quinta-feira, 4 de agosto de 2011



04 de agosto de 2011 | N° 16782
ARTIGOS - João Maurício Farias*

Miséria não é igual em qualquer canto

Nesta semana, fui entrevistado por ZH sobre a situação de miséria dos indígenas no Rio Grande do Sul. Desde então, não me saía da mente uma parte da letra de uma música dos Titãs: “Miséria é miséria em qualquer canto, riquezas são diferentes”. Pensava nos indígenas guarani, kaingang e charrua e xokleng e que suas misérias não são iguais em qualquer canto.

É necessário trocarmos as lentes de nossos óculos analíticos para tentar compreender os povos originários (como alguns preferem ser identificados, pois consideram “índios” um termo genérico que os destitui de especificidades). Quando vemos os “outros”, o fazemos a partir de nossos valores culturais e princípios epistemológicos (lógicas de pensamento).

Tendemos a não ver nos outros sua “alteridade”, os outros passam a ser apenas uma extensão de nós, uma cegueira antropológica. Para evitá-la, é necessário compreender que existem perspectivas distintas de mundo, cosmologias diferentes; a acumulação de capital e a exploração ao máximo dos recursos naturais para o enriquecimento material individual não estão no centro de suas dinâmicas sociais.

Há aproximadamente 20 mil pessoas dos povos originários que viviam nesta região quando das invasões bárbaras. Por não serem de uma sociedade de produção intensiva com excedentes para abastecer mercados, são vistas pelo senso comum como preguiçosos que não gostam de trabalhar. Apesar de 511 anos de contato, não se aceita que sejam diferentes, com direito à diferença.

Você pode pensar: mas quando este cara vai falar da miséria material ou da riqueza cultural dos povos originários? Certamente há uma enorme carência material nas aldeias indígenas no RS, quase refugiados em suas próprias terras. Mesmo morando nas margens de estradas federais e estaduais, debaixo de lonas e sobras de madeira, enfrentando frio abaixo de zero grau (como aconteceu há 20 dias), essas comunidades indígenas possuem fortes valores culturais.

Há pouco, uma grávida guarani na aldeia-acampamento na faixa de domínio da BR-392 preferiu dar à luz acompanhada da parteira e do xamã karai de seu grupo. Com forte pneumonia, acabou sendo levada para o hospital junto com o bebê. Ela foi salva, mas seu filho não irá passar pelo ritual de nominação, nhemongarai, no início da colheita do milho tradicional.

A grande maioria das mais de 5 mil famílias dos povos originários no Rio Grande do Sul se enquadra no programa federal, e agora também no estadual, de “erradicação da miséria”, pois suas rendas mensais não ultrapassam os R$ 70 por pessoa. Os desmatamentos para a produção da soja, a agropecuária e a industrialização avançaram sobre os territórios indígenas, que tinham e ainda têm nas matas nativas seus principais espaços de existência material e cultural.

Para que acabe essa situação de miséria provocada em grande parte pela desterritorialidade indígena no RS, é fundamental que a sociedade brasileira e gaúcha reconheça esta dívida social imensa que a formação da sociedade nacional provocou.

Para alcançar as “metas do milênio” e reduzir ou eliminar a miséria material extrema, é necessário que o Estado brasileiro (União, Estados e municípios) pague essa dívida histórica e restitua territórios aos povos originários, permitindo que possam ter seus filhos e viver bem dentro dos princípios de suas culturas.

*Cientista social (UFRGS) e vice-coordenador da Regional do Litoral Sul da Funai


04 de agosto de 2011 | N° 16782
L. F. VERISSIMO


O platinado

Sei tão pouco do motor de um carro quanto sei da alma humana. Olho o que tem debaixo do capô como se olhasse um abismo sem fundo e só peço do motor do meu carro que funcione, sem precisar entrar na sua intimidade. Conheço algumas partes do motor de ouvir falar, claro, como o radiador e a bateria, e simpatizo com o virabrequim apesar de não ter a menor ideia do que seja.

Mas o virabrequim é o limite do meu envolvimento com o abismo. Não sei o que é o platinado, por exemplo. E me surpreendo com o número de vezes em que o platinado é citado quando busco ajuda profissional para um motor com defeito.

Muitas vezes, a opinião do mecânico precede um exame do motor.

– Talvez seja o platinado...

Outras vezes, o exame confirma o diagnóstico precoce:

– É o platinado.

E é raro se ouvir que o platinado tem conserto.

Normalmente, a única solução para um problema com o platinado é um procedimento radical. Transplante.

– Tem que trocar o platinado.

Cheguei a desconfiar que, como tenho cara de quem não sabe nada de motores, estavam me enganando, e trocar o platinado fosse só uma maneira de me cobrar mais. Talvez o platinado velho estivesse em perfeitas condições. Talvez nem existisse o platinado! Ou então a troca do platinado era a maneira prática de dispensar uma intervenção mais trabalhosa. Na falta do que fazer, trocava-se o platinado.

Penso no platinado sempre que ouço que mais um técnico de futebol foi trocado por outro, para melhorar a produção do time, acabar com uma fase má ou simplesmente aplacar uma torcida revoltada. A conclusão em todos os casos é que a culpa é do platinado e a solução é um platinado novo.

Quase sempre, a culpa real é de uma administração incompetente ou um time irreparavelmente ruim, mas trocar isto equivaleria a ter que trocar todo o motor. E trocar o platinado adquiriu até uma conotação mística. Um novo técnico teria, como um deus, a capacidade de mudar o clima no vestiário.

De fazer pernas de pau acertarem chutes, jogadores cegos enxergarem a bola e ameaçados de sepultamento na zona de rebaixamento ressuscitarem. Raramente consegue, o que não diminui o poder da ortodoxia: quando as coisas vão mal, troque-se o platinado.


04 de agosto de 2011 | N° 16782
LETICIA WIERZCHOWSKI


Música para super-heróis

Dirijo por Porto Alegre numa segunda-feira amuada. No banco de trás, meu filho de três anos (vestido de Batman) dança de maneira engraçada. Dança como pode dançar, balançando a cabeça e os braços, pois está preso à cadeirinha. Dança uma música de Serge Gainsbourg. Dança com o rosto todo, dança com as mãos, e viaja de maneira tão bonita que preciso fazer força para afastar meus olhos do retrovisor, concentrando-me no trânsito chato da cidade.

Fazia tempo que eu não ouvia Gainsbourg, e comprei esse CD às pressas, depois de assistir ao lindo filme Gainsbourg: o Homem que Amava as Mulheres. Confesso aqui que fui ao cinema mal-humorada, lutando contra uma gripe. Mas nada como uma boa sessão de cinema para levantar o astral da gente – na saída, agradeci ao maridão o convite. Serge Gainsbourg, sua vida, suas canções e seus amores surtiram maravilhoso efeito sobre o meu mal-estar em geral, e muito mais sobre a minha alma.

