quarta-feira, 17 de dezembro de 2008


17 de dezembro de 2008
N° 15822 - MARTHA MEDEIROS


A aula prática de Muntadar

Ainda ontem eu estava lembrando de uma conversa que tive recentemente com a filósofa Viviane Mosé. Eu dizia a ela que sempre fui uma pessoa muito lógica e sensata, e que às vezes cansava manter esse alicerce.

Ela comentou, em tom de brincadeira, que por essas e outras andava pensando em organizar um seminário com o seguinte tema: “Como perder a cabeça”, já que está todo mundo bonzinho demais, esquecendo como faz bem soltar os cachorros de vez em quando.

Pois eis que surge, esta semana, o heróico jornalista iraquiano Muntadar al-Zeidi para fazer uma demonstração prática do que vem a ser “perder a cabeça”. Sem mais paciência para bull shit, ele tirou um de seus sapatos e zás no sonso do George Bush. E depois tirou o outro e zás de novo.

E errou, o infeliz. Certas oportunidades não se repetem duas vezes: pois o jornalista iraquiano teve duas chances e desperdiçou ambas.

Mesmo assim, esse episódio teve um efeito renovador em mim, e renovação é palavra-chave nesta época do ano. Como algumas pessoas sabem, tenho uma resistência a atos de vandalismo e violência, mesmo que moderados.

Sempre fico meio chocada quando vejo estudantes jogando ovos em políticos, ou ecologistas esparramando ketchup em casacos de vison. Nem mesmo atirei o pau no gato quando era estimulada a fazer tal coisa na infância. Sempre tive vocação pra missionária da paz.

Pois eis que, dessa vez, eu bem que torci para que aquele sapato tivesse sido mais bem mirado. Aliás, iria ficar ainda mais divertido se o presidente tivesse se safado do primeiro e, ao reerguer o corpo com seu sorriso de moscão, não escapasse do segundo. Tóóóing. Uma cena de cartoon.

Em tempos de armas nucleares, gases letais e homens-bomba, chega a ser cômico ver o presidente da maior potência do planeta ser escorraçado como um cão sarnento.

É quase como voltar ao tempo da pedra lascada. Mas, manifestações primitivas à parte, me percebi progredindo: pela primeira vez, torci pelo agressor.

Descubro, com certo orgulho, que já não sou tão irritantemente ponderada. Talvez eu nem precise preencher minha ficha de inscrição no hipotético curso idealizado pela Viviane Mosé: creio que já estou aprendendo a perder a cabeça quando a situação requer.

Tenho salvação: ainda há chance de eu não pagar o mico de terminar meus dias com uma ficha imaculada, sem um único gesto de extravasamento.

Agora só preciso de alguns voluntários.

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