domingo, 3 de abril de 2011


FERREIRA GULLAR

Em terras de Macunaíma

Só no Brasil um político de projeção nacional, prefeito de São Paulo, cria um partido por oportunismo

COMO TODOS sabem, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, eleito pelo DEM, decidiu de uma hora para outra fundar um novo partido que apoiará o governo de Dilma Rousseff, do PT, inimigo figadal dos democratas.

Kassab ganhou expressão na vida política de São Paulo graças a José Serra, do PSDB, o adversário político número 1 do PT. Como se vê, a nova performance do prefeito paulistano, aparentemente, não guarda nenhuma coerência com coisa alguma que o eleitorado pensava que ele fosse.

Não obstante, tudo isso está sendo feito como a coisa mais natural do mundo. Por que ele está deixando seu partido, ninguém sabe, mas o fato de criar um outro partido para si tem explicação: ele, assim, não perderá o mandato que, conforme decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), não pertence ao eleito, mas ao partido.

E você, como eu, perguntará: se o mandato pertence ao partido, Kassab, pela lógica, ao deixá-lo, perderia o mandato, não? Isso é o que você pensa! O mesmo STF, que decidiu que pertencem aos partidos os mandatos de seus integrantes, admite que, se o eleito deixar o partido para fundar outro, não o perde.

Diante disso, Kassab decidiu fundar um novo partido e seu mandato está salvo. Simples assim.

Eu não sou ninguém para questionar uma decisão do STF. Não obstante, data vênia, não consigo calar minha perplexidade: se o mandato é do partido, significa que o eleitor, ao votar em Kassab, o fez por ser ele do DEM, isto é, de determinado partido.

Mas, se ao deixar o DEM, para fundar outro partido, levará o mandato consigo, então o mandato é dele, Kassab? Ou levará o que não lhe pertence? Nesse caso, para não dizer que é roubo, digamos que seja apropriação indébita. Mas com o aval do Supremo? Devo estar equivocado, não pode ser considerado roubo o que se faz dentro da lei. Seria, na pior das hipóteses, um roubo legal (nos dois sentidos).

Uma coisa temos que admitir: o Brasil é único no mundo. Só mesmo em terras de Macunaíma, um político de projeção nacional, prefeito da maior cidade do país, resolve criar um partido apenas para aproveitar a brecha que a Justiça lhe oferece, ou seja, por puro oportunismo político. Esperteza feita às claras, como se criar um partido fosse a mesma coisa que trocar de camisa.

E vai ver que é. Eu é que estou fora de moda, sem ter ainda me dado conta de que partido político não tem nada a ver com sonho de como deveria ser a sociedade, mobilização da opinião pública para promover mudanças importantes que venham torná-la melhor e mais justa.

Nada disso. Estou por fora. Não é à toa que, no Brasil, há dezenas de partidos, sem conteúdo ideológico, sem nenhum programa ou projeto que justifique sua existência.

Partido político, hoje em dia, existe apenas para cumprir uma exigência da lei eleitoral. Como a maioria deles não tem eleitores, sobrevive como siglas de aluguel, juntando-se a outros partidos, em coligações que são mais um modo de enganar o eleitor desavisado.

Mas não vamos jogar tudo nas costas do Kassab. O partido que ele pretende fundar tem a mesma sigla -PSD- de um dos partidos que Vargas criou, nos anos 1940, para dar aparência democrática ao Estado Novo; o outro foi o PTB.

Aquele era o partido dos patrões; esse, o dos trabalhadores. As duas classes fundamentais da sociedade estavam neles representadas, harmoniosamente, sem luta de classes, como convinha ao regime.
Os generais de 64 fizeram coisa parecida, criando a Arena, governista, e o MDB, oposicionista.

Tudo bem comportado, claro, para não atrapalhar o sonho do Brasil grande. Mas eis que jovens políticos, que sonhavam com uma sociedade melhor, fundaram dois partidos de verdade: o PT, que reunia a esquerda radical, e o PSDB, de linha social-democrata. Essas foram as duas forças que, findo o regime militar, passaram a disputar o poder.

Em 1994, o PSDB chegou à Presidência com FHC e, em 2002, o PT venceu as eleições com Lula, apropriando-se do programa do adversário e imprimindo-lhe um cunho tipicamente populista. Cumpriram seu papel e se esvaziaram. Chegou a vez dos Kassab e companhia.

DANUZA LEÃO

Receita para uma união feliz

Algum homem, nos últimos tempos, disse a alguma mulher que por ela seria capaz de tudo?

QUEM QUISER conhecer mesmo a evolução do mundo feminino nos últimos tempos basta fazer uma pesquisa tomando como base músicas do passado. As letras, é claro.

Outro dia acordei me lembrando de uma delas -isso me acontece às vezes- e me diverti. Não sei quem foi o compositor, mas ele era um gênio (e mais folgado, impossível).

Faz uma grande declaração de amor, nos moldes dele, a Celina, e penso que nenhuma mulher, nos dias de hoje, é venerada como ela foi. Começa assim: "Mulher, mulher é Celina, as outras são imitação" -até aí, tudo bem, tudo lindo, mas emenda com "me lava os pés quando chego, e me chama de papai".

Alguma mulher recebe seu homem assim? A declaração continua: "duvido que as outras façam o que a Celina me faz, e por causa da Celina de tudo eu serei capaz". Pena que o jornal não tenha áudio -ainda.

Vamos combinar: algum homem, nos últimos tempos, disse a alguma mulher que por ela seria capaz de tudo? É claro que não; elas, que se queixam tanto dos homens, tinham que aprender com Celina, mas pensa que acabou? Não duvide, pois Celina fazia ainda mais, muito mais.

"De manhã me faz a barba, de tarde me dá beijinho, engoma o meu terno branco, e eu saio bonitinho", diz o samba.

E tudo isso, penso eu, sem pedir nada em troca, sem querer que ele assuma seu lado feminino, que ajude a lavar os pratos, sem discutir a relação, tem melhor do que a Celina? É claro que esse homem devia ser muito especial, para ter uma mulher com quem não dividia as despesas -"mulher minha não trabalha fora", ele devia dizer- e que só pensava em uma coisa: fazer feliz o homem que amava, grande Celina.

E vamos agora ao grand finale: "Se eu finjo ficar zangado, ela diz que sou um à toa", e conclui "você pode chegar muito tarde, que lugar de homem é no meio da rua", e aí vem o breque, "Celina".

Uma obra-prima, e penso que foram as tantas comemorações do dia, ou do mês ou do ano, nem sei mais, da Mulher -com maiúscula- que me fizeram lembrar desse samba e fazer uma pequena homenagem aos homens.

Não são as mulheres que têm do que se queixar, mas sim eles; qual a mulher, em 2011, que engoma o terno do marido para ele sair bonitinho? Elas são emancipadas, livres, têm os mesmos direitos que eles, como queriam, e ainda reclamam? Celina não reclamava de nada, e parecia ser bem feliz.

Mas esse homem também devia ser o máximo -e qual homem, em 2011, é assim? Eles hoje chegam em casa cansados, falando da sórdida troca do presidente da Vale, da taxa Selic, se a usina de Belo Monte deve ou não ser construída, se a importação de produtos da China está atrapalhando o comércio do Brasil. Qual a mulher que quer saber dessas coisas? Só Dilma.