Disseram por aí do filme dirigido por Joann Sfar que era atravancado, sem muita continuidade, e que só deslanchava quando Serge Gainsbourg andava, na tela, às voltas com as suas mulheres – e ele teve muitas, paixões fulminantes e famosas como as belíssimas Brigitte Bardot e Jane Birkin, com quem, aliás, foi casado por 13 anos.

Eu digo do filme que é delicioso, debochado e divertido, que tem um andamento próprio e um encadeamento encantador, que as atuações são incríveis (Eric Elmosnino simplesmente encarnou Serge Gainsbourg), e é tão maluco quanto o seu personagem principal.

Porque Gainsbourg era moderno, maluco e irreverente antes que isto se tornasse, digamos, uma atitude mercadológica corrente. No delicado começo do filme, Gainsbourg aparece menino, um judeuzinho muito esperto e de orelhas enormes, vivendo a ocupação nazista na França.

Mas o pequeno Lucien (Gainsbourg se chamava Lucien e trocou seu nome apenas quando começou a fazer sucesso com a sua música) sobrevive aos nazis e segue em frente, firme e forte. Feio e charmoso (ele dizia que a feiura era superior à beleza porque durava mais), Gainsbourg navegou por muitos mares até ancorar na linda inglesinha Jane Birkin, seu grande amor.

Mas dirijam-se ao cinema mais próximo, por favor, e passem um par de belas horas no escuro. O que não está no filme é o imostrável – ninguém pode explicar completamente outra pessoa.

Agora estamos em casa, meu Batman e eu, ainda ouvindo (e adorando) Serge Gainsbourg. Meu caçula está dando pulos pela sala ao som de Le Canari Sur le Balcon. Ah... Salve, Gainsbourg!


04 de agosto de 2011 | N° 16782
PAULO SANT’ANA


Ódio combinado

Ontem, por volta de meia-noite, Paulo Odone decidiu que Julinho Camargo seria dispensado e substituído por Celso Roth, que será anunciado hoje à tarde.

No Roda Viva, da TV Cultura, segunda-feira, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, citou uma frase de Ulysses Guimarães: “Na política, até o ódio tem de ser combinado”.

Eu aproveito para dizer que no casamento, na relação direta entre marido e mulher, até o ódio entre os dois tem de ser combinado.

Isso quer dizer que, em última análise, pode o casal até odiar-se de vez em quando, mas, na hora do pega pra capar, os dois têm de estar lealmente juntos.

De repente, embora cultivada por longo tempo a sua busca, recuperei a felicidade.

E, agora, o que faço com ela?

Voltando ao ódio combinado entre os casais, o amor entre eles não necessita ser combinado, pois seria a normalidade.

O ódio, sim, tem de ser orquestrado, porque, se o casamento quiser ser mantido, é imprescindível que as brigas entre o casal sejam superadas, esquecidas.

Vou mais longe: é permitido entre os casais o ódio, a raiva.

O que não é permitido é o rancor.

Se um casal se licencia para o rancor, está condenada ao fracasso a relação.

O rancor só necessita para seu sucesso de um nervo exposto qualquer em um dos dois ou nos dois cônjuges.

Qualquer atritozinho que haja entre o casal, pronto, está aceso o rastilho do rompimento.

Quando escrevi a coluna de anteontem, aquela que falava da homenagem que eu prestava a todos os que não tinham conseguido mudar o seu mau destino, finalizando que a coluna não passava de uma auto-homenagem que fazia a mim mesmo, vencido por meu sinistro destino – aquela coluna, quando a escrevi aqui no computador, disse para meus companheiros da sala: “É uma das melhores colunas que escrevi em toda a minha vida”.

Não deu outra. A repercussão foi enorme nas ruas, por onde andei, e aqui na Redação, por onde não andei, mas soube por terceiros.

É que incrivelmente atingi todos os leitores. Quem é que não queria que seu destino, pelo menos parcialmente, fosse diferente do que parece que vai ser?

Acertei na mosca. Foi um tal de gente sensibilizada, que muitas pessoas se deitaram a derramar lágrimas, chorando o seu próprio destino.

E eu previ que a coluna faria sucesso, um instante após escrevê-la. A gente tem essas premonições. O segredo é que, quanto mais gente a coluna atingir em seu conteúdo, mais êxito ela terá.

Aquela coluna foi bombástica. Porque foi humana, no sentido de que todos somos muitas vezes vítimas do nosso próprio destino, que não podemos modificar.

Quem leu viu que eu acertei na mosca. E, quando um colunista acerta na mosca, sai da frente, que ele estará ganhando crédito com seus leitores. Crédito até para fazer uma coluna água com açúcar, como a que fiz ontem.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011



03 de agosto de 2011 | N° 16781
MARTHA MEDEIROS


Vingança

Muitas frases espirituosas já foram escritas a respeito de vingança. Gosto de uma que diz: “Contra quem lhe tomou sua esposa, não existe vingança melhor do que o infeliz ficar com ela pra sempre”. Vale para ambos os sexos, acrescento.

A vingança é uma atitude de mau humor, e o mau humor pode ser risível. Eu, ao menos, acho engraçado que alguém perca tempo se dedicando a se vingar do que quer que seja, deixando claro o quanto se sentiu ofendido. Há vingança melhor do que não dar a mínima?

Mas, para a maioria das pessoas, é difícil ficar indiferente diante de uma situação que, a priori, causou prejuízo. Até o Velho Testamento cita o “olho por olho” como forma de sanar o dano causado. Toma lá, dá cá. Aqui se faz, aqui se paga. Ok, mas me parece um desperdício de energia.

Não chego ao cúmulo de oferecer a outra face, que isso é coisa pra santo. Perdoo, mas me blindo. Se aprontou uma vez, aprontará outra. Fico na minha, me fortaleço e trato de viver cada dia melhor – nada irrita mais nossos inimigos.

Pesquisas indicam que as mulheres são mais vingativas do que os homens, o que nos faz descer alguns degraus, sustentando a teoria do sexo frágil. Transar com outro, sem estar a fim, só porque fomos traídas? Roubar o namorado da amiga porque ela ficou com nosso emprego? Espalhar boatos pela internet porque alguém foi desleal? É a confirmação da nossa pequeneza, que passa a se igualar à pequeneza de quem falhou conosco.

A iraniana Ameneh Bahrami, que no último domingo perdoou o homem que lhe jogou ácido no rosto, cegando-a, declarou que a clemência lhe fez bem. Ela o salvou minutos antes de ele próprio ter os olhos corroídos por ácido num hospital de Teerã. O médico já estava com o material na mão para consumar a vingança (autorizada pelas leis islâmicas). O agressor estava de joelhos, aos prantos, aguardando o pior, quando chegou o telefonema com o perdão da vítima.

Por que Ameneh desistiu de pagar na mesma moeda? Sei lá, talvez porque não foi um filho dela que o maluco cegou (mexam com nossas crias e bye bye superioridade), mas o mais provável é que o mal nunca tenha feito parte da sua natureza. Ela não quis ser como ele.

