segunda-feira, 17 de dezembro de 2007



17 de dezembro de 2007
N° 15451 - Paulo Sant'ana


Reajo a toda mudança

Tenho muita dificuldade em me adaptar a esses revolucionários avanços da tecnologia, principalmente os da comunicação.

Entre todos eles, o que mais me perturba e agita, embora também empolgue muitas vezes, é a interatividade na comunicação. Por ela, nós, comunicadores, principalmente de rádio e de jornal, compartilhamos nossos espaços com os leitores e os ouvintes.

Pela interatividade, nós, os comunicadores, renunciamos à unilateralidade de nossos papéis e os dividimos com o nosso público consumidor.

Em outras palavras, damos lugar no palco que era só nosso, na ribalta iluminada que era privativa nossa, aos novos atores que constituem as pessoas que antes eram meros alvos de nossa comunicação.

Põe mudança nisso. E ao que parece uma sublime mudança, pela qual os ouvintes e os leitores deixam de ser apenas interlocutores inativos para se tornarem personagens de atuação tão efetiva quanto eficaz.

Por esse modo é que muitas vezes escrevo minha coluna influenciado pela opinião de um leitor que me passou um e-mail ou me telefonou - ou me mandou um torpedo - e todo o texto é inspirado na opinião ou impressão do leitor.

Por essa forma é que às vezes acontece o que ocorreu sábado passado: minha coluna inteira foi ocupada por um e-mail que me mandara uma leitora de 60 anos, narrando o suplício que tem sido para ela entrar pela porta da frente do ônibus e ter de atravessar uma multidão que se acotovela no corredor até chegar, nem tão sã e salva assim, depois de quase infindáveis trancos e barrancos do percurso espinhoso, até a porta de trás e de saída do coletivo.

A aflição dessa senhora pela modificação feita pelas autoridades é a aflição de milhares de idosos porto-alegrenses.

Pelo milagre da interatividade do jornalista com o leitor, todo o Rio Grande ficou sabendo dela sábado em minha coluna.

Mas eu falava da minha dificuldade em assimilar as mudanças através dos tempos.

Sou tão reacionário às mudanças, que até hoje, depois de 50 anos de implantação, não me conformo com a troca na cozinha brasileira da banha pelo azeite.

Nunca mais comi comida tão deliciosa como a que minha madrasta fazia com banha. Há 50 anos que me dão comida feita com azeite. Desculpem os modernos e os progressistas, mas com banha era maravilhosamente melhor a comida, o pastel, o arroz, a panqueca, tudo com banha era maná dos céus.

E hoje com azeite tudo tem um gosto tão estranho, meio insosso, sem aquela delícia que a banha imprimia aos alimentos.

E como me dá saudade daquele meu tempo de guri em que minha madrasta me dava dinheiro para comprar um pacote paralelepipedal de banha no armazém da esquina!

Porque para eu-menino aquela banha significava a certeza de que ao meio-dia haveria comida boa.

Outra mudança que também me atarantou foi quando trocaram o bonde pelo ônibus. Trocaram a poesia do bonde gaiola Duque ou Gasômetro pelo massacre coletivo que é o ônibus Gravataí-Porto Alegre ou o rali terrível do ônibus Porto Alegre-Viamão.

Violentaram-me muito quando trocaram a máquina de escrever com que trabalhava para fazer minha coluna ao tempo que ingressei em ZH, em 1971, por este computador em que até hoje faço minha coluna.

Havia um sincopado harmônico e delicioso aos ouvidos na batida da máquina de escrever que este computador em que escrevo hoje não tem e nunca terá.

Havia uma poesia ambulatória por toda a Redação com a máquina de escrever que não há mais hoje com o computador, a Redação hoje é tão fria, que mais parece uma agência do antigo SNI, todos ligados nos tubos dos computadores, sem conversar, sem trocar idéias, sem cantar, sem agitar, sem baderna.

E a máquina de escrever era propiciatória da baderna na Redação.

A azáfama e a baderna são componentes essenciais de uma Redação.

Redação não é mosteiro, jornalista não é anacoreta.

Viva a baderna na Redação, viva até a baderna na vida.

Porque eu acredito na rapaziada, que vai em frente e segura o rojão!

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