terça-feira, 2 de agosto de 2011



02 de agosto de 2011 | N° 16780
LUÍS AUGUSTO FISCHER


Ensinar literatura no mundo globalizado

É certo que nosso tempo, este que sucede ao fim da Guerra Fria, o tempo da completa hegemonia do capital financeiro sem compromisso com plantas industriais ou com estruturas sociais localizadas concretamente, o tempo da internet e tudo que ela aciona em matéria de internacionalismo cotidiano, vive um novo momento no que se refere à noção de nacional – nacionalidade, identidade nacional e tudo o mais.

Não há quem possa pensar na dimensão nacional como fazia até 20 anos atrás, quando a relação de cada indivíduo com a informação era mediada por instituições muito menos dinâmicas do que a internet (a escola, o rádio, a televisão, a indústria de bens culturais), todas elas profundamente radicadas em cada país ou região.

A entrada em cena da internet, para o campo literário, é um fato com consequências certamente fortes, que ainda mal conseguimos avaliar, mas que podem ser registradas ao menos num patamar: mudou, para sempre, a relação da produção literária e intelectual com as antigas demandas do âmbito nacional.

Não significa que esse âmbito tenha desaparecido, nem no plano das instituições formais (o ensino, por exemplo), nem no plano da literatura; mas ele mudou, para sempre.

Neste caso o Brasil tem a peculiaridade de ser um país gigantesco, com certa vocação imperial, e é o único país de língua portuguesa na América, sendo ainda o mais populoso país dessa importantíssima língua, a quinta ou sexta em número de falantes no planeta, o que não é pouco.

E mais: a escola brasileira, nas últimas duas décadas, está de fato chegando a todo mundo. Precária que seja, mas está chegando. E os sucessivos governos federal e municipais (o estadual gaúcho não, lamentavelmente) têm desenvolvido programas de incentivo à leitura e comprado muito livro para alunos e escolas, de forma que podemos dizer que estamos aumentando bastante o número de leitores no país, finalmente.

Neste mundo relativamente novo, uma das coisas que mais me tem feito pensar é como conceber programas e práticas de ensino de literatura. Ao menos uma pergunta se impõe: a escola, no Brasil, deve manter sua tradição de estudar apenas literatura brasileira, especialmente no Ensino Médio?

Eu também acho que não devemos manter essa perspectiva, inventada sob a lógica romântica e mantida pela lógica modernista. Mas se não, qual a regra que podemos pensar para a inclusão de outros autores e outras tradições literárias? Deixamos Alencar para trás, em definitivo, em favor de, sei lá, Balzac, James Fenimore Cooper e algum romancista chinês? Bá.


02 de agosto de 2011 | N° 16780
PAULO SANT’ANA


Minha homenagem

Eu hoje queria prestar uma última e silenciosa homenagem a todas as pessoas que estão irremediavelmente amarradas a um mau destino.

Minha homenagem aos que tentaram por todas as formas ser felizes e bateram contra as pedras rudes do seu destino imutável.

Aos que se debateram contra a insensibilidade dos outros, contra a maldade dos outros, contra a indiferença dos outros. Minha homenagem.

Aos que trombaram com a irredutibilidade. Aos que não conseguiram mudar a trajetória do seu cruel destino.

Aos que cedo perceberam que não ia dar, e acabou não dando.

Aos que imploraram bom senso, aos que chegaram a pedir piedade ao carrasco de suas circunstâncias e obtiveram como resposta somente a recusa. A fria e má recusa dos implacáveis.

Minha homenagem aos que tudo fizeram para remover os obstáculos que se antepunham para sua realização e encontraram só a fria e marmórea incompreensão dos outros.

Minha sentida homenagem. Minha póstera homenagem.

Tenho-lhes compaixão e respeito por sua árdua luta. Sei das inglórias batalhas que travaram para dar nova feição ao seu destino. Sei-o, sou testemunha remota e virtual de seu combate para tentar moldar o seu triste, deplorável e por fim sinistro destino.

Gastaram todas as suas forças e o que lhes restava de talento talvez para dar novo rumo às suas vidas.

E guardam na secura da sua pele e na tristeza de seus olhos a marca irremovível do fracasso.

É o destino. É o seu destino.

Foram bravos, não há mais o que se lhes possa exigir. É possível que tenham dado passos falsos, é possível que ali e aqui tenham incorrido em erros de escolha. Mas se corrigiram e se agasalham hoje na consciência de que afinal foram justos, foram honestos, foram retos e tudo fizeram para tentar convencer os que os contrariavam de que eram merecedores de justiça compassiva.

Tenho por eles profunda admiração. Não passam hoje de derrotados espectros de um ideal perdido, que foi perseguido, que foi buscado, que foi sonhado mas esboroou-se no terreno infértil das inúteis quimeras.

Eis que, face em terra, dirijo-lhes estas derradeiras palavras. Que suas vidas esvaziadas e seus corações inermes se tornem apenas um marco de quanto é ingrato o destino dos injustiçados, dos que não mereceram esse fim hediondo, o fim da esperança, o fim da vida em vida.

E, por fim, dou-lhes um consolo ou uma consideração: estas palavras talvez, com quase certeza, eu esteja dirigindo a mim próprio, alvo infeliz e trôpego desse trágico insucesso.

E é certo que nesta histórica coluna eu tenha vazado a minha dor suprema.


02 de agosto de 2011 | N° 16780
FABRÍCIO CARPINEJAR


Mistérios da adolescência

Elias era um camelo.

Mesmo. Amigo de trago da adolescência. Nunca ia ao banheiro. Tomava todas e permanecia sentado, puxando a roda no Bar do Beto.

Sua tática amorosa resumia a resistência: não abandonar jamais o posto de guarda. Monopolizou a condição de maior sedutor da Fabico, pelo simples fato de não se levantar para mijar. Ele me dizia:

– Em algum momento, você terá que sair da mesa e aproveitarei a chance de conversar sozinho com a menina.

Ganhava vantagem por atravessar a corrida inteira sem nenhuma troca de pneus. Não perdia tempo com pit stop no mictório. Não experimentava a longa ampulheta das filas, o constrangimento da espiral de gente no corredor. Não gastava um segundo em reabastecimento, reparos, ajustes mecânicos. A sola dos seus sapatos não cheirava o piso ensebado.

Um verdadeiro herói da bexiga presa, queniano da São Silvestre, apto a segurar litros e litros de cerveja longe de sofrer caretas e aperto das pernas.

Poderia estar chovendo, com barulho da torrente escorrendo do toldo, mas ele ficava inabalável, alheio aos comandos de esvaziamento do cérebro.

Nós, homens normais, após horas e horas de cochichos e cantadas, não aguentávamos a maratona do deserto e pedíamos licença para nossos flertes.

Despudorado e lépido, Elias continuava o papo com as nossas pretendentes. Quinze minutos de prorrogação que mudavam o resultado da partida. Quando voltávamos do toalete, a menina, antes tão dedicada às nossas palavras, girava o rosto em chave de boca com ele.

Dava um desespero. Ele nem era bonito, mais para as orelhas de Serge Gainsbourg do que para os olhos de Frank Sinatra. Muito colega desistiu da faculdade de Jornalismo em função da concorrência desleal. Diante de Elias, qualquer um se reduzia a um mijão.

Não entendíamos o desempenho espartano, o mistério budista de autocontrole. Como ele não precisava das passagens obrigatórias ao banheiro?

Iniciamos escala de vigia de seus passos, revezamento da turma; o garçom receberia 20% para informar de eventuais movimentações dele no fundo do prédio, território sagrado dos sanitários. Nada foi comprovado. Será que fazia ioga? Será que havia atingido o alaya-vijnana, o oitavo e mais tênue nível de consciência, onde as sementes cármicas são armazenadas?

