sábado, 8 de dezembro de 2007


Ruth de Aquino
07/12/2007 - 23:41 | Edição nº 499


A metamorfose ambulante de Lula

Lula tenta explicar a sua mudança de opinião sobre a CPMF

O“muso” do presidente brasileiro é, quem diria, o cantor Raul Seixas. Na semana passada, defendendo com paixão a CPMF, Lula disse sentir-se como uma “metamorfose ambulante”, uma alusão ao hino do compositor maldito nos anos 70. Raul Seixas cantava: Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes/ Eu vou desdizer aquilo tudo que eu disse antes.

Lula, durante o governo tucano de Fernando Henrique Cardoso, foi a Brasília criticar a CPMF. Ele achava o imposto um roubo. Agora, apela até à contracultura para que os senadores aprovem a prorrogação do imposto.

No desespero da reta final, o presidente ameaça os senadores relutantes: “Se os senadores não tiverem juízo, votam contra. Se votarem contra, temos de ir para cada casa mostrar quem é o responsável de deixar milhões de pessoas sem os benefícios desse programa (Bolsa-Família).

Se eles tiverem juízo, aprovam, e posso dizer ao povo que graças a eles aprovamos recursos para ajudar o povo”. Se Lula tem um mérito indiscutível, é saber falar com o povo. Os senadores que se cuidem.

A votação da CPMF foi adiada. Na noite da quarta-feira 5, o presidente Lula reuniu o comando do governo para fazer contas. Concluiu que faltavam votos. Desanimou.

Tinha apostado nas promessas de cargos, nos R$ 500 milhões de verbas liberados a pedido de senadores e no apoio dos governadores tucanos. Lula trabalharia no fim de semana caitituando votos para prorrogar o imposto até 2011.

Uma idéia seria destinar cada vez mais dinheiro para a Saúde até que a CPMF retornasse a sua origem nobre. Toda a arrecadação iria para hospitais, ambulâncias, remédios. A CMPF se tornaria, enfim, um imposto “do bem”.

Presidente, o senhor diz que “se fosse para ajudar rico, ninguém votava contra a CPMF”. Diz também que “cada centavo que se quer usar para favorecer os pobres é uma guerra”. Em sua ânsia de não perder os R$ 38 bilhões da CPMF, o senhor afirma que “a campanha contra o imposto é a campanha daqueles que gostam de sonegar”.

Sonegadores devem abominar, sim, o imposto do cheque. Mas seria injusto e preconceituoso chamar de “sonegador” todo brasileiro que desconfia da CPMF. Ninguém agüenta mais a carga tributária extorsiva no Brasil. A qualidade dos serviços essenciais é baixíssima, de Terceiro Mundo, incompatível com a mordida de país de Primeiro Mundo.

Se a CPMF fosse toda para a Saúde, poderia ser enfim um imposto “do bem”

Quando estive na Colômbia, no início do ano, fiquei surpresa ao saber, de professores, arquitetos e profissionais liberais, que eles pagavam mais imposto do que era cobrado pelo governo. Por iniciativa própria.

Eles mesmos definiam a área a ser beneficiada pela contribuição voluntária: Educação, Saúde ou Habitação. Muita gente no Brasil é contra a CPMF por não saber em que ralo, em que saco ou em que bolso o dinheiro vai parar.

Em sã consciência, quem acredita que os impostos no Brasil ajudam de verdade os pobres?

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