terça-feira, 15 de junho de 2021


15 DE JUNHO DE 2021
DAVID COIMBRA

As brigas do "Sala de Redação"

Eu não queria participar do Sala de Redação, quando fui convidado. Gostava do programa, mas, nos últimos tempos, o Sala chamava mais atenção pelas brigas entre os participantes do que pelo conteúdo. Ruy, Lauro, Cacalo, Kenny, Sant?Ana e Wianey estavam sempre se insultando mutuamente, não raro com chocante agressividade. O único que não entrava nas discussões de nível pessoal era o Guerrinha.

Brigas em programas de debate não são incomuns. Os debatedores discordam uns dos outros e volta e meia atacam o argumentador, em vez do argumento. Estava acostumado com isso, porque participei de diversos programas do gênero. Naquela mesma época, inclusive, fazia três: o Café TVCOM e o Bate Bola, na TVCOM, e o Pretinho Básico, na Atlântida. Eram programas de debates, mas bem diferentes do Sala.

O Pretinho Básico era o mais suave. Nós íamos lá para contar piadas e rir, éramos muito amigos e nos divertíamos juntos. Seguidamente, depois do trabalho, íamos beber chopes cremosos em algum lugar ameno.

No Café também não havia grandes problemas de disputa por espaço, porque estava implícito que as duas figuras centrais do show eram o Tatata Pimentel e a Tânia Carvalho. Com sua veterania na TV e seu conhecimento da burguesia de Porto Alegre, os dois recheavam aquela hora de conversa com as histórias mais implausíveis da cidade. O que eles não contavam na gravação, contavam depois, quando a Tânia dava carona para mim e o Tatata, na volta à redação. Eu me instalava no banco detrás e deixava a dupla na frente, tagarelando. Dizia que escreveria um livro apenas sobre essas caronas. A maioria das histórias que ouvi é impublicável num jornal família como Zero Hora - numa delas, Tânia e Tatata descobriram que namoraram o mesmo rapaz, em determinada fase da vida. Eles tinham, de fato, muita coisa em comum.

O Bate Bola, no domingo à noite, também era fácil de fazer. Na formação clássica, eu, o Pedro Ernesto, o Maurício Saraiva, o Nando Gross e o Guerrinha, todos se respeitavam.

No Café e no Bate Bola, a vantagem é que, depois do programa, cada um ia para o seu canto. Ninguém trabalhava no mesmo lugar. Só nos encontrávamos de novo na semana seguinte, em outra edição. Já no Pretinho, a vantagem é que ninguém estava lá para falar a sério. É ótimo não falar a sério.

No Sala era outra história. No Sala, aqueles velhos comunicadores partilhavam havia décadas espaços na Rádio Gaúcha. Todos eles vinham dos tempos pré-internet, em que cada minuto no rádio ou na TV e cada centímetro no jornal eram disputados a tapa. E eles se viam TODOS OS DIAS.

Como diz o Caetano, de perto ninguém é normal. Aqueles senhores conheciam bem os defeitos, as fraquezas e as vilezas uns dos outros, e estavam sempre se acicatando. Ao ingressar naquele meio, isso obviamente aconteceria comigo. Não pretendia perder meu tempo em contenciosos inúteis, mas há certos convites que você não pode recusar. Assim, fui para o Sala decidido a não aceitar provocações. Não adiantou. Em pouco tempo, travei duas brigas com o Sant?Ana, brigas tão feias que se tornaram históricas.

A situação fugira do meu controle, o que era muito irritante. Estava incomodado com aquilo, incomodado com o programa em si, até um dia em que tinha folga e fui almoçar com a minha mãe. No meio do almoço, sem que eu falasse no assunto, ela disse uma frase que me surpreendeu:

- Às vezes te escuto no Sala e fico pensando: como teu avô ia gostar de te ouvir também...

Então, lembrei do meu avô, que, à uma tarde, fechava a sapataria para almoçar e, depois, aboletava-se numa poltrona na parte dos fundos, ligava o rádio e cochilava ouvindo o Sala de Redação. Aquela recordação me enterneceu e me fez relaxar.

A partir daí, cada vez que participo do programa é no que penso: que estou falando para milhares de pessoas. Entre elas, talvez, alguns velhos sapateiros, que estão ouvindo a minha voz distraidamente enquanto descansam a fim de repor as energias e enfrentar a segunda parte do dia. É um pensamento bom, é uma sensação de que, de alguma forma, estou sendo útil. É algo que me faz sentir orgulho de ser um pedaço da história de 50 anos do Sala de Redação.

DAVID COIMBRA

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