quarta-feira, 5 de janeiro de 2011


MELCHIADES FILHO

Rosa-choque

BRASÍLIA - Dilma Rousseff não se conformava com os elogios que recebia na Casa Civil, de que era uma boa ministra porque se dedicava exclusivamente à gerência do governo. Considerava a avaliação demeritória, senão machista. E equivocada. Dizia que subestimavam a natureza política de seu trabalho -a vitória eleitoral lhe deu razão.
O alerta talvez caiba de novo.

Por causa dos discursos algo enfadonhos da cerimônia de posse, muita gente já projeta uma Presidência "técnica", focada em melhorias de gestão e exercida sobretudo nos gabinetes de Brasília.

Dilma de fato tem uma vocação intramuros. Para permitir o show solo de Lula, não hesitou em se recolher nos dois meses seguintes à eleição -período de lua de mel com o eleitorado, geralmente útil para galvanizar apoio a projetos.

Há, porém, vários motivos para esperar o contrário de um governo discreto, acanhado, impessoal.

Um dos trunfos de Lula foi a estratégia de comunicação, programada para, todo dia, vender a imagem do presidente e destruir a dos rivais. Dilma atuou com empenho nessas blitze como ministra. Por que faria diferente na Presidência?

Até porque fechar-se no Planalto e guardar distância do eleitor seria minar, de saída, as chances de reeleição. A identidade pública de Dilma ainda está em construção. Ela precisa do máximo de exposição.
Há ainda a questão de gênero. Se quer servir de inspiração e romper tabus, a primeira presidente mulher não pode se ater a "afazeres domésticos". Tem de rodar o país.

Dilma não é Lula, claro. Mas não existe somente um modo de diálogo com a massa. O Brasil tem políticos com 80% de aprovação que não sofrem de incontinência verbal nem procuram se fazer de vítima.

A afirmação política e feminista de Dilma terá forçosamente de acontecer em público e diante de públicos. Nesse sentido, aplausos e incentivos ao recato da presidente podem ter um quê de sabotagem.

melchiades.filho@grupofolha.com.br

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