Quando ele chegava em casa, Celina, enquanto lavava seus pés, devia ouvir as mais ternas e safadas declarações de amor, e é disso que mulher gosta, aliás, gostava. Se as mulheres aprendessem com Celina, a vida conjugal poderia ser muito mais bela, e isso sem nem falar da heroína nacional, Amelia, que achava bonito não ter o que comer.

Qual, já não se fazem mulheres como antigamente. E nem homens.

danuza.leao@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

Fim de uma era

BRASÍLIA - Um quarto de século depois da morte morrida do regime de 1964, o governo conseguiu exorcizar mais um fantasma: as cerimônias e "ordens do dia" em que comandantes militares faziam a apologia do golpe, prolongando a agonia e constrangendo o poder civil.

O 31 de março de 2011 passou quase suavemente e ninguém soube, ninguém viu, ninguém deu bola. Sem frisson nos quartéis, tensão no Planalto, atenção da mídia. Muito menos crises como a que derrubou o primeiro ministro da Defesa do governo Lula. Foi-se o tempo.

Nelson Jobim vetou atos alusivos à data nas três Forças, o comandante do Exército repassou a ordem, a tropa bateu continência. E o general Augusto Heleno arquivou sua palestra sobre "a Contrarrevolução que salvou o Brasil".

Ficou aborrecido? Pode até ser, mas declarou: "Sou militar, respeito a disciplina e a hierarquia. O superior determinou, eu cumpri".

Heleno foi comandando no Haiti e na Amazônia, sempre defendendo suas ideias. Uma das mais polêmicas foi quanto à questão da segurança nacional na Raposa/Serra do Sol. Falou na dupla condição de militar e de expert em Amazônia. Causou mal-estar, mas foi ouvido.

Ele completa 12 anos de generalato junto com o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), José Elito, e ambos passaram para a reserva do Exército no dia 29 de março. Elito fica no cargo, que não é cativo de oficial da ativa, mas Heleno tem 45 dias a partir de então para costurar o pijama.

Não pense que vá se contentar em dormir o sono dos justos ou se integrar a esses clubes militares que fazem festinhas e entopem a internet com textos fora de tom e de época nos 31 de março. Heleno tem mais o que fazer -e o que dizer.

Em 2011, o Brasil vira mais uma página da sua história. Só falta a Comissão da Verdade, aberta a todos os lados para clarear o passado e mirar o futuro. Com a palavra e o voto, o Congresso Nacional.

elianec@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

Um pouquinho menos não dói

SÃO PAULO - Os tempos de inflação alucinada legaram uma teoria que o mundo político toma como palavra de Deus: sempre que a inflação dispara, a popularidade do governante despenca.

Mesmo Luiz Inácio Lula da Silva, que, na oposição, se beneficiava da teoria, quando coincidia com a realidade, passou a ser adepto incondicional dela ao chegar ao governo. Tanto que, logo após assumir, topou elevar os juros de 25% para 26,5% porque Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, lhe disse que a inflação dispara sempre que chega a dois dígitos.

Teoria tão científica quanto o jogo de búzios, mas quem é louco de desafiar os espíritos?

Não é que o Banco Central do pós-Meirelles bancou o desafio, ao jogar apenas para 2012 a obtenção da meta de 4,5% de inflação? Parece, mas só parece, que o BC está adotando outra teoria que os políticos às vezes acariciam, a de que às vezes é bom aceitar um pouquinho mais de inflação em troca de um pouquinho mais de crescimento (ou um pouquinho menos de desaceleração do crescimento).

Na verdade, o BC de Alexandre Tombini faz o contrário dos búzios de Meirelles: não acredita que a inflação vá disparar só porque há alguma pressão sobre os preços.

Por isso, contraria o mercado que cobra mais sangue, na forma de juros mais altos. Que os riscos existem, é evidente. Mas ninguém, nem o BC nem seus críticos, podem ter certezas sobre o futuro, ainda mais em um país em que é difícil ter certezas até sobre o passado.

Entre os críticos, haverá certamente gente honestamente preocupada com uma eventual disparada dos preços.

Mas com certeza há também gente triste porque a contenção nos juros reduz a transferência de renda de todos nós, contribuintes, para a minoria de rentistas que detêm títulos do governo e exige a maior remuneração para eles.

sábado, 2 de abril de 2011



03 de abril de 2011 | N° 16659
MARTHA MEDEIROS


Veteranos de guerra

Depois de uma certa idade, somos todos veteranos de alguma relação amorosa que deixou cicatrizes

Outro dia li o comentário de alguém que dizia que o casamento é uma armadilha: fácil de entrar e difícil de sair. Como na guerra.

Aí fiquei lembrando dos desfiles de veteranos de guerra que a gente vê em filmes americanos, homens uniformizados em suas cadeiras-de-roda apresentando suas medalhas e também suas amputações. Se o amor e a guerra se assemelham, poderíamos imaginar também um desfile de mulheres sobreviventes desse embate no qual todo mundo quer entrar e poucos conseguem sair – ilesos. Não se perde uma perna ou braço, mas muitos perdem o juízo e alguns até a fé.

Depois de uma certa idade, somos todos veteranos de alguma relação amorosa que deixou cicatrizes. Todos. Há inclusive os que trazem marcas imperceptíveis a olho nu, pois não são sobreviventes do que lhes aconteceu, e sim do que não lhes aconteceu: sobreviveram à irrealização de seus sonhos, que é algo que machuca muito mais. São os veteranos da solidão.

Há aqueles que viveram um amor de juventude que terminou cedo demais, seja por pressa, inexperiência ou imaturidade. Casam-se, depois, com outra pessoa, constituem família e são felizes, mas dói uma ausência do passado, aquela pequena batalha perdida.

Há os que amaram uma vez em silêncio, sem se declararem, e trazem dentro do peito essa granada que não foi detonada. Há os que se declararam e foram rejeitados, e a granada estraçalhou tudo por dentro, mesmo que ninguém tenha notado. E há os que viveram amores ardentes, explosivos, computando vitórias e derrotas diárias: saem com talhos na alma, porém mais fortes do que antes.

Há os que preferem não se arriscar: mantêm-se na mesma trincheira sem se mover, escondidos da guerra, mas ela os alcança, sorrateira, e lhes apresenta um espelho para que vejam suas rugas e seu olhar opaco, as marcas precoces que surgem nos que, por medo de se ferir, optaram por não viver.

Há os que têm a sorte de um amor tranquilo: foram convocados para serem os enfermeiros do acampamento, os motoristas da tropa, estão ali para servir e não para brigar na linha de frente, e sobrevivem sem nem uma unha quebrada, mas desfilam mesmo assim, vitoriosos, porque foram imprescindíveis ao limpar o sangue dos outros.

Há os que sofrem quando a guerra acaba, pois ao menos tinham um ideal, e agora não sabem o que fazer com um futuro de paz.

Há os que se apaixonam por seus inimigos. A esses, o céu e o inferno estão prometidos.

E há os que não resistem até o final da história: morrem durante a luta e viram memória.

Todos são convocados quando jovens. Mas é no desfile final que se saberá quem conquistou medalhas por bravura e conseguiu, em meio ao caos, às neuras e às mutilações, manter o coração ainda batendo.


