segunda-feira, 24 de dezembro de 2007



24/12/2007 e 25/12/2007
N° 15459 - Luís Augusto Fischer


Tanto Natal

Motivos para ficar triste eu tenho vários, neste fim de ano: é o primeiro natal sem meu irmão, o Prego, que com sua cara serena e seu humor rápido sempre era uma bênção por perto da gente.

Tem também a morte recente de uma prima muito querida, Rosa Maria Reckziegel (quase igual ao nome de solteira da minha avó paterna, Rosa Ana Reckziegel), morte súbita, inesperada, também descabida, de uma mulher jovem e tão serena quanto o Prego (eles deviam ter mais afinidade do que a gente percebia).

Motivos para ficar alegre, tenho? Por sorte são também vários e grandes: sem ir mais longe, o sorriso do Benjamim, meu filho, e o do Alfredinho, órfão do Prego e meu afilhado, dois guris com o mundo todo pela frente.

O amor dos amigos e da família. O bom emprego, o saldo positivo no banco. Os livros todos que há para ler. As músicas que há para escutar. Os planos para o ano. O futuro. A saúde.

Isso tudo entra assim em causa porque o tempo de final de dezembro, por mais convencional que seja ele e por mais racional que eu tente ser, pega a gente no contrapé, por marcar acentuadamente o fim do ano, a virada do ciclo, a troca de número, o começo do verão,

as férias e as mudanças que a temporada impõe, e claro que também pela força da tradição cristã, a lembrança associada do nascimento, renovação e tudo aquilo que o senhor e eu conhecemos bem.

Trata-se de uma visão meramente ocidental da coisa? Sim. Trata-se de algo construído na cultura, reforçada pela propaganda dos últimos 50 anos? Sim. Mas penetrou com uma força imbatível na rotina dos anos, e aí era isso, resta viver a coisa do melhor jeito que dá.

Do melhor jeito que dá: tenho pensado, às vésperas de fazer 50 anos, que uma boa diretriz para essas comoções meio artificiais, e mais ainda quando são, como é o caso, atravessadas pelo comercialismo, é recusar sempre, nem que seja apenas no íntimo da alma, o rebaixamento das coisas e das pessoas à condição de mera mercadoria.

Trata-se de uma providência irrelevante para a marcha geral do mundo, mas ajuda a manter a cabeça sobre os ombros e o coração batendo no compasso adequado, humano e solidário - ainda que apenas vagamente solidário.

Boas festas de virada de ano, prezado leitor.

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