sábado, 13 de agosto de 2011



13 de agosto de 2011 | N° 16791
CLÁUDIA LAITANO


Riso fora de hora

Uma reportagem publicada semana passada no Segundo Caderno colocou em cena a rivalidade entre comedores de pipoca e seus antagonistas – os espectadores que costumam consumir no cinema não mais do que uma garrafinha de água e uma bala de menta.

Enquanto o time da pipoca exerce o direito de esbaldar-se com a iguaria preferida, o pessoal da água mineral reclama seu direito ao silêncio e a um ambiente aromaticamente neutro. Cada um dos lados, curiosamente, sente-se autorizado a propor ao outro uma solução simples para o desconforto: “Quer sossego, fica em casa”.

Por trás da aparente trivialidade do debate, esconde-se uma discussão – muito mais antiga do que a pipoca ou o cinema – sobre os limites da liberdade individual no espaço público.

Brigas de condomínio, desavenças no trânsito e todos os tipos de disputas de fronteiras, reais ou simbólicas, estão relacionados à capacidade de reconhecer e respeitar o espaço do outro – mesmo quando isso implica abrir mão de gestos aparentemente inofensivos como comer um balde de pipocas em um filme do Bergman ou atender rapidamente o celular em meio a um concerto do Nelson Freire.

No mundo das pipocas, dos celulares que tocam no meio dos concertos e das câmeras que atrapalham a visão nos shows, existe uma outra variedade de interferência na fruição alheia de espetáculos que tem se tornado cada vez mais comum, embora mais sutil e até mesmo involuntária: o riso fora de hora.

Quem vai ao teatro com alguma frequência já deve ter percebido que o riso em momentos impróprios tem se tornado tão frequente quanto os celulares ligados. Alguns espectadores, não a maioria, mas uma boa parte, se atiram à gargalhada gratuita como a uma espécie de tábua de salvação em meio ao naufrágio – mesmo quando o espetáculo, na verdade, está convidando o público a um mergulho em águas mais profundas.

Aconteceu esta semana na estreia do espetáculo Viver sem Tempos Mortos, monólogo com Fernanda Montenegro e textos de Simone de Beauvoir. A certa altura da peça, a filósofa francesa fala da dor de assistir à decadência física de Sartre.

Um momento de recolhimento da atriz, que há pouco tempo perdeu o companheiro com quem foi casada por mais de 60 anos. Por algum motivo inexplicável, muita gente achou engraçado o fato de o velho filósofo ter sofrido de incontinência urinária antes de morrer, e as gargalhadas na plateia romperam a delicadeza do momento ainda mais grosseiramente do que o celular que tocara minutos antes.

O humor é uma rentável unanimidade no Brasil: comédias fazem sucesso no cinema, na TV, no rádio, na internet, no teatro... Humor inteligente, humor preconceituoso, humor ingênuo – tem espaço para todos os tipos de surfistas nessa onda.

Há um apetite insaciável pela gargalhada, e nunca houve tantos canais disponíveis para comediantes amadores ou profissionais exercitarem seu talento e encontrarem seu público. Isso porque todo mundo (normal) gosta de rir. Mas rir de tudo, lembra Frejat, é desespero.

Procurar graça onde ela não existe pode ser uma maneira de proteger-se do momento de recolhimento e iluminação que alguns espetáculos oferecem. Um desperdício: chorar, de vez em quando, também é um bom remédio.

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