase de Winston Churchill, citada segunda-feira no bar de ZH por Ibsen Pinheiro: “Democracia é aquele regime em que, se batem em sua porta às seis horas da manhã, você já tem a certeza de que é o leiteiro”.

O que me disse o colega Alexandre Bach: “Sant’Ana, quando tu escreveste várias vezes que o Grêmio ia parar na segunda divisão, achei que era um modo de tu não seres surpreendido pela eventual notícia, uma espécie de habeas corpus preventivo. Mas noto agora mais uma vez a tua lucidez. A coisa está feia para o Grêmio”.


03 de agosto de 2011 | N° 16781
DIANA CORSO


Viva e deixe morrer

Fiquei triste com a morte Amy Winehouse. Dizem que as drogas e bebedeiras a destruíram. Sim e não. Parece que terminou seus dias tentando afogar sua angústia com o narcótico mais à mão e de certa forma ela tinha razão: para alguns a lucidez pode ser insuportável.

Apesar disso, acredito que foi a incapacidade de distinguir-se da personagem que criou que lhe foi realmente letal. Estranhamente bonita, vozarrão emocionante e letras corajosas, conquistou as graças da fama. Viveu rápido, morreu aos 27 anos, no prenúncio da balzaquiana que ela nunca será. Nesta época em que percebemos o amadurecimento como carrasco dos nossos horizontes todas as viradas de décadas são trágicas.

Paul McCartney tinha um pouco mais que isso quando criou “Viva e deixe morrer”. Ele dizia que o coração jovem é um livro aberto, mas este mundo leva a sofrimentos e desistências que fazem com que deixemos de simplesmente pensar “viva e deixe viver”. Realizamos alguns sonhos, mas não faltam contrariedades e limitações.

Cada frustração é uma pequena morte, quer seja de um ideal, de um desejo. Falam que vivemos um tempo sem utopias. Bobagem, sobre a geração de Amy pesa a nossa mais cara utopia: a adolescência como a grande época da vida, momento de tirar todo o suco antes da mesmice da maturidade. Amy tinha uma mente inquieta, seu romantismo se alimentava de desencontros e embebedava sua urgência de amar e viver, parece nunca ter tido essa leveza jovem cantada pelo ex-Beatle.

A sociedade contemporânea merece todas as críticas por alimentar-se dessa competição nervosa para chegar a lugar nenhum, por essa gincana de quinquilharias, sustentada pela máquina de moer sonhos a que chamamos de bom senso. A resistência adolescente a crescer tornou-se uma das formas de questioná-la. Winnicott dizia que os adolescentes são passageiros, mas numa sociedade a imaturidade não o é: sempre haverá novos candidatos a carregá-la por um tempo de suas vidas.

Ele lembrava ainda que é nessa saudável imaturidade que se inspiram as revoluções, as utopias. Gostaríamos de morar nelas, mas infelizmente, para não crescer é preciso morrer.

Os jovens se arriscam, tentam ignorar a morte, mas vivem a toreá-la - Eu morri uma centena de vezes, cantava Amy. Já a maturidade sabe que tem um prazo e odeia isso. Enquanto fantasia com as noites de glórias e excessos dos adolescentes, acorda para tomar seu iogurte com cereais e ir ao trabalho. Em sonhos somos onipotentes, na prática sabemos que basta viver para morrer um pouco a cada dia.

terça-feira, 2 de agosto de 2011


JAIRO MARQUES

Gosto muito de você, leãozinho

O que me incomoda mais na história de Ariel é a forma como ganhou uma aura quase santificada

FIQUEI BEGE ao ver toda a comoção do povo com a morte do leão paraplégico Ariel, que fez a passagem na semana passada. O bicho era criado dentro de um apartamento praticamente tratado a pão de ló, mas não resistiu ao avanço de sua enfermidade -uma doença degenerativa-, que o afastou da selva ou da jaula, não sei dizer ao certo.

Não tenho nada contra bichanos, adoro cachorro, mas admito que não deslizou de mim nenhuma lágrima pelo pobre. No "Animal Planet", já vi leões sendo mortos de uma forma muito mais trágica e desalentadora.

Tenho certo receio de estarmos levando a sério demais aquela frase que se fala nas horas de injustiças, de malfeitos, de raiva, de inveja, de pressão, de desespero, de saco cheio: "É por isso que gosto mais de bicho do que de gente".