Estou rindo até agora. Duas décadas transcorridas, Elias confessou seu segredo: por desforra e para nos humilhar, usava fralda geriátrica.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011



01 de agosto de 2011 | N° 16779
ARTIGOS - Paulo Vellinho*


A encruzilhada

Sem dúvida, os nossos governantes e de um modo especial a nossa presidente, o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central encontram-se na mais difícil encruzilhada de sua vida profissional, e qualquer que seja a decisão poderá ter repercussões importantes, tanto em nosso futuro social quanto econômico.

Sua origem reside na supervalorização do real em relação ao dólar, a qual deve ser vista sob dois aspectos:

1) Os altos juros estabelecidos pelo Copom atraem para o nosso país bilhões de dólares dos quais a maior parte ingressa com o objetivo especulativo, qual seja, de tomar dinheiro emprestado lá fora a juros baixíssimos ou quase zero, destinando os recursos advindos à compra de títulos do governo brasileiro, papéis seguros, praticamente sem risco, estabelecendo assim um irrecusável “negócio” que não gera para o Brasil riqueza ou muito menos emprego.

A vantagem desta política e deste resultado é que, com o dólar a R$ 1,60, as importações nesse valor vil ajudam a manter sob controle o combate à inflação.

Nenhum de nós deseja a volta do regime inflacionário, pois castiga os mais pobres e destrói todos os parâmetros socioeconômicos de uma sociedade.

Além disso, se considerarmos a estratégia de poder da China comunista, que exporta seus produtos manufaturados em valores abaixo do custo da matéria-prima, deve-se dizer que não só o Brasil, mas o mundo ocidental está a “reboque” desse dumping programado para o mal.

Na esteira dessa compra, compra lá de fora, convém registrar, os US$ 16 bilhões despendidos em 2010 e os US$ 10 bilhões no primeiro semestre deste ano, nas viagens “culturais” que se prestam também para comprar lá fora até pasta de dentes.

O total de 1 milhão de automóveis a serem importados em 2011, tendo uma indústria automobilística de Primeiro Mundo, tanto é que exporta seus carros para o Exterior, pode dar uma ideia da “orgia” da queimação não só de nossas reservas, mas principalmente de postos de trabalho, sem considerar o custo da deseconomia de escala.

2) Em contraposição às “vantagens” obtidas acima, cobram um inimaginável custo social e econômico: a desindustrialização do Brasil, sendo jogados pelo ralo os patrimônios físicos das empresas, sua tecnologia e, acima de tudo, e mais grave: provocarão uma crise terrível de desemprego.

Deve-se ainda considerar que a China (o governo comunista), em cumprimento de sua estratégia de poder, está investindo maciçamente em países potencialmente ricos em termos de superfície, subsolo e sol, do que deverá resultar no caso do Brasil o seu confinamento à triste posição de exportador de commodities, sem agregação de valor, matérias-primas estas que serão cada vez mais raras e, consequentemente, valorizadas pelas potências do Primeiro Mundo.

O mundo vai precisar da América Latina e da África para alimentar o seu futuro.

Estamos ou não estamos em uma terrível encruzilhada?

Deve-se refletir muito sobre o acima exposto, pois o futuro de nossos netos poderá estar comprometido.

*Cidadão brasileiro e empresário


01 de agosto de 2011 | N° 16779
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL


Futebol

Cabe celebrar aqui Camisa Brasileira, uma obra cúmplice do fotógrafo Gilberto Perin e do escritor Aldyr Schlee, a que se somaram um depoimento de João Gilberto Noll e o trabalho de um editor – e poeta – sensível, Alfredo Aquino e sua ardotempo.

É um livro sobre o Grêmio Esportivo Brasil, de Pelotas. O que poderia ser uma peça de ardor clubístico, transforma-se numa reflexão sobre o ser humano. A arte soberba de Gilberto Perin seguiu parte da campanha do Brasil no ano passado, entre vitórias e derrotas, momentos de desânimo e euforia.

Os protagonistas são os próprios jogadores, captados em diferentes vestiários e túneis. Os jogadores não são identificados. O fotógrafo capturou suas imagens e dividiu-as em secções que indicam os elementos que perpassam os vestiários: a preparação do jogo, a fé religiosa dos atletas, a dor, a solidão dos expulsos de campo.

O capítulo da fé impressiona: são pequenas imagens de santos, galho de arruda atrás da orelha, Jesus Cristo e Iemanjá, rezas coletivas. Já a preparação mostra a indigência de alguns vestiários, com suas duchas de plástico, azulejos faltantes, paredes cobertas de mofo. A glória das vitórias e o desalento das derrotas constituem uma das partes mais dramáticas – mas ambas se parecem, em seus efeitos psicológicos: choros e abraços.

Costurando as fotos e dando-lhes uma identidade única, está o texto de Aldyr Schlee, escritor de Contos de Futebol e, cabe repetir sempre, criador do uniforme da seleção canarinho. É dele esse resumo impecável: o vestiário “é um mundo fechado e interdito de onde os homens saem mudos e deslembrados; de onde, logo, já não se sabe e não se diz o que se viu ou se ouviu; de onde, depois de tudo, já não se recorda o que se fez ou o que se deixou de fazer”.

O depoimento de João Gilberto Noll comove também pela síntese, capturando o instante sem tempo das fotos: “Vemos jogadores em um campeonato de segunda divisão num intimismo viril, nos toscos vestiários, alguns ensaboados debaixo dos chuveiros, entre confidências discretas, surdos palpites talvez”.

A apresentação de Alfredo Aquino é um sumário que revela: “O que vemos neste livro está antes do apito inicial e logo após o apito final, ou seja, sem a competição, sem a luta e sem o lúdico...” E podemos completar: trabalhado com esmero e paixão, uma obra de arte superior.


01 de agosto de 2011 | N° 16779
PAULO SANT’ANA


Um furo, pra distrair

Eu ontem, às 10h, ouvi uma notícia estarrecedora na Rádio Gaúcha: como todos sabem, não existe mais ministro do Exército, nem ministro da Guerra.

O cargo equivalente agora é o de comandante do Exército. E a notícia dizia que o comandante do Exército brasileiro está envolvido em uma fraude no valor de R$ 11 milhões. E que mais oito generais também estão sendo investigados, junto com o comandante, sobre essa fraude que atinge o Departamento de Engenharia do Exército.

Preteou o olho da gateada. É o fim da picada. E vou torcer para que não seja verdade.

É o fim da picada ou não é? Antes de responder, saibam que o prefeito de Cidreira, sábado passado, teve sua casa assaltada, ele foi amarrado e amordaçado junto com um casal de idosos, os ladrões levaram R$ 5 mil e o churrasco já assado que ele estava servindo.

Mas o pior veio depois: o prefeito teve de registrar a queixa do assalto na delegacia de polícia de Tramandaí porque todas as delegacias do seu município estavam fechadas, custa a acreditar. Polícia com delegacia fechada não existe.

Preteou o olho da gateada.

São testemunhas os meus leitores, os meus ouvintes e os meus telespectadores de que para mim não foi surpresa este fato amargo de que o Grêmio esteja à beira do rebaixamento.

Para mim não foi difícil prever: observei apenas que todos os times que se encontravam abaixo do Grêmio na tabela não eram piores do que o Grêmio. Eram – tristemente deponho e peço que me acreditem – melhores do que o Grêmio. Só esta coluna previu a possibilidade iminente do rebaixamento.

