terça-feira, 19 de julho de 2016


19 de julho de 2016 | N° 18585 
CARPINEJAR

Melhor a emenda do que o soneto

Tenho piscianos por todos os lados. Minha mulher e meu filho são do signo de Peixes.


Eles são esquecidos por natureza. Deixaram para trás uma coleção de carregadores de celular, de documentos, de casacos. Esquecem, mas com a diferença de que não sofrem como os demais mortais de outros horóscopos.

Beatriz perde o cartão de crédito e não entra em pânico. É capaz de seguir com o horário do expediente e somente procurar o objeto de noite, com calma e tempo. Sempre encontra, sempre me esnoba.

Eu já não conseguiria fazer mais nada até resolver o assunto. Já telefonaria para a operadora suspendendo o serviço, já realizaria uma varredura telefônica pelos últimos lugares por que passei, já rezaria para Ave Maria e São Longuinho. Sou atormentado por tudo o que extravio.

Vicente abandonou mochilas com carteira em casas de colegas e recordou apenas quando voltava de táxi, no momento de pagar.

Eles são tão honestos e convincentes, que podem acertar as dívidas e resgatar depois. Ninguém acredita que é calote, ninguém duvida da seriedade dos lapsos. Sou fascinado pela natureza do pisciano. Ele esquece quando quer, tem uma memória viva dentro do esquecimento.

O mais grave exemplo desta estirpe é o meu pai. Logo o meu pai, dotado da capacidade prodigiosa de decorar todo Os Lusíadas e não errar uma vírgula de cabeça. Ele, uma vez, nos idos dos anos 70, esqueceu que tinha ido de carro ao Ministério Público, no centro de Porto Alegre, e retornou para a residência de ônibus.

Abriu o portão e a garagem estava vazia. Para quê?

Correu para a delegacia registrar o furto. Explicou aos policiais que era promotor de Justiça, que deveria ser perseguição, que havia processos importantes no carro, e criou uma mobilização à procura do seu Corcel amarelo.

Após 12 horas e dezenas de cafés em copinhos plásticos, o veículo paterno acabou localizado exatamente em sua vaga no estacionamento do Ministério Público.

O pai não se deu por rogado. Para variar, não admitiu o vacilo e não dobrou o seu orgulho:

– Pelo menos, o ladrão foi educado, usou o meu carro e estacionou certinho. A única incoerência da história é que o meu pai não é pisciano, e sim capricorniano. Mas a incoerência é também algo muito pisciano.

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