Dizem que se vingar dá uma sensação agradável, que a vingança é doce, traz consolo, segurança, que há até um componente erótico em sua consumação. Estão aí os defensores da pena de morte para confirmar o júbilo que a vingança provoca. Eu sigo achando que lutar por justiça é um dever, mas se vingar é tosco. Só é aceitável quando o destino é que se vinga por nós, sem que a gente suje as mãos. Há que se confiar na providência divina.

Já a vingança arquitetada é a infantilidade usando salto alto e batom, fingindo-se de gente grande.


03 de agosto de 2011 | N° 16781
ARTIGOS - Adriana da Silva Ribeiro*


Presídios, hospitais, escolas

“Encontramos o sistema em situação caótica, quase trágica. A falta de investimentos ao longo dos anos fez com que as instalações físicas estivessem absolutamente precárias. Presos, inclusive tuberculosos, dormiam no chão, vazamentos e infiltrações de água, instalações elétricas em constantes panes, rachaduras nas paredes, cozinhas funcionando sem condições de higiene.

O próprio sistema de segurança estava vulnerável: grades corroídas, portas sem fechaduras. Túneis abertos, fugas constantes, presos com verdadeiros arsenais em seu poder. Hospitais e ambulatórios sem medicamentos. Situação precária também quanto a recursos humanos. Um guarda para cem presos. Faltando assistentes sociais, psicólogos, médicos etc.”

Parece a descrição das condições do Presídio Central de Porto Alegre? Mas não é. O relato acima consta do livro A Dona das Chaves, recentemente lançado pela socióloga Julita Lemgruber, referindo-se a um relatório sobre as condições das cadeias do Rio de Janeiro enviado pelo Dr. Avelino Moreira, promotor de Justiça, então no cargo de diretor do Desipe, no ano de 1984, ao seu chefe.

O sistema prisional do Rio Grande do Sul era diferente do sistema prisional do Rio de Janeiro? Não. Quem puxar pela memória lembrar-se-á dos constantes motins com reféns, mortes e fugas ocorridas tanto no Presídio Central de Porto Alegre quanto na Penitenciária Estadual do Jacuí nos anos que antecederam a entrega da administração à Brigada Militar e a inauguração da Pasc – Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas.

Melhoramos o sistema prisional desde então? Não. Ao contrário. Pioramos. A invisibilidade dos muros da prisão não permite que a população veja o que ocorre lá dentro, mas atualmente só não temos motins e reféns ou grandes fugas.

E por que não temos isto? Porque entregamos a administração dos presídios aos presos. Hoje, na falta de agentes penitenciários, recursos financeiros e vagas suficientes, o Estado só chega até o portão das galerias do Presídio Central e da PEJ.

Dali para dentro, quem manda é o “prefeito”. Sabiam que cada galeria tem um? E esse prefeito concede alvarás. Claro, exerce o seu cargo: determina quem vai receber o remédio, a comida, quem vai vender a droga, qual o doente que vai ser atendido pela guarda.

Recente relatório realizado pelo Conselho Nacional de Justiça ao final do mutirão carcerário mapeou as galerias do Presídio Central e das grandes penitenciárias moduladas da Região Metropolitana, relacionando-as às facções que dominam o mundo do crime dentro e fora das prisões. Assim como as cadeias estão loteadas pelas facções, Porto Alegre também está.

A sociedade, porém, enuncia que há impunidade. É um sentimento legítimo da vítima a pretensão de que seu algoz seja punido. Mas pergunto: encaminhar o criminoso para o sistema prisional que temos resolverá a sensação de impunidade da população?

É chegada a hora de a população cobrar do Estado que administra esse sistema prisional que seja cumprida a lei, no sentido exato de lhe devolver um preso melhor do que aquele que entrou no sistema. Assim como devemos exigir do Estado que nos devolva um doente curado ao sair do hospital ou um aluno que tenha aprendido os conceitos, no mínimo básicos, de português e matemática ao sair da escola.

*Juíza da Vara de Execuções Criminais


03 de agosto de 2011 | N° 16781
PAULO SANT’ANA


Frio enregelante

O frio está desgostando as pessoas. E, quando o frio se junta ao tédio, formam uma tragédia pessoal.

O interessante é que, no fumódromo aqui de ZH, todos se queixam do frio e dizem adorar o verão.

Só que, quando chega o calor, todos dizem adorar o inverno.

Vá entender...

Tanto inverno quanto verão são estações detestáveis. Tanto que o ar-condicionado foi criado com o objetivo direto de combatê-las.

Mas, nesta enquete sobre quem gosta de inverno ou de verão, nunca ouvi alguém dizer que gosta do outono.

Inverno, tudo bem. Mas não este inverno que nos últimos 70 anos é o que mais insiste com chuva e frio juntos.

Ouvi duas donas de casa se queixando de que não têm conseguido secar as roupas que lavam.

E as lavanderias andam, assim, ocupadíssimas.

Reparem como os passarinhos e os cães andam tristes com este renitente inverno.

Sempre simpatizei com o verão, em razão de que no inverno me dá uma profunda pena dos pobres, os que não têm agasalhos, não possuem cobertores suficientes, moram em casas cujas paredes ou tetos são furados ou por qualquer forma vulneráveis ao frio.

E sempre me ocorre de como estarão passando, com este inverno rigoroso, os presos nas cadeias.

Um exemplo disso é ser simplesmente proibido a qualquer pessoa tomar banho se não possui no mínimo chuveiro elétrico.

O maior castigo a que se pode submeter uma pessoa é sem dúvida obrigá-la a tomar banho com água fria no inverno.

Entre as desvantagens do inverno e do verão, há uma diferença. Para quem anda na rua, é impossível transitar debaixo do sol inclemente do verão, enquanto que no inverno basta agasalhar-se para não passar mal.

O que são as mudanças de épocas: com os casacos e jaquetas que possuem capuz, o guarda-chuva está em processo de extinção, vai no rumo da galocha.

Frase de Winston Churchill, citada segunda-feira no bar de ZH por Ibsen Pinheiro: “Democracia é aquele regime em que, se batem em sua porta às seis horas da manhã, você já tem a certeza de que é o leiteiro”.

O que me disse o colega Alexandre Bach: “Sant’Ana, quando tu escreveste várias vezes que o Grêmio ia parar na segunda divisão, achei que era um modo de tu não seres surpreendido pela eventual notícia, uma espécie de habeas corpus preventivo. Mas noto agora mais uma vez a tua lucidez. A coisa está feia para o Grêmio”.


03 de agosto de 2011 | N° 16781
PAULO SANT’ANA


Frio enregelante

O frio está desgostando as pessoas. E, quando o frio se junta ao tédio, formam uma tragédia pessoal.