E se o futebol guardava alguma lógica, o Grêmio tinha de ser rebaixado.

Anteontem, após a derrota para o Flamengo, o vice-presidente gremista Vicente Martins disse, entre outras coisas, o seguinte no microfone da Gaúcha: “O presidente Paulo Odone não pode sair. Ele é eleito e, apesar dos maus resultados, não pode sair.”

Qualquer pessoa minimamente inteligente entendeu o certo: Vicente Martins estava dizendo que ele próprio é que teria de sair.

Foi o que afinal acabou acontecendo. Vicente pediu demissão a Odone sábado mesmo. E hoje será formalizado o seu afastamento. Esta notícia da queda de Vicente eu acabei dando, ontem às 19h18min, com absoluta exclusividade na Rádio Gaúcha. O coroa aqui ainda está em forma, furando a periferia.

Vicente Martins, ao pedir demissão, foi um verdadeiro gremista, colocou o clube acima de sua vaidade pessoal.

Alguma coisa tinha de ser feita. O Grêmio corre como um bólido para o rebaixamento.

Odone, repleto de erros de cálculo e de gestão futebolística, tomou, afinal, uma atitude firme.

Tem de colocar no futebol quem entenda realmente do metiê. O Grêmio precisa de uma sacudida forte: existem elementos sólidos de informação no sentido de que há frouxidão na conduta dos jogadores fora do campo. Salários milionários, resultados horrorosos...

É necessário firmeza e muita vontade de sair dessa posição vergonhosa que o Grêmio ocupa na tabela.

E quem se candidata a ser treinador do Grêmio é Celso Roth: se Julinho cochilar, o cachimbo cai.


01 de agosto de 2011 | N° 16779
L. F. VERISSIMO


Fada Boa contra Fada Má

O jantar anual da associação dos correspondentes estrangeiros em Washington é uma oportunidade para políticos locais dizerem coisas que normalmente não diriam e rirem de si mesmos. Começando pelo presidente da república, que é sempre convidado a falar e sempre fala no tom autodepreciativo que se espera de um cara legal, gente como a gente.

Num desses jantares mostraram um clip, especialmente gravado para a ocasião, do George Bush, no gabinete da presidência, olhando dentro de gavetas, atrás das cortinas e embaixo dos móveis e dizendo “Aquelas armas de destruição em massa têm que estar em algum lugar...” .

Seria mais engraçado se a invasão do Iraque ordenada por Bush, motivada pelas armas de destruição em massa que não estavam lá, já não tivesse matado alguns milhares de pessoas. No mesmo jantar, Bush fez outra piada simpática: falou da elite econômica americana, dos milionários e dos arrogantes barões de Wall Street, “que vocês chamam de gatos gordos e insensíveis e eu chamo de... Meu eleitorado.” Risos. Palmas. O cinismo faz muito sucesso nos tais jantares.

Bush não decepcionou seu eleitorado. Foi fiel à tese de que deixando os gatos gordos se lambuzarem com concessões e privilégios, como cortes dos seus impostos e pouco controle dos seus excessos, algum benefício escorreria para a maioria. A famosa “trickle-down economics” da era Reagan ainda perdura, e Bush tornou o melado ainda mais doce para os ricos.

Essa briga entre os republicanos e o Barack Obama sobre elevar ou não o teto para o endividamento americano e como fazer para diminuir o déficit nacional é – ou era, imagino que já tenha se resolvido, ou dado empate – entre o legado de Bush e a mínima obrigação do Obama de defender o seu eleitorado do poder da ganância. Um lado quer diminuir o déficit cortando gastos sociais e mantendo intocados os privilégios dos ricos, o outro quer manter os gastos sociais e taxar mais os ricos.

O Obama não está sendo, no governo, exatamente o que seu eleitorado esperava. Compreende-se, tem que ser mais flexível do que coerente para lidar com um congresso hostil e cuidar da sua sobrevivência, não só política, mas – a julgar pela retórica cada vez mais furiosa da direita contra ele – física também.

Mas na questão de quem deve pagar pelo déficit nenhuma flexibilidade era possível. Tratava-se de escolher entre leite para crianças e mais lucro para banqueiros, Fada Boa contra Fada Má.

Mas estou escrevendo antes do desfecho da briga, não sei se o Baraca cedeu. As Fadas Boas andam em recesso no mundo todo.

domingo, 31 de julho de 2011

Leia gratuitamente os livros do escritor Paulo Coelho

Especial para você leitor deste Blogger

RULES OF THE GAME

A] I the case that you download a book and like it, please buy the book, so we can tell to the industry that sharing contents is not life threatening to the book business.
B] You can do a relevant service to your community. Print and handle FOR FREE to a local library in a small town, to a hospital, to a prison. The intention of Pirate Coelho (as well as my free web books) is first and foremost share thoughts with people who cannot afford buying books.

REGRAS DO JOGO

A) se baixar um livro e gostar da leitura, por favor compre. Isso mostrará às editoras que dividir é multiplicar
B) Use a cópia que imprimiu e faça uma doação para a biblioteca da sua cidade, um hospital, ou uma prisão.

A intenção de Pirate Coelho é permitir acesso de meus livros à gente que não tem dinheiro para compra-los.

Obrigado/ Thank you

Paulo Coelho

http://paulocoelhoblog.com/2009/08/31/pirate-coelho-2/

Dear Paulo:
thank you for these gifts. Everytime an artist, or writer share his or her work, it inspires me to buy the publications for me and also as gifts for friends.

DANUZA LEÃO

Liberdade, oh, liberdade

Ah, que maravilha: vai aonde quer, volta na hora que bem entende, sem ninguém para reclamar

TODO MUNDO quer ser livre; a liberdade é o bem mais precioso, almejado por homens e mulheres de todas as idades, e a luta para conquistá-la começa bem cedo. Desde os primeiros meses de idade só se pensa em uma coisa: fazer apenas o que quer, na hora que quer, do jeito que quer.

Crianças de meses rejeitam a mamadeira de três em três horas, mas choram quando têm fome (só querem comer quando têm fome, o que é muito justo) e quando um pouco mais grandinhas, brigam para não vestir a roupa que a mãe escolheu.

Ficam loucas para ir sozinhas para o colégio, e quando chegam em casa além do horário previsto, ai de quem perguntar onde elas estiveram. "Por aí", é o que respondem, quando respondem -e as mães que enlouqueçam.

Quando adolescentes, as coisas pioram: querem a chave da casa (e a do carro), e quando começam a sair à noite e os pais tentam estabelecer uma hora para chegar, é guerra na certa, com as devidas consequências: quarto trancado, onde ninguém pode entrar nem para fazer uma arrumação básica.

Naquele território ninguém entra, pois é o único do qual ele se sente dono -portanto, livre. A partir dos 12 anos, o sonho de todos os adolescentes é morar num apart -sozinhos, claro.

Mas o tempo passa, vem um namoro mais sério, e quem ama não é -nem quer ser- livre (para que o outro também não seja). Dá para quem está namorando sumir por três dias? Claro que não. Se for passar o fim de semana na casa da avó, em outra cidade, vai ter que dar o número do telefone, e isso lá é liberdade? Os celulares permitem, pelo menos, que eles não atendam, já que sabem quem está ligando.

Aí um dia você começa a achar que para ser livre mesmo é preciso ser só; começa a se afastar de tudo e cancela o amor em sua vida, entre outras coisas. Ah, que maravilha: vai aonde quer, volta na hora que bem entende, resolve se o almoço vai ser um sanduíche ou nada, sem ninguém para reclamar da geladeira vazia, trocar o canal de televisão ou reclamar do fumacê no quarto. Ah, viver em total liberdade é a melhor coisa do mundo.

