quinta-feira, 21 de outubro de 2010


ELIANE CANTANHÊDE

As "vítimas"

BRASÍLIA - As duas campanhas já disputaram Lula versus Fernando Henrique; passaram a Erenice versus Paulo Preto; e estão na fase da vítima Dilma Rousseff versus a vítima José Serra. E tem até eleitor estudado e tarimbado caindo nessa.

Quanto mais Lula bate na tecla de que há uma "campanha difamatória" contra Dilma, mais ele atiça o lado briguento da velha militância do PT. Daí a atacarem uma passeata tucana no Rio e golpearem o adversário Serra na cabeça foi um pulo.

Lula deveria pensar melhor, senão por prudência e responsabilidade, pelo menos por pragmatismo: uma agressão assim não ajuda sua candidata.

Há todo empenho para repetir com Dilma a estratégia da vitimização sempre presente nas campanhas e na publicidade pró-Lula. Mas uma coisa é Lula falar em "campanha difamatória" contra Dilma, outra, bem mais concreta, é Serra levar uma bandeirada ou algo que o valha na testa em pleno exercício democrático de fazer campanha numa rua do Rio.

"Se dependesse do Palocci, era porrada pura. Com essa cara de bonzinho, ele faz e a gente leva a fama", brincou o marqueteiro de Dilma, João Santana, sobre a estratégia para debates e TV.

Como toda brincadeira tem um fundo de verdade, muito militante pode levar ao pé da letra e partir para a "porrada", reavivando a lembrança do velho jeito petista de ser, antes do jeito petista de governar. Um prato cheio para a propaganda tucana.

O que Lula, Santana e Palocci fazem, basta um punhado de militantes enlouquecidos para desfazer. O risco é a bandeirada em Serra anular o intenso trabalho para carimbar Dilma como vítima de uma imprensa perversa, de uma oposição sanguinária, de uma internet dominada por tucanos descontrolados.

Vítima por vítima, o PT pode der dado de bandeja -ou de bandeira- a chance de Serra dizer que mais vítima é quem, literalmente, apanha na rua.

elianec@uol.com.br

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