terça-feira, 19 de outubro de 2010



19 de outubro de 2010 | N° 16493
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Uma pessoa suspeita

Num dia gris da cinzenta década de 60, um parente me convidou para um lanche. E enquanto chegavam à mesa dois baurus e duas coca-colas, me serviu uma notícia: eu estava sendo investigado pelas forças de segurança, por adesão a uma das muitas formações que então se opunham à nascente ditadura.

Não cheguei a tremer nas bases, nem a perder o apetite. Disse somente a esse meu tio que não pertencia a organização alguma, salvo o glorioso Sport Club Internacional, mas, se defender a liberdade e a democracia equivalia a ser subversivo, eu me declarava inteiramente culpado. Pois era tudo o que eu fazia na Faculdade de Direito, onde cursava o segundo ano, sem me filiar a nenhuma entidade dita subversiva.

Acho que fui convincente o bastante, pois, salvo uma ou duas incomodações com as chamadas forças de segurança, uma delas tão absurda que algum dia lhe dedicarei uma crônica inteira, ninguém mais duvidou de que eu era um cidadão de paz.

Mas aí se passaram 15 anos. Um dia, estando em Brasília, em plena época da apelidada abertura política, procurei um amigo que ocupava um alto posto. Recebeu-me com abraços, já era a hora da pré-anistia, e eu lhe expus meu desejo de me candidatar a determinado cargo técnico, em um ministério também técnico, algo ligado à comunicação social.

Meu amigo prometeu que empenharia o melhor de seus esforços para que o posto fosse meu, mas é claro que eu teria de esperar que investigassem minha ficha – me lembro perfeitamente que foi essa a expressão que usou –, o que tomaria algum tempo. Disse a ele que não tinha problema, mas aí o chamado tempo foi passando. Primeiro um mês, logo três, em seguida, sete.

Nem cheguei a ligar de novo a meu amigo. Era evidente que não me queriam no tal cargo técnico. Era óbvio que, para os padrões do regime, eu era uma pessoa suspeita.

Não fui infeliz com a negativa. Tomei outros rumos. Mas até hoje tenho o direito de supor que vivi uma época em que uma simples desconfiança mudava destinos inteiros.

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