Mas a vida não é simples, e um dia você acorda pensando em mudar de casa; fica horas pesando os prós e contras, mas não consegue decidir se deve ou não. Pensa em refrescar a cabeça e ir ao cinema, mas fica na dúvida -enfrentar a fila, vale a pena? Vê a foto de uma modelo na revista e tem vontade de cortar o cabelo igual, mas será que deve?

Acaba não fazendo nada, e depois de tantos anos sem precisar dar satisfação da vida a ninguém, começa a sentir uma estranha nostalgia.

Como seria bom se tivesse alguém para dizer que é loucura fazer uma tatuagem; que aconselhasse a não trocar de carro agora -pra que, se o seu está tão bom?

Que mostrasse o quanto foi injusta com aquela amiga e precipitada quando largou o marido, o quanto foi rude com a faxineira por bobagem. Que falasse coisas que iam te irritar, desse conselhos que você ia seguir ou não, alguém com quem você pudesse brigar, que te atormentasse o juízo às vezes, para poder reclamar bastante. Alguém que dissesse o que deve ou não fazer, o que pode e o que não pode, e até mesmo te proibisse de alguma coisa.

E que às vezes notasse suas olheiras e falasse, de maneira firme, que você está muito magra e talvez exagerando na dieta; alguém que percebesse que faltando dez dias para o final do mês você só tem R$ 50 na carteira e perguntasse se você não está precisando de alguma coisa. E que dissesse sempre, em qualquer circunstância, "vai dar tudo certo".

Que falta faz um pai.

danuza.leao@uol.com.br


ELIANE CANTANHÊDE

Tudo balança, mas não cai

BRASÍLIA - A maior preocupação da presidente Dilma Rousseff, como ela deixou evidente na posse de Ollanta Humala no Peru e nos encontros com Cristina Kirchner em Brasília, é com os efeitos ainda não bem definidos da crise dos EUA no mundo, na América do Sul e, consequentemente, no Brasil.

De público, Dilma diz que teme o desequilíbrio das moedas da região em função do esfarelamento do dólar, como também a enxurrada de produtos manufaturados que, sem compradores nos países ricos, tendem a inundar os emergentes. A enxurrada, se houver, pode afetar as indústrias e os empregos nacionais -do Brasil e dos vizinhos.

Em privado, o que prevalece é o temor aliado às incertezas, ou seja, uma grande interrogação. Ninguém sabe, ao certo, em que ponto o endividamento americano e o impasse político de Barack Obama vão se somar à fragilidade de países europeus. E no que tudo isso, junto, vai dar a curto e médio prazos.

Mas, enquanto a agonia de Dilma é com a crise mundial que vai tomando forma, como uma nuvem carregada, a de Lula e dos lulistas é mais doméstica: as consequências da faxina nos Transportes.

Não é por acaso que só 1% (1% mesmo!) das obras do PAC na área justamente de transportes estão prontas, mas a preocupação é outra: a tentativa do PR de extrapolar sua insatisfação para os demais partidos aliados. A ministra Ideli Salvatti está encarregada de acalmar a turma com cargos, mas algo emperra a tarefa: Dilma exige "ficha limpa". Sobram poucos...

Esta semana, portanto, promete grandes emoções, com o mundo e o governo brasileiro aos sobressaltos. E tem mais: o ministro Nelson Jobim vai amanhã ao programa "Roda Viva", da TV Cultura. Jobim, o que balança, mas não cai, está em fase de dizer verdades por aí e, como todos sabemos, a verdade às vezes dói. Quando dói na presidente da República, o tombo passa a ser questão de tempo.

elianec@uol.com.br

EDSON ARAN

O baú dos templários

Não é por acaso que a direita fundamentalista se inspirou nos templários: eles são os maiores heróis (ou os piores vilões) de toda a cristandade

Até que demorou para a extrema direita europeia buscar inspiração nos templários para seus atos terroristas, como fez Anders Breivik.

O norueguês homicida afirma pertencer a uma nova Ordem dos Cavaleiros do Templo, que reúne europeus engajados em combater o multiculturalismo em geral e o islã em particular.
Faz sentido. Dependendo do ponto de vista, os templários são os maiores heróis da cristandade -ou os piores vilões.

A ordem foi fundada no 19º ano do Reino Cristão de Jerusalém, que havia sido conquistado meio por acaso em 1099, durante a Primeira Cruzada. Como a população da cidade fora dizimada pelos invasores -que não fizeram distinção entre cristãos ortodoxos, judeus e muçulmanos-, os novos soberanos passaram a pregar a imigração de europeus para a Terra Santa.

O problema é que as rotas eram infestadas de criminosos. Em 1118, Hugo de Payens e mais oito cavaleiros criaram uma organização autônoma de monges combatentes para proteger os peregrinos. A ordem jurava fidelidade apenas ao papa e, financiada por impostos eclesiásticos, se tornou o primeiro exército regular do Ocidente desde a queda de Roma em 476 d.C.

Com a conquista de Jerusalém por Saladino, em 1187, os templários voltaram sua atenção para a Europa, onde adquiriram vastas extensões de terra e organizaram um rudimentar sistema bancário. As lendas, no entanto, os transformaram em guardiões do Santo Graal, o místico cálice que Jesus Cristo usara na Santa Ceia e que servira para recolher seu sangue na cruz.

Os mitos do Graal são uma espécie de compensação cultural pela perda da Terra Santa para o islã.

Não por acaso, em narrativas posteriores, o cálice se transforma na própria descendência de Cristo e Maria Madalena, que, refugiada no sul da França, dá origem à dinastia dos reis merovíngios e, mais tarde, à casa dos Habsburgos, soberanos do Império Austro-Húngaro. A linhagem, como o cálice, estaria sob a proteção dos templários, braço armado de organização ainda mais misteriosa, o Priorado de Sião.

Ao contrário da trama de "O Código Da Vinci", de Dan Brown, os guardiões do Graal não querem promover filosofia "new age", mas restaurar a monarquia na França e restabelecer o Reino Cristão de Jerusalém. Afinal, Jesus Jr., além de merovíngio e Habsburgo, também descende do rei Davi e, portanto, é legítimo soberano da Terra Santa.

Nada agrada mais à extrema direita do que sociedades secretas excludentes e elitistas. O nazismo sempre foi associado a ordens esotéricas, que, no entanto, não o salvaram da derrota. Os templários não tiveram melhor sorte.

A ordem foi exterminada em 1307, quando o último grão-mestre, Jacques De Molay, foi condenado à fogueira por heresia. A Inquisição acusava os cavaleiros de adorarem um demônio de três cabeças chamado Bafomé. Entre os ocultistas, a criatura é associada à sabedoria, mas há também quem veja em seu nome uma corruptela de "Maomé", que a ordem teria aprendido a cultuar na Terra Santa.
Se deus existe, ele tem mesmo um senso de humor dos diabos.
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EDSON ARAN é autor de "Conspirações - Tudo o que Não Querem que Você Saiba" e diretor de Redação da revista "Playboy".

sábado, 30 de julho de 2011



31 de julho de 2011 | N° 16778
MARTHA MEDEIROS


Amputações

Estamos falando de tudo que é nosso, mas que teve que deixar de ser na marra, em troca da nossa sobrevivência emocional

Quando o filme 127 Horas estreou no cinema, resisti à tentação de assisti-lo. Achei que a cena da amputação do braço, filmada com extremo realismo, não faria bem para meu estômago. Mas agora que saiu em DVD, corri para a locadora. Em casa eu estaria livre de dar vexame.

