segunda-feira, 17 de janeiro de 2011



17 de janeiro de 2011 | N° 16583
FABRÍCIO CARPINEJAR


Não jogue fora suas lágrimas

Sou apaixonado por pesquisas estranhas, como as que avaliam o salto acrobático das pulgas entre cães e gatos. Não sei o que os cientistas vêm tomando – mas também quero. Perto deles, os escritores sofrem de bloqueio criativo.

Agora existe uma nova enquete publicada na revista Science e coordenada por instituto israelense de que as lágrimas das mulheres podem combater o câncer de próstata e inibir a calvície. Ao beber as lágrimas femininas, os homens têm redução dos níveis de testosterona. Ficam mais sensíveis, o ritmo cardíaco e respiratório amansado. É como transformar Guiñazu em Bebeto.

Com a descoberta, minha vontade é me ajoelhar e pedir desculpa a Cínthya. Quando se debulhava, ela me oferecia os efeitos medicinais dos seus olhos.

Eu esperava a cura de tudo o que é doença a partir das plantas raras na Amazônia enquanto o soro miraculoso estava na minha cara. Ou melhor, na cara dela.

As lágrimas são florais, a TPM é uma benção, o mundo passa a fazer sentido, explicam a choradeira, o melodrama e as frequentes crises temperamentais de nossas parceiras

Deliro com o impacto da novidade entre os casais. Os maridos coletando lágrimas das esposas, criando calhas nos óculos escuros.

Relacionamentos tristes nunca terminariam. Relacionamentos alegres durariam pouco.

– Por que você se separou?

– Minha mulher não chora mais.

Toda semana, as namoradas receberiam convite para assistir filmes românticos, açucarados, em que os protagonistas se amam e um deles morre ao final. Entraríamos no cinema com o saco de pipocas e outro saquinho de plástico para as lágrimas. Assistiríamos cinco vezes o mesmo título sem reclamar.

– Está chorando? – É um cisco.

– Tudo bem, me avise quando chorar, tá, quero estar por perto?

A indústria de lenços iria quebrar. Hollywood contrataria apenas jovens franzinos e raquíticos, nerds e intelectuais. Em vez de procurar aplique e perucas, carecas comprariam poções de choro. Os maridos discutiriam a relação com planilhas. Começariam falando mal da sogra e terminariam falando mal da sogra, para não ter queda de rendimento.

Nada seria desperdiçado. Nenhuma gota.

Pena que a pesquisa revela que as lágrimas das mulheres diminuem também o apetite sexual masculino.

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