03 de abril de 2011 | N° 16659
PAULO SANT’ANA


Enquete embaraçosa

Pedi a quatro intelectuais femininas que trabalham na Redação de Zero Hora que me respondessem a uma pergunta em sete linhas, que eu transcreveria em nova coluna minha.

Perguntei às quatro, que estavam nas cercanias do fumódromo, o seguinte: que tipo de homem você idealiza?

Duas das intelectuais (redatoras, colunistas e editoras) saltaram logo com suas respostas: “Nós duas não podemos responder, porque somos casadas”.

Mas como? Quer dizer, então, que mulher casada não pode ter opinião?

Ou pior ainda: se as minhas duas colegas não podem responder para minha coluna sobre que tipo de homem idealizam, então fica claro que esse tipo de homem ideal não é seu marido: eis que, fosse seu marido esse tipo de homem ideal, elas simplesmente o citariam como o cara exemplar.

Temo pelo desastre da minha pesquisa junto às minhas quatro colegas.

Acontece que é uma bobagem que uma mulher casada não possa descrever o seu tipo masculino ideal. Só porque é casada?

Um marido pode muito bem citar qual o seu tipo ideal de mulher, mesmo que esse tipo não caiba em sua mulher.

Acontece que uma coisa são os nossos ícones femininos sensuais, outra coisa é a mulher que temos lá em casa.

Uma coisa são as nossas deusas ou deuses, outra coisa completamente diferente são as mulheres e maridos que temos para consumo doméstico.

Vamos ver se minha próxima pergunta poderá ser respondida pelas minhas colegas: se seu marido permitisse, qual homem você levaria para morar com ele e com você na sua casa?

A recusa das minhas duas colegas em responder à minha pergunta tem um conteúdo revelador: as intelectuais não são ainda de todo livres.

Elas são livres para pensar, mas não são livres para manifestar seu pensamento.

Para se manifestar, precisam dos carimbos de seus maridos.

Por isso é que criei a figura de Pablo. Paulo ama (ou gosta) a mulher de casa.

Pablo é quem ama (ou gosta) as outras mulheres.

Nós – e isso é uma lição para as minhas duas colegas que se sentiram proibidas de responder à minha enquete – temos que ter a consciência de que não somos uma só pessoa: cada um de nós é duas pessoas.

Uma das pessoas que está dentro de nós é a certinha. Mas existe dentro de nós outra pessoa: a transgressora.

Nenhum de nós pode viver uma vida inteira sem transgredir, sem passar dos tolos limites.

O meu limite é a razão.


03 de abril de 2011 | N° 16659
VERISSIMO


Velhas certezas

Velhas certezas custam a morrer. Muitas sobrevivem ao seu desmentido mais fortes do que eram antes. Grande parte da população do mundo ainda vive, do ponto de vista das suas crenças e expectativas, num universo geocêntrico, como se Copérnico e Galileu nunca tivessem existido. O que é compreensível: custamos a aceitar uma nova explicação para o que parecia óbvio, e 400 anos de ciência são muito poucos comparados com alguns milhares de anos de engano. Pecisamos de mais tempo para nos acostumar com a ideia de que é a Terra que circunda o Sol.

Li, não me lembro onde, esta frase: o longo hábito de viver nos indispõe para a morte. Essa indisposição para a morte está no princípio de todas as religiões, se não de toda a metafísica. O crescimento do fundamentalismo religioso, ou de uma volta aos fundamentos mais obscuros e obscurantistas das religiões, é uma reação radical ao desmentido de velhas certezas. Há outros longos hábitos ameaçados que reagem do mesmo jeito.

Velhos comunistas se recusam a aceitar o fracasso do comunismo aplicado a não ser como uma anomalia russa, uma prática que sabotou a teoria. Neoliberais não param de entoar seus mantras como se sua repetição encantatória banisse todas as evidências que os contradizem. Não é fácil admitir que nosso universo não é nada do que estávamos pensando.

Um exemplo pessoal de como os longos hábitos morrem devagar. A astrologia só faz sentido num mundo pré-Copérnico, mas me pergunta se eu não dou uma olhada no meu signo todos os dias.

Chega o momento em que todo homem, principalmente todo homem cardíaco, desenvolve uma fé irrealista na ciência. Se convence que dos Estados Unidos ou de algum outro lugar abençoado virá, em breve, o cateter mágico que depositará bactérias amestradas nas suas artérias, e elas começarão a desobstrução definitiva que lhe dará mais cem anos (não pedimos mais do que isto) de vida. No fim tudo se resume numa corrida entre a fatalidade e a pesquisa.

Cigarros de chocolate

Ainda existe cigarro de chocolate? Quando eu era criança compravam-se cigarros iguais aos de verdade, em maços, com chocolate dentro em vez de fumo. Eles serviam para a gente brincar de adulto.

Antes de comê-los, “fumávamos” os cigarros, gesticulando com eles como gente grande, dizendo coisas pseudoimportantes e tragando e expelindo fumaça imaginária. Sonhávamos com o dia em que poderíamos assumir todas as poses de fumantes, fumando mesmo.

Tinha um ritual de fumantes adultos que me fascinava. O homem tirava uma cigarreira – lembra cigarreira? – do bolso de dentro do paletó, abria a cigarreira, escolhia um dos cigarros enfileirados, fechava a cigarreira com um sofisticado clique, depois batia com a ponta do cigarro no tampo da cigarreira, antes de guardá-la, colocar a ponta compactada do cigarro nos lábios e buscar o isqueiro em outro bolso do paletó.

No dia em que eu pudesse fazer aquele pequeno teatro com naturalidade eu seria um homem e, mais do que isto, um homem autossuficiente e elegante, um homem de dar inveja.

Um dia decidi que não ia esperar crescer para ficar adulto. Roubei um cigarro da minha mãe, peguei fósforos e fui para o fundo do quintal. Bati com a ponta do cigarro na caixa de fósforos. Acendi o cigarro e traguei, me sentindo um ator de cinema. A pose não durou muito. Foi interrompida por um acesso de tosse. Era horrível, encher a boca de fumaça daquele jeito. Nunca mais botei um cigarro na boca.

Mas, sei não. Às vezes penso que faltou uma cigarreira na minha vida.


03 de abril de 2011 | N° 16659
DAVID COIMBRA


180 mil múmias de gatos

Em 1888, um agricultor fez uma descoberta espantosa, enquanto trabalhava em suas terras no interior do Egito: sob o solo seco, havia uma múmia de gato. E ali ao lado mais uma. E outra. E outra. E mais outra. E ainda outra. Na verdade, o homem estava pisando em um vasto cemitério de gatos. Centenas de milhares de bichanos, devidamente embalsamados e mumificados, como um Ramsés.

Alguém pode achar estranho que os egípcios perdessem tempo mumificando gatos, mas eles os tinham (aos gatos) em alta conta. Eram seus bichos de estimação preferidos, embora também apreciassem os cães e outros animais menos domésticos, como pequenos crocodilos e íbis, que, além de ser o pior time do mundo, é um pássaro pernalta que vive no Nilo e, segundo Heródoto, “alimenta-se de serpentes”.

