sexta-feira, 31 de dezembro de 2021


31 DE DEZEMBRO DE 2021
LITERATURA

Adeus a Lya Luft

Escritora gaúcha morre aos 83 anos, deixando mais de 30 livros, como ?As Parceiras? e ?Perdas & Ganhos?, e uma legião de admiradores

Considerada uma das mais importantes escritoras contemporâneas, a gaúcha Lya Luft morreu nesta quinta-feira, aos 83 anos, em casa, em Porto Alegre, durante o sono. Ela deixa o marido, o engenheiro de transportes Vicente de Britto Pereira, os filhos Susana e Eduardo, professor de Filosofia, e sete netos e netas. Também foi mãe de André, engenheiro agrônomo, falecido em 2017.

Natural de Santa Cruz do Sul, a autora tinha sido diagnosticada com um melanoma - agressivo câncer de pele - havia sete meses (antes, em 2019, teve de passar por uma angioplastia de urgência, após sofrer um infarto agudo do miocárdio). Quando a doença foi descoberta, já estava em estado metastático, disseminada pelo organismo. A romancista, contista, poeta e cronista passou por tratamento e chegou a ser internada algumas vezes no Hospital Moinhos de Vento, na Capital. De acordo com o oncologista Guilherme Geib, um dos médicos que a acompanharam desde junho, Lya foi submetida a imunoterapia (quando o sistema imunológico é fortalecido para combater o câncer), cirurgias e radioterapia. Recebeu a última alta no dia 21 de dezembro. Desejava morrer em seu apartamento.

Vizinha de porta da mãe, a filha Susana Luft, médica pediatra, comentou:

- Uma pessoa iluminada, feliz, alegre, apaixonada pelos netos. Tudo o que pôde ensinar de amor e companheirismo ela ensinou. Era uma "galinha choca", voltada para a família, muito calorosa e amorosa. Para nós, ela foi o ideal. Sempre foi muito amada. Para as letras, nem preciso dizer.

Gnomos

Colunista de GZH e dona de uma obra premiada que conta com 31 títulos, Lya Luft transitou por vários gêneros: romances, poemas, contos, crônicas, ensaios, infantil, livro de memórias. Sempre com uma imaginação fértil, de quem via gnomos na infância - e, de certo modo, não os deixou no passado.

- Eu era uma criança de muita imaginação. Não tinha um amigo imaginário, mas uma família inteira, todos pequeninhos. Sentava no peitoril da janela no meu quarto e conversava com eles. Todos de verde, com gorrinhos. Provavelmente, tirei essa imagem de um livro. Mas, para mim, eram reais - contou em entrevista concedida às vésperas dos 80 anos.

Mais recentemente, em uma coluna em GZH, Lya juntou as memórias da infância ao tema da finitude: "Não quero brincar de morrer, como em criança fazia, me deitava na cama, no assoalho, tentando ficar assim por um pouco de tempo que fosse: não conseguia muita coisa. Achava morrer muito ameaçador, e se nunca mais eu conseguir acordar desse sono maluco? Melhor pegar um dos meus amados livros, e entrar naquelas histórias".

A sua visão singular do mundo lhe deu as munições necessárias para carregar os seus livros com personagens complexos, densos, melancólicos e divertidos. Daqueles que surgem apenas de mentes que não têm medo de viajar e, durante estes passeios pelo terreno da imaginação, colher saborosos frutos que formam seres humanos únicos. Mesmo que eles estejam restritos às páginas de um livro.

CARLOS REDEL LARISSA ROSO

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