terça-feira, 23 de agosto de 2011



23 de agosto de 2011 | N° 16802
DAVID COIMBRA


Quando o Brasil mudou

Tenho cá, muito rígidos nas minhas estantes, seis tomos encadernados em couro tingido de azul-escuro de um livro publicado em 1967, em São Paulo: “História do Povo Brasileiro”. Autores: Afonso Arinos de Melo Franco e Jânio da Silva Quadros. Eles mesmos, que, seis anos antes, haviam sido protagonistas de um capítulo decisivo da história do povo brasileiro, Jânio como presidente da República, Afonso Arinos como seu ministro das Relações Exteriores.

Cada volume da obra tem cerca de 350 páginas, estourando num total de quase duas mil. Mas estou certo de que pelo menos 1950 dessas páginas são subalternas a outras 50: as que tratam da renúncia de Jânio à presidência, ocorrida há 50 anos mais dois dias, em 25 de agosto de 1961.

Você sabia da existência desse livro, que, só por existir, é sensacional? Imagine: eles escreveram duas mil páginas, tudo para chegar àquele trecho definitivo para biografia de Jânio e para o futuro do Brasil, tudo para que Jânio pudesse se justificar para a posteridade. Lá estão, em linguagem rebuscada, que Jânio falava em linguagem rebuscada, suas pretensas razões.

Depois de todo um arrazoado tecido na terceira pessoa, Jânio e Afonso Arinos alegam que o ex-presidente-autor enfrentou “contradições no sistema institucional brasileiro”. Foram essas contradições que ele teria tentado resolver com um plano bem pensado e coerente. Note a ginástica verbal que Jânio e Afonso Arinos fazem para explicar a sandice de 1961:

“Seu raciocínio foi o seguinte: primeiro, operar-se-ia a renúncia; segundo, abrir-se-ia o vazio sucessório – visto que a João Goulart, distante na China, não permitiriam as forças militares a posse, e destarte, ficaria o país acéfalo; ; terceiro, ou bem se passaria a uma fórmula, em consequência da qual ele mesmo emergisse como primeiro mandatário, mas já dentro do novo regime institucional, ou bem, sem ele, as forças armadas se encarregariam de montar esse novo regime, cabendo, em consequência, depois a um novo cidadão – escolhido por qualquer via – presidir ao país sob novo esquema viável e operativo: como, em tudo, o que importava era a reforma institucional, não o indivíduo ou os indivíduos que a promovessem, sacrificando-se ele, ou não se sacrificando, o essencial iria ser atingido.

O plano, porém, falhou exatamente na vacilação dos chefes militares. João Goulart, compadecendo-se com a reforma parlamentarista, desfez, talvez sem sabê-lo, todo o plano concertado”.

Mais algumas linhas adiante, os autores definem o que foi, para eles, o ato de Jânio:

“A renúncia foi, assim, expressão de uma coerência de tipo heroico, no sentido carlyliano; Jânio Quadros acreditou que os destinos nacionais, num dado momento, dependiam de sua coragem de sacrificar sua carreira pessoal”.

Quer dizer: a renúncia tresloucada de Jânio Quadros transformou-se em um ato patriótico e generoso, de renúncia pessoal, de abnegação. E mais: transformou-se em um plano racional, premeditado, minuciosamente calculado. Isso, é evidente, nas palavras do próprio Jânio Quadros. Seis volumes, duas mil páginas. Quanta tinta, quanto papel, quanto tempo gasto para tentar justificar o injustificável.

Uma lição para os dirigentes do Grêmio: depois de feito o mal, nem todo o verbo da língua portuguesa será capaz de corrigi-lo.

Semana Gre-Nal

Digamos que o Grêmio jogasse assim no Gre-Nal:

Marcelo Grohe; Gabriel, Mário Fernandes, Edcarlos e Júlio Cesar; Fernando, Gilberto Silva, Rochemback e Douglas; Leandro e André Lima.

Não é um time desprezível. Não é um time para o fundo penumbroso da tabela de classificação. Mas não sei se é time para bater Leandro Damião e Oscar.

Fernando não rende no Grêmio o mesmo que na Seleção Brasileira.

Parece enfeitado, autossuficiente em demasia. No Grêmio, ele dá toquinho, ele tenta ser clássico, ele se atrasa na jogada. Na Seleção ele é aceso, preciso, ele é concentrado. Entre os adultos, talvez falte a Fernando jogar como adulto.

Victor sempre falha em Gre-Nal. Leandro Damião sempre faz gol em Gre-Nal. Se tudo correr como sempre corre, o Gre-Nal de domingo começa com 1 a 0 para o Inter.

O Inter tem uma escola de atacantes no Beira-Rio. O professor Ortiz pega os atacantes, treina em separado com eles, aperfeiçoa suas virtudes, corrige seus defeitos. Os resultados são dois: dentro de campo, o Inter conquista vitórias graças a seus atacantes. Fora de campo, o Inter se viabiliza vendendo-os.

Investimento premeditado na mercadoria mais valorizada do futebol. Simplesmente genial.

Enquanto isso, no Grêmio, o último grande centroavante formado pelo clube foi... Luiz Carvalho, nos anos 30. Simplesmente estúpido.

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