Eu mesmo vi múmias de gatos e crocodilos nas estantes do Museu Britânico. Os egípcios os mumificavam por acreditar que seus animais de estimação os acompanhariam na vida após a morte. Ou seja: os mumificavam para que se tornassem eternos.

Essas múmias que o tal fazendeiro descobriu em seu campo eram tantas que as crianças do lugarejo as colhiam da terra e as vendiam por qualquer meio pila aos turistas ocidentais. Assim, havia famílias europeias que colocavam na mesinha de centro da sala, ao lado do vaso com flores de plástico, múmias de gato egípcias com cinco mil anos de idade.

Mas os britânicos descobriram outro uso para as múmias: eles as moíam e espalhavam os farelos nos jardins de suas residências, para servir de fertilizante. Uma única carga de um transatlântico levou 180 mil múmias de gatos para o Reino Unido, o equivalente a 17 toneladas. Quer dizer: o que era sagrado para um povo, transformou-se em nada mais do que esterco para outro.

Parece sacrilégio, e é, mas o fato é que os europeus nunca deram a menor importância para o que se passa por aqui, no além-mar. Sua cultura colonialista lhes diz para chegar, pegar o que desejam e voltar para casa. Lá, eles darão o destino que bem entenderem ao que era tão caro no local de que foi tomado.

Comportamento idêntico eles têm com os jogadores sul-americanos. O que Grêmio, Inter, Cruzeiro, Vasco e Palmeiras representam para os europeus? O mesmo que representavam os traficantes de escravos da África e os vendedores de múmias do Egito: são fornecedores de mercadoria barata. A Fifa defende os clubes europeus, o futebol do mundo está estruturado em torno dos interesses deles.

Por isso, qualquer mudança na Lei Pelé, se for para proteger os clubes brasileiros, é bem-vinda. Chega uma hora que até as múmias têm de reagir.

Visita ao calabouço

Recebi uma carta, nessa sexta-feira. Carta mesmo, escrita à mão, selada e sobrescritada. O remetente pediu para não se identificar, porque muita gente não sabe de seu passado. Contou uma história sobre seu Rudi Armin Petry que preciso compartilhar:

“A crônica “Um homem de bem” transportou-me no túnel do tempo. Meados dos anos 70, enquadrado na Lei de Segurança Nacional, fui trancafiado numa masmorra medieval. Solitário e saudoso do clube do coração, resolvi escrever ao dirigente Rudi Armin Petry. Implorei por um radinho de pilha. Dias depois ele pessoalmente foi me visitar no calabouço, com o radinho em mãos. Na solidão do cárcere, eu amenizava o meu sofrimento ouvindo os jogos do Grêmio.

Mais tarde, beneficiado pela Lei da Anistia, fui procurá-lo para que intermediasse minha reintegração ao quadro social do clube. Ele não só advogou ao meu favor como me deu o título patrimonial quitado em mãos. Quando lhe perguntei como poderia pagar, ele respondeu:

– Isso é assunto de economia interna.

Aí está um exemplo de ser humano. Toda vez que o encontrava nas sociais do Olímpico, parodiava aquela passagem bíblica:

– Estive no calabouço e foste visitar-me.

Ele respondia com sua humildade habitual:

– O que importa é a nossa paixão pelo Grêmio.”

Ruth de Aquino

Cinco motivos para sentir vergonha

Há um novo nome na lista dos fugitivos mais procurados do Estado de São Paulo: o pedreiro Ananias dos Santos, de 27 anos, principal suspeito de um dos crimes mais tenebrosos de que o país ouviu falar. As vítimas são as irmãs Josely e Juliana, de 16 e 15 anos.

No caminho entre o ônibus escolar e a casa, encontraram um monstro. Se tiver sido mesmo Ananias, era um monstro conhecido delas e da polícia. Tinha saído da prisão numa folga de Páscoa, em 2009, e não voltara. Todos sabiam onde morava. Já era foragido antes. Mas ainda não tinha ficado famoso.

A delegada Sandra Vergal diz com simplicidade que, “pelos antecedentes dele, Ananias não podia ser contrariado em nada”. Por que nenhuma autoridade policial até agora fez um mea culpa? O preso sai pela porta da frente, não volta para a cela e, por suposta rejeição de uma das meninas, persegue e mata as irmãs a tiros?

Dói demais ver as fotos das adolescentes. Além de muito bonitas, eram conhecidas como educadas, estudiosas e apegadas à família. Ananias era fugitivo com endereço certo. Quem afinal matou as meninas da aprazível Cunha, uma localidade pacata e verde, que fez passeata de 3 mil por justiça? Somos ou não também culpados pela negligência de nosso sistema penitenciário?

A semana passada foi pródiga em constrangimentos. Em dezembro, listei nesta coluna dez razões para se indignar. Nos últimos dias, além do crime bárbaro de Cunha, deparei com mais quatro razões para me decepcionar com o ser humano público e privado.

- O vice-presidente José Alencar, herói no combate ao câncer, afetuoso no trato com as pessoas, dizia “não temer a morte, mas a desonra”. E, mesmo assim, foi incapaz de sequer conhecer sua suposta filha com uma enfermeira. Recusou-se a fazer exame de paternidade e chamou publicamente a mãe de Rosemary de Morais de prostituta: “Todo mundo que foi à zona um dia pode ser pai.

São milhões de casos”. No caso de Alencar, a atitude não combina com a biografia. Onde estava sua coragem? Encarou o câncer e 17 cirurgias, mas Rosemary não. Ela ganhou na Justiça o sobrenome Alencar.
Além do crime bárbaro de Cunha, a semana ofereceu quatro outros motivos para nosso constrangimento

- A atriz Cibele Dorsa usou sua depressão e seu suicídio para protagonizar um circo deprimente. O Twitter, a carta para a revista Caras, o vídeo montado para homenagear o noivo que também se matara dois meses antes. Nesse inacreditável mundo novo, a regra é se expor e ser seguido por milhares, mesmo no Além. Uma moça bonita, mãe de um casal de filhos, desperdiça a vida e dirige um roteiro multimídia para conseguir finalmente a fama após a morte. O suicídio perde o que lhe restava de privacidade, discrição, gravidade e pudor.

- O deputado Jair Bolsonaro também aproveitou a mídia para ser mais Bolsonaro do que nunca. Ofendeu negros quando só queria, segundo ele, ofender gays. Já falou barbaridades piores. Desta vez, conseguiu a repercussão desejada porque difamou pela televisão uma celebridade,

Preta Gil. Reafirmou a uma rádio que Preta “é promíscua” e que o pai da cantora, Gilberto Gil, “é outro que vive dando bitoquinha em homens”. Como Bolsonaro defende sua liberdade de expressão, eu também poderia escrever que ele não passa de um ignorante. Mas, como isso não é novidade, só pergunto como o deputado foi parar na Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

- O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em visita a Buenos Aires, foi condecorado pela Faculdade de Jornalismo de La Plata por sua “defesa da comunicação popular”. Chávez tirou do ar uma TV e várias emissoras de rádio. Aprovou leis que tornaram crime as críticas pesadas ao governo.

Perseguiu oposicionistas. E ganhou um prêmio que é homenagem a um jornalista importante da Argentina, assassinado pelos militares, Rodolfo Walsh. O vexame internacional foi ainda maior pela coincidência: a anfitriã, a presidente Cristina Kirchner, é acusada de estar por trás dos sindicalistas que proibiram a circulação do jornal Clarín.