Quando a famosa cena se iniciasse, bastaria dar um passeio até a cozinha, tomar um copo d´água, conferir as mensagens no celular, e então voltar para a frente da TV quando a desgraceira estivesse consumada. Foi o que fiz.

O corte, o tão famigerado corte, no entanto, faz parte da solução, não do problema. São cinco minutos de racionalidade, bravura e dor extremas, mas é também um ato de libertação, a verdadeira parte feliz do filme, ainda que tenhamos dificuldade de aceitar que a felicidade pode ser dolorosa. É muito improvável que o que aconteceu com o Aron Ralston da vida real (interpretado no filme por James Franco) aconteça conosco também, e daquele jeito.

Mas, metaforicamente, alguns homens e mulheres conhecem a experiência de ficar com um pedaço de si aprisionado, imóvel, apodrecendo, impedindo a continuidade da vida. Muitos tiveram a sua grande rocha para mover e, não conseguindo movê-la, foram obrigados a uma amputação dramática, porém necessária.

Sim, estamos falando de amores paralisantes, mas também de profissões que não deram retorno, de laços familiares que tivemos de romper, de raízes que resolvemos abandonar, cidades que deixamos. De tudo que é nosso, mas que teve que deixar de ser, na marra, em troca da nossa sobrevivência emocional. E física, também, já que insatisfação é algo que debilita.

Depois que vi o filme, passei a olhar para pessoas desconhecidas me perguntando: qual será a parte que lhes falta? Não o “Pedaço de Mim” da música do Chico Buarque, aquela do filho que já partiu, mutilação mais arrasadora que há, mas as mutilações escolhidas, o toco de braço que tiveram que deixar para trás a fim de começarem uma nova vida.

Se eu juntasse alguns transeuntes, aleatoriamente, duvido que encontrasse um que afirmasse: cheguei até aqui sem nenhuma amputação autoprovocada. Será? Talvez seja um sortudo. Mas é mais provável que tenha faltado coragem.

Às vezes o músculo está estendido, espichado, no limite: há um único nervo que nos mantém presos a algo que não nos serve mais, porém ainda nos pertence. Fazer o talho sangra. Machuca. Dói de dar vertigem, de fazer desmaiar. E dói mais ainda porque se sabe que é irreversível. A partir dali, a vida recomeçará com uma ausência.

Mas é isso ou morrer aprisionado por uma pedra que não vai se mover sozinha. O tempo não vai mudar a situação. Ninguém vai aparecer para salvá-lo. 127 horas, 2.300 horas, 6.450 horas, 22.500 horas que se transformam em anos.

Cada um tem um cânion pelo qual se sente atraído. E um cânion do qual é preciso escapar.


31 de julho de 2011 | N° 16778
MISÉRIA NO ESTADO


O Rio grande indigente

No dia 12 de julho, Alessandra Rodrigues completou oito anos em um casebre feito de remendos de madeira apodrecida, comprado pelos pais por R$ 150 em Bagé. Não houve bolo, presente ou Parabéns a Você na rua sem iluminação pública ou calçamento, alagada pelo esgoto que corre a céu aberto.

O banho foi de balde, porque não há banheiro, só um buraco no chão para servir de latrina. Para atravessar o mês, Alessandra, a irmã e os pais contavam apenas com os R$ 130 do Bolsa-Família, programa federal que distribui valores variáveis conforme critérios.

– Eu queria bolo ou churrasco, mas minha mãe não fez nada. Ela explicou que não tem dinheiro. Só me deu parabéns – contou a aniversariante.

No Rio Grande do Sul orgulhoso de seus indicadores sociais, a miséria de famílias como a de Bagé tende a ser vista como uma anomalia, um mal restrito a bolsões recalcitrantes no entorno das grandes cidades, mas os números do Censo de 2010 contam uma história diferente.

Eles revelam um quadro de miséria endêmica. Vivem hoje com, no máximo, R$ 70 de rendimento per capita mensal – o critério federal para configurar a pobreza extrema – 385 mil gaúchos. Se essas pessoas formassem uma cidade, ela seria a terceira maior do Estado.

Saber quem são e onde estão essas pessoas revestiu-se de importância renovada a partir de 1° de janeiro, quando a recém-empossada presidente Dilma Rousseff prometeu erradicar a pobreza extrema no país.

Em junho, o governador Tarso Genro uniu-se à proposta, com o lançamento do programa RS Mais Igual. Para amparar essas ações governamentais, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aplicou filtros aos dados e quantificou os que mais necessitam do socorro público: são 306,6 mil dos 385 mil gaúchos.

Ao longo deste mês, Zero Hora debruçou-se sobre as estatísticas e percorreu as áreas do Rio Grande do Sul assoladas pela miséria para produzir um retrato dos gaúchos que vivem com quase nada.

O resultado, que será publicado entre este domingo e terça-feira, permite lançar um alerta: se as políticas públicas limitarem-se a transferir dinheiro, o problema não será resolvido. Como observa Flavio Comim, professor de Economia da Pobreza da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é preciso oferecer um horizonte às famílias.

– É fácil repassar dinheiro, dizer que se erradicou a miséria. Mas o que muda se a pessoa tiver R$ 71 por mês?

A família de Alessandra mostra que a solução é mais complexa. Sua mãe, Josiene Pereira Machado, 23 anos, largou a escola por causa da gravidez, aos 14 anos. Cresceu em meio à violência: um de seus 10 irmãos foi assassinado aos 12 anos.

Ao longo do tempo, ela e o marido, José Ricardo Rodrigues, 27 anos, não conseguiram mais do que biscates. A esperança de uma vida digna chegou apenas neste mês – e não veio do governo. José Ricardo conseguiu trabalho em uma estância. Ele receberia o primeiro salário, de R$ 680, neste fim de mês.

– Nossa vida vai mudar – alegrava-se Josiene, que agora vislumbra a possibilidade de oferecer um bolo à filha no próximo 12 de julho.


31 de julho de 2011 | N° 16778
VERISSIMO


Tem cada um...

Tem, por exemplo, o Victor, que não perde oportunidade de ostentar sua cultura; e o Pinheiro, cujo sono é lendário

Tem, por exemplo, o Victor, que não perde oportunidade de ostentar sua cultura, para divertimento e, às vezes, irritação da turma. Como na vez em que houve um silêncio na mesa do bar em que eles se reuniam e o Victor disse:

– Eu conheço este silêncio de um filme do Bergman.

O Marcão não aguentou.

– Como, de um filme do Bergman? Como um silêncio pode ser igual a outro silêncio, que não tem nada a ver?

O Victor apenas sorriu. Não poderia esperar que o Marcão, logo o Marcão, entendesse. O que mais irritava o Marcão era aquele sorriso do Victor.

Mas a melhor do Victor quem contou foi o Mendonça, médico, que também frequentava a turma. O Victor andava tossindo muito, e expectorando, e procurara o Mendonça no seu consultório.

– Acho que peguei a gripe.

– Você tem muito catarro? – perguntara o médico.

– Tenho.

– De que cor é o catarro?

E então o Victor pensara um pouco e respondera:

– Sabe o verde daquele afresco do Tiepolo no Palazzo Clerici, em Milão?

O Victor estava presente na mesa quando o dr. Mendonça contou o fato e apenas sorriu diante da gargalhada geral da turma. Depois deu de ombros e disse:

– O que eu vou fazer se vocês não viajam?

O Marcão ficou pra morrer.

E tem o Pinheiro, também chamado Pinho, cujo sono é lendário. Contam que o Pinho não pode ir ao cinema porque dorme no começo do filme, sempre. Filme de caubói, filme de guerra, inclusive intergaláctica... Não via nem os créditos completos.