O interessante é que, no fumódromo aqui de ZH, todos se queixam do frio e dizem adorar o verão.

Só que, quando chega o calor, todos dizem adorar o inverno.

Vá entender...

Tanto inverno quanto verão são estações detestáveis. Tanto que o ar-condicionado foi criado com o objetivo direto de combatê-las.

Mas, nesta enquete sobre quem gosta de inverno ou de verão, nunca ouvi alguém dizer que gosta do outono.

Inverno, tudo bem. Mas não este inverno que nos últimos 70 anos é o que mais insiste com chuva e frio juntos.

Ouvi duas donas de casa se queixando de que não têm conseguido secar as roupas que lavam.

E as lavanderias andam, assim, ocupadíssimas.

Reparem como os passarinhos e os cães andam tristes com este renitente inverno.

Sempre simpatizei com o verão, em razão de que no inverno me dá uma profunda pena dos pobres, os que não têm agasalhos, não possuem cobertores suficientes, moram em casas cujas paredes ou tetos são furados ou por qualquer forma vulneráveis ao frio.

E sempre me ocorre de como estarão passando, com este inverno rigoroso, os presos nas cadeias.

Um exemplo disso é ser simplesmente proibido a qualquer pessoa tomar banho se não possui no mínimo chuveiro elétrico.

O maior castigo a que se pode submeter uma pessoa é sem dúvida obrigá-la a tomar banho com água fria no inverno.

Entre as desvantagens do inverno e do verão, há uma diferença. Para quem anda na rua, é impossível transitar debaixo do sol inclemente do verão, enquanto que no inverno basta agasalhar-se para não passar mal.

O que são as mudanças de épocas: com os casacos e jaquetas que possuem capuz, o guarda-chuva está em processo de extinção, vai no rumo da galocha.

Frase de Winston Churchill, citada segunda-feira no bar de ZH por Ibsen Pinheiro: “Democracia é aquele regime em que, se batem em sua porta às seis horas da manhã, você já tem a certeza de que é o leiteiro”.

O que me disse o colega Alexandre Bach: “Sant’Ana, quando tu escreveste várias vezes que o Grêmio ia parar na segunda divisão, achei que era um modo de tu não seres surpreendido pela eventual notícia, uma espécie de habeas corpus preventivo. Mas noto agora mais uma vez a tua lucidez. A coisa está feia para o Grêmio”.


03 de agosto de 2011 | N° 16781
DIANA CORSO


Viva e deixe morrer

Fiquei triste com a morte Amy Winehouse. Dizem que as drogas e bebedeiras a destruíram. Sim e não. Parece que terminou seus dias tentando afogar sua angústia com o narcótico mais à mão e de certa forma ela tinha razão: para alguns a lucidez pode ser insuportável.

Apesar disso, acredito que foi a incapacidade de distinguir-se da personagem que criou que lhe foi realmente letal. Estranhamente bonita, vozarrão emocionante e letras corajosas, conquistou as graças da fama. Viveu rápido, morreu aos 27 anos, no prenúncio da balzaquiana que ela nunca será. Nesta época em que percebemos o amadurecimento como carrasco dos nossos horizontes todas as viradas de décadas são trágicas.

Paul McCartney tinha um pouco mais que isso quando criou “Viva e deixe morrer”. Ele dizia que o coração jovem é um livro aberto, mas este mundo leva a sofrimentos e desistências que fazem com que deixemos de simplesmente pensar “viva e deixe viver”. Realizamos alguns sonhos, mas não faltam contrariedades e limitações.

Cada frustração é uma pequena morte, quer seja de um ideal, de um desejo. Falam que vivemos um tempo sem utopias. Bobagem, sobre a geração de Amy pesa a nossa mais cara utopia: a adolescência como a grande época da vida, momento de tirar todo o suco antes da mesmice da maturidade. Amy tinha uma mente inquieta, seu romantismo se alimentava de desencontros e embebedava sua urgência de amar e viver, parece nunca ter tido essa leveza jovem cantada pelo ex-Beatle.

A sociedade contemporânea merece todas as críticas por alimentar-se dessa competição nervosa para chegar a lugar nenhum, por essa gincana de quinquilharias, sustentada pela máquina de moer sonhos a que chamamos de bom senso. A resistência adolescente a crescer tornou-se uma das formas de questioná-la. Winnicott dizia que os adolescentes são passageiros, mas numa sociedade a imaturidade não o é: sempre haverá novos candidatos a carregá-la por um tempo de suas vidas.

Ele lembrava ainda que é nessa saudável imaturidade que se inspiram as revoluções, as utopias. Gostaríamos de morar nelas, mas infelizmente, para não crescer é preciso morrer.

Os jovens se arriscam, tentam ignorar a morte, mas vivem a toreá-la - Eu morri uma centena de vezes, cantava Amy. Já a maturidade sabe que tem um prazo e odeia isso. Enquanto fantasia com as noites de glórias e excessos dos adolescentes, acorda para tomar seu iogurte com cereais e ir ao trabalho. Em sonhos somos onipotentes, na prática sabemos que basta viver para morrer um pouco a cada dia.

terça-feira, 2 de agosto de 2011


JAIRO MARQUES

Gosto muito de você, leãozinho

O que me incomoda mais na história de Ariel é a forma como ganhou uma aura quase santificada

FIQUEI BEGE ao ver toda a comoção do povo com a morte do leão paraplégico Ariel, que fez a passagem na semana passada. O bicho era criado dentro de um apartamento praticamente tratado a pão de ló, mas não resistiu ao avanço de sua enfermidade -uma doença degenerativa-, que o afastou da selva ou da jaula, não sei dizer ao certo.

Não tenho nada contra bichanos, adoro cachorro, mas admito que não deslizou de mim nenhuma lágrima pelo pobre. No "Animal Planet", já vi leões sendo mortos de uma forma muito mais trágica e desalentadora.

Tenho certo receio de estarmos levando a sério demais aquela frase que se fala nas horas de injustiças, de malfeitos, de raiva, de inveja, de pressão, de desespero, de saco cheio: "É por isso que gosto mais de bicho do que de gente".

O que me incomoda mais na história de Ariel não é a luta para tentar salvá-lo, evidentemente, mas a forma como o animal ganhou uma aura quase santificada por estar ali, em sofrimento, perdendo, aos poucos, os movimentos, as capacidades vitais. Isso o fez merecedor de atenção midiática invejável.

Já conheci muito "serumano", também acometido por perrengues degenerativos que não teve a atenção nem do vizinho para dar uma ajudinha para limpar a baba que teimava em escorrer da boca aberta. O leão conseguiu acesso a tratamento revolucionário, bife de primeira a cada, sei lá, meia hora para encher a barriguinha, correntes de orações e, depois de morto, vaquinha para cremação do corpo.

Enquanto o bichano foi acolhido com amor e dedicação pela dona e pelo Brasil, milhares de crianças com deficiência se amontoam em abrigos à espera de adoção -e muito mais espera, na maioria dos casos, do que as de crianças "normais"-para que ganhem um lar ou uma selva, uma cabana.