Como jornalista e ser humano, senti vergonha e impotência diante desses episódios e seus personagens. Nessas horas, a palavra não é suficiente.


02 de abril de 2011 | N° 16658
NILSON SOUZA


O casamento dos ogros

Que rolo deu o casamento dos fãs de Shrek em Garibaldi! Não era para tanto, certamente, mas como a gente dá um boi para não entrar numa discussão e todas as vaquinhas da Cow Parade para não sair, estamos debatendo até agora. Foi um desrespeito com a Santa Madre ou apenas uma brincadeira inocente dos noivos e de seus convidados?

E o padre mereceu aquela espargida pública do bispo? A propósito, um bispo paramentado com a sua Capa Magna e todos aqueles ornamentos medievais também não parece um personagem de conto de fadas?

Bah, gente, vamos nos divertir mais. Tudo bem que os noivinhos podiam ter deixado para realizar suas fantasias em casa, mas também não foi nenhum sacrilégio levar aquele bloco de falsos súditos para a igreja.

Não vejo muita diferença entre as túnicas de seda colorida dos trajes medievais e os nossos espartilhos modernos – ternos, gravatas, vestidos longos e salto alto. Acredito até que as primeiras eram mais confortáveis. O próprio vestido tradicional das noivas não deixa de ser uma bela fantasia.

O ser humano adora fantasiar. No fim do mês teremos o casamento do príncipe William, da Inglaterra, com sua namorada Kate Middleton, plebeia que, coincidentemente, trabalhava no negócio da família, uma empresa de acessórios para festas. Provavelmente ela já vendeu até fantasias de Shrek.

Pois bem, o príncipe e sua amada irão numa carruagem antiga até a Abadia de Westminster, uma catedral de estilo gótico que já foi palco de incontáveis casamentos e funerais, inclusive o da princesa Diana, mãe do noivo. Aposto que ninguém ficará escandalizado se, em meio ao espetáculo das bodas reais, aparecer algum convidado vestido com roupas medievais.

E o que isso tem a ver com os nossos príncipes de mentirinha? Tudo. O casamento é um momento de sonho para nobres e plebeus. Nem todos se sujeitam à formalidade, é verdade, mas aqueles que escolhem a cerimônia querem torná-la inesquecível, pois sabem que no dia seguinte – como na série cinematográfica do simpático ogro – o encanto pode acabar e a vida virar rotina.

Decididamente, estou ao lado dos imaginativos recém-casados de Garibaldi e do padre que admitiu a brincadeira.

E só posso desejar que o amor de Shrek e Fiona seja infinito enquanto dure.


02 de abril de 2011 | N° 16658
ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES


Pedro Lousada Balaústre

Diz a Wikipedia que há muitas explicações para o 1º de abril ser considerado o Dia da Mentira. A mais aceita delas diz que a origem vem da França. Desde o começo do século 16, o Ano Novo era festejado no dia 25 de março, data que marcava a chegada da primavera.

As festas duravam uma semana e terminavam no dia 1º de abril. Em 1564, depois da adoção do calendário gregoriano, o rei Carlos IX da França determinou que o Ano Novo passaria a ser comemorado no dia 1º de janeiro. Alguns franceses resistiram à mudança e continuaram a seguir o calendário antigo, pelo qual o ano iniciaria em 1º de abril. Gozadores passaram então a ridicularizá-los, a enviar presentes esquisitos e convites para festas que não existiam.

No RS há uma longa tradição de brincadeiras de Dia dos Bobos, mentiras e trotes – nem sempre inocentes: pessoas que teriam morrido, adultérios que teriam sido descobertos... No Alegrete, certa feita, um bando de gozadores velou um “morto”, com aviso até na rádio e o “morto” simplesmente se levantou do caixão no meio do velório, causando um bochincho bárbaro.

O melhor Dia dos Bobos que o Estado já viu durou um ano inteiro. Jovens jornalistas, uns gozadores de marca maior que trabalhavam na sucursal de um respeitado veículo de comunicação, simplesmente inventaram um grande empresário, adornaram-lhe a biografia com êxitos invejáveis na indústria e no comércio e não descuidavam de enviar as notas assim inventadas para outros órgãos de imprensa, para políticos, autoridades e sobretudo colunistas sociais, sempre ávidos para prestigiar pessoas de sucesso.

Os gozadores eram Rogério Mendelski, que era o líder, José Antonio Pinheiro Machado (o Anonymus Goumet) e Paulo Totti. A eles se juntaram em seguida Roberto Appel e Luis Fernando Verissimo, vejam só.

O empresário inventado chamava-se Pedro Lousada Balaústre. O homem nascera em Maravilha, Santa Catarina, cidade que o poeta gaúcho Juca Ruivo fundou no sertão catarinense (e isso não é gozação).

Balaústre, segundo as notas dos gozadores, atuava em várias frentes, em uma suposta Ivanhobras, com negócios jurídicos na Ivanholex, chefiada por um certo Dr. Euclides Campari. Lá pelas tantas, jornalistas da Veja descobriram a gozação e resolveram simplesmente “matar” o Dr. Pedro Lousada Balaústre, comunicando o passamento aos principais órgãos de imprensa. Na Assembleia Legislativa, a “morte” do ilustre heterônimo mereceu voto de pesar, o mesmo acontecendo, por incrível que pareça, no Congresso Nacional.

Tem gente que até hoje ri da gozação – um Dia dos Bobos que durou um ano, praticamente.


02 de abril de 2011 | N° 16658
PAULO SANT’ANA


Garagens espoliativas

Nunca pensara, em toda a minha vida, que um dia faria nesta coluna um elogio à Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC).

É que têm chegado inúmeras reclamações à Redação de Zero Hora feitas por leitores que protestam pelo fato de as viaturas dos azuizinhos estacionarem em locais proibidos.

Pasmem, mas, desta vez, eu, que só ataquei os azuizinhos nos últimos anos, vou defendê-los.

Fique claro de início que não há onde estacionar em toda a Porto Alegre.

Não havendo onde estacionar e tendo de exercitar providências no trânsito, como vão os azuizinhos deixar de estacionar em lugares proibidos? É impossível.

Sendo assim, é tolerável a infração dos azuizinhos, por inexigibilidade de outra conduta.

E continuo falando de estacionamento. Só que desta vez para baixar o pau na maioria das garagens privadas de POA.

As garagens estão cobrando o que bem entendem para estacionar os carros dos porto-alegrenses.

Ainda ontem presenciei uma garagem cobrar R$ 43 por seis horas de estacionamento de um carro. Ora, se a primeira meia hora custa R$ 3, a segunda meia hora R$ 10 e as seguintes meias horas R$ 3, como pode a garagem cobrar R$ 43, se na tabela exposta lá está escrito em letras grandes DIÁRIA – R$ 25?

Como podem seis horas custar mais caro que uma diária? Como pode isso?

Isso é um roubo, um assalto.

Os motoristas porto-alegrenses estão sendo roubados pelas garagens.

Alguma autoridade terá de intervir, tabelando os limites máximos a serem cobrados pelas garagens, que estão mordendo adoidadas os motoristas, aproveitando-se da crise profunda e dramática de estacionamento na cidade.

