quinta-feira, 4 de dezembro de 2014


04 de dezembro de 2014 | N° 18003
L. F. VERISSIMO

Má fase

“Rebaixamento” tem uma conotação meio fúnebre, tem não? Soa como enterro, sepultamento, algo definitivo. Claro que não é nada disso. O time que cai para a segunda divisão tem um privilégio que nenhum morto tem, o de poder voltar. O Fluminense, por exemplo, foi rebaixado até as cavernas do inferno e voltou espetacularmente, à vida e à primeira divisão. Qualquer grande clube pode ser vítima dessa maldição que ronda o mundo do futebol, que é a má fase. A terrível má fase.

Quando entra numa má fase – um misterioso período da vida de um clube em que nada dá certo e os vexames se acumulam – não há o que fazer. A má fase é como um vírus de origem desconhecida e terapia impossível que derruba grandes e pequenos do mesmo modo. A única maneira de enfrentar uma má fase é como se enfrenta uma tormenta: esperando que passe. (Tentar melhorar a administração do clube e o seu plantel também ajuda, claro.)

A torcida do Botafogo tem um consolo adicional para a má fase do seu time. Existe a velha máxima, dita com um certo orgulho fatalista, de que certas coisas só acontecem com o Botafogo. Não é verdade, ninguém está livre de sucumbir a fases ainda piores do que a dele – veja-se o Vasco.

Mas, no caso do Botafogo, a dor do rebaixamento é atenuada pela lembrança de que o clube tem uma vocação para o drama. Viver um momento de completa descrença no time é reafirmar, ao mesmo tempo, o folclore que o diferencia de todos os outros. Assim, quanto pior for a situação do time, melhor a literatura que o cerca.

O rebaixamento fortalecerá o folclore. Sofreremos como nenhuma outra torcida, e voltaremos dos mortos em 2015 – está bem, talvez 2016 – purgados e triunfantes. E a estrela solitária se erguerá das cinzas, como já aconteceu antes, e brilhará no céu da pátria outra vez.

O COMEÇO

Leitura recomendada para os nostálgicos da ditadura: a entrevista com o historiador Pedro Henrique Pedreira Campos publicada pela Folha de S. Paulo na segunda-feira. Pedro Henrique é o autor do livro Estranhas Catedrais – As empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, recém publicado. Na sua pesquisa de quatro anos para o livro, ele estudou a participação das empreiteiras no golpe de 64 e a sua relação com o governo militar que se seguiu e os casos de corrupção, que na época eram acobertados porque não existia fiscalização, a imprensa era censurada e qualquer crítica era considerada contestação ao regime.


O poder das empreiteiras, que nasceu no governo Juscelino, aumentou com seu acesso direto ao Estado ditatorial e sobreviveu ao fim da ditadura, com os mesmos maus hábitos. Pedro Henrique diz que, na era dos militares, a apropriação do Estado pelas empreiteiras era até maior do que o que está sendo revelado hoje por instituições democráticas como o Ministério Público e a Polícia Federal. Mas também reconhece que foram mantidas certas estruturas, em relação à distribuição de cargos e aparelhamento político, que facilitam a corrupção.

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