sábado, 22 de dezembro de 2007



23 de dezembro de 2007
N° 15457 - Cultura


Kung His Hsin Nien

"Kung His Hsin Nien" diz a inscrição no velho e empoeirado Papai Noel. Dá passos apertados e canta coisas incompreensíveis em mandarim.

Aposto que a grande fábrica segue trabalhando esta noite, li em algum lugar que a versão holográfica Made in China de árvore natalina vendeu mais de 3 bilhões de unidades. A imagem de um pinheiro extinto e coberto de enfeites, projetada em três dimensões, a mim parece deprimente.

De minha parte, posso dizer que detesto a realidade virtual. Já são tantos entre aqueles que não voltam, transformam-se na representação gráfica de si mesmos e só sentem-se bem entre os ícones e símbolos de seus falsos refúgios digitais.

Comentei o assunto com meu filho e ele me respondeu que a física quântica já comprovou, há tempos, a onipotência dos pontos de vista. Ah, a simplificação conformista dos jovens. Mas ele cortou o cabelo para ficar mais parecido com aquela auto-caricatura chamada de Avatar e sei que algo está errado quando a criatura passa a manipular o criador.

Faz dois meses que não sai de casa, quase não fala comigo, e acho que nunca conheceu uma mulher de verdade, nem eu a nenhum de seus amigos. Quando toco no assunto ele me pergunta o que significa "real" ou "de verdade".

Então, tento compreender sobre meus erros e os motivos desta fuga para lugar nenhum. Ao mesmo tempo, se abro as cortinas ou saio às ruas, tristemente compreendo suas razões.

Segue no quarto, em sua vida paralela, alheio ao Natal. Agora que somos apenas nós dois estas datas ficaram ainda mais difíceis de ultrapassar.

E algumas doem tanto que se tornam esquecimento, perdem o relevo para deixar de ferir. Na sala escura, o Papai Noel antigo é um sobrevivente nada discreto em sua ladainha fora de tom.

Ainda assim, parece dizer que é preciso ter esperança, ou será apenas algo que quero ver? Fecho os olhos e antecipo uma aspiração recorrente, sonho simples e simultaneamente penoso de realizar.

É uma forma de saber que ficamos velhos, quando passamos a viver de lembranças, ou da imaginação. Sei que preciso reunir coragem e mais uma vez ensaio mentalmente a seqüência de gestos já tantas vezes feita e desfeita em matemática preparação.

Então, nesta música interna composta de vontades e precisões, imagino levantar, caminhar até ele, desconectar os fios e tramas que o ligam àquela máquina e abraçá-lo longamente, desfazendo aos poucos os nódulos de tanto silêncio, também a rigidez dos corpos desabituados ao calor do outro.

Antes de beijá-lo como um pai emocionado que se inaugura num berçário, num desejo de véspera para que corresponda ao meu afeto, finalmente, ainda contendo-o entre meus braços, vou sussurrar ao seu ouvido: "Isto, meu filho, isto é real."

* Escritora, autora do livro de contos Tereza que Esperava as Uvas.
MONIQUE REVILLION *

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