Está um Deus nos acuda. Como já escrevi, tem até hospital cobrando estacionamento de carro fúnebre. Hospital é lugar para salvar pessoas, mas tem muito paciente que morre no hospital.

Como, então, cobrar estacionamento de carro fúnebre? Mas, pelo amor de Deus, o defunto pelo menos tem de ser isento de taxa de estacionamento!

Como o poder público não cumpre seu dever de reservar na cidade espaços para os motoristas estacionarem, pelo menos que ordene e fiscalize os preços que as garagens podem cobrar dos motoristas.

Os preços de estacionamento são atualmente extorsivos em Porto Alegre. Está certo que os donos das garagens enriqueçam, mas nunca à custa da espoliação dos cidadãos.

Ou param com esta exploração, ou vou botar ainda mais fundo a boca no trombone.

Estamos sendo roubados. Literalmente, roubados.


02 de abril de 2011 | N° 16658
CLÁUDIA LAITANO


A felicidade dos outros

Tem gente que tem medo de palhaço (coulrofobia). Tem gente que tem medo de balão (globofobia). Eu tenho medo de festa à fantasia (podemos chamar de “micofobia”).

Festa à fantasia não é Carnaval. Festa à fantasia é o simulacro do Carnaval – a tentativa de reproduzir em cativeiro, mediante intimação, a espontaneidade e o despojamento da folia sem traje compulsório. No Carnaval, a gente põe um algodão na cabeça, diz que é cotonete e não se fala mais no assunto.

Já na festa à fantasia não basta o sujeito se dispor a vestir um figurino esquisito e, em alguns casos, eliminar completamente qualquer possibilidade de interação com o sexo oposto (imaginem o sucesso com as mulheres de um sujeito fantasiado de Bob Esponja ou, sei lá, Jair Bolsonaro). É preciso ser criativo, gastar tempo, dinheiro e tutano bolando a produção em cada detalhe – inclusive os subjetivos.

Porque a escolha da fantasia nunca é encarada como uma opção inocente, entre as tantas possíveis, do figurino divertido ou moderadamente ridículo que estava disponível no momento. O fantasiado induz o observador a associar o costume escolhido a alguma espécie de revelação psicológica profunda. Como se determinado traço de caráter ou fantasia erótica secreta apenas estivesse esperando a oportunidade adequada – uma reunião de pessoas superconscientes da própria aparência e possivelmente embriagadas, por exemplo – para manifestar-se em público. E salve-se quem puder dos diabinhos e das camareiras sacanas.

Diante das fotos do casamento à moda Shrek, minha primeira reação foi de alívio. Se eu fosse amiga ou parente dos noivos, seria obrigada a optar entre respeitar minha estimada fobia a situações constrangedoras, que tanto me ajudou até hoje, ou recusar o convite – o que seria uma deselegância ainda mais penosa do que vestir traje de princesa.

Enfrentar a cerimônia na igreja, a festa à fantasia e depois as fotos nos jornais deve ter sido difícil para boa parte dos convidados – micofóbicos, como eu, ou tímidos por natureza. A maioria, imagino, deve ter se divertido. Inclusive, espero, os noivos.

Para quem está de fora, porém, nem sempre é tão simples observar a diversão do próximo. Diante da dor dos outros, podemos ficar frios ou indiferentes, mas há algo dentro das pessoas normais que reconhece e dignifica o sofrimento alheio, mesmo em situações que não nos são familiares.

Já a felicidade extraída de prazeres diferentes daqueles que reconhecemos (o nosso tipo de festa, o nosso tipo de música, o nosso tipo de amigos) sempre desperta uma certa hostilidade – consciente ou não. Como assim axé? Como assim sertanejo?

Como assim casar em uma festa à fantasia? Com que direito? Com o direito, digo eu, de quem tem todo o direito de tentar ser feliz do jeito que lhe der na telha, desde que não prejudique ninguém. Porque essa é a própria essência da democracia.

Mais de 14 mil casais já se uniram legalmente em Amsterdã desde abril de 2001, quando a Holanda tornou-se o primeiro país a legalizar a união entre pessoas do mesmo sexo – data comemorada ontem com o prefeito da cidade servindo de juiz de paz no casamento de dois homens. Desde 2001, outros nove países seguiram o exemplo: Bélgica, Espanha, Canadá, África do Sul, Noruega, Suécia, Portugal, Islândia e Argentina.

Bolsonaro pode ficar verde de raiva se quiser, mas o Brasil vai chegar lá também.

sexta-feira, 1 de abril de 2011


ELIANE CANTANHÊDE

Angústias existenciais tucanas

BELO HORIZONTE - Os oito governadores tucanos passam amanhã por um teste relevante e até curioso: vão mostrar ao digníssimo público e ao caríssimo eleitor se o PSDB pretende ou não exercer o papel que as urnas lhe delegaram -o de oposição.

Uma das principais bandeiras tucanas é (ou foi?) o combate à inflação, marco do governo Fernando Henrique Cardoso e do círculo virtuoso da economia brasileira. E eis que a inflação volta a rondar o país no governo Dilma Rousseff.

O Banco Central acaba de corrigir a estimativa de inflação de 5% para 5,6% neste ano e de jogar para 2012 (ou para as calendas?) o centro da meta de 4,5%. Enquanto isso, a previsão de crescimento vai no sentido inverso. Era de 5% para economistas laureados como os "pais do real" e de 4,5% para o governo. Agora é de 4%. Inflação em alta, crescimento em baixa...

Não bastasse, na quarta-feira, o dólar caiu 1,39%, bateu em seus valores mais baixos desde agosto de 2008 e deixou os exportadores descabelados, enquanto os brasileiros enchem as malas em Miami.

Pois bem. Os governadores "de oposição" vão simplesmente calar? Vão forçar a comparação com o Plano Real de FHC e cobrar providências? Ou, ao contrário, vão ser todos elogios às medidas da presidente e do governo do PT?

A reunião, seguida de almoço com Aécio e sem Serra, será aqui em Belo Horizonte, exatamente onde o ex-vice-presidente José Alencar recebeu ontem as últimas homenagens antes da cremação.

Ele nem era de oposição, mas sempre achou que tinha o direito e o dever de gritar contra juros altos, câmbio defasado, política econômica recessiva. Deve ser porque, além da coragem pessoal, era leal a suas posições e a seus princípios -coisas que andam em falta por aí.

PS 1 - O 31 de março passou e ninguém nem notou.

PS 2 - Capitão e deputado Bolsonaro, por que não te tratas?

elianec@uol.com.br

RUY CASTRO

Marcas de fantasia

RIO DE JANEIRO - Não se trata de voltar ao tempo em que crianças tomavam algo chamado óleo de fígado de bacalhau sem espernear. Ou que os remédios traziam como chancela apenas o sobrenome de seu criador ou fabricante, como o Sal de Uvas Picot, as Pílulas de Vida do Dr. Ross, o Vinho Reconstituinte Silva Araújo, a Loção Cura Caspa Brandão, e isso parecia bastar.

Longe também vai o tempo em que o nome no rótulo já indicava para o que servia o produto: Astringosol (antisséptico bucal), Rugol (pomada para rugas), Odo-ro-no (desodorante), Nicotan (pasta dental para fumantes), Antisardina (creme para a cútis, como se anunciava) ou Lavolho (colírio).