As crianças mal-acabadinhas aguardam alguém que as ame, as mande para a funilaria dar uma arrumadinha nas partes avariadas, que dê a elas aprendizado, dignidade e força para rugir contra preconceitos, para rugir por acessos, por aceitação na sociedade.

Bichos em sofrimento mexem mesmo com nossas emoções e nossa sensibilidade humana, afinal, ele não pode falar, não pode expressar nem indicar o que tanto o azucrina a vida. Ver o Ariel com olhar quase se apagando no colo de sua tratadora despertava na gente uma vontade de ajudar. Mas, que me perdoem os maribondões pretos da defesa dos animais, o seu Casseta já dizia que "mãe é mãe, paca é paca".

Todos os dias, acontecem acidentes que deixam primos, tios, amigos e conhecidos capengas das partes motoras. É gente que fica na cama, às vezes, por meses até que se colem os ossos e que o rejunte dê conta de harmonizar o ânimo de retomar o cotidiano com a necessidade de encarar as savanas atrás de presa.

Na cabeça nossa do dia a dia, esses leões são sempre muito mais fortes e capazes de chacoalhar o pelo e afiar as garras. E, assim, deixa-se a visita de lado, o telefonema para o final de semana, a lembrancinha para o Natal. E, quando os leões ficam velhos e dados como incapazes, achamos que eles querem o sossego da alcateia apenas. Tem algo errado no mundo animal.

jairo.marques@grupofolha.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

Crise de confiança

BRASÍLIA - Aconteceu o que todos previam: no último minuto, os republicanos cederam e fez-se a luz. O Congresso norte-americano deu sobrevida ao império e evitou um calote que empurraria o mundo para a penumbra da incerteza.

O alívio, porém, não resolve a questão da confiança, apenas mantém a maior potência sob incógnita e esvazia mais e mais a esperança que não apenas os eleitores dos Estados Unidos, mas governos e cidadãos de todo o mundo depositaram em Barack Obama.

A certeza se transformou em dúvida: "Yes, can we?". O ponto de interrogação foi-se desenhando ao final da frase símbolo da campanha e da posse espetacular de Obama.

É justo lembrar sempre, a cada crise e a cada dia, que Obama herdou do antecessor, George W. Bush, o Iraque, o Afeganistão, Guantânamo, o descontrole interno e as dúvidas internacionais quanto ao fôlego norte-americano. Mas ele não soube lidar com os erros do governo anterior nem garantiu avanços.

Obama derrapou na equivocada reforma da saúde, que lhe tirou importantes pontos de popularidade e não levou a lugar nenhum. E não se aprumou ao ajustar as contas públicas e ao imprimir personalidade política a seu primeiro mandato.

Ele ganha a batalha do aumento do teto de endividamento, mas está longe de vencer a guerra. Sem um nome à altura no Partido Democrata e sem um adversário ameaçador no Republicano, Obama até caminha para a reeleição. Mas aos trancos e barrancos, sem perspectiva de chegar inteiro e exemplar para a história.

Grandes líderes se revelam não apenas em campanhas eleitorais magníficas, como foi a de Obama, mas principalmente no desempenho diante das adversidades, como não é o caso dele.
PS - Alguém pode explicar por que as malas demoram 40 minutos em Congonhas?

elianec@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

A Paris de Woody Allen

RIO DE JANEIRO - Um mês em algumas capitais da Europa e passei por vários cinemas que estão exibindo o último filme de Woody Allen, que apesar de ser um dos cineastas que mais se repetem, continua sendo dos meus preferidos.

Não entrei em nenhuma das salas. Não vi nem gostei de sua visita a uma Paris mais do que sovada. Depois de Miller, Fitzgerald e Hemingway, escrever sobre a capital francesa equivale a escrever sobre as Guerras Púnicas.

Lembro uma cena do filme sobre a primeira visita de Chopin a Paris ciceroneado por seu professor. No bar da calçada de um boulevard estão sentados, bebendo absinto, Victor Hugo, Balzac, Zola, Montaigne, Joana d'Arc e Juliette Greco numa mistura fantástica de charme.

Aliás, este samba do crioulo doido é comum em filmes históricos. Numa primeira versão de "Júlio César", de Joseph L. Mankiewicz (1953), Marlon Brando interpretando Marco Antônio no funeral de César, esqueceu de tirar o relógio de pulso, e nenhum dos "honourable men" à frente ou por trás da câmara percebeu o absurdo. O famoso discurso teve de ser refilmado.

O padre Miguel, nas festas do seminário onde estudei, levava uma máquina e passava uma vida de Cristo da antiga Pathé, filme mudo em que no fundo da cena, um ciclista boquiaberto olhava a Sagrada Família fugindo para o Egito e da degola das criancinhas ordenada por Herodes.

É possível que o humor e seu amor a Cole Porter e a Gershwin tenha evitado anacronismos mais espalhafatosos. E seu estupendo ouvido para as trilhas musicais certamente salvará sua melancólica visita à geração perdida. Mas nada que possa ser comparado à obra-prima ("Manhattan") ou à sua melhor sátira política, "Bananas", feita ainda no início de sua carreira.

Só espero que ele não tenha colocado Gertrude Stein recitando Mallarmé ao som do "La vie em rose".


02 de agosto de 2011 | N° 16780
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Historinha de paixão

Foram ambos acometidos por uma daquelas paixões proibidas, que só floresciam aos 16 anos, na época dos últimos boleros e dos primeiros sons da Bossa Nova. O pai dela era do antigo PTB e o dele do velho PSD e haviam se estranhado num comício.

Ora, em Alhandra a inimizade se estendia automaticamente às famílias. A garota, Mariana, ficava proibida de sequer cumprimentar Gustavo, o rapaz. Quanto a dançar de rosto colado nas reuniões do Aliança Piscina Tênis Clube, nem sonhar.

Por sorte, naquele tempo prosperava uma espécie de correio sentimental, com a prestimosa intermediação dos amigos. Gustavo escrevia: “Estação, às 8” e nesse exato horário Mariana surgia na estação deserta e cúmplice, depois de mentir em casa que ia ver Candelabro Italiano no Cine Ideal. Mariana escrevia: “Freiras, às 9” e Gustavo a esperava na penumbra acolhedora do jardim do colégio, depois de mentir em casa que tinha um jogo de basquete.

Ora, como há xeretas em todos os pontos do universo, terminaram denunciados. Mariana foi trancafiada num internato em Santa Maria e Gustavo despachado a Jataí, Goiás, para aprender Ciências Agrárias. Trocaram cartas sentidas e recheadas de juras por uns seis meses até que outra denúncia silenciasse a clandestina e apaixonada correspondência.