O que me incomoda mais na história de Ariel não é a luta para tentar salvá-lo, evidentemente, mas a forma como o animal ganhou uma aura quase santificada por estar ali, em sofrimento, perdendo, aos poucos, os movimentos, as capacidades vitais. Isso o fez merecedor de atenção midiática invejável.

Já conheci muito "serumano", também acometido por perrengues degenerativos que não teve a atenção nem do vizinho para dar uma ajudinha para limpar a baba que teimava em escorrer da boca aberta. O leão conseguiu acesso a tratamento revolucionário, bife de primeira a cada, sei lá, meia hora para encher a barriguinha, correntes de orações e, depois de morto, vaquinha para cremação do corpo.

Enquanto o bichano foi acolhido com amor e dedicação pela dona e pelo Brasil, milhares de crianças com deficiência se amontoam em abrigos à espera de adoção -e muito mais espera, na maioria dos casos, do que as de crianças "normais"-para que ganhem um lar ou uma selva, uma cabana.

As crianças mal-acabadinhas aguardam alguém que as ame, as mande para a funilaria dar uma arrumadinha nas partes avariadas, que dê a elas aprendizado, dignidade e força para rugir contra preconceitos, para rugir por acessos, por aceitação na sociedade.

Bichos em sofrimento mexem mesmo com nossas emoções e nossa sensibilidade humana, afinal, ele não pode falar, não pode expressar nem indicar o que tanto o azucrina a vida. Ver o Ariel com olhar quase se apagando no colo de sua tratadora despertava na gente uma vontade de ajudar. Mas, que me perdoem os maribondões pretos da defesa dos animais, o seu Casseta já dizia que "mãe é mãe, paca é paca".

Todos os dias, acontecem acidentes que deixam primos, tios, amigos e conhecidos capengas das partes motoras. É gente que fica na cama, às vezes, por meses até que se colem os ossos e que o rejunte dê conta de harmonizar o ânimo de retomar o cotidiano com a necessidade de encarar as savanas atrás de presa.

Na cabeça nossa do dia a dia, esses leões são sempre muito mais fortes e capazes de chacoalhar o pelo e afiar as garras. E, assim, deixa-se a visita de lado, o telefonema para o final de semana, a lembrancinha para o Natal. E, quando os leões ficam velhos e dados como incapazes, achamos que eles querem o sossego da alcateia apenas. Tem algo errado no mundo animal.

jairo.marques@grupofolha.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

Crise de confiança

BRASÍLIA - Aconteceu o que todos previam: no último minuto, os republicanos cederam e fez-se a luz. O Congresso norte-americano deu sobrevida ao império e evitou um calote que empurraria o mundo para a penumbra da incerteza.

O alívio, porém, não resolve a questão da confiança, apenas mantém a maior potência sob incógnita e esvazia mais e mais a esperança que não apenas os eleitores dos Estados Unidos, mas governos e cidadãos de todo o mundo depositaram em Barack Obama.

A certeza se transformou em dúvida: "Yes, can we?". O ponto de interrogação foi-se desenhando ao final da frase símbolo da campanha e da posse espetacular de Obama.

É justo lembrar sempre, a cada crise e a cada dia, que Obama herdou do antecessor, George W. Bush, o Iraque, o Afeganistão, Guantânamo, o descontrole interno e as dúvidas internacionais quanto ao fôlego norte-americano. Mas ele não soube lidar com os erros do governo anterior nem garantiu avanços.

Obama derrapou na equivocada reforma da saúde, que lhe tirou importantes pontos de popularidade e não levou a lugar nenhum. E não se aprumou ao ajustar as contas públicas e ao imprimir personalidade política a seu primeiro mandato.

Ele ganha a batalha do aumento do teto de endividamento, mas está longe de vencer a guerra. Sem um nome à altura no Partido Democrata e sem um adversário ameaçador no Republicano, Obama até caminha para a reeleição. Mas aos trancos e barrancos, sem perspectiva de chegar inteiro e exemplar para a história.

Grandes líderes se revelam não apenas em campanhas eleitorais magníficas, como foi a de Obama, mas principalmente no desempenho diante das adversidades, como não é o caso dele.
PS - Alguém pode explicar por que as malas demoram 40 minutos em Congonhas?

elianec@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

A Paris de Woody Allen

RIO DE JANEIRO - Um mês em algumas capitais da Europa e passei por vários cinemas que estão exibindo o último filme de Woody Allen, que apesar de ser um dos cineastas que mais se repetem, continua sendo dos meus preferidos.