– Você chegou a ver o nome do diretor, Pinho?

– Não, fui só até o produtor.

Mas não deve ser verdade o que contam sobre a separação do Pinho.

Contam que o casamento do Pinho e da Eneida não estava dando certo – em grande parte porque o Pinho invariavelmente dormia quando a Eneida começava a lhe dizer alguma coisa, às vezes no meio de uma frase. E que um dia a Eneida levantara da cama do casal, saíra à rua, contratara uma empresa de mudança e voltara com três carregadores, que passaram a tirar tudo de dentro do apartamento. Tudo. Geladeira, fogão, móveis da sala, televisão, mesa de jantar...

– Este armário também vai, dona?

– Tudo.

Deixaram o quarto de dormir, onde o Pinho ainda roncava em cima da cama, para o fim. E o quarto também foi esvaziado.

– E a cama, dona?

Eneida hesitou. Levava ou deixava a cama? Decidiu:

– A cama vai.

– E o doutor?

– Fica. Deixem o colchão pra ele.

Aqui as versões divergem. Há quem diga que a Eneida voltou atrás e mandou carregarem o colchão também, deixando o Pinho dormindo no chão. Outros dizem que o colchão, misericordiosamente, ficou. Mas todos concordam que, como não havia mais nada no apartamento onde colocar o bilhete de despedida que escrevera para o marido, a Eneida o colocara entre dois dedos do seu pé. Para o Pinho ler quando acordasse.


31 de julho de 2011 | N° 16778
PAULO SANT’ANA


Os lentos e os apressados

Tenho amigos que são lentos e tenho amigos que são apressados demais.

Tenho um amigo tão lento (não cito seu nome porque ele pode levar a mal), que demora uma hora e meia no banho. Sei porque foi sua mulher que me disse.

E tenho amigos tão apressados, que, quando conversamos, eles não prestam atenção no que eu digo porque estão empenhados em raciocinar sobre o que vão me dizer quando eu cessar de falar.

O Lauro Quadros, meu inimigo, é o sujeito mais apressado que conhecemos aqui na RBS. Ele nunca se detém para falar com ninguém. Quando alguém o chama, ele continua caminhando e comprime a pessoa que o acompanhe nos passos, só assim a atende.

O Lauro Quadros é a única pessoa do mundo que nunca tomou cafezinho com ninguém. Ele se recusa a parar em qualquer lugar, está sempre em andamento. Alega sempre, para evitar falar com qualquer um, que tem de ir ao banco. Se não for horário de banco, ele alega qualquer outro compromisso e continua caminhando. Não para nunca.

O Lauro Quadros, quando está em casa, à noite, em companhia da Maria Helena, sua mulher, vê televisão de pé: pronto para qualquer emergência.

Já o Siqueira é um outro amigo meu muito apressado. Ele entra no restaurante e já diz para o garçom, antes de sentar-se: “Por que ainda não trouxe o vinho?”.

O Siqueira, quando anda de táxi, sempre paga a corrida ao taxista antes de chegar ao destino. Porque basta estacionar o táxi e ele já sai correndo.

Interessantes as pessoas. E tenho uma curiosidade louca para saber como fazem sexo esses meus amigos lentos e apressados.

Os lentos devem agradar a suas mulheres, os apressados as desagradam, acho que é assim que funciona.

O Jurandir é tão apressado, que nunca pronunciou a palavra “alô” no telefone: ele já sai falando o que lhe interessa e jamais qualquer ligação sua demorou mais de um minuto.

Interessante é que se dá o seguinte com meus amigos no trânsito: os lentos andam em alta velocidade quando dirigem e os apressados chegam até a ser chatos, tão devagar eles trafegam.

Já um amigo que não vou citar o nome por motivo óbvio, quando vai receber uma conta, fica se coçando ansioso para que o devedor quite logo a dívida, completamente ao contrário de outro amigo que, quando vai pagar a conta, diante do credor, leva cerca de meia hora para assinar o cheque.

E finalmente uma sobre o Luiz Tesch, o meu amigo mais apressado: quando vai assistir a um show e o público delira com o artista e grita “bis, bis, bis”, ele a pleno pulmões vocifera: “A seguinte, a seguinte!”.

RUTH DE AQUINO

O chororô dos meritíssimos

Estou com pena dos juízes. Seus 60 dias de férias anuais podem ser reduzidos à metade. É uma maldade com os meritíssimos. O tratamento cerimonioso vem da palavra mérito. Os juízes estão acostumados aos superlativos. Digníssimo, excelentíssimo. Os salários e os benefícios do Judiciário também são superlativos. Quando um juiz é afastado por um abuso, é “punido” com aposentadoria integral. Na semana passada, o direito dos magistrados a férias em dobro foi ameaçado.

Quem comprou a briga foi o presidente do STF, Cezar Peluso. Em entrevista ao jornal O Globo, ele defendeu a redução das férias – ou melhor, a “equiparação” do descanso dos juízes ao de todos os assalariados brasileiros, com base nas leis trabalhistas. A reação da categoria foi estridente e imediata. O chororô afeta a credibilidade de uma classe bem remunerada que estuda em princípio para defender direitos iguais.

A carta aberta dos juízes é comovente. Eles defendem seus 60 dias de férias por motivo nobre. Trabalham demais e sob pressão, não recebem por hora extra, levam “processos complexos” para casa nos fins de semana. Professores, médicos, motoristas, todos deveriam se inspirar no direito ao ócio dos meritíssimos.

Os juízes explicam que, livres das audiências, trabalham durante as férias. E, por isso, precisam dos 60 dias. Para resolver a lerdeza da Justiça, talvez devêssemos ampliar ainda mais as férias dos juízes. Os processos não se acumulariam tanto, sem solução. Noventa dias de férias anuais seriam suficientes para tirar o atraso?

Não é apenas em nome da eficiência que a Associação dos Magistrados do Brasil se amotinou. Os juízes afirmam que férias dobradas reduzem a aposentadoria por invalidez ou morte prematura. Esse argumento parece piada de humor negro com os demais trabalhadores.

E a comédia não para aí. O senador petista Eduardo Suplicy criticou o privilégio dos juízes e promotores: “Há tantas outras profissões que exigem extraordinária dedicação e nem por isso têm férias maiores que o normal”. Suplicy esqueceu que ele e seus companheiros no Congresso têm direito a 55 dias de descanso remunerado por ano.
Eles querem manter o privilégio das férias mais longas. Onde vai parar a guerra às castas no Brasil?

O professor da PUC do Rio Luiz Werneck Vianna, autor do livro Corpo e alma da magistratura brasileira, defende as longas férias dos juízes. “É uma profissão estressante. Isso é coisa de classe média ressentida”, diz ele. O presidente da OAB, Ophir Cavalcanti, discorda: “ (A regalia) fere a igualdade que deve existir entre os cidadãos.

A Justiça brasileira é morosa também pelo excesso de férias, recesso e feriados”. A sociedade já não idealiza o magistrado, afirma o professor de história do Direito da FGV de São Paulo, José Reinaldo de Lima Lopes: “Está cada vez mais forte a mentalidade de que o juiz é um prestador de serviço como outro funcionário”. Foi-se o tempo em que o juiz era indicado pelo imperador ou pelo ministro da Justiça. Há concursos públicos.