Claro que, às vezes, a pessoa podia se enganar: quem pedisse Pyrex na farmácia, achando que era uma anfetamina, descobria que se tratava de uma fôrma de cozinha, própria para levar ao forno.
O normal era que remédio tivesse nome de remédio -Melhoral, Cibalena,

Atroveran, Enteroviofórmio, Colubiazol. E assim foi até há pouco. Mas, ultimamente, os laboratórios adotaram a tática de vender otimismo, ilusão e prazer na marca de fantasia. Os novos remédios -alguns deles, tremendos torpedos- evocam bombom, filme de arte, teatro, até sexo.

Daí que alguns dos antidepressivos mais populares de hoje se chamam Serenata, Città e Exodus. Ou que um antibiótico atenda por Astro. Há também um remédio para a menopausa chamado Aplause.

E outro, para dores nevrálgicas, com o nome de Lyrica. Um conhecido anticoncepcional se chama Diane 35. E uma espécie de inalante leva o sugestivo nome de (com todo respeito) Penetro. Deve ser por isso que chamam de marca de fantasia.

Como hoje frequento mais farmácias que botequins, até sem querer sou informado dessas novidades. E, como bom espírito de porco, meu favorito é um remédio para hipertensão chamado Capoten.


01 de abril de 2011 | N° 16657
EDITORIAIS ZH


O constrangedor boicote à CPI

Defensores intransigentes de comissões parlamentares de inquérito oferecem agora aos gaúchos, com o caso do Detran, um exemplo constrangedor de incoerência. É, no mínimo, desconcertante – mesmo que não seja tão surpreendente – a reação do Executivo e de seus aliados na Assembleia para boicotar a CPI dos Pardais, proposta pelo deputado Diógenes Basegio, do PDT, um dos partidos da coalizão governamental.

As CPIs, por mais imperfeitas e inconclusivas que possam ser, consagraram-se como um dos legítimos instrumentos à disposição do Legislativo para investigar atos dos governos. E fiscalizar e investigar o Executivo são atribuições de um parlamento, mesmo que as referidas comissões se prestem também ao exibicionismo inconsequente.

O controverso nesse episódio, antes de qualquer avaliação dos possíveis méritos de uma CPI, é o comportamento da base governista. Muitos dos políticos que se mobilizam agora para impedir a formação da comissão são os mesmos que, anos atrás, faziam movimento inverso. Combatem a CPI com o mesmo afinco com que, na oposição, defendiam o direito de investigar governos adversários.

Os argumentos são os mais diversos. Nenhum é forte o suficiente para convencer que, desta vez, a CPI seria uma providência desnecessária. Os pragmáticos governistas argumentam que a força-tarefa montada pelo governo fará uma devassa nas irregularidades no Daer. Acrescentam que o Ministério Público acompanhará a sindicância e que uma CPI poderia dispersar forças ou atrapalhar o trabalho deflagrado por iniciativa do Piratini.

O governo foi moroso na reação às denúncias. E o próprio governador desmereceu a reportagem que escancarou fraudes e desmandos, com a desculpa de que herdara a estrutura delinquente de outras administrações.

A Assembleia, com poderes e autonomia para cumprir seu dever constitucional, poderia contribuir no sentido de esclarecer as origens dos crimes, ao vasculhar, como defende o deputado Diógenes Basegio, as contas do Detran desde 1995. Os governistas que se opõem a um inquérito independente devem à população explicações mais consistentes do seu embaraçoso pragmatismo.


01 de abril de 2011 | N° 16657
ARTIGOS


A natureza, por Vitor Hugo Stepansky *

Temos lido em jornais e revistas muitas manchetes com relação às catástrofes ocorridas no Brasil e no mundo ultimamente.

“A natureza reage”, “a natureza se vinga”, “a natureza destrói”. Não podemos entender a tentativa de atribuir à natureza sentimentos inerentes ao ser humano.

A natureza segue seu curso. A natureza não pode ser culpada se os tigres, os orangotangos e os ursos estão sendo empurrados para áreas cada vez menores, não restando alternativa senão invadirem cidades em busca de alimentos para a sobrevivência.

Se as baleias estão sendo dizimadas em pesca predatória. Se a emissão de gases diminui a camada de ozônio, aumenta a temperatura da Terra e faz o degelo nos polos ser maior a cada ano.

Se usinas nucleares são construídas em áreas sujeitas a terremotos como no Japão e se a cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos, está construída em cima da falha tectônica de San Andrés, sujeita a descolar-se do continente.

Se o aeroporto de Guarulhos é construído na região de Cumbica (nuvens baixas, nevoeiro, em tupi-guarani), e as usinas de Angra dos Reis são construí-das na região de Itaorna (pedra podre em tupi-guarani), que culpa tem a natureza se o aeroporto fecha e o alicerce da usina cede. Se a enseada de Piraquara apresenta águas quentes usadas na refrigeração das usinas nucleares de Angra 1 e 2, sujeitas a vazamento.

Chama-se energia nuclear de energia limpa, mas ninguém sabe onde está sendo depositado o lixo radioativo das sobras da fissão do urânio.

Se os rios retomam seu curso natural nas cidades de Teresópolis e Friburgo, onde a mata foi derrubada e invadida por construções.

Se a mata atlântica foi substituída do litoral do Rio Grande do Sul ao da Bahia com a mata nativa sendo substituída por árvores tipo Pinus elliotis e eucaliptos, modificando sensivelmente a flora e a fauna. Se a floresta amazônica está sendo derrubada e queimada em nome do desenvolvimento sustentável, e se grandes hidrelétricas criam lagos que modificam o ecossistema.

Que culpa tem a natureza se a floresta de cimento que é São Paulo não permite a absorção da água da chuva pelo solo e enchentes acontecem.

Se alguma culpa existe, é do próprio ser humano habitante do nosso planeta Terra, que por ganância não consegue entender a natureza, não consegue conviver com ela e nem deixá-la seguir o seu curso.

* Piloto de linha aérea


01 de abril de 2011 | N° 16657
PAULO SANT’ANA


Substituibilidade


Estava eu novamente no fumódromo de ZH, ali onde se ergue o maior criatório de ideias, quando circunstancialmente uma mulher pronunciou para nós, que conversávamos, a seguinte frase: “Aqui se faz, aqui se paga, é na Terra que pagamos por nossos pecados”.

Foi então que fiz um discurso acalorado: “É aqui que se faz e aqui que se paga? Então, para a vida e a filosofia serem justas, terão também de recompensar aqui na Terra os que fazem o bem”.

Se tem de ser castigado com o câncer quem como eu cometeu pecados, então eu teria de ser também premiado aqui na Terra pelas boas ações que cometi.

A banca paga e recebe” foi um ditado que de tanto repetir tornei muito conhecido na imprensa gaúcha.

Mas a banca nos últimos anos só tem recebido de mim. Que banca é esta que não paga?

Tão ciosa em suas cobranças, por que é tão parcimoniosa em seus pagamentos esta banca, pelo menos comigo? E pelo menos nos últimos dias.

Tenho tido um curioso aprendizado, embora esteja no início. É que as doenças e os infortúnios me conduzem a comportamentos substitutivos dos meus principais prazeres.