Mariana casou aos 23 com um zootécnico de Rio Verde. Gustavo casou aos 25 com uma fazendeira de Porto Nacional. Em 1973 teve um congresso de agricultura em São Paulo. Um avistou o outro, mas se limitaram a trocar olhares durante os painéis. Em 1985 compareceram a um simpósio sobre oleaginosas em Belo Horizonte. No coquetel de encerramento, Gustavo fez um discretíssimo sinal a Mariana, indicando um terraço mergulhado na escuridão, mas lá os aguardava um festival-surpresa de fogos de artifício.

Em 2004, divorciado, Gustavo enfim redescobriu Mariana, viúva, numa exposição de gado em Palmas, Tocantins. Convidou-a pronta e romanticamente para um jantar à luz de velas. Mariana percebeu que Gustavo engordara. Gustavo notou que Mariana ostentava mais pés de galinha de que todo o seu aviário. Conversaram longamente sobre campo & lavoura, netos e o governo Lula. Prometeram trocar e-mails.

De volta para casa, Gustavo dedicou-se no avião a uma revista de palavras cruzadas. “Paixão”, desafiava a coluna vertical. Ele pediu à aeromoça um uísque. De volta para casa, Mariana leu na revista de bordo um anúncio de cosméticos e decidiu pintar seu cabelo de fúcsia.


02 de agosto de 2011 | N° 16780
LUÍS AUGUSTO FISCHER


Ensinar literatura no mundo globalizado

É certo que nosso tempo, este que sucede ao fim da Guerra Fria, o tempo da completa hegemonia do capital financeiro sem compromisso com plantas industriais ou com estruturas sociais localizadas concretamente, o tempo da internet e tudo que ela aciona em matéria de internacionalismo cotidiano, vive um novo momento no que se refere à noção de nacional – nacionalidade, identidade nacional e tudo o mais.

Não há quem possa pensar na dimensão nacional como fazia até 20 anos atrás, quando a relação de cada indivíduo com a informação era mediada por instituições muito menos dinâmicas do que a internet (a escola, o rádio, a televisão, a indústria de bens culturais), todas elas profundamente radicadas em cada país ou região.

A entrada em cena da internet, para o campo literário, é um fato com consequências certamente fortes, que ainda mal conseguimos avaliar, mas que podem ser registradas ao menos num patamar: mudou, para sempre, a relação da produção literária e intelectual com as antigas demandas do âmbito nacional.

Não significa que esse âmbito tenha desaparecido, nem no plano das instituições formais (o ensino, por exemplo), nem no plano da literatura; mas ele mudou, para sempre.

Neste caso o Brasil tem a peculiaridade de ser um país gigantesco, com certa vocação imperial, e é o único país de língua portuguesa na América, sendo ainda o mais populoso país dessa importantíssima língua, a quinta ou sexta em número de falantes no planeta, o que não é pouco.

E mais: a escola brasileira, nas últimas duas décadas, está de fato chegando a todo mundo. Precária que seja, mas está chegando. E os sucessivos governos federal e municipais (o estadual gaúcho não, lamentavelmente) têm desenvolvido programas de incentivo à leitura e comprado muito livro para alunos e escolas, de forma que podemos dizer que estamos aumentando bastante o número de leitores no país, finalmente.

Neste mundo relativamente novo, uma das coisas que mais me tem feito pensar é como conceber programas e práticas de ensino de literatura. Ao menos uma pergunta se impõe: a escola, no Brasil, deve manter sua tradição de estudar apenas literatura brasileira, especialmente no Ensino Médio?

Eu também acho que não devemos manter essa perspectiva, inventada sob a lógica romântica e mantida pela lógica modernista. Mas se não, qual a regra que podemos pensar para a inclusão de outros autores e outras tradições literárias? Deixamos Alencar para trás, em definitivo, em favor de, sei lá, Balzac, James Fenimore Cooper e algum romancista chinês? Bá.


02 de agosto de 2011 | N° 16780
PAULO SANT’ANA


Minha homenagem

Eu hoje queria prestar uma última e silenciosa homenagem a todas as pessoas que estão irremediavelmente amarradas a um mau destino.

Minha homenagem aos que tentaram por todas as formas ser felizes e bateram contra as pedras rudes do seu destino imutável.

Aos que se debateram contra a insensibilidade dos outros, contra a maldade dos outros, contra a indiferença dos outros. Minha homenagem.

Aos que trombaram com a irredutibilidade. Aos que não conseguiram mudar a trajetória do seu cruel destino.

Aos que cedo perceberam que não ia dar, e acabou não dando.

Aos que imploraram bom senso, aos que chegaram a pedir piedade ao carrasco de suas circunstâncias e obtiveram como resposta somente a recusa. A fria e má recusa dos implacáveis.

Minha homenagem aos que tudo fizeram para remover os obstáculos que se antepunham para sua realização e encontraram só a fria e marmórea incompreensão dos outros.

Minha sentida homenagem. Minha póstera homenagem.

Tenho-lhes compaixão e respeito por sua árdua luta. Sei das inglórias batalhas que travaram para dar nova feição ao seu destino. Sei-o, sou testemunha remota e virtual de seu combate para tentar moldar o seu triste, deplorável e por fim sinistro destino.

Gastaram todas as suas forças e o que lhes restava de talento talvez para dar novo rumo às suas vidas.

E guardam na secura da sua pele e na tristeza de seus olhos a marca irremovível do fracasso.

É o destino. É o seu destino.

Foram bravos, não há mais o que se lhes possa exigir. É possível que tenham dado passos falsos, é possível que ali e aqui tenham incorrido em erros de escolha. Mas se corrigiram e se agasalham hoje na consciência de que afinal foram justos, foram honestos, foram retos e tudo fizeram para tentar convencer os que os contrariavam de que eram merecedores de justiça compassiva.

Tenho por eles profunda admiração. Não passam hoje de derrotados espectros de um ideal perdido, que foi perseguido, que foi buscado, que foi sonhado mas esboroou-se no terreno infértil das inúteis quimeras.

Eis que, face em terra, dirijo-lhes estas derradeiras palavras. Que suas vidas esvaziadas e seus corações inermes se tornem apenas um marco de quanto é ingrato o destino dos injustiçados, dos que não mereceram esse fim hediondo, o fim da esperança, o fim da vida em vida.

E, por fim, dou-lhes um consolo ou uma consideração: estas palavras talvez, com quase certeza, eu esteja dirigindo a mim próprio, alvo infeliz e trôpego desse trágico insucesso.

E é certo que nesta histórica coluna eu tenha vazado a minha dor suprema.


02 de agosto de 2011 | N° 16780
FABRÍCIO CARPINEJAR


Mistérios da adolescência

Elias era um camelo.

Mesmo. Amigo de trago da adolescência. Nunca ia ao banheiro. Tomava todas e permanecia sentado, puxando a roda no Bar do Beto.

