quarta-feira, 16 de março de 2016


16 de março de 2016 | N° 18474 
DAVID COIMBRA

A camisa da Seleção


Cheguei a começar o meu coruscante projeto de escrever a história da Seleção Brasileira. Estava em Londres, tomei um trem e viajei duas horas e meia até Exeter, cidade do primeiro adversário do Brasil.

Eu moraria em Exeter (diz-se Eczéder). Cidade bucólica e alegre. As pessoas que lá vivem parecem felizes. O time que enfrentou a Seleção pela primeira vez, o Exeter City, é uma das paixões dos moradores, apesar de sempre zanzar pelos recônditos da quarta divisão.

Naquele jogo histórico, disputado cerca de um mês depois do assassinato do arquiduque Ferdinando, em Sarajevo, ocorrência que mudaria a história do mundo para sempre, pois naquele jogo, o Brasil jogou de camisa branca decorada com faixas azuis nas mangas. Muito elegante.

Esse uniforme branco, com pequenas variações, tornou-se o fardamento da Seleção.

Uma curiosidade: o Brasil já jogou com a camisa vermelha do Independiente e com a azul e dourada do Boca em sul-americanos. Nessas duas oportunidades, os adversários da Seleção usavam uniformes iguais aos dela, então os clubes argentinos emprestaram suas camisas ao Brasil.

Esse tipo de ocorrência era comum num tempo em que os times não davam tanta importância à logística. Hoje, a Seleção viaja com mais contêineres do que Lula precisou para levar coisas do Palácio do Planalto, mas antes tudo era mais simples.

Em 1976, as estrelas de um dos maiores times da história do futebol, o Bayern, chegaram ao Brasil para disputar o Mundial contra o Cruzeiro e cada jogador carregava seu próprio material, entre eles o melhor centromédio de todos os tempos, Beckenbauer, o homem que não conhecia a cor da grama, por jogar sempre de cabeça levantada.

Em outro Mundial, o de 1983, o Grêmio só descobriu que tinha de trocar a cor de seus tradicionais meiões brancos na véspera da partida. O supervisor Verardi saiu desesperado por Tóquio para encontrar meiões azuis. Felizmente, há de um tudo em Tóquio.

Mas o que interessa aqui é o uniforme branco da Seleção, que esteve em vigência por mais de 30 anos. A derrota de 1950 é que fez o Brasil mudar. Um fracasso de tamanha retumbância gerou todo tipo de teoria, como de praxe. Nelson Rodrigues via razões psicológicas e inventou o nosso “complexo de vira-lata”. Alguns racistas diziam que o problema era o excesso de negros no time. O irmão mais velho de Nelson, Mario Filho, conta essa história com estilo único num dos melhores livros já escritos no Brasil, entre ficção e não ficção, O Negro no Futebol Brasileiro.

Finalmente, houve quem culpasse a camisa. Foi aí que se instituiu um concurso para que fosse bolado novo uniforme. Concursos desse gênero eram moda na época. No mesmo ano, Lupicínio, inspirado numa greve de bondes, venceu o concurso para fazer o hino do cinquentenário do Grêmio. O da camisa da Seleção ganhou o professor gaúcho Aldyr Schlee. Ele desenhou a camisa canarinho.

Agora, Schlee, ao ver os manifestantes vestindo a camisa da Seleção, criticou:

– Estão usando o símbolo da entidade mais corrupta do Brasil.

Fiquei chocado. Será que Schlee não compreende a dimensão da sua própria criatura? Essa camisa, professor Schlee, é a camisa mais temida do futebol mundial, é a camisa que um dia cobriu o peito de Pelé, com a qual Garrincha driblou seus Joões e Rivellino deu lançamentos de 60 metros, é a camisa de Romário, Ronaldo, Ronaldinho e Zico. Os meninos do mundo todo vestem essa camisa, professor, porque ela os faz sonhar em ser algum desses craques. Essa camisa, professor, não é da CBF. É dos sonhadores como os meninos de que falei. É dos que gostam do futebol puro e belo. É sua, professor. E de todo o Brasil.

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