sábado, 27 de dezembro de 2014


28 de dezembro de 2014 | N° 18026
MOISÉS MENDES

O homem do ano

O homem do ano é Francisco. Não só porque enfrenta a burocracia da Cúria Romana, que tenta fragilizá-lo, mas porque provoca seus inimigos com ironia. O Papa disse, ao enumerar as 15 doenças da alta cúpula da Igreja, que falta humor aos pregadores do catolicismo, e não só aos poderosos da Santa Sé.

O religioso, disse Francisco, referindo-se aos servidores em geral, padres, bispos, cardeais, “deve ser uma pessoa amável, serena e entusiasta, uma pessoa alegre que transmite alegria”. Francisco não quer saber de rabugentos.

A Igreja é mal-humorada. Ficou pior com João Paulo II, o papa anticomunista, brutalizado pela Guerra Fria. Simpático, terno, viajante, mas conservador demais, previsível, repetitivo em suas pregações.

Seu sucessor, o cardeal Joseph Ratzinger, o burocrata da Cúria que virou papa, tentou convencer a todos que era um intelectual da Igreja. Bento XVI seria um pensador à espera da chance para brilhar como guardião dos dogmas do Vaticano. Era um pregador quase medieval, com um sorriso pela metade e zero de comunicação e humor.

E aí veio Jorge Mario Bergoglio. O argentino disse, na primeira entrevista, que os cardeais que o elegeram foram buscá-lo “no fim do mundo”. Imagine um brasileiro eleito papa dizendo que o Brasil é o fim do mundo.

Há uma sucessão de tiradas de humor nas falas do Papa. Ele distensiona a relação com os fiéis e desarma os que estão prontos para agir como seus algozes dentro da Cúria. Francisco os enfrenta quase com deboche.

Um dia, ao defender que todos têm direito a terra, teto e trabalho, afirmou: “Se eu falo disso, o Papa é um comunista”. No ano passado, quando veio ao Brasil, brincou com nossos exageros: “Vocês querem tudo. Vocês já têm um Deus brasileiro, queriam um papa brasileiro também?”.

Neste ano, pediu que seus liderados abandonem a obsessão de pregar contra os gays, numa Igreja constrangida pela ação dos pedófilos. Francisco disse: “A Igreja deve ser uma casa aberta a todos, e não uma pequena capela focada em doutrina, ortodoxia e em uma agenda limitada de ensinamentos morais”.

Queria ver o Papa inspirando líderes em geral que exercem o poder pelo comando, com ortodoxia, hierarquias, organogramas. Você, aí na repartição ou na firma, sabe que ainda é assim, que a retórica mudancista muitas vezes protege inseguros com o próprio discurso da mudança.

O papa reformista nos instiga sobre ideais e relações que deveriam ser menos dogmáticas e ainda se lastreiam em princípios que Ratzinger tentava preservar como guardião do atraso. Há muita pregação, fora das igrejas, em lugares que até o diabo se nega a frequentar.

Num mundo em que a sisudez perde espaço (e em que os que se levam a sério demais extraviam a capacidade de passar mensagens), o Papa manda recados com a inteligência e o humor que nos socorrem em meio a tanta besteira dita com o disfarce da sobriedade.


A mediocridade odeia o humor. Os reacionários têm mil motivos para odiar o Papa. Eu acredito mais em Francisco do que em Obama. Até porque o argentino me diverte muito mais.

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