Sua tática amorosa resumia a resistência: não abandonar jamais o posto de guarda. Monopolizou a condição de maior sedutor da Fabico, pelo simples fato de não se levantar para mijar. Ele me dizia:

– Em algum momento, você terá que sair da mesa e aproveitarei a chance de conversar sozinho com a menina.

Ganhava vantagem por atravessar a corrida inteira sem nenhuma troca de pneus. Não perdia tempo com pit stop no mictório. Não experimentava a longa ampulheta das filas, o constrangimento da espiral de gente no corredor. Não gastava um segundo em reabastecimento, reparos, ajustes mecânicos. A sola dos seus sapatos não cheirava o piso ensebado.

Um verdadeiro herói da bexiga presa, queniano da São Silvestre, apto a segurar litros e litros de cerveja longe de sofrer caretas e aperto das pernas.

Poderia estar chovendo, com barulho da torrente escorrendo do toldo, mas ele ficava inabalável, alheio aos comandos de esvaziamento do cérebro.

Nós, homens normais, após horas e horas de cochichos e cantadas, não aguentávamos a maratona do deserto e pedíamos licença para nossos flertes.

Despudorado e lépido, Elias continuava o papo com as nossas pretendentes. Quinze minutos de prorrogação que mudavam o resultado da partida. Quando voltávamos do toalete, a menina, antes tão dedicada às nossas palavras, girava o rosto em chave de boca com ele.

Dava um desespero. Ele nem era bonito, mais para as orelhas de Serge Gainsbourg do que para os olhos de Frank Sinatra. Muito colega desistiu da faculdade de Jornalismo em função da concorrência desleal. Diante de Elias, qualquer um se reduzia a um mijão.

Não entendíamos o desempenho espartano, o mistério budista de autocontrole. Como ele não precisava das passagens obrigatórias ao banheiro?

Iniciamos escala de vigia de seus passos, revezamento da turma; o garçom receberia 20% para informar de eventuais movimentações dele no fundo do prédio, território sagrado dos sanitários. Nada foi comprovado. Será que fazia ioga? Será que havia atingido o alaya-vijnana, o oitavo e mais tênue nível de consciência, onde as sementes cármicas são armazenadas?

Estou rindo até agora. Duas décadas transcorridas, Elias confessou seu segredo: por desforra e para nos humilhar, usava fralda geriátrica.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011



01 de agosto de 2011 | N° 16779
ARTIGOS - Paulo Vellinho*


A encruzilhada

Sem dúvida, os nossos governantes e de um modo especial a nossa presidente, o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central encontram-se na mais difícil encruzilhada de sua vida profissional, e qualquer que seja a decisão poderá ter repercussões importantes, tanto em nosso futuro social quanto econômico.

Sua origem reside na supervalorização do real em relação ao dólar, a qual deve ser vista sob dois aspectos:

1) Os altos juros estabelecidos pelo Copom atraem para o nosso país bilhões de dólares dos quais a maior parte ingressa com o objetivo especulativo, qual seja, de tomar dinheiro emprestado lá fora a juros baixíssimos ou quase zero, destinando os recursos advindos à compra de títulos do governo brasileiro, papéis seguros, praticamente sem risco, estabelecendo assim um irrecusável “negócio” que não gera para o Brasil riqueza ou muito menos emprego.

A vantagem desta política e deste resultado é que, com o dólar a R$ 1,60, as importações nesse valor vil ajudam a manter sob controle o combate à inflação.

Nenhum de nós deseja a volta do regime inflacionário, pois castiga os mais pobres e destrói todos os parâmetros socioeconômicos de uma sociedade.

Além disso, se considerarmos a estratégia de poder da China comunista, que exporta seus produtos manufaturados em valores abaixo do custo da matéria-prima, deve-se dizer que não só o Brasil, mas o mundo ocidental está a “reboque” desse dumping programado para o mal.

Na esteira dessa compra, compra lá de fora, convém registrar, os US$ 16 bilhões despendidos em 2010 e os US$ 10 bilhões no primeiro semestre deste ano, nas viagens “culturais” que se prestam também para comprar lá fora até pasta de dentes.

O total de 1 milhão de automóveis a serem importados em 2011, tendo uma indústria automobilística de Primeiro Mundo, tanto é que exporta seus carros para o Exterior, pode dar uma ideia da “orgia” da queimação não só de nossas reservas, mas principalmente de postos de trabalho, sem considerar o custo da deseconomia de escala.

2) Em contraposição às “vantagens” obtidas acima, cobram um inimaginável custo social e econômico: a desindustrialização do Brasil, sendo jogados pelo ralo os patrimônios físicos das empresas, sua tecnologia e, acima de tudo, e mais grave: provocarão uma crise terrível de desemprego.

Deve-se ainda considerar que a China (o governo comunista), em cumprimento de sua estratégia de poder, está investindo maciçamente em países potencialmente ricos em termos de superfície, subsolo e sol, do que deverá resultar no caso do Brasil o seu confinamento à triste posição de exportador de commodities, sem agregação de valor, matérias-primas estas que serão cada vez mais raras e, consequentemente, valorizadas pelas potências do Primeiro Mundo.

O mundo vai precisar da América Latina e da África para alimentar o seu futuro.

Estamos ou não estamos em uma terrível encruzilhada?

Deve-se refletir muito sobre o acima exposto, pois o futuro de nossos netos poderá estar comprometido.

*Cidadão brasileiro e empresário


01 de agosto de 2011 | N° 16779
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL


Futebol

Cabe celebrar aqui Camisa Brasileira, uma obra cúmplice do fotógrafo Gilberto Perin e do escritor Aldyr Schlee, a que se somaram um depoimento de João Gilberto Noll e o trabalho de um editor – e poeta – sensível, Alfredo Aquino e sua ardotempo.

É um livro sobre o Grêmio Esportivo Brasil, de Pelotas. O que poderia ser uma peça de ardor clubístico, transforma-se numa reflexão sobre o ser humano. A arte soberba de Gilberto Perin seguiu parte da campanha do Brasil no ano passado, entre vitórias e derrotas, momentos de desânimo e euforia.

Os protagonistas são os próprios jogadores, captados em diferentes vestiários e túneis. Os jogadores não são identificados. O fotógrafo capturou suas imagens e dividiu-as em secções que indicam os elementos que perpassam os vestiários: a preparação do jogo, a fé religiosa dos atletas, a dor, a solidão dos expulsos de campo.

O capítulo da fé impressiona: são pequenas imagens de santos, galho de arruda atrás da orelha, Jesus Cristo e Iemanjá, rezas coletivas. Já a preparação mostra a indigência de alguns vestiários, com suas duchas de plástico, azulejos faltantes, paredes cobertas de mofo. A glória das vitórias e o desalento das derrotas constituem uma das partes mais dramáticas – mas ambas se parecem, em seus efeitos psicológicos: choros e abraços.