Se não posso mais mergulhar, que era o meu principal prazer, de vez que não pode entrar sequer uma gota de água nos meus ouvidos, então eu procuro fazer uma coisa que não me dava nenhum prazer mas que agora começou a me atrair: entrar na água até o pescoço.

Se tenho dificuldade para captar e discernir os sons da televisão, em face da minha avançada e parcial surdez, então me dedico a ler. Atualmente estou lendo Os Jesuítas, um relato das missões da Companhia de Jesus na conversão dos chineses e vietnamitas para o cristianismo no século 17.

Se tenho dificuldades hormonais para a prática do sexo, apuro-me nos diálogos românticos, tendo descoberto que é possível amar e ser amado mesmo restando assexuado.

É necessário e urgente ir substituindo os maiores prazeres por outros que antes não tinham sido por nós descobertos.

É preciso investir em novas práticas deleitosas, se fomos privados daquelas que mais estimávamos.

É, em outras palavras, a técnica da reinvenção. Se não se pode mais tomar sorvete, tente-se um iogurte. No lugar da corrida, a caminhada. Se não se pode erguer peso, ginástica.

Uma vez, fui morar num condomínio em que não se podia criar cães. Fui ver o regulamento do prédio e tinham se esquecido dos gatos. Comprei um gato, não consegui me afeiçoar a ele, mas gozei o prazer de ter enganado o condomínio.

O que não se pode é deixar de ter prazeres. Se nossos antigos prazeres se tornam por qualquer forma a nós proibidos, criemos depressa outros.

O homem não pode viver sem prazer. A própria inexistência de prazer se constitui sob certo aspecto em uma dor.

Há que substituir os prazeres assim como os organismos, quando constatam que suas células estão cansadas, tratam imediatamente de substituí-las por outras então novas.

DAVID COIMBRA

Como acabar com a corrupção

Alguém algum dia já tentou comprar você? Porque é muito fácil não se vender, se ninguém quiser comprá-lo. Então você fica aí, criticando os corruptos, posando de honesto. Mas você já foi tentado e resistiu à tentação? Já afastou de si milhões que poderia ter enfiado nas meias? Já dispensou mulheres de pernas longas e saias curtas que bateram à porta de seu quarto de hotel com um meio sorriso à meia-noite?

Eis a questão.

Os políticos brasileiros são mais corruptos do que os outros, parece. Por quê? Será o brasileiro uma raça com tendência genética à corrupção? Você acredita em algo assim? Você acredita em “raça”?

Nada disso. O político brasileiro é mais corrupto porque é confrontado com mais tentações. Porque o sistema político brasileiro é todo fundamentado em torno de uma única palavra:

EMPREGO.

Os partidos políticos brasileiros não são grupos ideológicos. Não existem para implantar projetos ou programas. Os partidos políticos brasileiros são agências de emprego. Quando um partido elege um governador, sabe que atrás dele virá uma fieira de vagas no serviço público.

Ninguém, no grupo que se empenhou na eleição, pensa que finalmente poderá fazer valer as suas ideias. Eles trabalharam pensando na recompensa: os cargos. Então, um governador deve vagas de emprego aos candidatos a deputado que lhe carrearam votos em suas comunidades, assim como os deputados devem vagas de emprego aos seus cabos eleitorais.

O cabo eleitoral pode ser, digamos, um presidente de associação de bairro que tem 50 votos na vila em que mora. Ele diz a esses 50 eleitores em quem votar. Em troca, espera receber um empreguinho depois da eleição. É para ele que o deputado vai ao governador pedir um cargo.

É nesse sentido que gira a roda da política brasileira. Um partido é tão grande quanto o número de postos de emprego de que dispõe. Terminadas as eleições, os políticos ficam disputando essas vagas, cada qual tentando acomodar seu apaniguado. Algo angustiante para o político.

Ele sabe que, se não conseguir um empreguinho com um salário razoável para seu cabo eleitoral, perderá aquele maço de votos na próxima eleição. Por isso, quando os políticos brigam entre si, é porque alguém ficou sem emprego, não por alguma ideia.

A possibilidade que os partidos têm de distribuir empregos é a engrenagem da corrupção. É a mercadoria com que os políticos negociam. É o que os faz existir e respirar. Ficha limpa, câmeras escondidas, pelotão de fuzilamento, nada saneará a política brasileira enquanto os governos tiverem tanto poder.

Não é um pensamento liberal. Não. O Estado brasileiro não precisa diminuir; o governo, sim. De quantas vagas no serviço público dispõe o presidente do Brasil? Dezenas de milhares, e Lula, nos últimos oito anos, abriu outras dezenas de milhares que não existiam.

De quantos empregos dispõem o primeiro-ministro britânico e a chanceler alemã? Não chegam a 40. O Estado pode ser uma máquina independente do fisiologismo do governo e da ganância da iniciativa privada, desde que seja um Estado realmente profissionalizado. Desta forma, corta-se ao meio a corrupção. Porque ninguém se vende se não houver comprador.

quinta-feira, 31 de março de 2011



31 de março de 2011 | N° 16656
EDITORIAIS


A delinquência de colarinho

O governo do Estado tem o compromisso de corresponder às expectativas criadas com as providências que prometem atacar a delinquência instalada dentro dos próprios organismos estatais. A anunciada devassa no Daer é uma resposta rápida do Executivo às denúncias de que servidores agiam em conluio com empresas para saquear os cofres públicos, mas só terá sentido se não frustrar os que levaram a sério o que promete fazer.

São fortes os indícios de que uma quadrilha agia dentro e fora do governo para fraudar, não só as licitações dos controladores de velocidade, mas obras e serviços da autarquia. A investigação deve ser rigorosa, para que se saiba como as gangues de colarinho branco agiam há tanto tempo impunemente. Que se identifiquem todos os envolvidos e, a partir das apurações, corrompidos e corruptores tenham punição exemplar.

O caso do Daer se soma, lamentavelmente, a outros episódios em que funcionários do próprio governo se articulavam com especialistas em assaltar recursos que deveriam ser bem vigiados. Este é um dos aspectos deploráveis desses casos.

A fragilidade nos controles dos atos de servidores, dos gastos e das auditagens permite que os delitos se repitam, como se nenhum fato anterior tivesse pelo menos servido de exemplo para que se adotassem medidas corretivas. Percebe-se, assim, que o setor público é o ambiente propício para a ação de quadrilheiros, que apenas atualizam seus métodos para continuar agindo.

Como funcionários que deveriam ser os defensores do patrimônio público atuavam contra os interesses que deveriam preservar? Como esses grupos privatizam e manipulam informações de governo, sem que ninguém seja capaz de interromper suas atividades criminosas? A força-tarefa montada pelo Executivo tem o compromisso de oferecer respostas com agilidade.

É salutar que a auditoria conte com a participação de técnicos do Ministério Público e do Tribunal de Contas, para que se faça de fato uma devassa nos contratos, na relação promíscua de funcionários com fornecedores e na estrutura da autarquia.

A investigação deve se estender a outros organismos estatais, para que a reestruturação não alcance somente o Daer nem seja apenas administrativa. O setor público, abalado sistematicamente por falcatruas, necessita de uma profunda revisão de condutas.