Não entrei em nenhuma das salas. Não vi nem gostei de sua visita a uma Paris mais do que sovada. Depois de Miller, Fitzgerald e Hemingway, escrever sobre a capital francesa equivale a escrever sobre as Guerras Púnicas.

Lembro uma cena do filme sobre a primeira visita de Chopin a Paris ciceroneado por seu professor. No bar da calçada de um boulevard estão sentados, bebendo absinto, Victor Hugo, Balzac, Zola, Montaigne, Joana d'Arc e Juliette Greco numa mistura fantástica de charme.

Aliás, este samba do crioulo doido é comum em filmes históricos. Numa primeira versão de "Júlio César", de Joseph L. Mankiewicz (1953), Marlon Brando interpretando Marco Antônio no funeral de César, esqueceu de tirar o relógio de pulso, e nenhum dos "honourable men" à frente ou por trás da câmara percebeu o absurdo. O famoso discurso teve de ser refilmado.

O padre Miguel, nas festas do seminário onde estudei, levava uma máquina e passava uma vida de Cristo da antiga Pathé, filme mudo em que no fundo da cena, um ciclista boquiaberto olhava a Sagrada Família fugindo para o Egito e da degola das criancinhas ordenada por Herodes.

É possível que o humor e seu amor a Cole Porter e a Gershwin tenha evitado anacronismos mais espalhafatosos. E seu estupendo ouvido para as trilhas musicais certamente salvará sua melancólica visita à geração perdida. Mas nada que possa ser comparado à obra-prima ("Manhattan") ou à sua melhor sátira política, "Bananas", feita ainda no início de sua carreira.

Só espero que ele não tenha colocado Gertrude Stein recitando Mallarmé ao som do "La vie em rose".


02 de agosto de 2011 | N° 16780
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Historinha de paixão

Foram ambos acometidos por uma daquelas paixões proibidas, que só floresciam aos 16 anos, na época dos últimos boleros e dos primeiros sons da Bossa Nova. O pai dela era do antigo PTB e o dele do velho PSD e haviam se estranhado num comício.

Ora, em Alhandra a inimizade se estendia automaticamente às famílias. A garota, Mariana, ficava proibida de sequer cumprimentar Gustavo, o rapaz. Quanto a dançar de rosto colado nas reuniões do Aliança Piscina Tênis Clube, nem sonhar.

Por sorte, naquele tempo prosperava uma espécie de correio sentimental, com a prestimosa intermediação dos amigos. Gustavo escrevia: “Estação, às 8” e nesse exato horário Mariana surgia na estação deserta e cúmplice, depois de mentir em casa que ia ver Candelabro Italiano no Cine Ideal. Mariana escrevia: “Freiras, às 9” e Gustavo a esperava na penumbra acolhedora do jardim do colégio, depois de mentir em casa que tinha um jogo de basquete.

Ora, como há xeretas em todos os pontos do universo, terminaram denunciados. Mariana foi trancafiada num internato em Santa Maria e Gustavo despachado a Jataí, Goiás, para aprender Ciências Agrárias. Trocaram cartas sentidas e recheadas de juras por uns seis meses até que outra denúncia silenciasse a clandestina e apaixonada correspondência.

Mariana casou aos 23 com um zootécnico de Rio Verde. Gustavo casou aos 25 com uma fazendeira de Porto Nacional. Em 1973 teve um congresso de agricultura em São Paulo. Um avistou o outro, mas se limitaram a trocar olhares durante os painéis. Em 1985 compareceram a um simpósio sobre oleaginosas em Belo Horizonte. No coquetel de encerramento, Gustavo fez um discretíssimo sinal a Mariana, indicando um terraço mergulhado na escuridão, mas lá os aguardava um festival-surpresa de fogos de artifício.

Em 2004, divorciado, Gustavo enfim redescobriu Mariana, viúva, numa exposição de gado em Palmas, Tocantins. Convidou-a pronta e romanticamente para um jantar à luz de velas. Mariana percebeu que Gustavo engordara. Gustavo notou que Mariana ostentava mais pés de galinha de que todo o seu aviário. Conversaram longamente sobre campo & lavoura, netos e o governo Lula. Prometeram trocar e-mails.

De volta para casa, Gustavo dedicou-se no avião a uma revista de palavras cruzadas. “Paixão”, desafiava a coluna vertical. Ele pediu à aeromoça um uísque. De volta para casa, Mariana leu na revista de bordo um anúncio de cosméticos e decidiu pintar seu cabelo de fúcsia.