Costurando as fotos e dando-lhes uma identidade única, está o texto de Aldyr Schlee, escritor de Contos de Futebol e, cabe repetir sempre, criador do uniforme da seleção canarinho. É dele esse resumo impecável: o vestiário “é um mundo fechado e interdito de onde os homens saem mudos e deslembrados; de onde, logo, já não se sabe e não se diz o que se viu ou se ouviu; de onde, depois de tudo, já não se recorda o que se fez ou o que se deixou de fazer”.

O depoimento de João Gilberto Noll comove também pela síntese, capturando o instante sem tempo das fotos: “Vemos jogadores em um campeonato de segunda divisão num intimismo viril, nos toscos vestiários, alguns ensaboados debaixo dos chuveiros, entre confidências discretas, surdos palpites talvez”.

A apresentação de Alfredo Aquino é um sumário que revela: “O que vemos neste livro está antes do apito inicial e logo após o apito final, ou seja, sem a competição, sem a luta e sem o lúdico...” E podemos completar: trabalhado com esmero e paixão, uma obra de arte superior.


01 de agosto de 2011 | N° 16779
PAULO SANT’ANA


Um furo, pra distrair

Eu ontem, às 10h, ouvi uma notícia estarrecedora na Rádio Gaúcha: como todos sabem, não existe mais ministro do Exército, nem ministro da Guerra.

O cargo equivalente agora é o de comandante do Exército. E a notícia dizia que o comandante do Exército brasileiro está envolvido em uma fraude no valor de R$ 11 milhões. E que mais oito generais também estão sendo investigados, junto com o comandante, sobre essa fraude que atinge o Departamento de Engenharia do Exército.

Preteou o olho da gateada. É o fim da picada. E vou torcer para que não seja verdade.

É o fim da picada ou não é? Antes de responder, saibam que o prefeito de Cidreira, sábado passado, teve sua casa assaltada, ele foi amarrado e amordaçado junto com um casal de idosos, os ladrões levaram R$ 5 mil e o churrasco já assado que ele estava servindo.

Mas o pior veio depois: o prefeito teve de registrar a queixa do assalto na delegacia de polícia de Tramandaí porque todas as delegacias do seu município estavam fechadas, custa a acreditar. Polícia com delegacia fechada não existe.

Preteou o olho da gateada.

São testemunhas os meus leitores, os meus ouvintes e os meus telespectadores de que para mim não foi surpresa este fato amargo de que o Grêmio esteja à beira do rebaixamento.

Para mim não foi difícil prever: observei apenas que todos os times que se encontravam abaixo do Grêmio na tabela não eram piores do que o Grêmio. Eram – tristemente deponho e peço que me acreditem – melhores do que o Grêmio. Só esta coluna previu a possibilidade iminente do rebaixamento.

E se o futebol guardava alguma lógica, o Grêmio tinha de ser rebaixado.

Anteontem, após a derrota para o Flamengo, o vice-presidente gremista Vicente Martins disse, entre outras coisas, o seguinte no microfone da Gaúcha: “O presidente Paulo Odone não pode sair. Ele é eleito e, apesar dos maus resultados, não pode sair.”

Qualquer pessoa minimamente inteligente entendeu o certo: Vicente Martins estava dizendo que ele próprio é que teria de sair.

Foi o que afinal acabou acontecendo. Vicente pediu demissão a Odone sábado mesmo. E hoje será formalizado o seu afastamento. Esta notícia da queda de Vicente eu acabei dando, ontem às 19h18min, com absoluta exclusividade na Rádio Gaúcha. O coroa aqui ainda está em forma, furando a periferia.

Vicente Martins, ao pedir demissão, foi um verdadeiro gremista, colocou o clube acima de sua vaidade pessoal.

Alguma coisa tinha de ser feita. O Grêmio corre como um bólido para o rebaixamento.

Odone, repleto de erros de cálculo e de gestão futebolística, tomou, afinal, uma atitude firme.

Tem de colocar no futebol quem entenda realmente do metiê. O Grêmio precisa de uma sacudida forte: existem elementos sólidos de informação no sentido de que há frouxidão na conduta dos jogadores fora do campo. Salários milionários, resultados horrorosos...

É necessário firmeza e muita vontade de sair dessa posição vergonhosa que o Grêmio ocupa na tabela.

E quem se candidata a ser treinador do Grêmio é Celso Roth: se Julinho cochilar, o cachimbo cai.


01 de agosto de 2011 | N° 16779
L. F. VERISSIMO


Fada Boa contra Fada Má

O jantar anual da associação dos correspondentes estrangeiros em Washington é uma oportunidade para políticos locais dizerem coisas que normalmente não diriam e rirem de si mesmos. Começando pelo presidente da república, que é sempre convidado a falar e sempre fala no tom autodepreciativo que se espera de um cara legal, gente como a gente.

Num desses jantares mostraram um clip, especialmente gravado para a ocasião, do George Bush, no gabinete da presidência, olhando dentro de gavetas, atrás das cortinas e embaixo dos móveis e dizendo “Aquelas armas de destruição em massa têm que estar em algum lugar...” .

Seria mais engraçado se a invasão do Iraque ordenada por Bush, motivada pelas armas de destruição em massa que não estavam lá, já não tivesse matado alguns milhares de pessoas. No mesmo jantar, Bush fez outra piada simpática: falou da elite econômica americana, dos milionários e dos arrogantes barões de Wall Street, “que vocês chamam de gatos gordos e insensíveis e eu chamo de... Meu eleitorado.” Risos. Palmas. O cinismo faz muito sucesso nos tais jantares.

Bush não decepcionou seu eleitorado. Foi fiel à tese de que deixando os gatos gordos se lambuzarem com concessões e privilégios, como cortes dos seus impostos e pouco controle dos seus excessos, algum benefício escorreria para a maioria. A famosa “trickle-down economics” da era Reagan ainda perdura, e Bush tornou o melado ainda mais doce para os ricos.

Essa briga entre os republicanos e o Barack Obama sobre elevar ou não o teto para o endividamento americano e como fazer para diminuir o déficit nacional é – ou era, imagino que já tenha se resolvido, ou dado empate – entre o legado de Bush e a mínima obrigação do Obama de defender o seu eleitorado do poder da ganância. Um lado quer diminuir o déficit cortando gastos sociais e mantendo intocados os privilégios dos ricos, o outro quer manter os gastos sociais e taxar mais os ricos.

O Obama não está sendo, no governo, exatamente o que seu eleitorado esperava. Compreende-se, tem que ser mais flexível do que coerente para lidar com um congresso hostil e cuidar da sua sobrevivência, não só política, mas – a julgar pela retórica cada vez mais furiosa da direita contra ele – física também.

Mas na questão de quem deve pagar pelo déficit nenhuma flexibilidade era possível. Tratava-se de escolher entre leite para crianças e mais lucro para banqueiros, Fada Boa contra Fada Má.

Mas estou escrevendo antes do desfecho da briga, não sei se o Baraca cedeu. As Fadas Boas andam em recesso no mundo todo.