Em abril deste ano, a polêmica foi outra. Tentou-se em vão exigir dos tribunais o expediente integral, das 9 horas às 18 horas. Não adiantou o presidente da OAB brigar pela igualdade: “A toga é apenas uma indumentária, e não um escudo para justificar a diferenciação entre os trabalhadores”. Um dos argumentos dos juízes foi o calor excessivo no fim da tarde. O horário dos tribunais em alguns Estados vai das 9 horas às 14 horas. É por isso que precisam de tantas férias para trabalhar. A realidade não cabe num expediente assim.

Onde vai parar a guerra às castas no Brasil? Dilma começou a faxina ética no governo e no Congresso – e isso rende votos. Não importa se as razões da presidente são altruístas ou estratégicas. Alguém começa a peitar os mercenários da política.

Mesmo que nenhum ex-ministro mensaleiro devolva o dinheiro, Dilma pode dar uma de Peluso e questionar por que deputados e senadores trabalham dois dias por semana, discutem só o que importa a eles, vendem a consciência em troca de benefícios regionais ou pessoais, gastam as verbas extras sem prestar contas e se esbaldam em recessos com passagens aéreas financiadas por nós. Vivem todos vidas superlativas, alguns com ficha suja. Sem a menor culpa.


30 de julho de 2011 | N° 16777
NILSON SOUZA


A execução e o terremoto

Se o futebol é mesmo uma metáfora da vida – como já afirmaram vários autores, incluindo-se aí o uruguaio Eduardo Galeano –, o pênalti, do ponto de vista do cobrador, é a encruzilhada entre o dever e o fracasso. Parece fácil, mas até os maiores craques tremem quando se encaminham para a bola. É uma espécie de pelotão de fuzilamento ao contrário: o artilheiro é que corre maior risco de ser alvejado pelo próprio tiro.

São 11 metros entre a marca fatal e as balizas, que formam um retângulo com 7m32cm de largura e 2m44cm de altura. Qualquer criança é capaz de colocar a bola num espaço dessa dimensão.

Claro que há um goleiro lá dentro, mas com enormes limitações, sem poder tirar os pés da linha antes da bola ser chutada. Porém, tudo se modifica numa cobrança decisiva: o gol fica diminuto, o goleiro se agiganta e a bola se transforma em chumbo para o homem encarregado de arremessá-la às redes. É pressão demais.

O estádio, qualquer estádio, se transforma num coliseu romano lotado de espectadores impacientes que fuzilam o gladiador com olhares implacáveis, exigindo a execução. Ele sabe que não pode falhar. Se errar, os polegares acusadores apontarão inexoravelmente para o chão.

Atletas treinam muito para executar com perfeição os movimentos do esporte. O cobrador de pênaltis já fez dezenas, centenas, até milhares de vezes o que vai fazer agora. Mas ele sabe que nenhuma daquelas vezes foi igual a outra. Sabe, também, que a bola tem as suas manhas, às vezes tem vontade própria, nem sempre cumpre a trajetória pretendida pelo pé que a impulsiona.

O torcedor não sabe disso. De pé na arquibancada, ou roendo as unhas diante da televisão, imagina que é moleza acertar o cantinho, colocar a bola no ângulo, enganar o goleiro com um chute de efeito.

Nem lhe passa pela cabeça que aquele homem encarregado da cobrança leva nos ombros um fardo maior do que pode suportar. É inadmissível, para a lógica da paixão, que um jogador profissional possa arrematar por cima do travessão daquela distância, chutar pela linha de fundo ou – o improvável que tanto se repete – acertar uma trave de, no máximo, 12 centímetros de espessura.

Mas o carrasco prestes a se transformar em condenado sabe que até um pequeno terremoto costuma ocorrer naqueles décimos de segundo em que ele avança para a bola. E o pior é que ninguém vai acreditar que a grama se desprendeu sob seus pés, que a própria marca do pênalti se movimentou e que o tremor do mundo (ou de suas pernas?) tirou-lhe a concentração.


30 de julho de 2011 | N° 16777
PAULO SANT’ANA


Só 15 linhas

Que século! Os Estados Unidos estão a ponto de quebrar e passar o calote em seus credores!

E que culpa terá o Brasil se os Estados Unidos forem à falência? Mas há um justificado temor de que todos no mundo venham a sofrer as consequências dessa moratória norte-americana.

Grécia e Estados Unidos quebrados, sou capaz de retirar toda a minha caderneta de poupança.

Será que o capitalismo é mesmo inviável?

Eu havia pedido para os leitores não escreverem mais do que 15 linhas. Eu precisava ler os e-mails de todos e, assim extensos, eu não conseguia.

Pois bem, ontem um leitor iniciou seu e-mail dizendo que sabia não dever escrever mais que 15 linhas. E a seguir escreveu 50 linhas. Desisto.

Mas não li nenhuma linha desse leitor.

É um desaforo a pessoa escrever 90 linhas para um colunista e achar que ele tem a obrigação de lê-la. Não tenho. E não vou ler. Desculpem, mas tem de haver normas de bom senso.

Se leio todos os exageradamente extensos, não tenho tempo para ler os corretamente não extensos.

Como já cientifiquei a todos, com a radioterapia perdi o paladar, o apetite e a saliva. E, de quebra, portanto, perdi 12 quilos.

Eu queria perder era o paladar do relacionamento. Assim como não consigo ingerir alimentos sólidos, evitaria de engolir os chatos.

E só me alimentaria das pessoas líquidas, isto é, dos indivíduos agradáveis e bem-humorados.

Recebo do tenente-coronel José Carlos Riccardi Guimarães, presidente da Associação dos Oficiais da Brigada Militar, o seguinte: “Prezado amigo Paulo Sant’Ana. Agradeço publicamente teu reconhecimento ao profícuo trabalho que temos realizado.

Mas sobre aquele parágrafo em que escreveste que nenhum governo ousaria quebrar a equiparação salarial entre delegados de polícia e oficiais da BM, isto que escreveste é retrato do diferenciado observador social que és, eis que a inteligência constitucional assegura a existência das duas polícias, certos e recentes governos é que têm desconsiderado esse equilíbrio, em desfavor não da oficialidade da BM, mas da sociedade gaúcha”.

Recebo do tenente-coronel da BM RR Paulo Francisco Martins Pacheco, sobre aquela mesma coluna minha: “Certo de que o senhor, após bem informado, reassumirá a posição de medianidade perfeita no pleito da equiparação salarial entre delegados de polícia e oficiais de nível superior da BM, sublinho que já houve um desequilíbrio no governo Yeda: os delegados foram contemplados com 24% de aumento, enquanto os oficiais superiores receberam apenas 19%.

Note-se que, se fosse verdade o que afirma em sua coluna, não teríamos uma defasagem salarial tão grande entre o capitão da BM e o delegado de 1ª classe, bem como não haveria esse disparate entre o coronel e o delegado de 4ª classe. Receba minha maior admiração (que resulta sempre da soma do respeito com o espanto)”.


30 de julho de 2011 | N° 16777
DAVID COIMBRA


Um jogo de meninos

Eu estava em Ciudad del Este em 1999. Vi o que aconteceu. Ciudad del Este. Um dos lugares mais feios que já visitei. Feio, sujo e perigoso. Andando pelas ruas de Ciudad del Este você sente que ali tudo é extraoficial, que ali tudo o que não é permitido é possível.

Foi em Ciudad del Este que a Seleção Brasileira jogou a primeira fase da Copa América daquele ano. Foi no precário e mal-enjorcado estádio da cidade que testemunhei o maior momento da carreira de Ronaldinho.

Ele tinha 19 anos de idade e vinha de uma façanha. Uma semana antes do Gre-Nal decisivo do Gauchão fora “jurado” por ninguém menos do que Dunga, o Capitão do Tetra. Dunga prometeu “pegar” Ronaldinho no clássico e conquistar o campeonato pelo Inter. Indagado sobre a ameaça, Ronaldinho tergiversou:

– Eu admiro muito o Dunga. Até tenho a figurinha dele no meu álbum.

