terça-feira, 23 de dezembro de 2008


Jaime Cimenti

História de Natal

O sol abrasador esturricava a tarde no pampa. Vento, nenhum. Até os quero-queros estavam parados debaixo das folhas imóveis da grande figueira do capão. No rancho de pau-a-pique da coxilha, Juliano, nove anos, o mais moço dos seis irmãos, sozinho, olhava para o pequeno pinheiro enfeitado apenas pelas barbas-de-pau.

Em volta estava o minúsculo presépio desbotado: São José, Virgem Maria, Jesus, a vaca, o cavalo, a galinha, duas ovelhinhas e um pedaço de espelho rodeado de terra, imitando um laguinho vazio. Os três reis magos estavam próximos, um atrás do outro, em posição de chegada.

Tudo no canto da salinha. Na noite anterior, Juliano ouviu o pai e a mãe combinarem que dariam apenas frango assado, batatas e sagu naquela noite de véspera de Natal e que no dia vinte e cinco poderiam caminhar até o povoado para assistir à missa, caminhar em volta da pracinha e, quem sabe, tomar picolés de gelo.

Amigos, parentes, dinheiro para presentes ou algum passeio permaneceriam distantes, tal como nos anos anteriores. Depois de pensar por um bom tempo, Juliano pegou o cofre em forma de porquinho que estava debaixo da cama e, com um gesto calmo, mas firme, quebrou-o.

Recolheu as moedinhas e as três notas e caminhou até o bolicho do seu Marcílio. Eram quatro da tarde, ainda daria tempo. Pediu para falar com o bolicheiro, longe da mulher dele, do filho e dos homens que bebiam na mesinha da frente. Mostrou para o comerciante as economias e disse que pretendia dar presentes de Natal para os irmãos e os pais.

O homem contou o dinheiro, disse que, pelo valor, poderia dar pirulitos, balas, algumas rapaduras, uma cuia, um pacote de mate e um vidro de mel. Na verdade, o dinheiro não dava para tanto, mas a atitude do piá tinha comovido "seu" Marcílio e ele resolvera fazer uma caridade natalina, sem dizer nada a Juliano.

De noite, depois do frango, das batatas e do sagu, Juliano entregou os presentes. Ganhou alguns abraços, beijos e agradecimentos, alguns meio rápidos. Recebeu alguns olhares estranhos e desconfiados, mas não se preocupou.

Depois de rezar, adormeceu pensando, meio triste, mas sem amargura, que tinha feito sua pequena parte, que teria muitos natais, presentes e pessoas pela frente, que o bom Deus não lhe iria lhe faltar.

Ótima terça-feira - Aproveite o dia.

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