sexta-feira, 5 de agosto de 2011



05 de agosto de 2011 | N° 16783
PAULO SANT’ANA


O preto velho

Entro no táxi e topo com um preto velho como motorista. A pele negra retinta, os fios de barba branca fazem de suas faces dois pequenos tapetes de dominó.

O motorista começou o seu discurso, comigo de ouvinte, enquanto a corrida se desenvolvia: “O senhor não sabe quanta é minha honra em transportá-lo. Nunca pensei que ia ter essa oportunidade. O senhor está vendo este preto velho aqui e não sabe que ele fez infância ali na Rua Domingos Crescêncio, bem ali onde havia antigamente um quilombo, uma reserva de negros, como aquela outra que naquele tempo criaram perto da Rua Dona Laura. Meu nome é Walmir. Estou aqui de motorista desde o tempo em que não havia Volkswagen como táxi”.

Pensei um pouco e calculei que, se o preto velho era taxista já no tempo em que não havia Fusca na praça, então tratava-se de um profissional de mais de 40 anos de trabalho em táxi.

Ele continuou a sua fala: “Eu vejo, doutor Sant’Ana, as pessoas dizendo que nunca houve um inverno tão rigoroso como este por que estamos passando. E acho que não é verdade. Vou lhe contar, seu Sant’Ana, eu hoje tenho 68 anos, quando eu era guri fez aqui em POA um inverno tão rigoroso, que, eu morava na Vila Floresta, a gente abria a torneira do tanque ou da pia e não saía água. Acredite, seu Sant’Ana, a água do encanamento virou gelo. Eu sempre me lembro disso quando entra neste táxi um passageiro se queixando do frio. Pois já houve, por mais que não possam crer, inverno pior do que este”.

Eu escutava o taxista. Já tinha ouvido dizer que na Serra não saía água na torneira porque a corrente gelara. Mas eu também era guri quando o preto velho tinha infância e não me lembro de torneiras congeladas aqui na Capital.

Chegamos ao final da corrida, que tinha o preço de R$ 12. Puxei uma nota de R$ 20 e alcancei-a ao preto velho.

Ele disse: “Assim, o senhor vai me ofender. Eu não posso cobrar a corrida do senhor. Como já lhe disse, a honra de transportá-lo é muito grande para mim. Não tenho condições de aceitar o seu dinheiro. Para o senhor, é de graça, em homenagem aos serviços que o senhor tem prestado aos gaúchos em rádio, jornal e televisão. Guarde o seu dinheiro e pode crer numa coisa: foi uma honra enorme conhecê-lo”.

Eu insistia em pagar e ele insistia em não receber. Foi então, como eu estava com pressa, que tentei um acordo: quem sabe ele concordava em me dar um desconto e a corrida sairia por R$ 10? Não teve jeito, o preto velho não queria receber o preço da corrida.

Foi então que, depois de descer do táxi, como o impasse se prolongasse, agradeci com insistência a gentileza do preto velho, joguei a nota de R$ 20 no assento do banco em que eu estava, bati a porta e saí correndo rua afora.

Foi a primeira vez em toda a minha vida que uma corrida de táxi ia ter custo zero para mim e acabou me custando quase o dobro do que ela legalmente me custaria.

Só me falta agora aparecer aqui no jornal, qualquer dia, o preto velho, para tentar me devolver os R$ 20.

Se eu estiver apressado, de algum modo esta corrida acaba ainda me custando R$ 40.

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