Naquele dia, pensei: resposta inteligente! Suavemente irônica e, ao mesmo tempo, respeitosa. Hoje tenho dúvidas se a ironia foi intencional e se houve inteligência na frase. Enfim. No domingo, em campo, Ronaldinho deu uma resposta mais corrosiva. Foi o melhor da partida, aplicou um chapéu e um elástico em Dunga, entrou na área do Inter a drible e marcou o gol da vitória e do título. Na segunda-feira, Luxemburgo o chamou para a Copa América.

Ronaldinho era reserva. Aquela Seleção tinha Romário, Ronaldo, Rivaldo, Edmundo e outros que tais. Mas, no jogo de abertura, contra a Venezuela, ele entrou no final. O Brasil já goleava, estava 5 a 0. Então, Ronaldinho protagonizou um lance que já se tornou clássico do futebol mundial: dentro da área, dominou a bola no ar, chapeleou um zagueiro, evitou outro e, cercado de adversários, mandou para o gol. Golaço.

Um gol lindo, sim, mas o melhor foi o que o sucedeu: a comemoração. Ronaldinho saiu gritando, pulando, socando o ar, vibrando com uma alegria autêntica e juvenil que encantou o mundo. Exatamente: foi aquela comemoração, mais do que a plasticidade do gol, que apaixonou os amantes do futebol. Porque Ronaldinho, naquele momento, representava a essência do jogo.

Era um menino que jogava por prazer, jogava rindo e brincando, e se emocionava com um gol que fazia. Não houve ensaio ou a mínima premeditação naquela comemoração. Não havia deboche, desafio, ironia ou bazófia. Ele não estava se jactando, nem afrontando quem quer que fosse. Era um menino festejando o seu gol. Só. E não precisava mais. E era o próprio futebol.

O Ronaldinho dentuço, sorridente e quase ingênuo, falando sempre em alegria, aquele Ronaldinho, por algum tempo, fez o mundo sonhar. Porque o futebol mais autêntico é o que se joga com 12 anos de idade: jogado por prazer. Ronaldinho parecia jogar por prazer.

Mais: Ronaldinho gritava ao mundo que jogava no clube do seu coração, o clube em que trabalhou o seu pai, em que trabalhava sua irmã, em que jogou seu irmão. Há fotos de Ronaldinho com sete anos de idade com a camisa do Grêmio, brincando com a bola, como brincaria aos 19. Naquela Copa América, inclusive, Ronaldinho declarou:

– No Grêmio eu jogo até de graça.

Claro que todos sabiam que não era bem assim, claro que nem o gremista mais acerbado esperaria que um jogador, qualquer que fosse, jogaria de graça, mas a declaração de Ronaldinho denotava o prazer que ele sentia em jogar bola no time pelo qual torcia. Não é precisamente esse o encanto do futebol? A paixão? Dois anos depois, quando os clubes europeus assediavam o Grêmio para contratá-lo, Ronaldinho, ao marcar um gol, correu para a casamata e gritou para os dirigentes sentados no banco:

– Não me venda, presidente!

Podia haver mágica maior para a torcida? Mas, pouco tempo depois, Ronaldinho saiu da forma como saiu, meio arrevesada, meio clandestina e friamente planejada. Ronaldinho, então, começou a quebrar o feitiço que o envolvia: descobriu-se que ele era outro a agir por dinheiro. Mais tarde, Ronaldinho pareceu desinteressar-se também pelo jogo. Tudo indicava que não sentia mais prazer com o futebol.

No começo desse ano, Ronaldinho acertou sua volta ao Grêmio. Seria o retorno daquele menino que gostava de jogar bola, e que gostava, sobretudo, de jogar no time pelo qual torcia. Depois, como se sabe, Ronaldinho desacertou de inopino sua volta ao Grêmio e fechou com o Flamengo.

Hoje, no Flamengo, Ronaldinho jogará contra o clube do seu coração. Exatamente na semana em que, depois de tanto tempo, ele finalmente voltou a jogar como um menino. Como se estivesse se divertindo. Estou curioso para vê-lo em campo. Será que sentirá algo quando vir a camisa do adversário? Será que ainda é capaz disso? Será que ainda existe um pouco daquele menino no corpo adulto de Ronaldinho? Ou será que o Ronaldinho da grana e da fama venceu?


30 de julho de 2011 | N° 16777
CLÁUDIA LAITANO


Os suspeitos de sempre

Você já deve ter ouvido falar da Lei de Murphy, mas talvez não conheça a curiosa Lei de Godwin, segundo a qual, em uma discussão online que se estende muito, a probabilidade de um dos lados sacar uma comparação envolvendo nazistas, holocausto ou Hitler atinge 100% – não importando se o assunto em pauta é a fome na África ou a taxa de suicídios na Dinamarca.

Formulada pelo advogado Mike Godwin em 1990 – em tom de brincadeira, mas com um impressionante fundo de verdade –, a Lei de Godwin serve para chamar a atenção não apenas para a previsibilidade de alguns argumentos, mas também para aquele tipo de manobra intelectual que embreta o debate de tal forma, que fica quase impossível continuar discutindo a sério.

É o caso, por exemplo, dos discursos (sobre a fome na África ou a taxa de suicídios na Dinamarca...) que desembocam no indefectível “a culpa é da mídia”. As brasileiras querem ter seios grandes? A culpa é da mídia. Sexualização precoce? A culpa é da mídia. Adolescentes violentos? Idem ibidem.

É provável que quem usa essa linha de raciocínio tenha em mente um tipo específico de veículo de comunicação, maquiavelicamente programado para manipular ideias e emoções, mas o fato é que a “mídia” é um balaio de gatos informe que não se encontra em estado puro na natureza.

O poder midiático só existe em relação a um determinado público, que, por sua vez, consome e legitima seus valores de alguma forma. O que a explicação “midiática” fornece, mais do que uma análise profunda de qualquer coisa, é uma espécie de terceirização da culpa. Como se a sociedade fosse melhor do que a mídia que ela consome e não, em grande parte, reflexo dela ou parte dela.

O recurso retórico de culpar a mídia por todos os males morais tornou-se ainda mais anacrônico depois que as redes sociais passaram a expor, em tempo real, a reação individual a determinados temas, antes de qualquer tipo de mediação.

As redes sociais revelam como indivíduos interligados reagem diante de assuntos considerados “midiáticos”, exibindo uma espécie de moral coletiva muito mais interessante, em termos de retrato sociológico, do que a posição passiva do espectador/leitor manipulado.

Esta semana, graças à avalanche de piadas no Twitter, ficamos sabendo, por exemplo, que boa parte dos brasileiros considera praticamente intolerável que Sandy, associada até hoje ao perfil virginal da adolescência, fale a respeito de prazer e sexo anal em uma entrevista.

Esta semana, também vimos que havia uma bolsa de apostas virtual dedicada a acertar a data da morte de Amy Winehouse – a vítima perfeita para o tipo de curiosidade mórbida a respeito da desgraça alheia que boa parte de nós alimenta.

Pode-se colocar a culpa na mídia, na voracidade capitalista, na crise de costumes, mas por trás de cada fenômeno de massa existe uma moral individual, uma escolha particular.

E essa escolha, muitas vezes, é consumir a vida dos artistas como se eles fossem personagens de uma grande telenovela: previsíveis, sem nuanças e condenados a viver não as próprias vidas, mas um roteiro escrito unicamente para alimentar o nosso voyeurismo.